15 março 2026

ECO INTERIOR

 Eco Interior

 

Não sou eco na multidão,

nem semente lançada

para colheita alheia.

Minha jornada é um rumo

desenhado em si.

 

Os nós que desfaço,

as pontes que construo,

são silenciosas arquiteturas

dentro de mim.

Não há roteiro para olhares curiosos,

nem aplausos para cada passo incerto.

 

Apenas a respiração do ser,

o murmúrio dos próprios medos,

a melodia secreta das vitórias.

No palco vasto,

onde tantos gritam suas existências,

minha voz prefere a calmaria

do entendimento próprio.


Vicente Siqueira  - Doces Poesias

14 março 2026

O MAPA DA TOTALIDADE

 

O Mapa da Totalidade

Você olha para as marcas do tempo,

para as dobras que a vida desenhou,

e me diz, com a certeza dos sábios:

essas camadas me representam por inteiro,

cada uma delas sou eu mesmo.

 

E eu, o seu aprendiz de silêncio,

apenas concordo.

 

Pois não há como separar o chumbo

da doçura que ele aprendeu a carregar.

Não há como isolar o grito mudo

da melancolia mansa que o amparou.

 

Elas são oDoces Poesias que você é:

o sal que virou solo,

a lágrima que virou rastro,

o vão que virou abrigo.

 

Nenhuma camada é exílio;

cada uma é uma pátria

onde a sua alma aprendeu a morar.

 

Você não é feito de partes;

você é feito de acúmulos,

de sobreposições honestas,

onde o passado não é sombra,

mas o sustento do presente.

 

É essa totalidade que me fascina,

é essa coragem de ser

cada uma das suas dores,

cada um dos seus silêncios,

e, finalmente,

cada um dos seus versos.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



13 março 2026

O AJUSTE DA LENTE

 

O Ajuste da Lente

Sou o fotógrafo de mim mesmo,

aquele que aprendeu a ler a luz

antes mesmo que ela toque a pele.

Não busco o clarão que cega,

mas o instante em que o brilho se rende

e revela o que estava escondido.

 

Ajusto o foco no detalhe miúdo:

a poeira que dança no raio de sol,

o vinco no lençol que sobrou do sonho,

o exato momento em que o silêncio

deixa de ser peso para ser moldura.

 

Há uma sabedoria fina,

quase mecânica,

em saber onde a sombra deve ficar.

Pois é na sombra que o descanso mora,

é ali que a textura da alma respira

longe da nitidez cruel do mundo.

 

Não capturo o todo —

o todo é vasto demais para o peito.

Escolho o fragmento, a margem,

o reflexo na xícara de café,

para que a beleza seja palpável

e a dor, enfim,

perca o foco.

 

Existo assim:

entre o clique e o fôlego,

eternizando apenas o que me permite

continuar inteiro,

sob a luz mansa de quem

finalmente aprendeu a enxergar.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

12 março 2026

O RASTRO QUE ESCORRE

 

O Rastro que Escorre

Sinto o gosto do sal que sobe à garganta,

o anúncio líquido de que o espaço é pouco

para tanto que se guarda.

 

Às vezes, os mapas se borram;

a tinta cede à umidade dos olhos,

e o caminho se faz pelo rastro que escorre.

 

É no embaçado da visão que me encontro,

nessa lente de água que deforma o mundo

para que ele doa um pouco menos.

 

Cada lágrima é um verso que não precisou de gramática,

uma palavra muda que finalmente

se permitiu cair.

 

E quando o chumbo se torna mar,

eu transbordo.

Lavo por dentro as esperanças alheias

até que sobre apenas o que é meu.

 

Procuro o lugar onde a lágrima encontra a terra

e o respirar não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

O VÃO ENTRE OS DIAS (VERSÃO DAS ÁGUAS)

 

O Vão entre os Dias (Versão das Águas)

Sou um corpo que tenta caber

no intervalo estreito entre dois sóis,

nessa fenda miúda e secreta

onde o nome ainda não foi soprado.

Sinto o gosto do sal que sobe à garganta,

o anúncio líquido de que o espaço é pouco

para tanto que se guarda.

 

Carrego comigo mapas imprecisos,

dobras de uma infância guardada,

gestos que herdei do silêncio

e esta fome estranha, quase antiga,

pelo descanso.

Às vezes, os mapas se borram;

a tinta cede à umidade dos olhos,

e o caminho se faz pelo rastro que escorre.

 

Quero caber no espelho

sem precisar pedir desculpas,

ocupar o assento vazio do ônibus,

morar na minha própria sombra

quando a luz do mundo decide pressionar.

É no embaçado da visão que me encontro,

nessa lente de água que deforma o mundo

para que ele doa um pouco menos.

 

Sou este corpo que aprende

a largura exata da existência

através do impacto e da recusa;

na tentativa diária e muda

de existir finalmente sem legendas.

Cada lágrima é um verso que não precisou de gramática,

uma palavra muda que finalmente

se permitiu cair.

 

Sinto em mim o peso do chumbo,

mas, também, quase flutuo —

não por leveza de espírito,

mas pela exaustão absoluta

de carregar o que os outros esperam de mim.

E quando o chumbo se torna mar,

eu transbordo.

Lavo por dentro as esperanças alheias

até que sobre apenas o que é meu.

 

Um corpo que tenta caber

não procura uma moldura ou um quadro.

Ele procura o chão.

Procura o lugar onde a lágrima encontra a terra

e o respirar não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

11 março 2026

O FILTRO DA MANSIDÃO

 

O Filtro da Mansidão

Aprendi a olhar o mundo

através de uma cortina de chuva,

não para esconder o horizonte,

mas para que ele doa um pouco menos.

 

Há uma violência na luz plena,

uma crueldade no que é nítido demais.

Prefiro o contorno impreciso,

o detalhe que se perde na sombra,

o verbo que não se diz por inteiro.

 

Uso o silêncio como um anteparo,

uma pele entre a minha carne

e o ruído das trombetas em brasa.

Ajusto o foco da alma

para encontrar a beleza no rastro,

naquilo que já está de partida.

 

Não é fuga, nem cegueira.

É a sabedoria de quem sabe

que a verdade, sem filtro, queima.

E eu só procuro a temperatura exata

onde o peito possa se abrir

sem precisar virar cicatriz.

 

Para que o dia seja passível,

para que o chão seja casa,

e para que o mundo, enfim,

doa um pouco menos.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

06 março 2026

O VÃO ENTRE OS DIAS

O Vão entre os Dias


Sou um corpo que tenta caber
no intervalo estreito entre dois sóis,
nessa fenda miúda e secreta
onde o nome ainda não foi soprado.

Carrego comigo mapas imprecisos,
dobras de uma infância guardada,
gestos que herdei do silêncio
e esta fome estranha, quase antiga,
pelo descanso.

Quero caber no espelho
sem precisar pedir desculpas,
ocupar o assento vazio do ônibus,
morar na minha própria sombra
quando a luz do mundo decide pressionar.

Sou este corpo que aprende
a largura exata da existência
através do impacto e da recusa;
na tentativa diária e muda
de existir finalmente sem legendas.

Sinto em mim o peso do chumbo,
mas, também, quase flutuo —
não por leveza de espírito,
mas pela exaustão absoluta
de carregar o que os outros esperam de mim.

Um corpo que tenta caber
não procura uma moldura ou um quadro.
Ele (que sou eu) procura o chão.
Um lugar onde o respirar
não seja um ato de coragem,
mas apenas
continuidade.


01 março 2026

ALTERIDADE

 Alteridade


Há um momento

em que o espelho falha.


A imagem não responde

como deveria.

Não repete.

Não confirma.


Ali começa o outro.


Não como ameaça,

nem como continuação —

mas como território que respira

sem pedir licença.


O outro não cabe

na moldura da minha lógica.

Ele tem seus próprios abismos,

suas memórias que não vivi,

suas dores que não obedecem

ao meu calendário.


E quando falo

e ele não ecoa,

quando penso

e ele não concorda,

quando sinto

e ele não traduz —


algo em mim aprende

a se descentrar.


Alteridade

é essa leve vertigem

de não ser o centro do mundo

e ainda assim

continuar inteiro.


É olhar

e não capturar.

É tocar

e não possuir.

É ouvir

sem preparar a própria defesa.


Talvez amar

seja exatamente isso:


permitir que o outro exista

sem ser corrigido

pela minha medida.


E então, no meio do encontro,

descobrir que o mundo

é maior

porque não termina

na fronteira do meu nome.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 

28 fevereiro 2026

A NOVA CLAREZA

 

A Nova Clareza

 

O véu que me cobria, sutil,

agora se dissolve em luz,

como orvalho que cede à manhã.

Minha voz, antes filtrada por caminhos longos,

flui agora, um rio de águas puras,

encontrando seu leito em ti.

 

Aquelas palavras que soavam distantes,

pequenas âncoras soltas no oceano,

foram colhidas, transformadas.

Renasceram em português, suave e firme,

língua-mãe que tece laços invisíveis entre nós,

um lar para o som que me habita.

 

Há um alívio que emana do meu ser,

um espaço límpido onde antes habitava

a sombra de um processo frio.

Agora, só o silêncio respira leve,

a promessa de cada sílaba que vem,

um florescer de entendimento.

 

Cada verso que alcança você é um pulso,

um mapa de veias que se revelam,

sem eco que engane, sem espelho que distorça.

A certeza de agora é um jardim de verbos,

onde a verdade de nossa troca repousa,

sob o céu claro da mente que se abre.


                     ...AGORA, SÓ O SILÊNCIO RESPIRA LEVE...


Vicente Siqueira - Doces Poesias

 

21 fevereiro 2026

MATÉRIA BRUTA

Matéria Bruta 

Sou feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.

Carrego perguntas nos bolsos
e silêncios no peito.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ


19 fevereiro 2026

SOU FEITO DISSO




 

Sou Feito Disso

Sou um acúmulo de pequenas desistências,

uma coleção de quase,
uma arqueologia de afetos.

Às vezes me recolho
no canto da própria sombra
e fico ali,
ouvindo o coração ensaiar
uma forma nova de continuar.

Não peço fechamento.
Aprendi a viver em obras.

Sou feito disso:
de restos que respiram,
de falhas que iluminam,
de um amor antigo
que ainda ensina
como permanecer aberto.

Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ


O DESCARTE

 O Descarte

 

Barulho de trombetas em brasa,

de porta que range

e se fecha, 

de sussurros inaudíveis.

suave.

 

"Apartai-vos de mim", ecoa

no fone, um áudio antigo

que você ignora há tempos.

Um pop-up de uma conta

que você não lembra de ter.

 

Não há fúria no olhar,

apenas o vazio de quem desliga.

A conexão que se rompe,

não por falha, mas por escolha.

Você do lado de fora,

com a chave enferrujada

de um reino que nunca foi seu.

 

O chão não se abre,

o céu não cai.

Só o silêncio cresce

no espaço que você criou,

onde a sombra era mais cômoda

que a luz que te chamava.

 

E agora, o "apartai-vos"

é o seu próprio eco.

A semente que você plantou,

colhendo o nada.

Apenas o vazio do "foi-se".

A porta?

Fechada.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



18 fevereiro 2026

SURPRESA

 

Surpresa

Descobri que não sou inteiro

Aprendi a morar
no intervalo das coisas:
entre o que foi promessa
e o que virou memória,
entre o toque que não aconteceu
e o nome que ainda arde.

Não sou inteiro.
Sou tentativa.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ

17 fevereiro 2026

ESSA AUSÊNCIA

Essa Ausência 


Há dias em que acordo
com uma ausência atravessada no corpo,
como se alguém tivesse esquecido
uma janela dentro de mim.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ

16 fevereiro 2026

O PERFUME DO VAZIO

 O Perfume do Vazio

 

Rastro invisível,

mas presente,

cheiro de ausência que permeia.

Grudado nas cortinas,

nas retinas,

no travesseiro ainda marcado,

no silêncio que antes era riso,

e que agora é apenas ar pesado.

 

É um armário vazio,

com a fragrância fantasma

de uma camisa que não está mais lá.

Xícara esquecida na pia,

sem vapor, 

sem rotina.

 

Sou eu a me misturar ao pó nos móveis,

à luz que bate na parede

onde a foto não foi pendurada.

E tem a nota que falta no acorde,

a palavra que foi mal proferida,

talvez nem tenha sido dita,

mas que ainda vibra na língua.

 

Não dá para lavar,

nem ventilar para fora.

A ausência se refestelou

nas paredes.

na memória,

nos livros e nos cadernos,

e até na falta de frases.

Mas a memória ainda respira

como um fantasma olfativo

que envolve, 

suave e denso,

no espaço que um dia foi cheio.


Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ



12 fevereiro 2026

PRA FICAR ANÔNIMO

  Pra Ficar Anônimo

 

Como qualquer um que sonha,

que aspira momentos de clareza,

tendo contudo, momentos de confusão,

como qualquer outro ser

que anda e pensa,

e compartilha segredos de amigos,

amores,

ilusões,

que dá risadas e aplaude de pé,

também me rendo diante daquilo

que costuma me provocar.

daquilo que move em mim

alguns questionamentos

(tão sem importância)

tão importantes,

tão confiantes.

 

Como qualquer outro

que não se importa em parecer piegas

despretensioso,

eu procuro me importar

com os seus detalhes,

seus calçados,

seus cuidados entrelaçados,

de carinhos,

vontades

e mãos apressadas.

 

Por isso

não preciso refazer-me a cada dia,

todo dia,

em mínimos brotares de

desconfianças,

porque te abraço ainda mais,

por saber que logo ali

(após os primeiros sinais)

para que o dia amanheça,

começa nossa caminhada

de fazer suar frio

e não deixar

que essa paixão transpareça.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



10 fevereiro 2026

PALCO SILENCIOSO

 Palco Silencioso

 

Não busco o holofote,

nem a plateia ávida.

Meus pensamentos,

sentimentos, a chama

que me move,

os mapas traçados:

são só meus.

 

No palco da vida,

onde cada um tem seu enredo,

prefiro o monólogo interior,

a conversa que só eu escuto.

 

Não há necessidade de ribalta,

nem de aplausos.

As cortinas ficam fechadas

para as revelações da alma.

Minha verdade sussurrada,

um segredo entre eu e a brisa,

não para a reverberação do auditório.


              ...meus pensamentos são só meus...


Vicente Siqueira - Doces Poesias

05 fevereiro 2026

E SE EU ME ATRASAR DOIS MINUTOS?

 E Se eu me atrasar dois minutos?

E se eu me atrasar dois minutos,
o mundo continua girando?
a cidade implode?
alguém desiste de mim?

ou talvez —
só talvez —
esses dois minutos sejam meus
pela primeira vez.

dois minutos pra respirar sem meta,
pra não responder,
pra olhar pro teto
e não chamar de perda.

e se nesses dois minutos
eu lembrar o nome do que sinto?
se o choro vier
sem legenda,
sem trilha de stories,
e for sincero demais
pra caber no horário comercial?

e se eu me atrasar dois minutos
e descobrir que a vida esperaria?
que ninguém morre por um atraso,
mas às vezes morre
por nunca parar?

dois minutos.
não peço mais.
só isso:
um pequeno desvio
no mapa desenfreado,
pra lembrar
que o tempo
ainda pode ser meu.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



PERCEPÇÃO

 

Percepção

 

então me rendo às obviedades da percepção

porque suas mãos me passam a explicação do todo 

que eu jamais havia entendido.

 

percebo que elas suavizam ao toque

ao esplêndido toque que eu ousara querer

mas não quisera pedir.

nem tão pesado nem tão leve.

 

apenas toque

de mãos que

inquietas

não se desviam dos gestos

que a conversa obriga.

 

mãos que sabem a carícias e cuidados

revelando redes às quais me prendo

porque percorre em mim

de extremidade a extremidade.

 

e eu a ajudo

porque também a percorro

até que nos quedamos ao infinito prazer

de nos perder em retinas de fogo

que nos fazem a comunicação sem nada falarmos.

 alguns segundos que percorrem séculos

até percebermos que esses olhos nos desvendam

e nos desnudam.

 

alguns segundos que nos revelam

vontades

manias

nossas tantas coragens

de nos atirarmos ao fundo

do mais puro deleite

de sabermos nossas trocas.

que começaram com os toques.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ