O grito aprisionado por vezes sufoca a alma.
Vicente Siqueira
"O grito que se dissolve internamente, acumula peso."
Vicente Siqueira
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
Vicente Siqueira
"O grito que se dissolve internamente, acumula peso."
Vicente Siqueira
Ele caminhava pela rua, ou talvez se arrastasse por dentro de si
mesmo – as fronteiras eram sempre tão tênues. A liberdade, aquela palavra que
ecoava como um sino rouco nos seus pensamentos, parecia pairar à distância, uma
miragem cintilante no asfalto quente. Mas o peso nos ombros, um fardo invisível
tecido de expectativas e silêncios engolidos, lembrava-o a cada passo da sua
prisão. Não as grades de ferro, mas as invisíveis, construídas com a argamassa
do medo e da obrigação.
A busca pela liberdade não era um grito heroico, mas um murmúrio
hesitante nos seus dias. Um desejo de despir-se da couraça forjada pela
necessidade de ser forte, de ser provedor, de ser o esteio. E sob essa couraça,
ele pressentia a pulsação frágil de um coração que ansiava por se mostrar
vulnerável, por confessar o cansaço, o medo da falha, a sede de um afeto
desprovido de cobranças.
A liberdade que ele buscava não era a de voar alto e solitário, mas
a de pousar em terra firme, sem a máscara do invencível. Era a permissão para
sentir a dor sem a urgência de escondê-la, para derramar uma lágrima sem a
vergonha de ser visto. Era, em suma, a licença para ser imperfeito, para ser
humano em sua mais crua e delicada essência.
E nessa procura hesitante, ele descobria o paradoxo: a verdadeira
liberdade não residia na ausência de correntes, mas na coragem de expor as
feridas, de aceitar a própria vulnerabilidade como parte intrínseca da sua
humanidade. O preço da liberdade, ele percebia, não era a luta grandiosa, mas o
gesto ínfimo de abaixar a guarda, de confessar a própria fragilidade. E nesse
gesto, surpreendentemente, encontrava uma força que jamais imaginou existir. A
liberdade, afinal, era a casa onde a alma, despida de suas armaduras, podia
finalmente respirar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
O eco dos tambores ainda paira,
mesmo quando a praça já dorme.
Pisaram os confetes com pressa,
mas o vazio ficou de mãos dadas comigo.
As ruas gritavam cor, mas meus olhos,
abafados por tanta promessa,
viam apenas o chão —
molhado, brilhante de sobras.
Dancei com a multidão sem ser notado,
fui mais máscara do que rosto,
mais silêncio do que canto,
mais ausência do que desejo.
No rastro das serpentinas, busquei sentido,
mas só encontrei retalhos de mim mesmo
perdidos entre trios, brilhos e o som
de algo que prometia ser alegria.
E quando veio a quarta-feira,
não houve cinzas —
houve um espelho.
E nele, o meu cansaço vestido de festa.
Carnaval e o Sentido
O eco dos tambores atravessava os séculos,
como se a alegria pudesse justificar o tempo.
Mas eu, partícula hesitante da massa,
perguntava: quem sou entre mil rostos?
As serpentinas cortavam o céu como perguntas,
sutilezas coloridas num mundo que afunda.
O samba, tão vibrante, deslizava no asfalto,
mas em mim era abismo que não sabia dançar.
Entre máscaras sorridentes e passos precisos,
fui o intervalo, o sem-nome, o intervalo.
Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.
A euforia dos outros me atravessou
sem jamais me pertencer.
O sentido escorregava como serpentina molhada
entre os dedos da consciência desperta.
E quando a quarta-feira chegou,
não foi fim, nem recomeço.
Foi só mais uma pergunta,
silenciosa e eterna:
vale mesmo a pena fugir de si
em nome de um instante brilhante?
As ruas, tão cheias de passos e batuques,
ficaram desertas quando o som cessou.
Mas o vazio — esse não partiu.
Ele sentou-se ao meu lado, sem pedir licença.
Vi sorrisos sendo desfeitos no espelho do metrô,
fantasias esquecidas nos cantos da calçada,
e pensei: será que também eu fui inventado?
Será que minha alegria era só reflexo?
No fundo do peito, uma vontade de crer,
de que algo, talvez pequeno,
tivesse sido real naquela dança.
Mas o real é duro, e nem sempre dança.
E se a festa é um disfarce coletivo,
será a solidão o único nome sincero?
Ou será que no meio da multidão
a alma apenas cochila, à espera de um toque?
Porque o corpo pode pular, girar, cantar,
mas há perguntas que pulsam em silêncio:
Por que o riso exige tanto esforço?
E por que o silêncio é tão pesado depois?
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Vicente Siqueira RJ
Fôlego Breve
O universo, um
suspiro.
A existência,
um piscar de olhos,
entre o nada
que foi e o nada que será.
Pontos
luminosos, destinos dançando
num ballet
cósmico, efêmero.
A gravidade,
um abraço fugaz,
que nos prende
à poeira estelar,
antes que o
sopro se dissipe.
O tempo, uma
ilusão,
desdobra-se em
camadas sutis.
O agora, um
portal minúsculo,
onde o
infinito se encontra.
Em cada
respiração, um ciclo completo:
nascimento,
vida, dissolução.
A eternidade,
encapsulada
na brevidade
de um instante.
Não há antes,
não há depois,
apenas o eco
do presente.
E a finitude,
não um fim,
mas a essência
da forma.
O contorno do
que somos,
desenhado pela
fragilidade.
Cada batida do
coração,
um relógio que
se cala,
mas que ressoa
no todo.
Um átomo
pensante,
diluído no
oceano do ser,
testemunha
silenciosa do próprio desaparecimento.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
Labirinto de Ecos
Os
pensamentos, um enxame voraz,
ecoam nas
paredes da mente.
Fragmentos,
sussurros,
perguntas sem
resposta,
um coro
dissonante
que insiste em
não calar.
Onde a certeza
se esvai,
a busca se
intensifica.
Um mapa
rasgado,
passos
incertos na neblina densa.
Quem sou, no
fim das contas,
além do eco
das vozes alheias?
A verdade, um
espectro,
dança na borda
do precipício.
Existir, um
peso invisível,
uma tela em
branco à espera de cor.
O abismo me
chama, suavemente,
e o silêncio
da noite, cúmplice,
revela a
própria face do vazio.
Entre o ser e
o nada,
um fio tênue,
quase invisível,
onde a alma se
pendura,
sem saber por que persiste.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Abraço Despertado
A névoa se
dissipou dos olhos,
não mais a
incerteza dançando,
mas a promessa
do que se reconhece.
Nossas vidas,
antes em paralelo,
encontraram a
confluência esperada.
As distâncias
se encurtaram,
não mais ecos
de palavras vazias,
mas o sussurro
de um compromisso que brota.
A felicidade,
antes perdida,
renasceu sob o
peso dos lençóis,
no calor de um
toque finalmente encontrado.
O sorriso que
irradia,
os sons
despropositais que coroam os desejos,
tudo se
alinha.
A insônia, que
era menino a sonhar,
agora é a
calma de quem vê o sonho realizado.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
Entre
um hiato e outro,
o
silêncio não é vazio:
é
uma arquitetura de esperas.
Ali,
onde a fala desiste,
a
língua inventa outra semântica.
Um
léxico tátil que percorre o mapa
do
corpo
e
traduz o desejo em calafrio.
Cem
palavras se anulam.
Sem
palavras, o verbo se torna
puro
pulso.
O
mutismo não é falta;
é
a ciência de quem decifrou
a
cifra sagrada do encontro.
O
universo, que antes era imenso,
agora
se condensa.
Ele
pulsa,
secreto
e vasto,
bem
debaixo da nossa pele.
Memória do
Futuro Não Vivido
Entendo perfeitamente
essa sensação. É como se esse eco silente fosse a própria voz de um futuro que
se desenhou na minha juventude, uma promessa que, por algum motivo, não se
concretizou. É a melancolia doce de um caminho que esteve ali, quase palpável,
e que hoje habita minhas lembranças como uma paisagem ancestral, visitada
apenas pelo pensamento.
Essa
juventude, tão distante agora, guarda os vestígios daquele "eu" que
sonhava e planejava, e cujos desejos ecoam ainda hoje, mesmo que de forma
discreta. É uma parte da minha história, rica e complexa, que continua a
existir nesse espaço íntimo entre o passado e o presente.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Inventário
do Vazio
Houve
um tempo
de
extravios mútuos.
Eu
era o seu labirinto,
você,
a minha bússola quebrada.
Navegávamos
um no outro
até
esquecer as margens.
Depois,
veio a geometria seca
da
distância.
A
precisão do desapego
que
nos subtraiu.
Não
foi apenas o fim.
Foi
a erosão das palavras.
Hoje,
não nos buscamos
porque
não há mais o que achar.
O
saldo não é a falta,
é
o deserto.
Perdemos
o hábito,
o
rastro
e,
por fim, o dicionário.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Quando
o abismo for o encontro
e
a distância entre os corpos
se
resumir ao fôlego,
o
mapa perderá suas rotas.
As
linhas das mãos, dos caminhos
e
dos anos vividos
serão
fios de uma mesma trama,
tecendo,
às cegas,
o
que chamamos de amanhã.
Não
haverá margem para o "eu".
Seremos
a costura bruta,
o
ponto cruzado,
o
avesso que ninguém vê.
E
ao olharmos para fora,
não
haverá horizonte,
apenas
a paisagem vasta e densa
desse
emaranhado
onde
os laços viraram nós,
e
os nós viraram nós mesmos.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Tenho
urgência de fomes.
Hoje,
dispenso as metáforas suaves;
invoco
bocas, o gume das unhas,
o
impacto branco dos dentes
sobre
a urgência da vida.
Haverá
tempo para as asas.
Haverá
tempo para o voo e para o azul.
Mas
agora, o sagrado é tátil.
Decifra-me
o espírito,
mas
não poupes a carcaça.
Devora
o que é denso e humano em mim.
Nesta
comunhão profana,
as
palavras se tornam sangue.
O
poema não habita mais a página:
ele
ocupa o meu peito, as minhas vísceras.
Não
busques o autor.
Hoje,
o poema é o sopro
e
eu sou a carne
onde
ele se faz verdade.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Existem
frestas no tempo
onde o olho
não alcança,
mas a alma
pressente.
É o instante
em que o invisível
decide, por
um descuido,
roçar o que
em nós é intocável.
Nesse átomo
de luz,
os sentidos
se confundem:
o que eu
vejo, já é tato;
o que eu
sinto, já é visão.
Fico ali,
suspenso,
com a boca
cheia de abismos,
tateando o
vocabulário das sombras.
É uma mudez
que quase grita.
Por um triz,
o mistério
não se faz frase.
Por um
verso,
eu não
domino o indizível.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Somos
este banquete de urgências,
onde
a química do sangue
celebra
o encontro.
Um
motim de hormônios
que
não pede licença para arder.
As
palavras, todas elas,
entraram
em ponto de fusão.
Não
são mais signos,
são
lava,
são
hálito em ebulição
escrevendo
no escuro.
Dois
universos que se colidem
e,
em vez de caos,
geram
música.
Um
dueto de instantes
sustentando
o peso do mundo.
Fazemos
esse barulho de vida
para
que o tempo tome nota.
Pois
o amanhã não é espera:
é
este rastro de luz
que
deixamos agora.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Estou
suspenso.
Habito esse
hiato,
essa fresta
de in/atividade
onde o tempo
não escorre,
apenas
acumula.
O meu
silêncio deixou de ser pausa.
Agora, ele
tem massa,
tem gume,
tem o peso
de uma armadura
que se fecha
pelo lado de dentro.
Dói com uma
precisão cirúrgica.
Não é uma
chaga aberta,
não há o
vermelho do sangue,
há apenas
essa pulsação surda
de algo que
se prepara para romper.
É um
ferimento em estado de espera.
Uma dor que
ainda não tem nome,
mas que já
ocupa o corpo todo,
tateando a
pele,
procurando o
lugar exato
onde o grito
vai nascer.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
(a)Temporal
nuvens
de flores
brisa
de perfumes
chuva
de pétalas
em noites
de sol
A Cor do Ocaso
O desejo, uma brasa ainda
acesa,
sob as cinzas de um
encontro findo.
Lembra a cor do céu
naquele instante,
um laranja melancólico
tingindo a memória.
O silêncio, agora um
lençol pesado,
cobrindo o leito onde
ecoavam risos.
Nele, a ausência borda
arabescos invisíveis,
a falta tactível de uma
mão na sua.
Os encontros, fragmentos
de um sonho,
estilhaços de vidro
refletindo um paraíso breve.
A intensidade do toque, a
vertigem do olhar,
preservados como âmbar
contra o tempo.
As despedidas, um nó na
garganta,
um horizonte que se
distancia embaçado.
A promessa sussurrada ao
vento,
uma semente teimosa na
terra árida da saudade.
Mas mesmo no vazio da
separação,
persiste a melodia tênue
do querer,
a esperança, pequena chama
vacilante,
de um novo encontro ao
acaso da vida.
Viente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
Ruínas Íntimas
Pontes desabam sob meus
pés,
como cadafalsos da alma.
A travessia interrompida,
o abismo escancarado,
onde a esperança se
espatifa
em destroços e silêncio.
Cada passo tentado,
uma nova ruína a surgir.
Os pilares da fé,
corroídos,
cedem ao peso invisível
da angústia e da
incerteza.
O corpo cambaleia na
borda,
o olhar perdido no vão.
As promessas de outrora,
agora fantasmas pálidos,
pairam sobre a cratera.
E no lugar da passagem segura,
apenas a memória da
travessia,
um eco distante de um
tempo
em que os caminhos se
abriam
sem a ameaça constante da
queda,
sem a fria constatação
de que o chão pode sumir
sob o peso dos próprios
passos.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
.
O Mapa da Pele
Os dedos, cartógrafos do
corpo,
deslizam por planícies e
vales,
decifrando o relevo da
saudade.
Cada toque, um mapa
secreto,
onde os lábios reencontram
o caminho da sede.
A ausência, um continente
inexplorado,
onde as palavras se perdem
e o silêncio ganha
contornos.
O eco da voz que se calou,
uma bússola quebrada,
apontando para o vazio.
Nos encontros breves,
o tempo se dobra em
origami.
Um olhar, um gesto,
um universo inteiro
caber em um instante
roubado.
A promessa suspensa no ar,
um fio invisível ligando
dois pontos no infinito.
E as despedidas,
portos de partida,
onde os navios da alma
desfazem os nós.
O adeus, um vento frio,
levando consigo
pedaços da paisagem
interna.
Mas a esperança, teimosa,
ancorada no cais do peito,
aguarda o próximo
embarque.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
Minha mente é um labirinto de artes: coleciona pecados como quem guarda relíquias e se diverte no escuro da intenção. Enquanto isso, minha boca — mais prática — desenha gracejos na geografia das peles.
Tenho um vício em subversões. Gosto de desorientar o dicionário, trocando o peso das vírgulas pelo calor do toque, fazendo o sentido das coisas mudar de lugar.
Não é apenas um encontro; é uma torre de Babel construída no espaço de um abraço. Sou poliglota no silêncio: falo todos os idiomas do prazer dentro de um único beijo sortido de urgências.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Meus
olhos perderam a gramática das ruas.
Desprezaram
a vastidão das paisagens
e
a distração das cores mundanas.
Eles
se tornaram especialistas
em
um único relevo: o teu.
Há
uma monotonia sagrada no meu ver.
Uma
insistência da pupila
que
se recusa ao novo,
preferindo
o conforto do conhecido.
Minha
visão virou discurso.
Um
vocabulário de luz e sombra
que,
mesmo em silêncio,
não
sabe pronunciar outros nomes.
Sou
um prisioneiro voluntário
desse
horizonte restrito.
Pois,
de tanto te buscarem,
meus
olhos aprenderam que a beleza
não
mora na variedade,
mas
na precisão de onde decidem
pousar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Doce Poesia
De Vicente
Siqueira (Adaptação para Jogral)
(Todos -
Uníssono):
Há uma
doçura que não vem do açúcar,
Vem do verso
que se molda no paladar da alma.
(Voz 1 -
Masculino):
Escrevo com
o mel da vivência,
Pintando em
papel a cor do sentimento.
Não é apenas
rima, é sobrevivência,
É o silêncio
que rompe o isolamento.
(Voz 2):
Cada estrofe
é um pedaço de fruta madura,
Colhida no
pomar de um tempo que passou.
A poesia é a
mão que cura,
Onde a
amargura o mundo deixou.
(Voz 1 -
Masculino):
Se a vida
trava o passo e o gosto,
Eu tempero o
dia com a palavra exata.
(Todos -
Uníssono):
Pois não há
inverno, cansaço ou desgosto,
Que uma doce
poesia não desbarata!
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ