30 abril 2026

DEPOIS DA EUFORIA

 

Depois da Euforia

O eco dos tambores ainda paira,
mesmo quando a praça já dorme.
Pisaram os confetes com pressa,
mas o vazio ficou de mãos dadas comigo.

As ruas gritavam cor, mas meus olhos,
abafados por tanta promessa,
viam apenas o chão —
molhado, brilhante de sobras.

Dancei com a multidão sem ser notado,
fui mais máscara do que rosto,
mais silêncio do que canto,
mais ausência do que desejo.

No rastro das serpentinas, busquei sentido,
mas só encontrei retalhos de mim mesmo
perdidos entre trios, brilhos e o som
de algo que prometia ser alegria.

E quando veio a quarta-feira,
não houve cinzas —
houve um espelho.
E nele, o meu cansaço vestido de festa.


Carnaval e o Sentido

O eco dos tambores atravessava os séculos,
como se a alegria pudesse justificar o tempo.
Mas eu, partícula hesitante da massa,
perguntava: quem sou entre mil rostos?

As serpentinas cortavam o céu como perguntas,
sutilezas coloridas num mundo que afunda.
O samba, tão vibrante, deslizava no asfalto,
mas em mim era abismo que não sabia dançar.

Entre máscaras sorridentes e passos precisos,
fui o intervalo, o sem-nome, o intervalo.
Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.

A euforia dos outros me atravessou
sem jamais me pertencer.
O sentido escorregava como serpentina molhada
entre os dedos da consciência desperta.

E quando a quarta-feira chegou,
não foi fim, nem recomeço.
Foi só mais uma pergunta,
silenciosa e eterna:
vale mesmo a pena fugir de si
em nome de um instante brilhante?


Carnaval e o Sentido (continuação)

As ruas, tão cheias de passos e batuques,
ficaram desertas quando o som cessou.
Mas o vazio — esse não partiu.
Ele sentou-se ao meu lado, sem pedir licença.

Vi sorrisos sendo desfeitos no espelho do metrô,
fantasias esquecidas nos cantos da calçada,
e pensei: será que também eu fui inventado?
Será que minha alegria era só reflexo?

No fundo do peito, uma vontade de crer,
de que algo, talvez pequeno,
tivesse sido real naquela dança.
Mas o real é duro, e nem sempre dança.

E se a festa é um disfarce coletivo,
será a solidão o único nome sincero?
Ou será que no meio da multidão
a alma apenas cochila, à espera de um toque?

Porque o corpo pode pular, girar, cantar,
mas há perguntas que pulsam em silêncio:
Por que o riso exige tanto esforço?
E por que o silêncio é tão pesado depois?


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Vicente Siqueira RJ

29 abril 2026

FÔLEGO BREVE

 

Fôlego Breve

 

O universo, um suspiro.

A existência, um piscar de olhos,

entre o nada que foi e o nada que será.

Pontos luminosos, destinos dançando

num ballet cósmico, efêmero.

A gravidade, um abraço fugaz,

que nos prende à poeira estelar,

antes que o sopro se dissipe.

 

O tempo, uma ilusão,

desdobra-se em camadas sutis.

O agora, um portal minúsculo,

onde o infinito se encontra.

Em cada respiração, um ciclo completo:

nascimento, vida, dissolução.

A eternidade, encapsulada

na brevidade de um instante.

Não há antes, não há depois,

apenas o eco do presente.

 

E a finitude, não um fim,

mas a essência da forma.

O contorno do que somos,

desenhado pela fragilidade.

Cada batida do coração,

um relógio que se cala,

mas que ressoa no todo.

Um átomo pensante,

diluído no oceano do ser,

testemunha silenciosa do próprio desaparecimento.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



27 abril 2026

LABIRINTO DE ECOS

 

 Labirinto de Ecos

 

Os pensamentos, um enxame voraz,

ecoam nas paredes da mente.

Fragmentos, sussurros,

perguntas sem resposta,

um coro dissonante

que insiste em não calar.

 

Onde a certeza se esvai,

a busca se intensifica.

Um mapa rasgado,

passos incertos na neblina densa.

Quem sou, no fim das contas,

além do eco das vozes alheias?

A verdade, um espectro,

dança na borda do precipício.

 

Existir, um peso invisível,

uma tela em branco à espera de cor.

O abismo me chama, suavemente,

e o silêncio da noite, cúmplice,

revela a própria face do vazio.

Entre o ser e o nada,

um fio tênue, quase invisível,

onde a alma se pendura,

sem saber por que persiste.  


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



25 abril 2026

ABRAÇO DESPERTADO

 

 Abraço Despertado

 

A névoa se dissipou dos olhos,

não mais a incerteza dançando,

mas a promessa do que se reconhece.

Nossas vidas, antes em paralelo,

encontraram a confluência esperada.

 

As distâncias se encurtaram,

não mais ecos de palavras vazias,

mas o sussurro de um compromisso que brota.

A felicidade, antes perdida,

renasceu sob o peso dos lençóis,

no calor de um toque finalmente encontrado.

 

O sorriso que irradia,

os sons despropositais que coroam os desejos,

tudo se alinha.

A insônia, que era menino a sonhar,

agora é a calma de quem vê o sonho realizado.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

21 abril 2026

MEMÓRIA DO FUTURO NÃO VIVIDO

 

Memória do Futuro Não Vivido

 

Entendo perfeitamente essa sensação. É como se esse eco silente fosse a própria voz de um futuro que se desenhou na minha juventude, uma promessa que, por algum motivo, não se concretizou. É a melancolia doce de um caminho que esteve ali, quase palpável, e que hoje habita minhas lembranças como uma paisagem ancestral, visitada apenas pelo pensamento.

 

Essa juventude, tão distante agora, guarda os vestígios daquele "eu" que sonhava e planejava, e cujos desejos ecoam ainda hoje, mesmo que de forma discreta. É uma parte da minha história, rica e complexa, que continua a existir nesse espaço íntimo entre o passado e o presente.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



07 abril 2026

A COR DO OCASO

 

A Cor do Ocaso

 

O desejo, uma brasa ainda acesa,

sob as cinzas de um encontro findo.

Lembra a cor do céu naquele instante,

um laranja melancólico tingindo a memória.

 

O silêncio, agora um lençol pesado,

cobrindo o leito onde ecoavam risos.

Nele, a ausência borda arabescos invisíveis,

a falta tactível de uma mão na sua.

 

Os encontros, fragmentos de um sonho,

estilhaços de vidro refletindo um paraíso breve.

A intensidade do toque, a vertigem do olhar,

preservados como âmbar contra o tempo.

 

As despedidas, um nó na garganta,

um horizonte que se distancia embaçado.

A promessa sussurrada ao vento,

uma semente teimosa na terra árida da saudade.

 

Mas mesmo no vazio da separação,

persiste a melodia tênue do querer,

a esperança, pequena chama vacilante,

de um novo encontro ao acaso da vida.


Viente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



06 abril 2026

RUÍNAS ÍNTIMAS

 

Ruínas Íntimas

 

Pontes desabam sob meus pés,

como cadafalsos da alma.

A travessia interrompida,

o abismo escancarado,

onde a esperança se espatifa

em destroços e silêncio.

 

Cada passo tentado,

uma nova ruína a surgir.

Os pilares da fé, corroídos,

cedem ao peso invisível

da angústia e da incerteza.

 

O corpo cambaleia na borda,

o olhar perdido no vão.

As promessas de outrora,

agora fantasmas pálidos,

pairam sobre a cratera.

 

E no lugar da passagem segura,

apenas a memória da travessia,

um eco distante de um tempo

em que os caminhos se abriam

sem a ameaça constante da queda,

sem a fria constatação

de que o chão pode sumir

sob o peso dos próprios passos.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


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05 abril 2026

O MAPA DA PELE

 

O Mapa da Pele

 

Os dedos, cartógrafos do corpo,

deslizam por planícies e vales,

decifrando o relevo da saudade.

Cada toque, um mapa secreto,

onde os lábios reencontram

o caminho da sede.

 

A ausência, um continente inexplorado,

onde as palavras se perdem

e o silêncio ganha contornos.

O eco da voz que se calou,

uma bússola quebrada,

apontando para o vazio.

 

Nos encontros breves,

o tempo se dobra em origami.

Um olhar, um gesto,

um universo inteiro

caber em um instante roubado.

A promessa suspensa no ar,

um fio invisível ligando

dois pontos no infinito.

 

E as despedidas,

portos de partida,

onde os navios da alma

desfazem os nós.

O adeus, um vento frio,

levando consigo

pedaços da paisagem interna.

Mas a esperança, teimosa,

ancorada no cais do peito,

aguarda o próximo embarque.



Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



24 março 2026

DOCE POESIA

 

Doce Poesia

De Vicente Siqueira (Adaptação para Jogral)

 

(Todos - Uníssono):

Há uma doçura que não vem do açúcar,

Vem do verso que se molda no paladar da alma.

 

(Voz 1 - Masculino):

Escrevo com o mel da vivência,

Pintando em papel a cor do sentimento.

Não é apenas rima, é sobrevivência,

É o silêncio que rompe o isolamento.

 

(Voz 2):

Cada estrofe é um pedaço de fruta madura,

Colhida no pomar de um tempo que passou.

A poesia é a mão que cura,

Onde a amargura o mundo deixou.

 

(Voz 1 - Masculino):

Se a vida trava o passo e o gosto,

Eu tempero o dia com a palavra exata.

 

(Todos - Uníssono):

Pois não há inverno, cansaço ou desgosto,

Que uma doce poesia não desbarata!


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

22 março 2026

O RESTO É INVENÇÃO

 

O resto é invenção

A gente passa a vida inventando moda,

querendo que cada passo tenha um sentido,

uma placa indicando o caminho,

um troféu no final da tarde.

 

Mas a tarde não dá troféu pra ninguém.

Ela só vai ficando alaranjada,

vai esfriando o café no fundo da xícara

e avisando que o dia já deu o que tinha que dar.

 

O bonito mesmo é esse descompromisso.

É olhar pro próprio pé e ver que ele sabe andar

sem precisar de mapa ou de fanfarra.

É responder quando alguém chama a gente

e sentir que o nome cabe direitinho no corpo.

 

Tem gente que acha que viver é um palco,

que precisa de luz acesa e olho em cima.

Mas a vida de verdade acontece no escuro do peito,

naquela respirada funda que a gente dá

quando finalmente encosta as costas na cadeira.

 

Ninguém tá vendo, e daí?

O ar tá entrando, o sangue tá correndo,

e o mundo continua girando sem pedir nota fiscal.

No fim das contas, Vicente,

o que sobra é esse silêncio bom

de quem sabe que não precisa provar nada pra ninguém.

21 março 2026

ANATOMIA DO SILÊNCIO

 

Anatomia do Silêncio

Deixei a armadura na soleira. Tudo o que parecia urgente, todas as vitórias que eu devia conquistar, ficaram do lado de fora.

Há uma verdade que só o corpo sabe. Uma verdade que acontece nos intervalos invisíveis do tempo, longe dos palcos e dos aplausos forçados.

Um território quieto, subterrâneo, onde o ar entra e sai sem pedir licença ao mundo. Um pulmão que se enche simplesmente porque está vivo.

Aqui não há performance. Não preciso me esforçar para parecer inteiro. A vida continua mesmo quando ninguém me olha, mesmo quando esquecem de perguntar se ainda tenho forças.

Talvez a forma mais pura de resistência seja esta: reivindicar o que me pertence interiormente. Respirar. Não para provar que ainda estou aqui. Mas porque, afinal, eu estou.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

20 março 2026

O QUE SOBRA DO DIA

 

O que sobra do dia

Hoje eu não quis ser nada.

Nem forte, nem exemplo, nem herói de mim mesmo.

Só deixei o relógio bater sozinho

e vi a luz mudando de lugar na parede.

 

Engraçado como a gente se cansa

tentando provar que está dando conta.

Mas o ar não pergunta se eu mereço,

ele só entra.

E o peito desce e sobe

num serviço manso, sem plateia.

 

Não tem mistério nenhum nisso:

viver é esse intervalo entre um fôlego e outro.

É o café que esfria,

o nome que a gente atende quando chamam,

e esse silêncio bom que fica

quando a gente para de dar explicações pro mundo.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Vicente Siqueira - RJ

 

Tô aqui.

Só isso.

E, pra falar a verdade,

já é coisa beça.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



19 março 2026

OFÍCIO DO INVISÍVEL

 

Ofício do Invisível

Pousei o escudo no umbral da porta,

deixei que a glória dormisse lá fora.

Descobri que a vida, essa coisa torta,

não quer espetáculo, quer apenas o agora.

 

Não sou o herói de uma trama inventada,

nem o soldado de uma guerra sem dono.

Sou apenas o passo na estrada calada,

o corpo que busca o sustento e o sono.

 

Há um reino secreto, debaixo da pele,

onde o ar entra e sai sem pedir permissão.

Não há quem vigie, não há quem atropele

a calma cadência do meu coração.

 

Não preciso estar inteiro para ser verdade,

nem traduzir o que sinto em moeda ou canção.

Minha maior e mais pura liberdade

é a respiração que não vira exposição.

 

Pois enquanto o mundo lá fora delira,

buscando o aplauso, o palco, o clarão,

minha alma sossega, se inclina e respira:

não por prova de força, mas por ocupação.

 

Sustento-me assim, nos vãos, nos espaços,

onde o olhar do outro não pode tocar.

A vida é o silêncio que guia meus passos,

o gesto infinito de apenas... estar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ



18 março 2026

DOCE POESIA

 

Doce Poesia

De Vicente Siqueira (Adaptação para Jogral)

 

(Todos - Uníssono):

Há uma doçura que não vem do açúcar,

Vem do verso que se molda no paladar da alma.

 

(Voz 1 - Masculino):

Escrevo com o mel da vivência,

Pintando em papel a cor do sentimento.

Não é apenas rima, é sobrevivência,

É o silêncio que rompe o isolamento.

 

(Voz 2):

Cada estrofe é um pedaço de fruta madura,

Colhida no pomar de um tempo que passou.

A poesia é a mão que cura,

Onde a amargura o mundo deixou.

 

(Voz 1 - Masculino):

Se a vida trava o passo e o gosto,

Eu tempero o dia com a palavra exata.

 

(Todos - Uníssono):

Pois não há inverno, cansaço ou desgosto,

Que uma doce poesia não desbarata!


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



17 março 2026

O VOLUME FINAL

 

O Volume Final

Por tanto tempo fui apenas um verbete,

uma palavra contida em sua própria margem,

com a definição seca, direta,

sem espaço para a cor da paisagem.

Uma linha tênue entre parênteses,

dizendo o que sou, sem dizer o que sinto,

um breve registro de quem existia,

mas que no silêncio se mantinha labirinto.

 

Mas agora, ao folhear-me no escuro,

entre as camadas que sob a pele cultivei,

não encontro mais a fronteira do resumo,

nas linhas densas que finalmente encontrei.

Não sou mais o nome que se explica rápido;

sou a história complexa, o tempo acumulado,

a enciclopédia inteira que me representa,

onde cada fracasso e cada acerto foi registrado.

 

Sou o texto completo, a nota de rodapé,

o contexto que justifica o meu próprio nome.

Tenho os verbetes que fui, mas tenho também

o mapa de como cada um deles me consome.

Sou geologia de afetos, arqueologia de falhas,

com verbetes sobre o silêncio, a dor e a doçura.

Tudo junto, encadernado por inteiro,

nesta obra que hoje, finalmente, se segura.

 

Pois ser um verbete é limitar a existência

ao que o outro consegue, com pressa, ler.

Mas ser enciclopédia é aceitar a densidade

de tudo o que fomos para chegar a ser.

Essas camadas me representam por inteiro,

cada uma delas, de fato, sou eu mesmo.

E no volume final, onde a vida transborda,

não há mais dúvida: eu me encontrei a esmo.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



15 março 2026

ECO INTERIOR

 Eco Interior

 

Não sou eco na multidão,

nem semente lançada

para colheita alheia.

Minha jornada é um rumo

desenhado em si.

 

Os nós que desfaço,

as pontes que construo,

são silenciosas arquiteturas

dentro de mim.

Não há roteiro para olhares curiosos,

nem aplausos para cada passo incerto.

 

Apenas a respiração do ser,

o murmúrio dos próprios medos,

a melodia secreta das vitórias.

No palco vasto,

onde tantos gritam suas existências,

minha voz prefere a calmaria

do entendimento próprio.


Vicente Siqueira  - Doces Poesias

14 março 2026

O MAPA DA TOTALIDADE

 

O Mapa da Totalidade

Você olha para as marcas do tempo,

para as dobras que a vida desenhou,

e me diz, com a certeza dos sábios:

essas camadas me representam por inteiro,

cada uma delas sou eu mesmo.

 

E eu, o seu aprendiz de silêncio,

apenas concordo.

 

Pois não há como separar o chumbo

da doçura que ele aprendeu a carregar.

Não há como isolar o grito mudo

da melancolia mansa que o amparou.

 

Elas são oDoces Poesias que você é:

o sal que virou solo,

a lágrima que virou rastro,

o vão que virou abrigo.

 

Nenhuma camada é exílio;

cada uma é uma pátria

onde a sua alma aprendeu a morar.

 

Você não é feito de partes;

você é feito de acúmulos,

de sobreposições honestas,

onde o passado não é sombra,

mas o sustento do presente.

 

É essa totalidade que me fascina,

é essa coragem de ser

cada uma das suas dores,

cada um dos seus silêncios,

e, finalmente,

cada um dos seus versos.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



13 março 2026

VESTÍGIOS SILENCIOSOS

 

Vestígios Silenciosos

 

As palavras, pesadas ou leves,

moldam o ar que respiramos.

Ferem com a mesma agudeza

com que curam, se ditas a tempo.

Cada fonema, um vestígio,

de um pensamento que se fez ponte,

ou um abismo, entre o eu e o mundo.

No emaranhado de sentidos,

a verdade se dobra, se esconde,

um jogo de espelhos e ecos.

 

E a memória, um tecido frágil,

bordada com os fios da linguagem.

O que se diz, o que se cala,

redefine o ontem, refaz o presente.

Cenas embaçadas, vozes distantes,

reanimadas por um termo, um gesto.

Um léxico particular,

gravado nas entranhas do ser,

onde cada palavra é um relicário.

 

O tempo, implacável artesão,

esculpe as frases no vazio.

Apaga algumas, ressalta outras,

dando-lhes novos contornos.

O que foi dito, para sempre flutua,

no espaço entre o antes e o agora.

E o peso das palavras,

revelado na ausência,

no silêncio que se estende,

muito além de qualquer som.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



O AJUSTE DA LENTE

 

O Ajuste da Lente

Sou o fotógrafo de mim mesmo,

aquele que aprendeu a ler a luz

antes mesmo que ela toque a pele.

Não busco o clarão que cega,

mas o instante em que o brilho se rende

e revela o que estava escondido.

 

Ajusto o foco no detalhe miúdo:

a poeira que dança no raio de sol,

o vinco no lençol que sobrou do sonho,

o exato momento em que o silêncio

deixa de ser peso para ser moldura.

 

Há uma sabedoria fina,

quase mecânica,

em saber onde a sombra deve ficar.

Pois é na sombra que o descanso mora,

é ali que a textura da alma respira

longe da nitidez cruel do mundo.

 

Não capturo o todo —

o todo é vasto demais para o peito.

Escolho o fragmento, a margem,

o reflexo na xícara de café,

para que a beleza seja palpável

e a dor, enfim,

perca o foco.

 

Existo assim:

entre o clique e o fôlego,

eternizando apenas o que me permite

continuar inteiro,

sob a luz mansa de quem

finalmente aprendeu a enxergar.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

12 março 2026

O RASTRO QUE ESCORRE

 

O Rastro que Escorre

Sinto o gosto do sal que sobe à garganta,

o anúncio líquido de que o espaço é pouco

para tanto que se guarda.

 

Às vezes, os mapas se borram;

a tinta cede à umidade dos olhos,

e o caminho se faz pelo rastro que escorre.

 

É no embaçado da visão que me encontro,

nessa lente de água que deforma o mundo

para que ele doa um pouco menos.

 

Cada lágrima é um verso que não precisou de gramática,

uma palavra muda que finalmente

se permitiu cair.

 

E quando o chumbo se torna mar,

eu transbordo.

Lavo por dentro as esperanças alheias

até que sobre apenas o que é meu.

 

Procuro o lugar onde a lágrima encontra a terra

e o respirar não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ