"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
08 novembro 2007
PELAS CALÇADAS
alguns poucos momentos
de olhos nos olhos.
certamente muitas perguntas
caladas
esperando.
algumas perguntas exatas
com receio de explodirem.
mas nada
nada além de encontro.
exceto o encontro.
caminhando sem cobrança de ligar.
sem intenção de escrever.
sem números.
sem endereços.
é possível que seja sábado.
mas ninguém liga para datas.
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Vicente
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02 novembro 2007
TAMBÉM VOU SER POETA
ir e ficar
em pasárgada (sei lá)
e pelo estatuto do poeta
tenho direito a pagar meia passagem
e o pagamento será feito em gramas de sonho.
rompendo as ânsias e lá chegando
tenho direito ainda
a fixar residência
onde bem me aprouver
desde que haja cachoeiras por perto
e libélulas gritem cantos
como cotovias
e sabiás saibam seus ninhos nas palmeiras
e que explodam girassóis
desde o mais tenro início de inverno
que não poderá ser
nem muito frio
nem muito distante.
não quero que haja reis
e sim princesas
e rainhas brotem aos cachos
como pingo-de-ouro
e se deixem ser amadas
por seus cavaleiros errantes
assim como eu.
e quando eu voltar às realidades daqui
quero ser reconhecido
pela minha eloquência embandeirada
e pela alcunha de
“poeta, o audaz”.
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Vicente
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"...No incessante trabalho da escuridão
remove quantidades cósmicas
de nada
para que tudo
seja revelado."
Marlos Drumond Villalba
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27 outubro 2007
IDA E VOLTA
de cada um
em um
em dois
em nós.
cada um de nós
de dois
de um
de sempre todos
como se sabe
sem par...
sem ímpar
sem primos
sem números.
temos um motivo único
único motivo: amar.
faço
meu próprio papel:
poetizar.
amar não é só juntar
nem mesmo separar
juntar/separar
é descrever o possível
dizendo impossível não notar.
nos olhos
olhares
nas bocas
teus
beijos.
na canção exígua
difusa
sorriso confuso
confundida
minha
mistura
tua,
não minha
amante
tirando
feliz cidade
de propósito
soltando
bastando-se
bastante bom
o que se basta.
não o bastante
bastando apenas
um presente
um passado
um futuro
tudo
misturo
embrulho
entrego o que resta da sorte
e tudo:
o restante.
e feliz se faz
de feliz-cidade
muda
mundo
mudo
sou
eu
em você
romance mudo
ausente
aqui
presente lá
presenteando cá.
passando acolá.
futurando em breve.
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Vicente
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30 setembro 2007
UM FLAGRANTE
e guardar o instante
que se fazia em palavras
emoção
risos
e cuidados para que ele
não desconfiasse.
e as tantas frases
que permaneceriam ocultas
foram identificadas e traduzidas
e descobertas
as formas das imensas delicadezas
com que nos tratávamos
o descuido que tirou o escudo
dos instantes de cuidados
e quebrou as barreiras
do pecado oculto
custou-nos esses muitos
sofreres
com os quais agora nos remoemos.
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Vicente
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"in finita mente
(a partir de um "conceito" desgastado)
os seres
as coisas
tudo perecível
não cabe no instante
o amanhã:
é imenso.
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Wilson Guanais
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24 setembro 2007
ESPETÁCULO VIVO! - (Van Luchiari)
E eu, palhaço de mim
dispo-me de todos os sorrisos
no calar do camarim.
No picadeiro da alma
eu domo as minhas feras
E o meu espírito despeja
todas as suas esperas.
Equilibrista de saltos
penso que existo:
Malabrista do acaso
Domador de sobressaltos.
O trapézio me leva tão alto
para cima e além das vidas rasas.
E sem pesar eu me jogo no espaço
que fica entre o chão e minhas asas.
Olhos incríveis me habitam e seguram.
Mãos secretas me equilibram e curam.
E no momento do salto
Agarro-me a mim mesma, enfim.
Cravo as unhas no meu sonho.
Reconheço o sorriso em mim.
Dispo-me da máscara.
Entrego-me ao real.
No picadeiro do meu ser
O espetáculo não tem final.
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Van
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"Hoje eu te trago um prenúncio de primavera prestes a explodir.Há um cheiro de orvalho no ar, sente? Nem a secura daqui de minha terra impede o perfume de entrar e inebriar...."
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Van Luchiari
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19 setembro 2007
OLHARES SAPIENS
eu vi
e sorri sonhos desmedidos
em sonhos de se ver
com olhos abertos
porque trazia
a alma da palavra ver
a calma da vontade de ter
e sentir
que vai ali e não volta
que vai além e fica
por lá
e sabe-se que não vai voltar
quem viu passar?
só eu
porque encarei
a ida
e os calcanhares calçados
de saltos
e aconchegos
em espaços diminutos
entre a sola e o salto.
esse meu olhar é sábio.
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Vicente
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Saramar
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12 setembro 2007
PEDIDO
fui o primeiro a dizer-te as palavras
que te abriram as portas
os vértices
os ângulos desnudos
que te vasculharam os íntimos momentos
do encantamento
mais desejado.
fui o primeiro a ousar-te carícias
em pêlos
que
escondidos
sonhavam ousadias
de beijos salientes e imorais.
fui o primeiro a bendizer-te o gozo
vertido no mais puro linho
enriquecido pelo aroma
da entrega
e sabor das descobertas
apaziguadas.
sou o primeiro a enlaçar-te
a alma
e pedir-te com calma aparente
e cheio de esperança:
aceita
essa aliança?
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Vicente.
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"
"...Por vezes é melhor um sincero afago
Que um beijo ardente e amargo
Sem amor
Sem ardor
Um momento mentiroso
De prazer e calor.."
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06 setembro 2007
CLAREIRA - (La Zingarah)
acre e adocicada,
talho transversal que não quer ser compartilhado.
Vertigem inata, olho de cachoeira,
friagem que amola a cadência do coração.
Perturba-me a falta de tantas coisas e
o excesso cansado daquilo de que não preciso.
Vou e volto. Prefiro o silêncio às vaidades destrancadas.
E você, oculto sob si mesmo,
o que vem procurar aqui?
Tenho palavras aquáticas, tão molhadas,
que submergem sem cessar.
Se lhe apraz esta clareira de gritos nítidos,
venha sempre que precisar.
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Zingarah
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"Como seria estar absolutamente só na face da Terra? Um susto, uma falta de fôlego, um aperto no coração? ...
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Zingarah - (Rouge)
05 setembro 2007
CAMINHOS
é preliminar
das preliminares que ensejam desejos
afogueando-me os sentidos
quando roça minhas orelhas em sussurros
descuidados/estudados.
cada coisa a seu tempo
como a abrir-se em velas desfraldadas
a receber-me em aconchego
que prenuncia gargantas afoitas.
são polens a serem sorvidos
em cada gota
que pinga do mais orvalhado
deleite.
descobrindo
os vértices invertidos
a receberem os ligeiros
passageiros que se perdem
em descidas alucinantes
a formarem novas formas
de se mover
em direção ao prazer.
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Vicente
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"...Mas a ampulheta da vida deixou escoar as areias do tempo e seus olhos cansados não a viam mais. Distorceram suas canções e sua voz chamou-se maturidade..."
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Claudinha
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31 agosto 2007
CENSORED
a tanta batalha de ser contrário
ao cérebro
que insistia em afirmar
que não
que o momento não se fazia preparado.
quedaram-se então
lábios
(e pensamentos)
apressados em ânsias
de tanto se entregar
à procura dos arrepios
dos movimentos desconexos
dos prazeres da pele
(e do corpo mais profundo).
refeitos do susto
(causado)
pelo descobrir o momento
de encantamento
e de louvor ao prazer
quem passou a dar ordens
ao cérebro
que se fizera tímido
foi a um só tempo
lábios e mãos
que
despudorados
não se permitiam censuras.
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Vicente
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" "A lua fascina, mas o amor é bem mais concreto."
"Por sua concretude, é muito metido! Vai chegando e fascinando..."
(Esyath Barret)
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“A sorte escolhe cada nome por acaso.”“Mas o que é sorte?Nossas escolhas ou nossos destinos?”
(Esyath Barret)
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"A essência do amor, está na magia da vida".
(Esyath Barret)
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,
DESPEDIDA
de quem espera pelo sonho
de quem sonha
pela madrugada insone
de sala e caderno.
mãos delicadas em torno da caneta
a dialogar com o papel
com o tempo
com a pouca chuva
de estrelas que azulam o céu.
corre
célere
o pulso que pulsa
em busca do encontrar-se
do enclausurar-se
em adjetivos
suspiros
devaneios.
rosadas
as faces
desfazem a impressão
de morte.
por fora é fogo que arde
por dentro
é vida que parte.
Vicente
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"...Há corações que ainda não sabem expressar seus pensamentos, seus sentimentos na poesia! O meu é um que vive tentando, mas às vezes não consegue encontrar as palavras certas para deixar a poesia mais encantadora..."
Arethuza
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Continua aqui: http://www.mundoliteral.weblogger.terra.com.br/
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03 julho 2007
FLAGRADOS
quando queria estar aqui
nesse jogo de abraços
que anseia pernas tocadas
no risco de sermos descobertos.
não ousara dizer não ao momento
ao encantamento
ao toque de Midas
que transforma
o cinza da frente fria
em dourado
de calor generoso.
são bocas sabendo a graça
de se esconderem
uma na outra
uma pra outra
na exploração
que não conhece fadiga
e não suporta a tirania
dos ponteiros
dos relógios.
por isso o escorregão
no atraso
que denunciou os cheiros
e as perguntas
sem respostas
sem explicações.
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Vicente
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"... Todo poeta é aprendiz de si mesmo, em busca de uma pegada íntima, e escreve para oxigenar a alma. Afinal, são todos sementes, e sabem que precisam ser flores e frutos, para recriarem, para sempre, a eterna primavera cósmica..."
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Silas Corrêa Leite -
Excerto do seu poema "Estatuto do Poeta", que você pode ler na íntegra na página da Casa da Cultura. (Esse trecho faz parte do Artigo Décimo-Sexto).
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01 julho 2007
RECOMEÇA A SEMANA
Começava a semana onde terminava a outra
Que não podia ser de esquecimento
Mas havia lágrimas. Às vezes, havia.
Eu me movia e todos nos movíamos
Com movimentos decisivos
Porque nos movíamos, os dois,
Como pedras de xadrez.
Mas não éramos só as pedras do tabuleiro,
Mas também, o próprio tabuleiro
Com suas casas brancas, suas casas pretas, seus peões, seus cavalos.
E nem era preciso que eu me escondesse.
Mas eu me escondia.
Eu me escondia atrás das torres para seqüestrar a dama com fins escusos:
Com o fim de ir apreciar os nasceres de sóis, com ou sem praias e areias.
A dama deixava-se mostrar toda nua por entre as alamedas do castelo
E nem nos preocupávamos com os pores do Sol.
Porque sabíamos que logo após os fins das semanas.
Outras semanas viriam e
Iniciaríamos O jogo.
O jogo consistia em desmanchar as minhas grades.
As grades de que um homem é feito.
Era tudo muito jovem e ainda éramos todos muito jovens.
Eu me admirava com a serenidade que emanava da beleza dela
Era começo de abril , se bem me lembro,
Quando se fizera o conhecimento das verdades
Que a vida me mostraria.
As flores de maio já explodiam em profusão de cores
O homem sequer sonhara em desembarcar na Lua.
Naqueles tempos eu ainda aguardava a chegada dos doze anos.
Uma dúzia de aniversários e meia dúzia de sonhos.
E tinha na professorinha recém-chegada aos dezenove
O meu melhor presente.
Não se cogitava em futuro.
As coisas aconteciam no agora
A vida urgia no presente.
Naquele presente.
A vida na roça tem a vantagem das escondidas por entre os emaranhados
Do canavial, do milho verde, do laranjal.
O açude não era propriamente perto,
E em seu caminho sempre se encontra uma curva a mais,
Uma moita a mais, uma vontade a mais..
Eu me embriagava com a sua vontade de me mostrar os caminhos.
Seis ou sete anos mais velha, mas ainda assim jovem.
A terra vibrava por sob nossos corpos
E não havia meios de nos fazer parar
Não se percebe, ainda, a presença da virilidade
E a infância ainda se arrisca nos estilingues
E bolinhas de gude.
Mas o pensamento é de homem feito
O pensamento é de quem já tem cabelo no peito
Calor no beijo e amor com jeito.
Começa a semana e sente-se a vontade
De verter-lhe nos lábios o olhar
Um olhar na boca entreaberta perfeita
Nas pernas lisas e claras de menina rica
E a perfeita sincronia das virilhas e do umbigo.
Sincronia, também, entre dentes e língua.
Bocas que se procuram em toques esbaforidos
Braços com medo das amplidões e dos descampados
Começo dos vôos em territórios inexplorados
Beijos e pescoços e seios e nucas.
Cabelos de ouro escorrendo pela aura, pelos ombros
Pela grama.
E a vontade
De adivinhar-lhe a alfazema
Recendida debaixo do diáfano vestido de algodãozinho?
Sem maiores detalhes a não ser o seu próprio corpo tão detalhado.
Aí as cores enfeitavam os céus,
O açude era mais refrescante e os frutos sazonados
Eram mais abundantes.
E quando a semana já se sentia tão catastroficamente confusa,
A ponto de perceber-se que todo sábado ela precisava voltar para
A casa dos pais?
Todos os eixos saíam de seus encaixes e era como se de repente
Se morresse por dois ou três dias.
Morria-se.
Milhares de mortes.
Sem que ninguém à volta entendesse.
Até que outra semana começasse.
E as estações se sucediam.
Novos ventos e posições, pelos medos
E pelas imposições da situação que chega
Com a chegança da puberdade.
Ainda segredo, como sempre.
Nada de mistério, mas segredo guardado a ferro
E cadeado.
Aos dezesseis a mudança, a ida, a partida,
A alma ferida
Até o ponto do choro e lágrimas mais sentidas
Por dias e dias.
A cabeça completamente perdida.
Centenas de vezes imortalizada na carne
E no pensamento,
No coração e
No fogo das paixões mais desejadas.
Alguma incursão esporádica com a chegada
Do quartel e da farda,
Mas nada que pudesse desmanchar
O matrimônio que viria perfeito,
Feito de inteligência, repressões e conveniência.
Estou me despedindo de você, “Maria”.
Onde quer que você chegue
Deus há de lhe fazer companhia.
Vá, chegue primeiro, novamente.
Busque mais além o lânguido bafejar da satisfação
Por ter-nos feito interpretados e entendidos
E creia: onde quer que você chegar
A semana haverá de recomeçar.
29-04-06
27 junho 2007
A PERGUNTA QUE DESPERTA
A Pergunta que Desperta
A suave interrogação,
um fio de voz no ar,
desatou em mim a torrente
de um querer que não recua.
Irreversível, contundente,
nosso olhar se alonga,
já na paisagem do amanhã.
Ela viu em mim o mapa inteiro:
o timbre que falava,
o brilho que observava,
os gestos, ensaiados ou não,
o rastro do cheiro que fica,
o cabelo em seu desarranjo.
Essa pergunta,
tão leve e tão cheia de intenção,
confirmava a percepção.
Sim, ela havia sentido,
havia reconhecido,
que em nossa história,
um novo tempo, sim, já amanhecia.
26 junho 2007
O PESO LEVE DA NOSTALGIA
O Peso Leve da Nostalgia
Eu sento no banco da praça,
o sol da tarde pintando as folhas das árvores
com um dourado suave e melancólico.
Vejo as crianças correndo,
suas risadas leves e soltas
como as folhas que o vento carrega.
E em mim, uma sensação familiar se instala,
um peso leve,
quase etéreo,
que reconheço como nostalgia.
Não é a tristeza cortante da perda,
nem a angústia do que não foi.
É algo mais sutil,
como a poeira dourada que dança nos raios de luz.
É a lembrança de verões distantes,
de abraços que hoje só existem na memória,
de conversas que se perderam no tempo,
mas que ainda ecoam em meu peito.
Eu sinto o cheiro de grama molhada após a chuva,
e sou transportado para a infância,
para os joelhos ralados,
para o gosto de terra e aventura.
Escuto o latido de um cão no quarteirão vizinho,
e me vem à mente o meu primeiro amigo de quatro patas,
sua lealdade incondicional,
seu olhar doce.
É um paradoxo, essa nostalgia.
Um fardo que, de alguma forma, me eleva.
Ela me lembra do que já vivi,
da riqueza das experiências que me moldaram.
É a âncora do passado que me mantém conectado
às raízes do meu ser,
às versões de mim mesmo que já não existem,
mas que deixaram suas pegadas no caminho.
Eu fecho os olhos,
e por um instante, estou lá,
naqueles dias que já se foram.
Quando os abro,
o sol ainda brilha, as crianças ainda correm,
e o mundo continua em seu fluxo constante.
Mas eu sinto uma doce melancolia no peito,
uma gratidão silenciosa
por todas as memórias que carrego,
tornando o presente mais denso,
mais significativo.
18 junho 2007
AQUELE MOMENTO
Aquele Momento
Olhares de promessas
bocas de se calarem
Ouvidos de se ouvir
e perceber nos olhos os sorrisos
os segredos,
os mistérios,
e confiar nos convites,
nos arrepios
e nas carícias
que se fizerem acompanhar do afeto,
tão bem.
(só você sabe
que eu escrevo só
pra você).
15 junho 2007
REMARIA (PEDRO MONTEIRO)
Quem me acompanha desde 2005 sabe que já passei pela desagradável experiência de refazer meu blog devido a alguns contratempos provocados por alguns anônimos invejosos.
Com mais cautela pretendo inaugurar um novo tempo e para isso desejo a colaboração de vocês.
Quem for contrário à publicação de seus trabalhos (juntos com os meus) em meu blog, com todos os créditos, etc... etc..., manifeste-se, por favor.
O início vai ser esse excelente "Remaria" do Pedro, que eu considero um dos melhores.
Na caixinha de comentários, manifestem-se quanto ao conteúdo da poesia do Pedro e, por favor, se são contra, afirmem que não querem ver seus trabalhos publicados aqui, e que o atual esquema de apenas pequenas citações, como tenho feito, já é suficiente, ou digam se são contrários também a esse esquema.
OK? Conto com vocês.
Doces.
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Vicente
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Remaria
Remaria no mar é o passar do dia
Remaria é re-ser a mãe da poesia
Ver por cima das ondas o sol nascer
Uma onda atrás da outra, uma manhã atrás da outra
Remaria noite e dia.
Ver no fundo após as ondas, onde o mar é calmaria
É ser o mar dentro e a areia fora
Onde a vida partiria
E às vezes ver a praia como partida
Na maré salgada e tarde ardida
É ter de chão a areia
E ter de lar a maresia
Remaria, remaria.
.
Pedro Monteiro
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COMEÇAR CHORARE
sobraram o que começamos:
o carinho
o cuidado
a pouca vontade de deixar
tudo de lado.
sobraram atos e fatos
consumados
conversas esquecidas e
não retomadas
devidamente não esclarecidas.
sobraram a censura
a falta do bom senso
a falta de enredo
de opiniões
de desapego ao antigo.
faltaram
a coragem para recomeçar
o carinho que devia continuar
e sobretudo
a vergonha por deixar
tudo acabar.
.
Vicente
.
.
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Meus olhos se desencontram na paisagem interrompida. Não há continuidade, em nada, em lugar nenhum, senão no perfume que o ar transporta. Na íris que se desdobra sobre o dia. Estremeço, torpor e prazer impelindo-me a dançar entre os instantes fragmentados. E danço, porque isso faz levantar a poeira dourada das horas, e descobre movimento onde reinava a quietude inteira..."
13 junho 2007
SEM SINAL
Sem sinal, mas sem
estresse
O silêncio do chip, a tela
escura,
Nenhuma barra, nada de
frescura.
O mundo lá fora, um
burburinho distante,
Aqui dentro, a paz, um
instante constante.
Sem pings, sem likes, sem
notificações,
A mente livre de mil
tentações.
O ar puro entra, a brisa
me toca,
A vida real, que a tela
sufoca.
O passarinho canta, a flor
se abre,
Detalhes que o online
quase não sabe.
O livro na mão, a conversa
sem pressa,
Sem sinal, sim, mas sem
nenhum estresse.
Desconectar é preciso, é
vital,
Para o coração, um sinal
especial.
Ainda que o mundo corra em
disparada,
A minha calma aqui não é
alterada.
DESCULPE, FOI ENGANO
imprime louca cadência
em minha vida
e quando menos espero
já é tempo
de outro dia
já é aquele lugar
de desassossego
e lençóis amassados.
dalgum lugar repentino
a campainha rouca
abre espaços em meu sobressalto
de acordado sonambúlico
que tateia
em busca de um telefone mal instalado
à cabeceira.
após o “alô” de praxe
teimando em entender o que está acontecendo
do outro lado a voz
sobressaltada: “quem fala?”
após irresoluta indecisão afirmo
meio sem convicção:
“é o vicente...”
“desculpe
foi engano”
tumtumtum...
.
Vicente
.
Hoje não quero um texto bonito.Nem quero me preocupar com rimas ou concordâncias, só quero dizer que estou sentindo a sua falta.Horas já não são suficientes e a despedida se tornou insuportável.
.
Rosângela.