24 maio 2017

BELEZA E ATITUDE





porque era maio
tempo de andar às voltas
com as flores azuis da quaresmeira
apreciar os primeiros dias dos nevoeiros
do pleno outono do sudeste

afloravam amores vividos
amores sentidos
amores percebidos
eram e são tantas as afeições jovens
as agonias das desesperanças
das faltas que se sentem
das vontades e das pressas

e ela estava lá
a tarde clara
de estranhos calores
no burburinho do centro da cidade
são tantas as expectativas de chegadas
de promessas
de encontros

são novas
efervescências novas
novas 
ebulições
das novas belezas
e atitudes 
tão novas

no tempo
algumas reentrâncias
são ruas
avenidas
praças
e becos
bem além da surpresa
das promessas
além do querer bem
além
muito além

e essas cores?
(porque te vi)
esses sabores?
(porque te sorvi)
essas texturas?
(porque te toquei)
essas quenturas?
(porque te senti)

são medos
arremedos de carícias
de carinhos
nas vontades aceleradas
(dos joelhos dobrados)
ditadas pelo tempo
pelo horário
tão contrário às expectativas
de vida
vividas

sobrou o gosto do gozo
do encontro
do reencontro
sobrou a vontade
do hoje
do amanhã
do depois

sobrou a vontade do ver-te
vertendo em carinhos
pedindo
sentindo
gostando
pois estou indo
pois estou voltando

e te achando

linda
tão linda.

17 maio 2017

"AMIGUINHA"

(A RESPOSTA)

Olhaqui, ó! Chamar você de amiguinha não tem nada de pejorativo. É a expressão mais carinhosa que eu reservei para um tratamento. Apenas duas pessoas em toda a minha vida, mereceram de mim essa expressão carinhosa, ao vivo.
E você É UMA DELAS.
Não tem nada de achar-se criança, chata, etc... etc..
Ser amiguinha é um estado. Uma leveza. Um não-sei-o-quê de cumplicidade e graça. Ser amiguinha, é ser aquela pessoa a quem a gente sabe que pode recorrer, seja num momento de dúvidas, de incerteza, seja num momento de querer alguém para dividir um beijo suculento ou uma torta de limão.
Às vezes a amiguinha, sendo atriz coadjuvante, assume o papel principal e não tenta assumir a Direção ou a Produção. No máximo fica com os Efeitos Especiais e a Sonoplastia. Para a amiguinha o que interessa é que a cena seja boa.
Amiguinha é aquela pessoa que faz com que a gente acorde às 5:50 da manhã, ligue o zap e fique se coçando pra não postar mais uma mensagem que é pra não incomodá-la.
Ser amiguinha é usufruir do carinho do amigo, do amante, do marido, do colega.
Ser amiguinha é sentir-se musa sem jamais ter tido essa vontade de ser, sem ter apresentado qualquer motivo para ser idolatrada além do óbvio motivo das formas e cores bem acabadas.
Ser amiguinha é deixar-se conduzir pelo carinho mais afetuoso do amigo distante, renitente e sonhador, que ainda se delicia com algum risinho que teima em brotar ao ler a resposta dizendo  que não gosta do termo.
Ser amiguinha é ler tudo isso aí e ahar que faz sentido, que está robustamente de acordo com o que deve ser encarado como amizade à distância.
Ser amiguinha é não considerar-se diminuída assim que o amigo deixar de chamá-la de "amiguinha" só porque ela não gosta e sente-se encucada.
Ser amiguinha é considerar que o termo pode ser trocado de "amiguinha" para "Doce Amiga" e que, aí sim, estará de acordo com a ocasião "solene" de ler um zap de um mané.
Eu, por mim, queria ser seu amiguinho. Não me importaria. Mesmo.
Beijos, "Querida Amigona".

Doces prá você...

Vicente
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"O verdadeiramente belo não é aparente...é intrínseco, único, explêndido..."
Ana Clara (Claríssima)
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09 fevereiro 2016

SEXTO SENTIDO


SEXTO SENTIDO

existe um sexto sentido que precisa ser vivido
dito
sem palavras
sem trapaças
sem textos
sem pretextos

então:

que esse sentido exploda
e atinja o óbvio do alvo
e se afaste das camuflagens
e perceba as descobertas
e se sinta inquieto
e se encarregue do transformar.

que seja doce ainda que efêmero
e se confunda
com o coito das noites
penetrando as madrugadas
parindo dias
ressuscitando cores
ressurgindo em raios
de todas as luzes.

que todas as palavras
explodam
ressoem
maquiem as notícias
e se lancem
em busca do inédito
e deem crédito
a esse sexto sentido
que se chama
amor.

14 março 2010

NÃO ME FAZES FALTA?

percebo
decepcionado
passarem em mim
esses cinco mil e tantos anos
de falta de sono
ou melhor
desse excesso de sono
que não é sono que se dorme
que é só sono que se sente
desse sentir acordado.

exaustos
os olhos não se pregam
mas rastreiam as areias
nas marejadas pálpebras
e ainda me dizes
que não me fazes
falta?
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Vicente
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10 março 2010

RECOMEÇA A SEMANA

(Tributo a Marilu)

era tudo muito jovem e ainda éramos todos muito jovens.
eu me admirava com a serenidade que emanava da beleza dela
era começo de abril
se bem me lembro
quando se fizera o conhecimento das verdades
que a vida me mostraria.

não sei se havia flores-de-maio.
naqueles tempos
eu ainda aguardava a chegada dos doze anos.
uma dúzia de aniversários
e meia dúzia de sonhos.
e tinha na professorinha recém-chegada aos dezenove
o meu melhor presente.

não se cogitava em futuro.
as coisas aconteciam no agora
a vida urgia no presente
naquele presente

a vida na roça tem a vantagem das escondidas
por entre os emaranhados
do canavial
do milho verde
do laranjal.

o açude não era propriamente perto
e em seu caminho sempre se encontra uma curva a mais
uma moita a mais
uma vontade a mais...

eu me embriagava com a sua vontade
de me mostrar os caminhos.
seis ou sete anos mais velha
mas ainda assim jovem.
a terra vibrava por sob nossos corpos
e não havia meios de nos fazer parar

não se percebe
ainda
a presença da virilidade
e a infância ainda se arrisca nos estilingues
e bolinhas de gude
mas o pensamento é de homem feito
de quem já tem cabelo no peito
calor no beijo
e amor com jeito.

começa a semana e sente-se a vontade
de verter-lhe nos lábios o olhar
um olhar na boca entreaberta perfeita
nas pernas lisas e claras de menina rica
e a perfeita sincronia das virilhas e do umbigo.

sincronia
também
entre dentes e língua
e bocas que se procuram
em toques esbaforidos
braços
com medo das amplidões
e dos descampados

começo dos vôos
em territórios inexplorados
beijos e pescoços
e seios
e nucas.

cabelos de ouro
escorrendo pela aura
pelos ombros
pela grama.

e a vontade
de adivinhar-lhe a alfazema
rescendida debaixo do diáfano vestido de algodãozinho?

sem maiores detalhes
a não ser seu próprio corpo
tão detalhado.
aí as cores enfeitavam os céus
o açude era mais refrescante
e os frutos sazonados
mais abundantes.

e quando a semana
já se sentia tão catastroficamente confusa
a ponto de perceber-se
que todo sábado ela precisava voltar para
a casa dos pais
na cidade?

todos os eixos
saíam de seus encaixes
e era como se de repente
se morresse por dois ou três dias.
morria-se.
milhares de mortes.
sem que ninguém à volta entendesse.
até que outra semana começasse.

e as estações se sucediam.
novos ventos
e posições
pelos medos
e pelas imposições da situação que chega
com a chegança da puberdade.

ainda segredo
como sempre.
nada de mistério
mas segredo
guardado
a ferro e cadeado.

aos dezesseis a mudança
a ida
a partida
a alma ferida
até o ponto do choro
e lágrimas mais sentidas
por dias
e dias
a cabeça completamente perdida.

centenas de vezes
imortalizada na carne
e no pensamento
no coração
e no fogo das paixões mais desejadas.

alguma incursão esporádica
com a chegada do quartel e da farda
mas nada que pudesse desmanchar
seu matrimônio
que viria perfeito
feito de inteligência
repressões
e conveniência.

estou me despedindo de você
“Maria”.
onde quer que você chegue
Deus há de lhe fazer companhia.

chegue primeiro
novamente
busque mais além
(nas estrelas)
o lânguido bafejar da satisfação
por ter-nos feito
interpretados e entendidos
e creia:
onde quer que você chegar
a semana haverá de recomeçar.
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Vicente
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09 março 2010

PRESENTE




Enquanto és linda:
eu me proponho a descansar
(em mim)
minhas cicatrizes:
pelos tantos deslizes
de vida
de fantasias
de vazias madrugadas frias
que me envolveram
em desoladas tentativas
de conquista.

já nos preparávamos para começar
amores possíveis
perguntas plausíveis
cansaços pós-balanços de lençóis de puro algodão
(que deveriam ser brancos).

e em nós despertos
memórias enredadas
em busca de casos que chegassem às comparações.

haveríamos de nos contentar
com novas e espantosas descobertas:
não havíamos ainda vivido o suficiente
para encararmos de vez a felicidade
(até aquele presente momento)
por isso nos buscávamos
às pressas descabidas
aos supetões desenfreados
às poesias amarelecidas
às indagações repartidas
aos cânticos e cantos
aos trancos e barrancos.
suposto reencontro humano?

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Vicente
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LAVAR CACHORRO É BOM

calei-me a boca
e não fiz qualquer favor
porque vivia a falar de sonhos
através de metáforas
um dentro do outro
o sonho dentro da metáfora
(e vice-versa)
em círculos
em ondas de círculos
dos menores até os imensos.

calei-me
porque não quis quedar-me ao óbvio
porque falava de desejos
de ter alguém
para amar
ser amado
compartilhar
coisas
e (até) contas
lavar cachorro aos domingos
(que eu sempre detestei)
e levar lixo lá embaixo
sem precisar justificar qualquer coisa
que não fizesse parte da beleza do amor.

calei-me
para perceber
que sonhos são sempre sonhos
pois são mutuamente excludentes
por melhores que sejam
por mais necessários
que possam parecer
porque minha maior loucura
era falar de sonhos
quando já não é época de se sonhar
mais.
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Vicente
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