19 fevereiro 2026

SOU FEITO DISSO




 

Sou Feito Disso

Sou um acúmulo de pequenas desistências,

uma coleção de quase,
uma arqueologia de afetos.

Às vezes me recolho
no canto da própria sombra
e fico ali,
ouvindo o coração ensaiar
uma forma nova de continuar.

Não peço fechamento.
Aprendi a viver em obras.

Sou feito disso:
de restos que respiram,
de falhas que iluminam,
de um amor antigo
que ainda ensina
como permanecer aberto.

Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ


O DESCARTE

 O Descarte

 

Barulho de trombetas em brasa,

de porta que range

e se fecha, 

de sussurros inaudíveis.

suave.

 

"Apartai-vos de mim", ecoa

no fone, um áudio antigo

que você ignora há tempos.

Um pop-up de uma conta

que você não lembra de ter.

 

Não há fúria no olhar,

apenas o vazio de quem desliga.

A conexão que se rompe,

não por falha, mas por escolha.

Você do lado de fora,

com a chave enferrujada

de um reino que nunca foi seu.

 

O chão não se abre,

o céu não cai.

Só o silêncio cresce

no espaço que você criou,

onde a sombra era mais cômoda

que a luz que te chamava.

 

E agora, o "apartai-vos"

é o seu próprio eco.

A semente que você plantou,

colhendo o nada.

Apenas o vazio do "foi-se".

A porta?

Fechada.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



18 fevereiro 2026

SURPRESA

 

Surpresa

Descobri que não sou inteiro

Aprendi a morar
no intervalo das coisas:
entre o que foi promessa
e o que virou memória,
entre o toque que não aconteceu
e o nome que ainda arde.

Não sou inteiro.
Sou tentativa.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ

17 fevereiro 2026

ESSA AUSÊNCIA

Essa Ausência 


Há dias em que acordo
com uma ausência atravessada no corpo,
como se alguém tivesse esquecido
uma janela dentro de mim.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ

16 fevereiro 2026

O PERFUME DO VAZIO

 O Perfume do Vazio

 

Rastro invisível,

mas presente,

cheiro de ausência que permeia.

Grudado nas cortinas,

nas retinas,

no travesseiro ainda marcado,

no silêncio que antes era riso,

e que agora é apenas ar pesado.

 

É um armário vazio,

com a fragrância fantasma

de uma camisa que não está mais lá.

Xícara esquecida na pia,

sem vapor, 

sem rotina.

 

Sou eu a me misturar ao pó nos móveis,

à luz que bate na parede

onde a foto não foi pendurada.

E tem a nota que falta no acorde,

a palavra que foi mal proferida,

talvez nem tenha sido dita,

mas que ainda vibra na língua.

 

Não dá para lavar,

nem ventilar para fora.

A ausência se refestelou

nas paredes.

na memória,

nos livros e nos cadernos,

e até na falta de frases.

Mas a memória ainda respira

como um fantasma olfativo

que envolve, 

suave e denso,

no espaço que um dia foi cheio.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ



12 fevereiro 2026

PRA FICAR ANÔNIMO

  Pra Ficar Anônimo

 

Como qualquer um que sonha,

que aspira momentos de clareza,

tendo contudo, momentos de confusão,

como qualquer outro ser

que anda e pensa,

e compartilha segredos de amigos,

amores,

ilusões,

que dá risadas e aplaude de pé,

também me rendo diante daquilo

que costuma me provocar.

daquilo que move em mim

alguns questionamentos

(tão sem importância)

tão importantes,

tão confiantes.

 

Como qualquer outro

que não se importa em parecer piegas

despretensioso,

eu procuro me importar

com os seus detalhes,

seus calçados,

seus cuidados entrelaçados,

de carinhos,

vontades

e mãos apressadas.

 

Por isso

não preciso refazer-me a cada dia,

todo dia,

em mínimos brotares de

desconfianças,

porque te abraço ainda mais,

por saber que logo ali

(após os primeiros sinais)

para que o dia amanheça,

começa nossa caminhada

de fazer suar frio

e não deixar

que essa paixão transpareça.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



10 fevereiro 2026

PALCO SILENCIOSO

 Palco Silencioso

 

Não busco o holofote,

nem a plateia ávida.

Meus pensamentos,

sentimentos, a chama

que me move,

os mapas traçados:

são só meus.

 

No palco da vida,

onde cada um tem seu enredo,

prefiro o monólogo interior,

a conversa que só eu escuto.

 

Não há necessidade de ribalta,

nem de aplausos.

As cortinas ficam fechadas

para as revelações da alma.

Minha verdade sussurrada,

um segredo entre eu e a brisa,

não para a reverberação do auditório.


              ...meus pensamentos são só meus...


Vicente Siqueira - Doces Poesias

05 fevereiro 2026

E SE EU ME ATRASAR DOIS MINUTOS?

 E Se eu me atrasar dois minutos?

E se eu me atrasar dois minutos,
o mundo continua girando?
a cidade implode?
alguém desiste de mim?

ou talvez —
só talvez —
esses dois minutos sejam meus
pela primeira vez.

dois minutos pra respirar sem meta,
pra não responder,
pra olhar pro teto
e não chamar de perda.

e se nesses dois minutos
eu lembrar o nome do que sinto?
se o choro vier
sem legenda,
sem trilha de stories,
e for sincero demais
pra caber no horário comercial?

e se eu me atrasar dois minutos
e descobrir que a vida esperaria?
que ninguém morre por um atraso,
mas às vezes morre
por nunca parar?

dois minutos.
não peço mais.
só isso:
um pequeno desvio
no mapa desenfreado,
pra lembrar
que o tempo
ainda pode ser meu.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



PERCEPÇÃO

 

Percepção

 

então me rendo às obviedades da percepção

porque suas mãos me passam a explicação do todo 

que eu jamais havia entendido.

 

percebo que elas suavizam ao toque

ao esplêndido toque que eu ousara querer

mas não quisera pedir.

nem tão pesado nem tão leve.

 

apenas toque

de mãos que

inquietas

não se desviam dos gestos

que a conversa obriga.

 

mãos que sabem a carícias e cuidados

revelando redes às quais me prendo

porque percorre em mim

de extremidade a extremidade.

 

e eu a ajudo

porque também a percorro

até que nos quedamos ao infinito prazer

de nos perder em retinas de fogo

que nos fazem a comunicação sem nada falarmos.

 alguns segundos que percorrem séculos

até percebermos que esses olhos nos desvendam

e nos desnudam.

 

alguns segundos que nos revelam

vontades

manias

nossas tantas coragens

de nos atirarmos ao fundo

do mais puro deleite

de sabermos nossas trocas.

que começaram com os toques.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



30 janeiro 2026

GRITO

 Grito

 

O eco do nada

na garganta seca.

um berro mudo

que rasga o ar

e não encontra ouvido.

 

o sol de junho,

mesmo em barra do piraí,

não aquece o vazio

deste grito sem rumo,

sem porto.

 

é a voz do deserto em mim,

areia fina que escorre

entre os dedos da memória.

não há lamento,

não há revolta.

apenas o som puro

de uma existência

que se recusa a calar,

mesmo sem ter o que dizer.

 

é o ruído branco da alma,

um sussurro amplificado

pela ausência de sentido.

e ainda assim, grito.

grito sem causa,

grito sem propósito.

apenas para saber

que ainda posso.


         Vicente Siqueira  - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



27 janeiro 2026

TESTEMUNHA DO VERBO (EXPERIÊNCIA )

 Testemunha do Verbo (experiência)

Não sou mais quem escreve.
Será que isso é perda? Ou é vertigem?

Algo sempre acontece antes de mim
e continua depois.
Eu apenas acordo no meio do acontecimento,
percebendo que já estava respirando
sem ter decidido nascer.

A história não pede meu nome.
Ela passa.
E ao passar, me deixa esse estado:
uma atenção ferida,
um silêncio que pensa.

O verbo encostou no meu rosto
testando a temperatura da alma.
Nada a ver comigo.
Nunca.
Eu apenas senti —
e sentir já foi demais.

Assusta quando o que criei me devolve um olhar.
Não é certo. Nem sei o que dizer.
Talvez revelação.
Talvez aquele texto que sabe das coisas que escondi
e por educação não quer me atrapalhar,
por medo do retorno,
por excesso de lucidez.

O papel respira.
E eu me dou conta tarde demais
de que não sou o pulmão.
Sou o intervalo entre uma inspiração e outra,
esse espaço indeciso
onde o milagre escolhe acontecer
sem testemunhas confiáveis.

A tinta corre.
E não me pergunta nada.
Talvez porque a resposta
não me pertença mais.

Fico.
E agora sinto como autor.
Como quem presenciou algo vivo
e agora precisa aprender
a não trocar o verbo.

É assim e pronto.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ




25 janeiro 2026

O VÃO ENTRE OS DIAS

O Vão entre os Dias


Sou um corpo que tenta caber

no intervalo estreito entre dois sóis,

nessa fenda miúda e secreta

onde o nome ainda não foi soprado.


Carrego comigo mapas imprecisos,

dobras de uma infância guardada,

gestos que herdei do silêncio

e esta fome estranha, quase antiga,

pelo descanso.


Quero caber no espelho

sem precisar pedir desculpas,

ocupar o assento vazio do ônibus,

morar na minha própria sombra

quando a luz do mundo decide pressionar.


Sou este corpo que aprende

a largura exata da existência

através do impacto e da recusa;

na tentativa diária e muda

de existir finalmente sem legendas.


Às vezes sinto o peso do chumbo,

noutras, quase flutuo —

não por leveza de espírito,

mas pela exaustão absoluta

de carregar o que os outros esperam de mim.


Um corpo que tenta caber

não procura uma moldura ou um quadro.

Ele procura o chão.

Um lugar onde respirar

não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ