23 maio 2019

RUAS EM SILÊNCIO

 

Ruas em Silêncio

Quando a cidade dorme
as ruas se fazem silêncio
um silêncio que fala
em vozes mansas e pausadas

não há pressa nem barulho
apenas o sussurro do vazio
e o eco das lembranças
que ficaram no asfalto

essas ruas silenciosas
guardam os segredos do dia
os passos que não ouvimos
e os sonhos que ainda vêm

é no silêncio da rua
que encontro a paz oculta
a promessa de um novo
amanhecer

12 maio 2019

INFLAÇÃO - MONSTRO VORAZ

Inflação - Monstro Voraz

O pão na prateleira

Olha pra mim

Com um preço que era de ontem

Mas hoje

É o dobro

Ou mais.

O carrinho do mercado

Encolhe.

As marcas preferidas

Viraram luxo.

A gente faz conta

No corredor

Com a calculadora do celular

E a esperança minguando.

O salário?

Ah, o salário...

Um papel que derrete

Nas mãos.

Compra menos,

Vale menos,

A cada dia que passa.

O futuro fica turvo.

Os planos,

Aqueles pequenos sonhos

De uma viagem,

De uma reforma,

De um conforto a mais,

Adormecem.

Ou fogem.

A gente aperta o cinto.

De novo.

E de novo.

Até sentir o osso.

O dinheiro que não dá

É a conversa da esquina,

Do almoço,

Do fim do dia.

Inflação alta.

Não é só um número

Na notícia.

É a vida que encolhe

No prato,

No bolso,

Na alma da gente.


MONSTRO VORAZ

(Soneto sem fim)

O preço sobe em rampa sem ter fim,

E o troco some, vira pó no ar,

O que era certo, hoje é incerto assim,

O quilo do queijo, triste de pagar.


A feira murcha antes de chegar em casa,

O sonho de ter algo vai morrendo,

A cada novo dia, a vida escassa,

O bolso chora, a gente vai sofrendo.


A conta chega cruel, sem ter piedade,

O plano de poupar, vira miragem,

E o futuro incerto, sem claridade,


A vida aperta em cada nova passagem.

Assim a inflação, monstro voraz,

Consome a esperança, rouba a paz.

09 maio 2019

CENSORED

 Censored

porque meus lábios prenunciaram
tanta batalha de ser contrário ao cérebro,
que insistia em afirmar:
não,
que o momento não se fazia preparado.
quedaram-se, então,
lábios e pensamentos
apressados em ânsias
de tanto se entregar
à procura dos arrepios,
dos movimentos desconexos,
dos prazeres da pele
— e do corpo mais profundo.
refeitos do susto causado
pelo encontro com o instante
de encantamento
e de louvor ao prazer,
quem passou a dar ordens
ao cérebro, antes tímido,
foram, a um só tempo,
lábios e mãos
que, despudorados,
não se permitiam censuras.

01 maio 2019

FIO PARTIDO

 

Fio Partido

Eu me lembro dela, um pouco mais jovem, um sorriso que desarmava. Nossos olhares se encontraram e, de repente, o mundo fez sentido. Éramos jovens, eu sei, com a vida se abrindo em possibilidades infinitas. Trocávamos juras, falávamos de tudo, das estrelas ao mais simples dos medos. A gente parecia feito um para o outro, um encaixe perfeito, sabe? Não havia o que não pudéssemos compartilhar. Os dias passavam, leves e cheios de um amor que parecia inquebrável.

 

Mas então, algo mudou. Não sei dizer como, nem quando. O que antes era fluído, começou a endurecer. Aquela sintonia, que parecia eterna, foi se perdendo, como a areia que escorre entre os dedos. Sem uma explicação, sem um adeus formal, nossos caminhos se desviaram. Ela para um lado, eu para outro. A vida nos empurrou para braços que não eram os nossos, e eu me casei. Ela também.

 

Morávamos na mesma cidade, mas quase nunca nos víamos. A vida seguia, numa calmaria que parecia inabalável, sem grandes sobressaltos. Até que as redes sociais nos conectaram novamente. Conversas esparsas, sobre amenidades, sempre evitando o passado. Parecia um acordo tácito, um silêncio respeitoso sobre o que um dia fomos.

 

Mas essa semana, algo se rompeu. Uma conversa, um mergulho no que ficou para trás. Falamos dos nossos caminhos que se cruzaram e se separaram, e a conclusão nos atingiu como um raio: fizemos uma grande besteira. Éramos jovens, sim, inexperientes talvez, mas isso não apaga a dor de ter deixado ir quem a gente amava.

 

Agora, olhamos para trás e vemos o erro, a idiotice de ter nos separado. Não há como voltar, o tempo não volta. Nós professamos a fé em Cristo, e o adultério não é uma opção. Então, o que nos resta é a tristeza, a infelicidade, e a constatação amarga de que, isoladamente, não fomos felizes. Apenas a dor do que poderia ter sido, a melancolia de um amor perdido por escolhas que hoje parecem tão equivocadas.

INSÔNIAS 

 

INSÔNIAS

Escancarou-se a boca da noite,
a engolir-me em seus
deprimentes silêncios,
estilhaçando cristais.

Seus tentáculos sustentados
em minha garganta,
tirando-me a calma
e a alma.

Lá, não-sei-onde,
o badalar de não-sei-quantas
horas a avisar-me
que se avizinhava a manhã,
doentia,
grávida de sol.

Não é o tempo que não passa,
são os cães que não ladram,
as corujas que não piam,
o aquário que não borbulha,
(e os scotchs que não são mais
os mesmos,
definitivamente não são).

A cama se faz imensa,

mas o abandono me reclama,
enquanto o buscar solitário
da saciedade
ainda se refestela em mim,
em gotas que,
cristalinas,
despencam do chuveiro
reparador.