01 junho 2026

VULNERÁVEL, EU E TU

 VULNERÁVEL, EU E TU

Dizem que só se é verdadeiro
quando se deixa a armadura cair,
quando o peito fica exposto ao vento,
ao frio, à dor que não quer ir embora.
E eu, que sempre achei que ser forte
era calar o que sentia,
vejo agora que a minha maior verdade
está justamente no que me faz fraco,
no que me deixa pequeno,
no que me deixa nu diante de mim mesmo.
É essa vulnerabilidade que me faz existir.
Porque dentro desse “Eu” que eu penso ser,
há um “Tu” que não se apaga,
que não se muda, que não se esquece.
Você mora nos cantos que não se varrem,
nos silêncios que mais gritam,
nos espaços vazios que o tempo
teimou em deixar como estão.
Perdi-te, é fato.
Mas a perda não foi o fim,
foi talvez o começo de entender
que amar também é sofrer de ausência.
E é justamente por eu estar tão quebrado,
tão cheio de falta, tão carente de ti,
que me torno autêntico.
Não há mentira na dor que aperta o peito,
não há fingimento na saudade que não passa.
Quando escrevo, tenho medo de não ser eu.
Mas veja:
cada palavra que sai é um pedaço que arranco de dentro,
é um nervo exposto,
é uma ferida que ainda respira.
É essa fragilidade que me liga a ti,
que mantém viva a tua presença em mim.
Se eu fosse inteiro, se eu fosse duro,
se eu não sentisse essa falta que me consome,
talvez nem houvesse poesia.
Mas eu sou esse homem que sente,
que chora por dentro, que pede colo ao tempo,
que carrega o teu nome como uma cicatriz bonita.
E é assim, vulnerável,
com a tua imagem gravada no meu “Eu”,
que eu sou mais verdadeiro do que nunca.
Porque o “Tu” que vive aqui dentro
só existe porque eu me permiti perder,
me permiti doer,
me permiti continuar amando
mesmo sabendo que já não te tenho mais.

A minha autenticidade é essa:
ser tudo o que restou
depois que você partiu.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


31 maio 2026

A CAPACIDADE DE NEGAR

 

A CAPACIDADE DE NEGAR


E a minha capacidade de negar?
O que faço com ela?
Guardo-a numa gaveta escura,
junto com as chaves do que não abri,
com os bilhetes que não enviei,
com os beijos que guardei na garganta?
Ou deixo-a à mostra,
como um objeto que não sei usar,
que pesa na palma da mão
e aquece, queima, até fazer entender
que negar também é uma forma de existir?
Neguei o cansaço quando o corpo pedia parada.
Neguei a saudade para não doer mais fundo.
Neguei o amor para não correr o risco
de ver tudo desmoronar ao toque dos dedos.
Mas negar também é escolher, não é?
É dizer “não” ao que chega,
para proteger o que fica escondido,
o que é meu, o que é íntimo,
o que ainda não tem nome nem forma.
E agora que ela está aqui,
tão forte, tão viva, tão minha,
eu pergunto de novo:
o que se faz com o dom de negar?
Guarda-se?
Usa-se?
Ou deixa-se que ela mesma nos ensine
o que é aceitar de verdade,
só depois de ter sabido dizer não?

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


25 maio 2026

LANCES POR AMOR

Lances Por Amor 

Há quem ame em silêncio,
como quem observa um leilão antigo
com as mãos escondidas no bolso
e o coração erguido no ar.
Cada afeto faz sua oferta: um abraço tardio,
uma mensagem não enviada,
um ciúme disfarçado de conselho,
uma despedida que queria ficar.
O amor às vezes parece isso —
um salão cheio de ecos,
onde ninguém admite
o quanto está disposto a perder.
Alguns oferecem o orgulho.
Outros, o futuro inteiro.
Há quem entregue noites, nomes, cidades.
Há quem aposte a própria paz.
E no fim,
quase nunca vence
quem tem mais coragem.
Vence quem permanece
mesmo depois do silêncio
dar seu lance final.

APRENDENDO A DIZER NÃO

 

Aprendendo a Dizer Não

Sento-me na beira do vazio

o peso do mundo sobre mim.

Quis caber em todos os lugares,

fui abraço para quem me feriu,

caminho para quem me deixou.

 

A voz que se esconde no meu peito

ensaiou um "sim" por tempo demais,

e a palavra que precisava ser dita

se dissolveu no ar, frágil e muda.

 

Mas sinto agora um tremor,

uma força que nasce do cansaço,

e a frase que me liberta

ecoará em cada fenda,

em cada lugar que eu não posso mais ser.

A minha vida se fará de "nãos",

e a minha paz, de novos "sins".


Vicente Siqueirq - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



24 maio 2026

LABIRINTOS DA ALMA EM FLOR

 

Labirintos da Alma em Flor


Eu me pego observando as trepadeiras na parede antiga,

seus caules emaranhados,

as folhas novas despontando verdes e tenras.

Uma metáfora viva, penso,

para os labirintos que guardo aqui dentro.

Minha alma, às vezes,

parece um jardim em constante crescimento,

com veredas que se cruzam

e becos sem saída que se abrem de repente.

Eu tento mapear esses caminhos,

entender por que certas portas se fecham

e outras, inesperadamente, se escancaram.

Há flores que desabrocham em lugares sombrios,

resilientes, teimosas.

E há sementes que se recusam a brotar,

mesmo sob o sol mais intenso.

Eu as rego com minhas dúvidas,

com a água dos meus pensamentos.

Às vezes, me perco nesses meandros,

andando em círculos,

buscando uma saída que parece não existir.

A voz da inquietação sussurra em meus ouvidos,

enquanto a esperança, um fio tênue,

me guia por entre as folhagens.

Eu toco as pétalas de uma flor recém-aberta,

seu toque suave me acalma.

Ela não tem pressa,

apenas existe em sua plenitude.

E eu, eu também aprendo a existir.

Descubro que o labirinto não é para ser vencido,

mas para ser percorrido.

Cada curva, uma nova perspectiva.

Cada folha, uma lição de paciência.

É nesse emaranhado de vida e emoção

que minha alma floresce,

nem sempre de forma perfeita,

mas sempre em busca de luz.

E é ali, no centro desse meu próprio jardim,

que eu me encontro,

um pouco mais desvendado,

um pouco mais em paz.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pira RJ.



23 maio 2026

O PESO E A LEVEZA DE UMA PALAVRA

 

O Peso e a Leveza de uma Palavra

A rede jaz vazia, o mar de cansaço nos ossos,

Mais uma noite que se vai, a esperança em pedaços.

O suor salgado, a frustração amarga no peito,

Voltamos à praia com o fardo do esforço não feito.

 

Então chegas Tu, Mestre, e a rotina se quebra,

O olhar sereno que o desânimo quebra.

Pedes o barco emprestado, falas à multidão,

E a Palavra, Tua Palavra, toca o coração.

 

A multidão se dispersa, e o silêncio se instala,

E ouço a ordem inusitada que minha alma embala:

"Avança para o fundo, Pedro, e a rede, lança de novo..."

Um eco de areia e sal, que fere e que renova.

 

O peixe não estava lá, sei bem, a lógica berra,

Passei a noite inteira, conheço esta terra.

O corpo reclama, a razão me manda parar,

Mas algo em Teu tom me obriga a Te escutar.

 

E a voz se eleva, cansada, mas firme e rendida,

Um misto de fé nascente e de vida vivida:

"Mestre, trabalhamos a noite, nada apanhamos...

Mas por Tua Palavra, a rede outra vez lançamos."

 

Não é por mim, nem por força ou por merecimento,

É o peso de um Verbo, o sopro de um Novo Tempo.

O mar se dobra ao comando, a lógica se curva ao Teu querer,

E o impossível se faz, para quem ousa crer.

 

A rede se enche, transborda, é milagre e é assombro,

O barco quase afunda sob tanto ombro.

Não foi a técnica, não foi o braço forte na lida,

Foi a obediência simples que mudou toda a minha vida.

 

A Palavra d'Ele é o anzol que resgata,

A âncora que prende, o farol que me acata.

Por Sua Palavra, sou pescador de homens, agora,

E lanço a esperança, sem medo, pela aurora.

 

 

The Weight and Lightness of a Word

The net lies empty, the sea of fatigue in our bones,

Another night that passes, hope broken into pieces.

The salty sweat, the bitter frustration in my chest,

We return to the shore with the burden of unaccomplished effort.

 

Then You arrive, Master, and the routine breaks,

The serene look that shatters the discouragement.

You ask for the boat on loan, You speak to the crowd,

And the Word, Your Word, touches the heart.

 

The crowd disperses, and silence settles in,

And I hear the unusual command that cradles my soul:

"Go out into the deep, Peter, and once again, cast the net..."

An echo of sand and salt, that wounds and renews.

 

The fish were not there, I know well, logic screams,

I spent the whole night, I know this land.

The body complains, reason tells me to stop,

But something in Your tone compels me to listen.

 

And the voice rises, tired, but firm and surrendered,

A mixture of nascent faith and life lived:

"Master, we've toiled all night, and caught nothing...

But at your word, we will let down the nets again."

 

It is not for me, nor by strength or by merit,

It is the weight of a Verb, the breath of a New Time.

The sea bows to the command, logic bends to Your will,

And the impossible is done, for those who dare to believe.

 

The net fills, overflows, it is a miracle and an awe,

The boat almost sinks under such a load.

It wasn't the technique, it wasn't the strong arm in the labor,

It was the simple obedience that changed my whole life.


His Word is the hook that rescues,

The anchor that holds, the lighthouse that guides me.

At His word, I am a fisher of men, now,

And I cast hope, without fear, towards the dawn.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ