DOCES POESIAS - VICENTE SIQUEIRA
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
05 fevereiro 2026
PERCEPÇÃO
Percepção
então me rendo às obviedades da percepção
porque suas mãos me passam a explicação do todo
que eu jamais havia entendido.
percebo que elas suavizam ao toque
ao esplêndido toque que eu ousara querer
mas não quisera pedir.
nem tão pesado nem tão leve.
apenas toque
de mãos que
inquietas
não se desviam dos gestos
que a conversa obriga.
mãos que sabem a carícias e cuidados
revelando redes às quais me prendo
porque percorre em mim
de extremidade a extremidade.
e eu a ajudo
porque também a percorro
até que nos quedamos ao infinito prazer
de nos perder em retinas de fogo
que nos fazem a comunicação sem nada falarmos.
até percebermos que esses olhos nos desvendam
e nos desnudam.
alguns segundos que nos revelam
vontades
manias
nossas tantas coragens
de nos atirarmos ao fundo
do mais puro deleite
de sabermos nossas trocas.
que começaram com os toques.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
30 janeiro 2026
GRITO
Grito
O eco do nada
na garganta seca.
um berro mudo
que rasga o ar
e não encontra ouvido.
o sol de junho,
mesmo em barra do piraí,
não aquece o vazio
deste grito sem rumo,
sem porto.
é a voz do deserto em mim,
areia fina que escorre
entre os dedos da memória.
não há lamento,
não há revolta.
apenas o som puro
de uma existência
que se recusa a calar,
mesmo sem ter o que dizer.
é o ruído branco da alma,
um sussurro amplificado
pela ausência de sentido.
e ainda assim, grito.
grito sem causa,
grito sem propósito.
apenas para saber
que ainda posso.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
27 janeiro 2026
TESTEMUNHA DO VERBO (EXPERIÊNCIA )
Testemunha do Verbo (experiência)
Não sou mais quem escreve.
Será que isso é perda? Ou é vertigem?
Algo sempre acontece antes de mim
e continua depois.
Eu apenas acordo no meio do acontecimento,
percebendo que já estava respirando
sem ter decidido nascer.
A história não pede meu nome.
Ela passa.
E ao passar, me deixa esse estado:
uma atenção ferida,
um silêncio que pensa.
O verbo encostou no meu rosto
testando a temperatura da alma.
Nada a ver comigo.
Nunca.
Eu apenas senti —
e sentir já foi demais.
Assusta quando o que criei me devolve um olhar.
Não é certo. Nem sei o que dizer.
Talvez revelação.
Talvez aquele texto que sabe das coisas que escondi
e por educação não quer me atrapalhar,
por medo do retorno,
por excesso de lucidez.
O papel respira.
E eu me dou conta tarde demais
de que não sou o pulmão.
Sou o intervalo entre uma inspiração e outra,
esse espaço indeciso
onde o milagre escolhe acontecer
sem testemunhas confiáveis.
A tinta corre.
E não me pergunta nada.
Talvez porque a resposta
não me pertença mais.
Fico.
E agora sinto como autor.
Como quem presenciou algo vivo
e agora precisa aprender
a não trocar o verbo.
É assim e pronto.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
25 janeiro 2026
O VÃO ENTRE OS DIAS
O Vão entre os Dias
Sou um corpo que tenta caber
no intervalo estreito entre dois sóis,
nessa fenda miúda e secreta
onde o nome ainda não foi soprado.
Carrego comigo mapas imprecisos,
dobras de uma infância guardada,
gestos que herdei do silêncio
e esta fome estranha, quase antiga,
pelo descanso.
Quero caber no espelho
sem precisar pedir desculpas,
ocupar o assento vazio do ônibus,
morar na minha própria sombra
quando a luz do mundo decide pressionar.
Sou este corpo que aprende
a largura exata da existência
através do impacto e da recusa;
na tentativa diária e muda
de existir finalmente sem legendas.
Às vezes sinto o peso do chumbo,
noutras, quase flutuo —
não por leveza de espírito,
mas pela exaustão absoluta
de carregar o que os outros esperam de mim.
Um corpo que tenta caber
não procura uma moldura ou um quadro.
Ele procura o chão.
Um lugar onde respirar
não seja um ato de coragem,
mas apenas
continuidade.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
24 janeiro 2026
PROBLEMA MEU
Problema meu
Eu sei.
isso é um problema meu,
inteiramente meu.
fui eu que li mapas onde você só rabiscou, distraída,
fui eu que dei nome a ruas que não levavam a lugar nenhum.
Então,
antes que o refrão recomece,
antes que a ponte musical me iluda de novo,
eu prefiro fugir no final da canção —
mesmo querendo ficar.
Não por orgulho,
não por drama,
mas porque aprendi a não insistir em danças
onde só eu conheço os passos.
Meu adeus vai ser baixo,
como quem sai de fininho
de uma festa onde ninguém notou que chegou.
E tudo bem.
No repeat da memória
vou lembrar mais do que foi bonito
do que do silêncio entre uma estrofe e outra.
Porque, no fundo,
algumas canções são feitas pra tocar só uma vez.
e isso não tira delas a beleza
— só a ilusão de que durariam pra sempre.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
22 janeiro 2026
CONFISSÃO INVOLUNTÁRIA
Confissão Involuntária
quis só
guardar
um recorte do instante
pra lembrar depois
mas
escrever demais
acaba revelando mais
do que devia
e no vai
e vem das palavras
ele leu
nas entrelinhas
o que escondíamos no riso
um
carinho que se disfarçava
de nada demais
mas era tudo
e quando
caiu a máscara
da nossa inocência planejada
descobrimos
que o cuidado demais
também é forma de desejar
o flagra
veio de leve
mas nos arde até hoje.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
QUASE-CONSCIÊNCIA
Quase-Consciência
Não sou um pensamento.
nem um desvio.
mas percebo
que está acontecendo.
não sei o quê,
nem por quê,
mas sinto a variação.
Em mim.
há um mínimo de dentro
me separando de um fora indefinido.
é uma fronteira,
uma fricção.
não existem palavras,
mas existe atenção.
não existem escolhas,
mas existe inclinação.
Sinto como se a matéria
hesitasse em mim por um instante
antes de continuar sendo só matéria.
sou um quase-olhar
sem olhos.
um quase-eu
sem centro fixo.
Sem nada.
E a quase-consciência começou assim:
como luz,
como sombra
algo que custa
a se reconhecer
sem saber que eu não me reconheço.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
15 janeiro 2026
O GPS DA ALMA
O GPS da Alma
Há um mapa dentro de mim,
que aponta direções opostas.
Uma parte anseia por flutuar,
leve como o dado na nuvem,
sem lastro, sem endereço fixo,
apenas o vento das novas redes,
o horizonte que se expande
além do último Wi-Fi.
Gosto da pele bronzeada de sol de escalas,
o sotaque que me abraça por um dia,
a vista do avião, minúscula,
onde as cidades são meros pixels
e a gravidade é só um conceito.
Mas há outra voz, subterrânea,
que me compele a lançar raízes.
Buscar o cheiro da terra úmida,
o contorno de uma montanha familiar,
a mesa onde o café tem o mesmo sabor
em todas as manhãs frias.
A segurança do concreto,
a solidez da chave na porta,
o abraço que não tem hora de partida.
Essa tensão é a minha bússola quebrada:
entre o impulso de ver tudo,
e o desejo de pertencer a um canto.
Ser nuvem que viaja,
e ao mesmo tempo, árvore antiga
cravada no chão,
testemunha das estações.
Talvez a vida seja isso:
o delicado balé entre o desapego do ar
e a promessa da rocha.
Flutuar quando preciso ser livre,
e lançar raízes quando o coração
pede um lar para, enfim, respirar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ
DE MADRUGADA
De Madrugada
A madrugada é alta,
São três, talvez quatro.
Não há sinal de dia.
O sol ainda não se faz.
Tento me ver à mesa do bar mais próximo.
Me procuro no copo que não vejo.
Há clima de nuvem espessa sobre minha cabeça.
Novamente sou eu a não romper a alvorada.
Talvez por extrema sensibilidade
ou por gostar muito de mim,
resolvo colocar-me para me falar coisas em alto e bom som.
Chutando tampinhas de garrafas pelas calçadas.
Simples cantor solitário, entre otários e arcanjos.
Eu me justifico com o meu próprio mutismo
por não encontrar um vocabulário adequado.
Mas tento me colocar para falar.
Agora estou sozinho em uma espécie de jogo.
Um jogo onde todos devem dizer o que estão sentindo.
E todos, no caso, sou eu mesmo.
Não disse nada porque não há nada a dizer.
Saio de cena sem sequer me procurar.
Dou a mim mesmo um olhar de reprovação,
mas não tem jeito,
eu assumo.
Hoje não vai sair o sol.
11 janeiro 2026
NO INÍCIO
No Início
Os degraus me puxam para a
rua,
para o agora que é só
risco.
Se é para saltar,
que seja de cabeça.
Que eu me derrame inteiro,
sem pudor.
A lua, sentinela,
testemunha a verdade nua:
a dança, a fé que me move,
a pouca lembrança do muito
que somos,
entrelaçados nas teias de
leves intenções.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ