Tudo o Que Restou
A minha autenticidade é essa:
não aquilo que construí para mostrar ao mundo,
não os nomes que recebi,
não as certezas que aprendi a repetir.
A minha verdade mora
entre as coisas que se quebraram
e não voltaram a ser como antes.
Sou feito também de ausências.
De cadeiras vazias.
De conversas interrompidas.
De caminhos que terminam
antes do horizonte.
Durante muito tempo
achei que perder era diminuir.
Hoje desconfio
que algumas perdas nos revelam.
Há partes de mim
que só surgiram
quando tu foste embora.
Como rios escondidos
que aparecem
depois que a seca racha a terra.
Como estrelas
que só podem ser vistas
quando a noite chega.
Por isso não nego a falta.
Não cubro a cicatriz.
Não finjo inteireza.
Carrego a tua ausência
como quem carrega uma lâmpada acesa
numa casa antiga.
Nem para esquecer.
Nem para voltar.
Mas porque a luz que ficou
ainda me ajuda a enxergar.
E se alguém me perguntar
quem sou,
talvez eu não saiba responder
com nomes,
ofícios
ou retratos.
Talvez eu diga apenas:
sou a forma que o tempo encontrou
de continuar respirando
depois da despedida.
Sou o eco que permaneceu
quando a voz se calou.
Sou a memória
transformada em caminho.
Sou tudo o que restou
depois que partiste.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ