05 junho 2026

TUDO O QUE RESTOU

 

Tudo o Que Restou

A minha autenticidade é essa:

não aquilo que construí para mostrar ao mundo,

não os nomes que recebi,

não as certezas que aprendi a repetir.

A minha verdade mora

entre as coisas que se quebraram

e não voltaram a ser como antes.

Sou feito também de ausências.

De cadeiras vazias.

De conversas interrompidas.

De caminhos que terminam

antes do horizonte.

Durante muito tempo

achei que perder era diminuir.

Hoje desconfio

que algumas perdas nos revelam.

Há partes de mim

que só surgiram

quando tu foste embora.

Como rios escondidos

que aparecem

depois que a seca racha a terra.

Como estrelas

que só podem ser vistas

quando a noite chega.

Por isso não nego a falta.

Não cubro a cicatriz.

Não finjo inteireza.

Carrego a tua ausência

como quem carrega uma lâmpada acesa

numa casa antiga.

Nem para esquecer.

Nem para voltar.

Mas porque a luz que ficou

ainda me ajuda a enxergar.

E se alguém me perguntar

quem sou,

talvez eu não saiba responder

com nomes,

ofícios

ou retratos.

Talvez eu diga apenas:

sou a forma que o tempo encontrou

de continuar respirando

depois da despedida.

Sou o eco que permaneceu

quando a voz se calou.

Sou a memória

transformada em caminho.

Sou tudo o que restou

depois que partiste.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



O QUE FICA

 

O Que Fica

No fim,

quando as grandes promessas envelhecem,
quando os projetos mudam de nome,
quando as certezas se desfazem
como tinta sob a chuva,

o que fica?

Não ficam os aplausos.

Não ficam os dias de glória
que pareciam eternos.

Não ficam as disputas
que um dia pareceram decisivas.

Ficam coisas menores.

Tão pequenas
que quase passam despercebidas
enquanto acontecem.

O café compartilhado numa manhã comum.

A mensagem enviada sem motivo.

A mão estendida
quando o mundo pesava demais.

A voz que não trouxe respostas,
mas permaneceu ao lado da pergunta.

Fica o olhar que compreende
sem exigir explicações.

A presença que não resolve a dor,
mas impede que ela seja atravessada sozinho.

Fica o carinho.

Esse gesto simples
que não muda o curso dos astros,
não altera a história dos impérios,
não ocupa as manchetes,

mas sustenta silenciosamente
o universo de alguém.

Talvez a vida seja isso:

uma longa travessia
na qual vamos perdendo muitas coisas
até descobrir
o valor das que não podem ser possuídas.

Porque o amor,
quando amadurece,

deixa de ser espetáculo.

Torna-se companhia.

Torna-se escuta.

Torna-se abrigo.

E então compreendemos,
às vezes tarde,
às vezes exatamente na hora certa,

que a verdadeira riqueza
não era aquilo que brilhava à distância,

mas aquilo que sentava ao nosso lado
e permanecia.

E permanecia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

01 junho 2026

VULNERÁVEL, EU E TU

 VULNERÁVEL, EU E TU

Dizem que só se é verdadeiro
quando se deixa a armadura cair,
quando o peito fica exposto ao vento,
ao frio, à dor que não quer ir embora.
E eu, que sempre achei que ser forte
era calar o que sentia,
vejo agora que a minha maior verdade
está justamente no que me faz fraco,
no que me deixa pequeno,
no que me deixa nu diante de mim mesmo.
É essa vulnerabilidade que me faz existir.
Porque dentro desse “Eu” que eu penso ser,
há um “Tu” que não se apaga,
que não se muda, que não se esquece.
Você mora nos cantos que não se varrem,
nos silêncios que mais gritam,
nos espaços vazios que o tempo
teimou em deixar como estão.
Perdi-te, é fato.
Mas a perda não foi o fim,
foi talvez o começo de entender
que amar também é sofrer de ausência.
E é justamente por eu estar tão quebrado,
tão cheio de falta, tão carente de ti,
que me torno autêntico.
Não há mentira na dor que aperta o peito,
não há fingimento na saudade que não passa.
Quando escrevo, tenho medo de não ser eu.
Mas veja:
cada palavra que sai é um pedaço que arranco de dentro,
é um nervo exposto,
é uma ferida que ainda respira.
É essa fragilidade que me liga a ti,
que mantém viva a tua presença em mim.
Se eu fosse inteiro, se eu fosse duro,
se eu não sentisse essa falta que me consome,
talvez nem houvesse poesia.
Mas eu sou esse homem que sente,
que chora por dentro, que pede colo ao tempo,
que carrega o teu nome como uma cicatriz bonita.
E é assim, vulnerável,
com a tua imagem gravada no meu “Eu”,
que eu sou mais verdadeiro do que nunca.
Porque o “Tu” que vive aqui dentro
só existe porque eu me permiti perder,
me permiti doer,
me permiti continuar amando
mesmo sabendo que já não te tenho mais.

A minha autenticidade é essa:
ser tudo o que restou
depois que você partiu.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


31 maio 2026

A CAPACIDADE DE NEGAR

 

A CAPACIDADE DE NEGAR


E a minha capacidade de negar?
O que faço com ela?
Guardo-a numa gaveta escura,
junto com as chaves do que não abri,
com os bilhetes que não enviei,
com os beijos que guardei na garganta?
Ou deixo-a à mostra,
como um objeto que não sei usar,
que pesa na palma da mão
e aquece, queima, até fazer entender
que negar também é uma forma de existir?
Neguei o cansaço quando o corpo pedia parada.
Neguei a saudade para não doer mais fundo.
Neguei o amor para não correr o risco
de ver tudo desmoronar ao toque dos dedos.
Mas negar também é escolher, não é?
É dizer “não” ao que chega,
para proteger o que fica escondido,
o que é meu, o que é íntimo,
o que ainda não tem nome nem forma.
E agora que ela está aqui,
tão forte, tão viva, tão minha,
eu pergunto de novo:
o que se faz com o dom de negar?
Guarda-se?
Usa-se?
Ou deixa-se que ela mesma nos ensine
o que é aceitar de verdade,
só depois de ter sabido dizer não?

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


25 maio 2026

LANCES POR AMOR

Lances Por Amor 

Há quem ame em silêncio,
como quem observa um leilão antigo
com as mãos escondidas no bolso
e o coração erguido no ar.
Cada afeto faz sua oferta: um abraço tardio,
uma mensagem não enviada,
um ciúme disfarçado de conselho,
uma despedida que queria ficar.
O amor às vezes parece isso —
um salão cheio de ecos,
onde ninguém admite
o quanto está disposto a perder.
Alguns oferecem o orgulho.
Outros, o futuro inteiro.
Há quem entregue noites, nomes, cidades.
Há quem aposte a própria paz.
E no fim,
quase nunca vence
quem tem mais coragem.
Vence quem permanece
mesmo depois do silêncio
dar seu lance final.

APRENDENDO A DIZER NÃO

 

Aprendendo a Dizer Não

Sento-me na beira do vazio

o peso do mundo sobre mim.

Quis caber em todos os lugares,

fui abraço para quem me feriu,

caminho para quem me deixou.

 

A voz que se esconde no meu peito

ensaiou um "sim" por tempo demais,

e a palavra que precisava ser dita

se dissolveu no ar, frágil e muda.

 

Mas sinto agora um tremor,

uma força que nasce do cansaço,

e a frase que me liberta

ecoará em cada fenda,

em cada lugar que eu não posso mais ser.

A minha vida se fará de "nãos",

e a minha paz, de novos "sins".


Vicente Siqueirq - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



24 maio 2026

LABIRINTOS DA ALMA EM FLOR

 

Labirintos da Alma em Flor


Eu me pego observando as trepadeiras na parede antiga,

seus caules emaranhados,

as folhas novas despontando verdes e tenras.

Uma metáfora viva, penso,

para os labirintos que guardo aqui dentro.

Minha alma, às vezes,

parece um jardim em constante crescimento,

com veredas que se cruzam

e becos sem saída que se abrem de repente.

Eu tento mapear esses caminhos,

entender por que certas portas se fecham

e outras, inesperadamente, se escancaram.

Há flores que desabrocham em lugares sombrios,

resilientes, teimosas.

E há sementes que se recusam a brotar,

mesmo sob o sol mais intenso.

Eu as rego com minhas dúvidas,

com a água dos meus pensamentos.

Às vezes, me perco nesses meandros,

andando em círculos,

buscando uma saída que parece não existir.

A voz da inquietação sussurra em meus ouvidos,

enquanto a esperança, um fio tênue,

me guia por entre as folhagens.

Eu toco as pétalas de uma flor recém-aberta,

seu toque suave me acalma.

Ela não tem pressa,

apenas existe em sua plenitude.

E eu, eu também aprendo a existir.

Descubro que o labirinto não é para ser vencido,

mas para ser percorrido.

Cada curva, uma nova perspectiva.

Cada folha, uma lição de paciência.

É nesse emaranhado de vida e emoção

que minha alma floresce,

nem sempre de forma perfeita,

mas sempre em busca de luz.

E é ali, no centro desse meu próprio jardim,

que eu me encontro,

um pouco mais desvendado,

um pouco mais em paz.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pira RJ.