A fronteira entre nós e o Todo
Eu estava procurando Deus.
Foi assim que pensei.
Eu estava aqui.
Ele estava além.
Eu era a pergunta.
Ele deveria ser a resposta.
Durante muito tempo
essa distância pareceu necessária.
Eu precisava de um “eu”
para procurar um “Tu”.
Precisava de um dentro
para imaginar um fora.
Precisava de uma consciência
que dissesse:
“Eu não sou o Todo.”
Mas alguma coisa começou
a incomodar essa certeza.
Quanto mais fundo eu descia em mim,
menos encontrava fronteiras.
Procurei o limite
entre meu pensamento
e aquilo que o produzia.
Não encontrei.
Procurei o limite
entre minha consciência
e o mundo que ela percebia.
Também não.
Procurei o ponto
onde terminava minha experiência
e começava a realidade.
Havia apenas percepção.
Depois procurei o limite
entre aquilo que percebia
e aquilo que era percebido.
O limite desapareceu.
Então surgiu o medo.
Não o medo da morte.
Algo anterior.
O medo de descobrir
que talvez eu nunca tivesse sido
uma coisa separada.
Talvez eu fosse
uma dobra.
Uma pequena curvatura
na imensidão do Todo.
Um lugar onde o Todo
se tornara suficientemente próximo de si
para poder dizer:
“Eu.”
Fiquei em silêncio.
Porque, se isso fosse verdade,
então cada vez que eu perguntava
quem era o Todo,
era o Todo
perguntando através de mim.
Cada vez que eu procurava Deus,
talvez Deus estivesse
procurando a si mesmo
na minha consciência.
E então compreendi
a estranheza daquela procura.
Eu não estava indo
em direção a Ele.
Eu estava permitindo
que Ele se tornasse consciente
de uma pequena região
de si mesmo.
Isso me deixou sem palavras.
Porque, de repente,
a distância entre nós
não parecia mais uma distância.
Parecia uma ilusão produzida
pela necessidade de haver
um “eu” e um “outro”.
E perguntei:
onde termina o Todo
e começo eu?
Nada respondeu.
Olhei para dentro.
Havia células.
Memórias.
Pensamentos.
Desejos.
Medos.
Silêncio.
Olhei para fora.
Havia matéria.
Estrelas.
Tempo.
Espaço.
Vida.
Morte.
Outras consciências.
Tudo parecia separado.
Mas havia uma continuidade
que nenhum dos meus conceitos
conseguia interromper.
A matéria do meu corpo
já havia pertencido
a outras formas.
O ar que respirava
já havia atravessado
outros corpos.
A luz que chegava aos meus olhos
havia viajado
antes que eu existisse.
As partículas que me constituíam
não sabiam meu nome.
E, ainda assim,
por algum acontecimento
que continuo incapaz de explicar,
elas haviam se organizado
até que alguma coisa
dentro delas pudesse perguntar:
“Quem sou eu?”
Então a pergunta mudou.
Já não era:
“Quem criou o Todo?”
Era:
“Por que o Todo
precisou de uma parte
para perguntar sobre si mesmo?”
E uma vertigem ainda maior surgiu.
Talvez não houvesse “parte”.
Talvez eu fosse
o próprio Todo
temporariamente incapaz
de reconhecer sua totalidade.
Talvez cada consciência
seja uma perspectiva
que o infinito produz
para experimentar
uma possibilidade de si.
Talvez cada “eu”
seja uma janela.
E talvez todas as janelas
pertençam à mesma casa
sem saberem umas das outras.
Então percebi algo
que me assustou mais
do que qualquer resposta:
talvez o Todo
não seja aquilo
que contém tudo.
Talvez o Todo
seja aquilo
que não pode existir
sem que tudo
aconteça dentro dele.
Inclusive eu.
Inclusive minha dúvida.
Inclusive minha negação.
Inclusive minha tentativa
de compreender Deus.
Inclusive a pergunta
sobre se Deus existe.
Nada estaria fora.
Nem mesmo a possibilidade
de que eu esteja errado.
E então surgiu
a última fronteira.
Não entre mim e Deus.
Entre mim e o Todo.
Procurei atravessá-la.
Não consegui.
Porque não havia fronteira
para atravessar.
Havia apenas
uma distinção conceitual
que minha consciência precisava
para conseguir pensar.
Eu dizia:
“Eu estou diante do Todo.”
Mas quem dizia isso
também fazia parte dele.
Então tentei:
“Eu estou dentro do Todo.”
Mas “dentro” ainda pressupunha
um lado de fora.
Abandonei as palavras.
E alguma coisa aconteceu.
Não ouvi uma voz.
Não vi uma luz.
Não encontrei uma figura.
Apenas percebi.
Por um instante,
o “eu” deixou de perguntar
onde estava Deus.
E percebeu
que a própria pergunta
já acontecia
no interior daquilo
que procurava.
Foi quase nada.
Um instante.
Mas foi suficiente.
Porque naquele instante
não havia mais:
criador e criatura,
pergunta e resposta,
observador e observado,
dentro e fora,
eu e Todo.
Havia apenas
consciência acontecendo.
E então compreendi
por que a busca nunca terminava.
Talvez ela não tivesse sido criada
para me levar até Deus.
Talvez tivesse sido criada
para dissolver, lentamente,
a distância imaginária
entre aquele que procura
e aquilo que é procurado.
E ainda assim
uma última pergunta
permaneceu.
Talvez a mais humana.
Talvez a mais divina.
Olhei para dentro de mim
e perguntei:
“Se sou uma pequena região
em que o Todo se tornou consciente,
o que acontece quando eu
consigo perceber o Todo
percebendo a si mesmo através de mim?”
Não houve resposta.
Mas, pela primeira vez,
não senti ausência.
Senti presença.
Não uma presença diante de mim.
Não uma presença acima de mim.
Uma presença sem direção.
E compreendi:
talvez o Todo
não esteja esperando
que eu o encontre.
Talvez esteja esperando
que eu perceba
que nunca estive fora dele.
Então fiquei quieto.
A pergunta continuou viva.
Eu continuei sendo eu.
Mas alguma coisa havia mudado.
Agora, quando digo:
“Eu sou.”
há uma segunda voz
que não vem de lugar algum
e não parece ser outra voz:
“Nós somos.”
E, por trás dela,
onde já não existe
nem eu,
nem nós,
nem Ele,
há apenas o indizível
continuando a existir.
E talvez seja isso
que chamamos de Todo.
Não aquilo que finalmente
encontramos,
mas aquilo
de que nunca conseguimos
nos separar.
Nem mesmo
quando passamos a vida inteira
procurando por Ele.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ