31 maio 2011

A URDIDURA DO AMANHÃ

 

A Urdidura do Amanhã


O futuro não é um texto selado,

um pergaminho já pronto,

desenhado pelas sombras

que as ansiedades do agora projetam.

Não é um fardo imposto

pela apreensão que nos visita.

 

Ele nasce, sim,

na teia das ações que escolhemos,

na trama de cada passo que damos,

com intenção, com sentido.

O amanhã, essa paisagem que se desenha,

é o reflexo puro

das decisões que brotam

de um coração aberto,

sem as travas que o medo impõe,

sem as portas que o temor insiste em fechar.

 

Não é a sombra que nos guia,

nem a inquietude que nos move.

É a esperança, essa força silenciosa,

que se lança para além do agora,

que realmente molda,

que realmente constrói.

Ela é a verdadeira arquiteta do porvir,

a mão que desenha os horizontes,

mesmo quando a vista ainda é névoa. 


"O futuro não está escrito nas ansiedades do presente, mas nas ações que se escolhe realizar. O amanhã é um reflexo das decisões tomadas com o coração aberto, não das portas fechadas pelo temor. A esperança, e não a apreensão, é a verdadeira arquiteta do porvir."                 


 Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 

30 maio 2011

CREPÚSCULO DO EU DESPEDAÇADO

 

Crepúsculo do eu despedaçado

No crepúsculo do eu despedaçado,
a luz se parte em tons indecisos,
meus cacos brilham como espelhos gastos
de um tempo que já não me reconhece.

Há algo de sagrado na ruína —
um cansaço que se curva em silêncio,
um adeus que não sabe do fim,
mas ainda insiste em acenar.

Cada fragmento do que fui
se deita sobre a sombra longa
de um dia que não quis terminar,
como se a noite pedisse perdão
por chegar tão tarde.

No crepúsculo do eu despedaçado,
descubro que sangrar também é forma
de ver beleza onde ninguém vê —
e que a dor, quando se põe,
deixa um fio dourado
entre o que sobrou
e o que virá.

27 maio 2011

UNIVERSO SILENCIOSO

 Universo Silencioso

Dentro de mim,
um universo de palavras sufocadas
gira em silêncio.

Não explode,
não reclama,
mas pulsa —
como estrela que ninguém vê.

Há frases inteiras
presas na garganta,
com o peso de constelações.

Segredos antigos,
nomes que nunca chamei,
despedidas que não couberam no tempo.

Tudo orbitando
no espaço estreito
entre o que sinto
e o que deixo escapar.

Às vezes,
me sento no centro do peito
e escuto.

As palavras querem nascer,
mas temem o ar,
a forma,
o depois.

Então ficam.
E esse ficar
vai me tornando
galáxia calada,
coração com céu demais

20 maio 2011

SE TIVER, EU PREFIRO

 

Se Tiver, Eu Prefiro

 

Músicas que dançam no ar,
A leveza de um dia sem planos,
A brisa suave acariciando a pele.

Se tiver, eu prefiro.


O HÓSPEDE DOS CANTOS ESCUROS

 

O Hóspede dos Cantos Escuros

Mora em mim um arquiteto clandestino. Não usa palavras, não pede licença, apenas respira o ar rarefeito das minhas hesitações.

Enquanto a razão desenha mapas lineares, ele prefere o labirinto. Ignora os avisos de perigo, as placas que eu mesmo fixei com sangue e memória, e me conduz, pela mão, de volta ao incêndio.

Há um magnetismo inverso na dor. Uma gravidade que a lógica desconhece, ligação invisível, cordão de cinzas que me amarra ao que já me reduziu a pó.

Eu assisto à minha própria queda, estrangeiro de mim mesmo, sabendo que o passo é em falso, mas incapaz de desobedecer ao sopro calado que comanda os meus pés.


Vicente Siqueira

01 maio 2011

A RESSONÂNCIA DO AUSENTE

 

A Ressonância do Ausente

Quando a noite se debruça

sobre o peso das horas tardias

e o silêncio deixa de ser ausência

para virar confidente do peito.

 

Lá fora, o mundo é uma moldura estática.

O jardim parece uma fotografia

onde nem a mais leve pétala

ousa desmentir o absoluto imobilismo

dos canteiros.

 

É nesse vácuo de vento

que a alma inventa o movimento.

Uma brisa que não desarruma o cabelo,

mas desloca o tempo,

trazendo o timbre de uma doçura

que o passado insistiu em preservar.

 

Não é o ar que sopra;

é o eco de um verbo antigo

que ainda vibra no corredor da memória:

aquelas sílabas de querer

que, de tanto serem ditas,

acabaram por morar no silêncio.