07 junho 2012

O ENCONTRO

 




O Encontro

 

É a névoa que desce na cidade,

suave como um véu de gás,

mas densa o suficiente

para apagar os faróis distantes,

e nos fechar num casulo úmido.

 

É o toque da mão amada,

suave no dorso, um carinho,

mas a presença é densa,

um peso bom no ar,

que preenche cada fresta do existir.

 

É a batida do jazz no fone,

suave no grave que rola,

mas a melancolia é densa,

envolve o corpo, vira nuvem

e chove lá dentro.

 

É o tempo, escorrendo como areia,

suave entre os dedos, imperceptível,

mas a soma dos dias é densa,

uma rocha invisível,

que molda o que fomos e o que seremos.

 

Em cada interstício do mundo,

entre o toque leve e a presença forte,

a respiração que se expande

e o peso do silêncio que comprime,

reside o paradoxo:

ser leve e pesado,

flutuar e fincar raízes.

Sempre suave e denso,

como a vida em si mesma.

O DESCARTE

 




O Descarte

 

Não é um raio,

nem trombetas em brasa.

É só a porta que range

e se fecha, suave.

 

"Apartai-vos de mim", ecoa

no fone, um áudio antigo

que você ignora há tempos.

Um pop-up de uma conta

que você não lembra de ter.

 

Não há fúria no olhar,

apenas o vazio de quem desliga.

A conexão que se rompe,

não por falha, mas por escolha.

Você do lado de fora,

com a chave enferrujada

de um reino que nunca foi seu.

 

O chão não se abre,

o céu não cai.

Só o silêncio cresce

no espaço que você criou,

onde a sombra era mais cômoda

que a luz que te chamava.

 

E agora, o "apartai-vos"

é o seu próprio eco.

A semente que você plantou,

colhendo o nada.

Apenas o vazio do "foi-se".

A porta?

Fechada.

06 junho 2012

PELE NOVA

 

         

    Pele Nova

 

Não é simples, esse agora. Não é a linha reta que se traça com urgência, mas um emaranhado de silêncios que antes eram conforto. O tanto não querer, a névoa densa do "talvez um dia", do "não agora", se vestiu de uma pele nova. Não é renúncia, nem sequer aceitação plena. É um limite que surge, não dito, mas presente como o ar pesado antes da chuva.

 

O que se transforma, afinal? Não é o desejo de fugir, mas a exaustão de se esquivar. A ambiguidade, antes um refúgio acolhedor, revela-se um labirinto sem saída. O "basta" não grita, mas sussurra no fundo, um som quase inaudível, mas que ressoa em cada fibra. É a percepção de que a ausência de envolvimento, essa fuga constante, se tornou a própria forma de se perder. E o que era proteção, agora é o muro que aprisiona.

 

Há um cansaço que não se nomeia. Não é o cansaço do fazer, mas do não-fazer, do não-ser. Esse "agora basta" é a face oculta do desejo que existiu, que se negou, e que agora, ao se manifestar como limite, insinua a necessidade de um outro tanto. Um tanto de algo que antes se evitava. Um envolvimento que se recusa a ser ambíguo. Mas o que virá depois? O silêncio, talvez, responda. E a resposta, como sempre, estará no que não se diz.


Vicente Siqueira - Doces Poesias