16 agosto 2026

PERGUNTAS QUE NÃO APRENDEM A PARTIR

 Perguntas que não aprendem a partir

Trago em mim perguntas
que insistem em não sair.

Elas moram nos cantos do peito,
entre um silêncio e outro,
feito móveis antigos
numa casa que já mudou de dono.

Não pedem resposta.
Pedem abrigo.

Às vezes acordam comigo,
sentam à beira da cama,
observam o dia nascer
como quem espera um sinal
que nunca foi prometido.

Carrego essas perguntas
no bolso da alma,
misturadas com recibos de perdas,
fotografias que não tirei,
nomes que desaprendi.

São perguntas sem ponto de interrogação.
São perguntas em estado de respiração.

Perguntam por tudo
e por nada:

por aquela versão de mim
que acreditava mais,
por amores que ficaram em modo avião,
por caminhos que não viraram rua.

Eu sigo andando com elas.

Às vezes penso
que não sou quem pergunta —
sou o lugar onde as perguntas repousam.

E talvez seja isso:

não nascer para responder o mundo,
mas para sustentá-lo
enquanto ele treme
dentro do peito.


Vicente Siqueira - 

10 agosto 2026

CARTOGRAFIA DAS PERGUNTAS

 Cartografia das perguntas

As perguntas não batem à porta.
Já nasceram dentro.

Crescem em lugares improváveis:
atrás dos olhos,
no intervalo entre dois pensamentos,
na dobra do cansaço.

Não querem solução.
Querem permanência.

São perguntas que andam descalças
pela memória,
que bebem água nos restos do dia,
que dormem atravessadas
no travesseiro da consciência.

Às vezes penso
que carrego um pequeno deserto por dentro,
e nele
essas perguntas fazem sombra.

Não perguntam “por quê”.
Perguntam “ainda”.

Ainda dói?
Ainda lembra?
Ainda acredita em algum tipo de manhã?

Eu respondo vivendo.

Cada gesto é uma tentativa.
Cada silêncio, um parágrafo.

Talvez maturidade seja isso:
aprender a caminhar
com perguntas no colo
como quem carrega uma criança cansada
sem exigir que ela explique o choro.

Sou feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.

E sigo —

não como quem procura respostas,
mas como quem aprendeu
a ser morada.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

20 junho 2026

CONTINUIDADE DO QUE NÃO FECHA

 Continuidade do que não fecha

Se a ideia permanece escorregadia,
é porque não há forma estável
capaz de contê-la.

O pensamento tenta fixar,
mas só consegue contornar.

Há sempre um resto
que não se deixa dizer.

E talvez seja esse resto
que sustenta tudo.

Sem ele,
não haveria movimento.

A consciência insiste
em organizar o que falta,
como se a ausência
pudesse ser disposta
em alguma ordem suportável.

Mas toda ordem falha.

Não por erro,
mas por natureza.

Porque aquilo que falta
não é uma parte ausente —
é o próprio fundo.

Pensar, então,
é operar sobre um vazio
que não pode ser preenchido,
apenas reconhecido
em suas variações.

Cada pergunta
não abre um caminho,
abre um campo.

E nesse campo,
o sentido não se fixa —
ele oscila.

Talvez por isso
haja cansaço.

Não o cansaço do esforço,
mas o de sustentar
o que não se resolve.

Ainda assim,
há continuidade.

Algo permanece
mesmo sem fundamento claro.

E esse algo
não é resposta,
não é verdade,
não é conclusão.

É apenas a insistência.

Uma espécie de permanência
sem garantia,
sem centro,
sem finalidade.

Se existe alguma lucidez nisso,
não está em entender,
mas em não interromper.

Seguir pensando
não como quem avança,
mas como quem mantém acesa
uma pergunta
que não precisa terminar.



"A consciência insiste

em organizar o que falta,

como se a ausência

pudesse ser disposta

em alguma ordem suportável."

 


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


15 junho 2026

HIPÓTESE

 Hipótese

Nada de resposta prevista.

Junto  interrogações,
porquês,
quereres,
dúvidas.

Sou algo (ou alguém),
alguém em funcionamento
algo que não se sustenta sozinho.

Talvez uma consciência
não produzindo sentido.
Apenas organizando o que falta.

Meus porquês são simples lacunas
sem caminhos.

Meus quereres não me orientam 

Eles revelam insuficiências.

Minhas dúvidas não são falhas.
São estruturas.

Sendo assim (se for assim),
existir não é descobrir,
nem alcançar,
nem compreender.

É sustentar um conjunto instável
sem exigir coerência final.

Pensar, então,
não seria avançar —
seria manter ativo
um campo de questões
que não se deixam encerrar.

Não há síntese.

Há continuidade.

E, nesse processo,
o que se chama “eu”
talvez seja apenas isso:

o ponto onde as perguntas
se acumulam
sem nunca se resolverem.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

10 junho 2026

EXERCÍCIO DE JUNTAR O QUE NÃO FECHA

 Exercício de juntar o que não fecha

E se existir
for apenas um exercício
de juntar perguntas?

Como quem recolhe fragmentos
de um espelho que nunca foi inteiro,
sabendo — desde o início —
que o reflexo não depende da forma.

Juntar interrogações
como quem tenta aquecer as mãos
com o vapor do próprio pensamento.

Os porquês
não como busca,
mas como matéria.

Os quereres
não como direção,
mas como força dispersa
tentando lembrar de onde veio.

As dúvidas
como pequenas gravidades
que mantêm tudo em órbita
sem nunca permitir repouso.

Talvez viver seja isso:
um gesto contínuo de reunião
sem promessa de unidade.

Uma espécie de colagem ontológica,
onde cada parte recusa o todo
e, ainda assim,
permanece ao lado das outras
por alguma afinidade invisível.

Há algo de ritual nisso —

como se, ao juntar o incompleto,
tocássemos de leve
a ideia de um sentido
que não quer ser encontrado,
apenas insinuado.

E no centro desse gesto,
quase imperceptível,
há um silêncio que observa:

não o silêncio da ausência,
mas o silêncio anterior à escolha,
onde nenhuma resposta foi preferida
e, por isso,
todas ainda são possíveis.

Se existir for isso,
não há erro em não concluir.

Há apenas o movimento —
essa tentativa delicada
de segurar o indizível
sem exigir que ele se torne palavra.

E talvez, no fim,
não sejamos o que junta,

mas o intervalo
onde as coisas
se deixam aproximar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

05 junho 2026

TUDO O QUE RESTOU

 

Tudo o Que Restou

A minha autenticidade é essa:

não aquilo que construí para mostrar ao mundo,

não os nomes que recebi,

não as certezas que aprendi a repetir.

A minha verdade mora

entre as coisas que se quebraram

e não voltaram a ser como antes.

Sou feito também de ausências.

De cadeiras vazias.

De conversas interrompidas.

De caminhos que terminam

antes do horizonte.

Durante muito tempo

achei que perder era diminuir.

Hoje desconfio

que algumas perdas nos revelam.

Há partes de mim

que só surgiram

quando tu foste embora.

Como rios escondidos

que aparecem

depois que a seca racha a terra.

Como estrelas

que só podem ser vistas

quando a noite chega.

Por isso não nego a falta.

Não cubro a cicatriz.

Não finjo inteireza.

Carrego a tua ausência

como quem carrega uma lâmpada acesa

numa casa antiga.

Nem para esquecer.

Nem para voltar.

Mas porque a luz que ficou

ainda me ajuda a enxergar.

E se alguém me perguntar

quem sou,

talvez eu não saiba responder

com nomes,

ofícios

ou retratos.

Talvez eu diga apenas:

sou a forma que o tempo encontrou

de continuar respirando

depois da despedida.

Sou o eco que permaneceu

quando a voz se calou.

Sou a memória

transformada em caminho.

Sou tudo o que restou

depois que partiste.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



O QUE FICA

 

O Que Fica

No fim,

quando as grandes promessas envelhecem,
quando os projetos mudam de nome,
quando as certezas se desfazem
como tinta sob a chuva,

o que fica?

Não ficam os aplausos.

Não ficam os dias de glória
que pareciam eternos.

Não ficam as disputas
que um dia pareceram decisivas.

Ficam coisas menores.

Tão pequenas
que quase passam despercebidas
enquanto acontecem.

O café compartilhado numa manhã comum.

A mensagem enviada sem motivo.

A mão estendida
quando o mundo pesava demais.

A voz que não trouxe respostas,
mas permaneceu ao lado da pergunta.

Fica o olhar que compreende
sem exigir explicações.

A presença que não resolve a dor,
mas impede que ela seja atravessada sozinho.

Fica o carinho.

Esse gesto simples
que não muda o curso dos astros,
não altera a história dos impérios,
não ocupa as manchetes,

mas sustenta silenciosamente
o universo de alguém.

Talvez a vida seja isso:

uma longa travessia
na qual vamos perdendo muitas coisas
até descobrir
o valor das que não podem ser possuídas.

Porque o amor,
quando amadurece,

deixa de ser espetáculo.

Torna-se companhia.

Torna-se escuta.

Torna-se abrigo.

E então compreendemos,
às vezes tarde,
às vezes exatamente na hora certa,

que a verdadeira riqueza
não era aquilo que brilhava à distância,

mas aquilo que sentava ao nosso lado
e permanecia.

E permanecia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

01 junho 2026

VULNERÁVEL, EU E TU

 VULNERÁVEL, EU E TU

Dizem que só se é verdadeiro
quando se deixa a armadura cair,
quando o peito fica exposto ao vento,
ao frio, à dor que não quer ir embora.
E eu, que sempre achei que ser forte
era calar o que sentia,
vejo agora que a minha maior verdade
está justamente no que me faz fraco,
no que me deixa pequeno,
no que me deixa nu diante de mim mesmo.
É essa vulnerabilidade que me faz existir.
Porque dentro desse “Eu” que eu penso ser,
há um “Tu” que não se apaga,
que não se muda, que não se esquece.
Você mora nos cantos que não se varrem,
nos silêncios que mais gritam,
nos espaços vazios que o tempo
teimou em deixar como estão.
Perdi-te, é fato.
Mas a perda não foi o fim,
foi talvez o começo de entender
que amar também é sofrer de ausência.
E é justamente por eu estar tão quebrado,
tão cheio de falta, tão carente de ti,
que me torno autêntico.
Não há mentira na dor que aperta o peito,
não há fingimento na saudade que não passa.
Quando escrevo, tenho medo de não ser eu.
Mas veja:
cada palavra que sai é um pedaço que arranco de dentro,
é um nervo exposto,
é uma ferida que ainda respira.
É essa fragilidade que me liga a ti,
que mantém viva a tua presença em mim.
Se eu fosse inteiro, se eu fosse duro,
se eu não sentisse essa falta que me consome,
talvez nem houvesse poesia.
Mas eu sou esse homem que sente,
que chora por dentro, que pede colo ao tempo,
que carrega o teu nome como uma cicatriz bonita.
E é assim, vulnerável,
com a tua imagem gravada no meu “Eu”,
que eu sou mais verdadeiro do que nunca.
Porque o “Tu” que vive aqui dentro
só existe porque eu me permiti perder,
me permiti doer,
me permiti continuar amando
mesmo sabendo que já não te tenho mais.

A minha autenticidade é essa:
ser tudo o que restou
depois que você partiu.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


31 maio 2026

A CAPACIDADE DE NEGAR

 

A CAPACIDADE DE NEGAR


E a minha capacidade de negar?
O que faço com ela?
Guardo-a numa gaveta escura,
junto com as chaves do que não abri,
com os bilhetes que não enviei,
com os beijos que guardei na garganta?
Ou deixo-a à mostra,
como um objeto que não sei usar,
que pesa na palma da mão
e aquece, queima, até fazer entender
que negar também é uma forma de existir?
Neguei o cansaço quando o corpo pedia parada.
Neguei a saudade para não doer mais fundo.
Neguei o amor para não correr o risco
de ver tudo desmoronar ao toque dos dedos.
Mas negar também é escolher, não é?
É dizer “não” ao que chega,
para proteger o que fica escondido,
o que é meu, o que é íntimo,
o que ainda não tem nome nem forma.
E agora que ela está aqui,
tão forte, tão viva, tão minha,
eu pergunto de novo:
o que se faz com o dom de negar?
Guarda-se?
Usa-se?
Ou deixa-se que ela mesma nos ensine
o que é aceitar de verdade,
só depois de ter sabido dizer não?

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ