Súbita Ordem do Corpo
Foi
porque meus lábios – ah, esses traidores de carne, esses cúmplices do que não
se diz – prenunciaram. Prenunciaram a tanta batalha de ser contrário ao
cérebro, essa fortaleza de negações e cautelas. O cérebro, essa máquina de
calcular riscos, essa voz que insiste em afirmar, com uma teimosia quase
infantil, que não. Que o momento não se fazia, que o instante não estava
preparado. Como se o preparo pudesse ser planejado, como se o desabrochar da
vida obedecesse a calendários.
E
então, sem alarde, quase em rendição, quedaram-se. Ficaram mudos, inertes,
lábios e pensamentos apressados. Aquela ânsia, que era uma sede primária de
tanto se entregar. Entregar-se à procura dos arrepios, que são a linguagem mais
antiga da pele. Dos movimentos desconexos, que são a coreografia do abandono.
Dos prazeres da pele, sim, mas também do corpo mais profundo, aquele que reside
além da forma, no cerne da própria sensação. Era um silêncio que clamava por um
outro tipo de conhecimento, um saber que a mente não alcança.
E
refeitos, não da batalha, mas do susto causado pela epifania. Pelo súbito
descobrir o momento. Um momento de puro encantamento, de uma beleza que é um
louvor que se faz ao prazer. E nesse desvelar, não foi o cérebro, que se fizera
tímido e retido, que voltou a comandar. Quem passou a dar ordens, com uma
autoridade que brotava da própria essência, foi a um só tempo lábios e mãos.
Despudorados, sem a menor hesitação, não se permitiam censuras. Pois o corpo,
quando fala a sua verdade mais íntima, não conhece a linguagem da vergonha. E
essa verdade, quando irrompe, é um dilúvio que transborda toda a razão.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ