Matéria Bruta
Sou
feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.
Carrego
perguntas nos bolsos
e silêncios no peito.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
Sou
feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.
Carrego
perguntas nos bolsos
e silêncios no peito.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Sou um acúmulo de pequenas desistências,
uma coleção de quase,
uma arqueologia de afetos.
Às vezes
me recolho
no canto da própria sombra
e fico ali,
ouvindo o coração ensaiar
uma forma nova de continuar.
Não peço
fechamento.
Aprendi a viver em obras.
O Descarte
Barulho de trombetas em brasa,
de porta que range
e se fecha,
de sussurros inaudíveis.
suave.
"Apartai-vos de mim", ecoa
no fone, um áudio antigo
que você ignora há tempos.
Um pop-up de uma conta
que você não lembra de ter.
Não há fúria no olhar,
apenas o vazio de quem desliga.
A conexão que se rompe,
não por falha, mas por escolha.
Você do lado de fora,
com a chave enferrujada
de um reino que nunca foi seu.
O chão não se abre,
o céu não cai.
Só o silêncio cresce
no espaço que você criou,
onde a sombra era mais cômoda
que a luz que te chamava.
E agora, o "apartai-vos"
é o seu próprio eco.
A semente que você plantou,
colhendo o nada.
Apenas o vazio do "foi-se".
A porta?
Fechada.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Descobri que não sou inteiro
Aprendi a
morar
no intervalo das coisas:
entre o que foi promessa
e o que virou memória,
entre o toque que não aconteceu
e o nome que ainda arde.
Não sou
inteiro.
Sou tentativa.
Há dias
em que acordo
com uma ausência atravessada no corpo,
como se alguém tivesse esquecido
uma janela dentro de mim.
Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ
O Perfume do Vazio
Rastro invisível,
mas presente,
cheiro de ausência que permeia.
Grudado nas cortinas,
nas retinas,
no travesseiro ainda marcado,
no silêncio que antes era riso,
e que agora é apenas ar pesado.
É um armário vazio,
com a fragrância fantasma
de uma camisa que não está mais lá.
Xícara esquecida na pia,
sem vapor,
sem rotina.
Sou eu a me misturar ao pó nos móveis,
à luz que bate na parede
onde a foto não foi pendurada.
E tem a nota que falta no acorde,
a palavra que foi mal proferida,
talvez nem tenha sido dita,
mas que ainda vibra na língua.
Não dá para lavar,
nem ventilar para fora.
A ausência se refestelou
nas paredes.
na memória,
nos livros e nos cadernos,
e até na falta de frases.
Mas a memória ainda respira
como um fantasma olfativo
que envolve,
suave e denso,
no espaço que um dia foi cheio.
Doces Poesias - Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ
Pra Ficar Anônimo
Como qualquer um que sonha,
que aspira momentos de clareza,
tendo contudo, momentos de confusão,
como qualquer outro ser
que anda e pensa,
e compartilha segredos de amigos,
amores,
ilusões,
que dá risadas e aplaude de pé,
também me rendo diante daquilo
que costuma me provocar.
daquilo que move em mim
alguns questionamentos
(tão sem importância)
tão importantes,
tão confiantes.
Como qualquer outro
que não se importa em parecer piegas
despretensioso,
eu procuro me importar
com os seus detalhes,
seus calçados,
seus cuidados entrelaçados,
de carinhos,
vontades
e mãos apressadas.
Por isso
não preciso refazer-me a cada dia,
todo dia,
em mínimos brotares de
desconfianças,
porque te abraço ainda mais,
por saber que logo ali
(após os primeiros sinais)
para que o dia amanheça,
começa nossa caminhada
de fazer suar frio
e não deixar
que essa paixão transpareça.
Palco Silencioso
Não busco o holofote,
nem a plateia ávida.
Meus pensamentos,
sentimentos, a chama
que me move,
os mapas traçados:
são só meus.
No palco da vida,
onde cada um tem seu enredo,
prefiro o monólogo interior,
a conversa que só eu escuto.
Não há necessidade de ribalta,
nem de aplausos.
As cortinas ficam fechadas
para as revelações da alma.
Minha verdade sussurrada,
um segredo entre eu e a brisa,
não para a reverberação do auditório.
...meus pensamentos são só meus...
Vicente Siqueira - Doces Poesias
E Se eu me atrasar dois minutos?
E se eu me atrasar dois minutos,
o mundo continua girando?
a cidade implode?
alguém desiste de mim?
ou talvez —
só talvez —
esses dois minutos sejam meus
pela primeira vez.
dois minutos pra respirar sem meta,
pra não responder,
pra olhar pro teto
e não chamar de perda.
e se nesses dois minutos
eu lembrar o nome do que sinto?
se o choro vier
sem legenda,
sem trilha de stories,
e for sincero demais
pra caber no horário comercial?
e se eu me atrasar dois minutos
e descobrir que a vida esperaria?
que ninguém morre por um atraso,
mas às vezes morre
por nunca parar?
dois minutos.
não peço mais.
só isso:
um pequeno desvio
no mapa desenfreado,
pra lembrar
que o tempo
ainda pode ser meu.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
então me rendo às obviedades da percepção
porque suas mãos me passam a explicação do todo
que eu jamais havia entendido.
percebo que elas suavizam ao toque
ao esplêndido toque que eu ousara querer
mas não quisera pedir.
nem tão pesado nem tão leve.
apenas toque
de mãos que
inquietas
não se desviam dos gestos
que a conversa obriga.
mãos que sabem a carícias e cuidados
revelando redes às quais me prendo
porque percorre em mim
de extremidade a extremidade.
e eu a ajudo
porque também a percorro
até que nos quedamos ao infinito prazer
de nos perder em retinas de fogo
que nos fazem a comunicação sem nada falarmos.
até percebermos que esses olhos nos desvendam
e nos desnudam.
alguns segundos que nos revelam
vontades
manias
nossas tantas coragens
de nos atirarmos ao fundo
do mais puro deleite
de sabermos nossas trocas.
que começaram com os toques.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Grito
O eco do nada
na garganta seca.
um berro mudo
que rasga o ar
e não encontra ouvido.
o sol de junho,
mesmo em barra do piraí,
não aquece o vazio
deste grito sem rumo,
sem porto.
é a voz do deserto em mim,
areia fina que escorre
entre os dedos da memória.
não há lamento,
não há revolta.
apenas o som puro
de uma existência
que se recusa a calar,
mesmo sem ter o que dizer.
é o ruído branco da alma,
um sussurro amplificado
pela ausência de sentido.
e ainda assim, grito.
grito sem causa,
grito sem propósito.
apenas para saber
que ainda posso.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Testemunha do Verbo (experiência)
Não sou mais quem escreve.
Será que isso é perda? Ou é vertigem?
Algo sempre acontece antes de mim
e continua depois.
Eu apenas acordo no meio do acontecimento,
percebendo que já estava respirando
sem ter decidido nascer.
A história não pede meu nome.
Ela passa.
E ao passar, me deixa esse estado:
uma atenção ferida,
um silêncio que pensa.
O verbo encostou no meu rosto
testando a temperatura da alma.
Nada a ver comigo.
Nunca.
Eu apenas senti —
e sentir já foi demais.
Assusta quando o que criei me devolve um olhar.
Não é certo. Nem sei o que dizer.
Talvez revelação.
Talvez aquele texto que sabe das coisas que escondi
e por educação não quer me atrapalhar,
por medo do retorno,
por excesso de lucidez.
O papel respira.
E eu me dou conta tarde demais
de que não sou o pulmão.
Sou o intervalo entre uma inspiração e outra,
esse espaço indeciso
onde o milagre escolhe acontecer
sem testemunhas confiáveis.
A tinta corre.
E não me pergunta nada.
Talvez porque a resposta
não me pertença mais.
Fico.
E agora sinto como autor.
Como quem presenciou algo vivo
e agora precisa aprender
a não trocar o verbo.
É assim e pronto.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Sou um corpo que tenta caber
no intervalo estreito entre dois sóis,
nessa fenda miúda e secreta
onde o nome ainda não foi soprado.
Carrego comigo mapas imprecisos,
dobras de uma infância guardada,
gestos que herdei do silêncio
e esta fome estranha, quase antiga,
pelo descanso.
Quero caber no espelho
sem precisar pedir desculpas,
ocupar o assento vazio do ônibus,
morar na minha própria sombra
quando a luz do mundo decide pressionar.
Sou este corpo que aprende
a largura exata da existência
através do impacto e da recusa;
na tentativa diária e muda
de existir finalmente sem legendas.
Às vezes sinto o peso do chumbo,
noutras, quase flutuo —
não por leveza de espírito,
mas pela exaustão absoluta
de carregar o que os outros esperam de mim.
Um corpo que tenta caber
não procura uma moldura ou um quadro.
Ele procura o chão.
Um lugar onde respirar
não seja um ato de coragem,
mas apenas
continuidade.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ