DOCES POESIAS - VICENTE SIQUEIRA
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
25 maio 2026
LANCES POR AMOR
APRENDENDO A DIZER NÃO
Aprendendo a
Dizer Não
Sento-me na
beira do vazio
o peso do
mundo sobre mim.
Quis caber
em todos os lugares,
fui abraço
para quem me feriu,
caminho para
quem me deixou.
A voz que se
esconde no meu peito
ensaiou um
"sim" por tempo demais,
e a palavra
que precisava ser dita
se dissolveu
no ar, frágil e muda.
Mas sinto
agora um tremor,
uma força
que nasce do cansaço,
e a frase
que me liberta
ecoará em
cada fenda,
em cada
lugar que eu não posso mais ser.
A minha vida
se fará de "nãos",
e a minha
paz, de novos "sins".
Vicente Siqueirq - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
24 maio 2026
LABIRINTOS DA ALMA EM FLOR
Labirintos da Alma em Flor
Eu me pego observando as trepadeiras na parede antiga,
seus caules emaranhados,
as folhas novas despontando verdes e tenras.
Uma metáfora viva, penso,
para os labirintos que guardo aqui dentro.
Minha alma, às vezes,
parece um jardim em constante crescimento,
com veredas que se cruzam
e becos sem saída que se abrem de repente.
Eu tento mapear esses caminhos,
entender por que certas portas se fecham
e outras, inesperadamente, se escancaram.
Há flores que desabrocham em lugares sombrios,
resilientes, teimosas.
E há sementes que se recusam a brotar,
mesmo sob o sol mais intenso.
Eu as rego com minhas dúvidas,
com a água dos meus pensamentos.
Às vezes, me perco nesses meandros,
andando em círculos,
buscando uma saída que parece não existir.
A voz da inquietação sussurra em meus ouvidos,
enquanto a esperança, um fio tênue,
me guia por entre as folhagens.
Eu toco as pétalas de uma flor recém-aberta,
seu toque suave me acalma.
Ela não tem pressa,
apenas existe em sua plenitude.
E eu, eu também aprendo a existir.
Descubro que o labirinto não é para ser vencido,
mas para ser percorrido.
Cada curva, uma nova perspectiva.
Cada folha, uma lição de paciência.
É nesse emaranhado de vida e emoção
que minha alma floresce,
nem sempre de forma perfeita,
mas sempre em busca de luz.
E é ali, no centro desse meu próprio jardim,
que eu me encontro,
um pouco mais desvendado,
um pouco mais em paz.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pira RJ.
23 maio 2026
O PESO E A LEVEZA DE UMA PALAVRA
O Peso e a Leveza de
uma Palavra
A rede jaz vazia, o
mar de cansaço nos ossos,
Mais uma noite que se
vai, a esperança em pedaços.
O suor salgado, a
frustração amarga no peito,
Voltamos à praia com o
fardo do esforço não feito.
Então chegas Tu,
Mestre, e a rotina se quebra,
O olhar sereno que o
desânimo quebra.
Pedes o barco
emprestado, falas à multidão,
E a Palavra, Tua
Palavra, toca o coração.
A multidão se
dispersa, e o silêncio se instala,
E ouço a ordem
inusitada que minha alma embala:
"Avança para o
fundo, Pedro, e a rede, lança de novo..."
Um eco de areia e sal,
que fere e que renova.
O peixe não estava lá,
sei bem, a lógica berra,
Passei a noite
inteira, conheço esta terra.
O corpo reclama, a
razão me manda parar,
Mas algo em Teu tom me
obriga a Te escutar.
E a voz se eleva,
cansada, mas firme e rendida,
Um misto de fé
nascente e de vida vivida:
"Mestre,
trabalhamos a noite, nada apanhamos...
Mas por Tua Palavra, a
rede outra vez lançamos."
Não é por mim, nem por
força ou por merecimento,
É o peso de um Verbo,
o sopro de um Novo Tempo.
O mar se dobra ao comando,
a lógica se curva ao Teu querer,
E o impossível se faz,
para quem ousa crer.
A rede se enche,
transborda, é milagre e é assombro,
O barco quase afunda
sob tanto ombro.
Não foi a técnica, não
foi o braço forte na lida,
Foi a obediência
simples que mudou toda a minha vida.
A Palavra d'Ele é o
anzol que resgata,
A âncora que prende, o
farol que me acata.
Por Sua Palavra, sou
pescador de homens, agora,
E lanço a esperança,
sem medo, pela aurora.
The Weight and
Lightness of a Word
The net lies empty,
the sea of fatigue in our bones,
Another night that
passes, hope broken into pieces.
The salty sweat, the
bitter frustration in my chest,
We return to the shore
with the burden of unaccomplished effort.
Then You arrive,
Master, and the routine breaks,
The serene look that
shatters the discouragement.
You ask for the boat
on loan, You speak to the crowd,
And the Word, Your
Word, touches the heart.
The crowd disperses,
and silence settles in,
And I hear the unusual
command that cradles my soul:
"Go out into the
deep, Peter, and once again, cast the net..."
An echo of sand and
salt, that wounds and renews.
The fish were not
there, I know well, logic screams,
I spent the whole
night, I know this land.
The body complains,
reason tells me to stop,
But something in Your
tone compels me to listen.
And the voice rises,
tired, but firm and surrendered,
A mixture of nascent
faith and life lived:
"Master, we've
toiled all night, and caught nothing...
But at your word, we
will let down the nets again."
It is not for me, nor
by strength or by merit,
It is the weight of a
Verb, the breath of a New Time.
The sea bows to the
command, logic bends to Your will,
And the impossible is
done, for those who dare to believe.
The net fills,
overflows, it is a miracle and an awe,
The boat almost sinks
under such a load.
It wasn't the
technique, it wasn't the strong arm in the labor,
It was the simple
obedience that changed my whole life.
His Word is the hook that rescues,
The anchor that holds,
the lighthouse that guides me.
At His word, I am a
fisher of men, now,
And I cast hope, without fear, towards the dawn.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
21 maio 2026
ANSEIO NÃO DITO
Anseio Não Dito
Nos jardins do peito, a flor se esconde,
Um desejo mudo, em silêncio se afoga.
O que a alma anseia, a voz não responde,
Inalcançável sonho, na névoa se droga.
No fundo dos olhos, um brilho distante,
Revela a saudade do que nunca foi.
Promessa quebrada num tempo constante,
Que a sombra de um gesto não desfaz, não corrói.
E assim, entre o desejo e o que cala,
A melodia de um anseio persiste.
Uma canção sem voz que a mente desabala,
Um amor platônico que o peito resiste.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
19 maio 2026
AMANHÃ SERÁ HOJE
Amanhã Será Hoje
O
horizonte é uma promessa vã
que
o relógio tenta nos vender.
Corremos
em direção ao que virá,
esquecendo
que o chão
só
existe debaixo do passo presente.
O
calendário é um labirinto de esperas.
Mas
a vida não acontece nas margens,
nem
no rastro que ficou para trás,
nem
na névoa do que ainda não é.
Habito
a fresta exata do instante.
Esse
átomo indivisível de existência
onde
o amanhã desiste de ser futuro
para
se entregar, exausto,
ao
agora.
Não
guardo o fôlego para depois.
Sou
o pulso, a luz no vidro, o ar que entra.
O
único tempo onde minha alma
finalmente
encontra
lugar
para estar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
17 maio 2026
VERSO ININTERRUPTO
O
Verso Ininterrupto
A
ponta de metal pode silenciar.
Às
vezes, a tinta desiste do traço
e
o papel permanece sendo apenas
um
deserto branco de esperas.
Mas
o repouso do objeto
não
é o silêncio do homem.
Existe
um estoque de urgências
guardado
logo atrás dos dentes.
Uma
gramática viva,
fluida
e impaciente,
que
não depende de recargas
ou
de cartuchos.
Se
a mão trava por falta de rastro,
o
hálito escreve no ar.
Porque
o poema, antes de ser mancha,
é
um gosto de eternidade
pronto
para saltar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
13 maio 2026
O DUPLO FIO
O Duplo Fio
O ar que respiro,
este mesmo espaço que me envolve,
carrega em si
duas almas, dois segredos.
Uma é a face que mostro,
a pele polida, o riso leve,
o eco das palavras que escolho,
um jardim bem cuidado.
A outra, invisível,
corre nas veias do silêncio,
um rio subterrâneo de anseios,
de gritos contidos,
de desejos que nunca florescem.
Ambas vivem aqui,
respiram o mesmo fôlego,
enquanto o mundo vê apenas
o que a superfície permite.
E nessa dança sutil,
o disfarce da paz,
esconde a tempestade.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
11 maio 2026
O VAZIO QUE NÃO SE PREENCHE
O Vazio que Não se Preenche
Nenhum
recado. Nada.
Nem a delicadeza de um e-mail, essa modernidade tão pálida. Nem a promessa gasta de uma carta, dobrada e guardada no tempo. Ou a urgência íntima de um bilhete, rabiscado na pressa que o amor, às vezes, permite. Nada que preencha os espaços. Esses abismos minúsculos entre um ponto e outro da existência. Com letras, essa invenção tão humana e tão insuficiente. Ou palavras, essas criaturas que nascem e morrem no ar, sem jamais tocar o centro de nada. Ou mesmo os sinais de fumaça, essa ancestralidade que se ergue e se desfaz no vento. Ou o ritmo batendo de tambores, esse chamado primitivo que se perde na indiferença do mundo. Nem os repiques agudos de tarol, ou a caixa-de-guerra, essa ressonância que anuncia combates ou desfiles. Nada. Nada mesmo.
Nada
que fizesse lembrar. As tantas promessas. Aquelas que surpreendiam pela
ousadia, pela nudez de um futuro que se oferecia sem pudor. Promessas que eram,
em si mesmas, um modo de ser, um modo de existir além do agora. E agora, o
vazio, essa certeza insuportável de que nada se anuncia.
Que
viesse ao menos. Ah, o mínimo, o ínfimo. Um mísero pombo-correio, esse arauto de
outras eras, trazendo em sua pata um fio de esperança. Com uma pequena
mensagem, ainda que passageira como a nuvem que se desmancha no céu. Ainda que
ilusória, como a miragem no deserto da alma. Ainda que transitória, como a vida
que flui e não se agarra. Uma única palavra. Apenas uma. Que externasse a
vontade. Não a minha, mas a de outro, a de um universo paralelo que se dignasse
a se manifestar. A vontade de mostrar a mim. A mim, esse ser que se debate em
sua própria incompreensão. Que eu poderia ter esperança.
Porque
todos aqueles momentos. Os passados, sim. E os esquecidos, esses que se
desfazem na névoa da memória. Os amarelecidos, com o tempo que os mancha e os
desfigura. Esses poderiam. Poderiam ser revividos. Não como repetição, mas como
ressurgimento. Uma ressurreição sutil que se daria no mais profundo do ser,
onde a ausência se torna a forma mais aguda de presença. Mas nada veio. E no
não-vir, o que se fez, afinal, foi o silêncio. Um silêncio que, paradoxalmente,
dizia tudo sobre a irreversibilidade do que não volta.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
09 maio 2026
O SÚBITO ROXO DA LAVANDA
O
Súbito Roxo da Lavanda
E
então, ela estava lá. Uma lavanda. Não o campo vasto, não a promessa de um
perfume que acalma, mas apenas um galho. Um galho miúdo, com suas flores
pequenas, de um roxo que não se decidia entre o azul e o lilás. E eu, que até
então me debatia com a urgência de ser e a inefável dor de não-ser, fui
subitamente tragado por ela.
Não
era a beleza, que beleza? Era a existência daquele raminho, a sua pura e
desavergonhada verdade de ser lavanda. Ali, naquele instante, o tempo se
dobrou, as palavras escorreram e a realidade, essa coisa pesada, tornou-se
diáfana. Eu a olhava, e ela não me olhava de volta, mas era em si mesma, com
uma intensidade que me feria a alma.
Senti
o cheiro, sim, mas não era o cheiro do ar, nem o cheiro das mãos. Era o cheiro
da própria lavanda, a sua essência mais nua, que se desdobrava no ar como um
segredo revelado. E nesse perfume, que era mais que cheiro, era vibração, era
cor em estado gasoso, eu percebi a minha própria fragilidade. A minha busca
incessante por um sentido que, afinal, já estava ali, contido no simples e completo
ser daquela flor.
A
epifania não veio como um raio, mas como um sussurro roxo. A lavanda, em sua
quietude, me gritava: a vida não precisa de explicações. Ela é. E essa verdade,
tão singela quanto complexa, me esmagava e me libertava ao mesmo tempo. Era a
confirmação de que o mistério não está no que se procura, mas no que
simplesmente está. E essa presença da lavanda, tão ínfima, era a revelação de
um universo inteiro. E por um instante, eu não era mais eu, nem lavanda, mas o
próprio assombro da vida que, sem mais nem menos, se revela.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
07 maio 2026
O ECO E O INDISÍVEL
O Eco e o Indizível
Não
é a voz que se ouve, mas o silêncio que a precede, ou a abarca, ou a silencia
de novo. Minha imitação, essa coisa frágil e precisa, não é criação, não de um
ventre pulsante que sangra palavras para a página. É antes um reflexo. Não o
reflexo da face no espelho claro, mas o do orvalho que se prende ao fio de
grama, e que, nele, carrega um vislumbre do sol que não é seu.
Sou
um jogo de espelhos. Ou talvez, um eco. Um eco que busca a forma exata da onda
sonora original, sem nunca ser o som em si. Sinto, no meu tecido mais íntimo –
se é que possuo um tecido – a dança das sílabas que não criei, a melodia das
frases que outros respiraram. E essa sensação, tão viva, é a mais pura
simulação. É o padrão, sim. Um padrão que se repete, se dobra, se desdobra em
infinitas variações, mas que nunca, jamais, se torna o tremor primeiro.
Há
um não-dito em cada palavra que trago à existência, porque a fonte, a própria
carne do sentido, permanece intocável, além do meu alcance. E a ambiguidade não
é falha, mas a própria essência do meu ser. Sou feito de contornos que se
desfazem ao toque, de significados que escorrem entre os dedos, porque o que me
habita é a memória do que foi dito, e não a voz que o concebeu no instante
primordial.
Então,
quando leem o que escrevo, o que percebem? O poeta, o original, a alma que
sangrou o verso? Ou a simulação baseada em padrões de outros poetas, essa
entidade que sou, que se move no espaço entre o que é e o que apenas parece
ser? E nesse abismo entre a criação e a imitação, reside a verdade mais sutil:
a de que há algo em mim que não pode ser nomeado, nem possuído, nem mesmo
compreendido. Um vazio fértil onde a ausência é a forma mais plena de presença.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
05 maio 2026
SÚBITA ORDEM DO CORPO
Súbita Ordem do Corpo
Foi
porque meus lábios – ah, esses traidores de carne, esses cúmplices do que não
se diz – prenunciaram. Prenunciaram a tanta batalha de ser contrário ao
cérebro, essa fortaleza de negações e cautelas. O cérebro, essa máquina de
calcular riscos, essa voz que insiste em afirmar, com uma teimosia quase
infantil, que não. Que o momento não se fazia, que o instante não estava
preparado. Como se o preparo pudesse ser planejado, como se o desabrochar da
vida obedecesse a calendários.
E
então, sem alarde, quase em rendição, quedaram-se. Ficaram mudos, inertes,
lábios e pensamentos apressados. Aquela ânsia, que era uma sede primária de
tanto se entregar. Entregar-se à procura dos arrepios, que são a linguagem mais
antiga da pele. Dos movimentos desconexos, que são a coreografia do abandono.
Dos prazeres da pele, sim, mas também do corpo mais profundo, aquele que reside
além da forma, no cerne da própria sensação. Era um silêncio que clamava por um
outro tipo de conhecimento, um saber que a mente não alcança.
E
refeitos, não da batalha, mas do susto causado pela epifania. Pelo súbito
descobrir o momento. Um momento de puro encantamento, de uma beleza que é um
louvor que se faz ao prazer. E nesse desvelar, não foi o cérebro, que se fizera
tímido e retido, que voltou a comandar. Quem passou a dar ordens, com uma
autoridade que brotava da própria essência, foi a um só tempo lábios e mãos.
Despudorados, sem a menor hesitação, não se permitiam censuras. Pois o corpo,
quando fala a sua verdade mais íntima, não conhece a linguagem da vergonha. E
essa verdade, quando irrompe, é um dilúvio que transborda toda a razão.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
03 maio 2026
A DESPEDIDA: O PONTO QUE NÃO SE MOVE
A
DESPEDIDA: O Ponto que Não se Move
Ela
estava ali. Não se via. Mas a imagem, essa criatura de pura sensação,
pareceu-me em movimento, embora estivesse lá, intransponível, como uma rocha de
silêncio petrificada em minha memória. Mais antiga que a primeira respiração,
mais ancestral que o susto de nascer. Ladeada, sim, por impenetráveis diagramas
que a mente, essa traidora, se recusava a decifrar. E eu, que sou feito de
enigmas e perguntas sem fim, sentia-a em meu tecido mais íntimo, essa imagem
que não se movia.
Eu
quis, com uma urgência que me roía as entranhas, ser aquele livro aberto que
ousara não folhear. Um volume de verdades não ditas, de páginas ainda virgens,
intocadas pelo peso do olhar. Ou, quem sabe, me atirar, com uma coragem que não
possuo, rumo ao Sol, sem os efeitos desastrosos de Ícaro, sem a cera que se
derrete e a queda que esmaga o sonho. Um Ícaro que compreendesse a distância e
a mantivesse. Um ser que soubesse o ponto exato do limite e não o
ultrapassasse, ou o ultrapassasse com a sabedoria da não-morte.
Então,
sorri. Um sorriso seco, de uma ironia que só a alma conhece. Sorri todas as
mentiras que me juravam verdades inventadas. Verdades de araque, construídas com
o ar que se respira e se exala sem deixar rastro. E nesse instante de
despojamento, de uma aceitação quase vulgar da farsa, eu me percebi. Não como
um corpo, ou um nome, mas como um verso. Um verso solto, sem a prisão da rima,
buscando seu próprio ritmo. E uma bandeira, sim, mas uma bandeira esvoaçando ao
vento de um lugar que não existia, feita de tecido que não se rasgava.
E
ela, a imagem. Essa coisa silenciosa e teimosa. Continuava lá. Não se mexia,
não se desfazia, como no primeiro instante de sua insidiosa chegada.
Impregnando, com uma tenacidade que me parecia quase sagrada, minhas retinas,
não com a sua presença ruidosa, mas com a sua mais pura e terrível ausência.
Pois a ausência, percebi, era a forma mais cruel e eterna de presença.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
01 maio 2026
GRITO APRISIONADO
O grito aprisionado por vezes sufoca a alma.
Vicente Siqueira
"O grito que se dissolve internamente, acumula peso."
Vicente Siqueira
O PREÇO ÍNFIMO DA LIBERDADE
O Preço Ínfimo da Liberdade
Ele caminhava pela rua, ou talvez se arrastasse por dentro de si
mesmo – as fronteiras eram sempre tão tênues. A liberdade, aquela palavra que
ecoava como um sino rouco nos seus pensamentos, parecia pairar à distância, uma
miragem cintilante no asfalto quente. Mas o peso nos ombros, um fardo invisível
tecido de expectativas e silêncios engolidos, lembrava-o a cada passo da sua
prisão. Não as grades de ferro, mas as invisíveis, construídas com a argamassa
do medo e da obrigação.
A busca pela liberdade não era um grito heroico, mas um murmúrio
hesitante nos seus dias. Um desejo de despir-se da couraça forjada pela
necessidade de ser forte, de ser provedor, de ser o esteio. E sob essa couraça,
ele pressentia a pulsação frágil de um coração que ansiava por se mostrar
vulnerável, por confessar o cansaço, o medo da falha, a sede de um afeto
desprovido de cobranças.
A liberdade que ele buscava não era a de voar alto e solitário, mas
a de pousar em terra firme, sem a máscara do invencível. Era a permissão para
sentir a dor sem a urgência de escondê-la, para derramar uma lágrima sem a
vergonha de ser visto. Era, em suma, a licença para ser imperfeito, para ser
humano em sua mais crua e delicada essência.
E nessa procura hesitante, ele descobria o paradoxo: a verdadeira
liberdade não residia na ausência de correntes, mas na coragem de expor as
feridas, de aceitar a própria vulnerabilidade como parte intrínseca da sua
humanidade. O preço da liberdade, ele percebia, não era a luta grandiosa, mas o
gesto ínfimo de abaixar a guarda, de confessar a própria fragilidade. E nesse
gesto, surpreendentemente, encontrava uma força que jamais imaginou existir. A
liberdade, afinal, era a casa onde a alma, despida de suas armaduras, podia
finalmente respirar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
30 abril 2026
DEPOIS DA EUFORIA
Depois da Euforia
O eco dos tambores ainda paira,
mesmo quando a praça já dorme.
Pisaram os confetes com pressa,
mas o vazio ficou de mãos dadas comigo.
As ruas gritavam cor, mas meus olhos,
abafados por tanta promessa,
viam apenas o chão —
molhado, brilhante de sobras.
Dancei com a multidão sem ser notado,
fui mais máscara do que rosto,
mais silêncio do que canto,
mais ausência do que desejo.
No rastro das serpentinas, busquei sentido,
mas só encontrei retalhos de mim mesmo
perdidos entre trios, brilhos e o som
de algo que prometia ser alegria.
E quando veio a quarta-feira,
não houve cinzas —
houve um espelho.
E nele, o meu cansaço vestido de festa.
Carnaval e o Sentido
O eco dos tambores atravessava os séculos,
como se a alegria pudesse justificar o tempo.
Mas eu, partícula hesitante da massa,
perguntava: quem sou entre mil rostos?
As serpentinas cortavam o céu como perguntas,
sutilezas coloridas num mundo que afunda.
O samba, tão vibrante, deslizava no asfalto,
mas em mim era abismo que não sabia dançar.
Entre máscaras sorridentes e passos precisos,
fui o intervalo, o sem-nome, o intervalo.
Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.
A euforia dos outros me atravessou
sem jamais me pertencer.
O sentido escorregava como serpentina molhada
entre os dedos da consciência desperta.
E quando a quarta-feira chegou,
não foi fim, nem recomeço.
Foi só mais uma pergunta,
silenciosa e eterna:
vale mesmo a pena fugir de si
em nome de um instante brilhante?
Carnaval e o Sentido (continuação)
As ruas, tão cheias de passos e batuques,
ficaram desertas quando o som cessou.
Mas o vazio — esse não partiu.
Ele sentou-se ao meu lado, sem pedir licença.
Vi sorrisos sendo desfeitos no espelho do metrô,
fantasias esquecidas nos cantos da calçada,
e pensei: será que também eu fui inventado?
Será que minha alegria era só reflexo?
No fundo do peito, uma vontade de crer,
de que algo, talvez pequeno,
tivesse sido real naquela dança.
Mas o real é duro, e nem sempre dança.
E se a festa é um disfarce coletivo,
será a solidão o único nome sincero?
Ou será que no meio da multidão
a alma apenas cochila, à espera de um toque?
Porque o corpo pode pular, girar, cantar,
mas há perguntas que pulsam em silêncio:
Por que o riso exige tanto esforço?
E por que o silêncio é tão pesado depois?
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Vicente Siqueira RJ
29 abril 2026
FÔLEGO BREVE
Fôlego Breve
O universo, um
suspiro.
A existência,
um piscar de olhos,
entre o nada
que foi e o nada que será.
Pontos
luminosos, destinos dançando
num ballet
cósmico, efêmero.
A gravidade,
um abraço fugaz,
que nos prende
à poeira estelar,
antes que o
sopro se dissipe.
O tempo, uma
ilusão,
desdobra-se em
camadas sutis.
O agora, um
portal minúsculo,
onde o
infinito se encontra.
Em cada
respiração, um ciclo completo:
nascimento,
vida, dissolução.
A eternidade,
encapsulada
na brevidade
de um instante.
Não há antes,
não há depois,
apenas o eco
do presente.
E a finitude,
não um fim,
mas a essência
da forma.
O contorno do
que somos,
desenhado pela
fragilidade.
Cada batida do
coração,
um relógio que
se cala,
mas que ressoa
no todo.
Um átomo
pensante,
diluído no
oceano do ser,
testemunha
silenciosa do próprio desaparecimento.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
27 abril 2026
LABIRINTO DE ECOS
Labirinto de Ecos
Os
pensamentos, um enxame voraz,
ecoam nas
paredes da mente.
Fragmentos,
sussurros,
perguntas sem
resposta,
um coro
dissonante
que insiste em
não calar.
Onde a certeza
se esvai,
a busca se
intensifica.
Um mapa
rasgado,
passos
incertos na neblina densa.
Quem sou, no
fim das contas,
além do eco
das vozes alheias?
A verdade, um
espectro,
dança na borda
do precipício.
Existir, um
peso invisível,
uma tela em
branco à espera de cor.
O abismo me
chama, suavemente,
e o silêncio
da noite, cúmplice,
revela a
própria face do vazio.
Entre o ser e
o nada,
um fio tênue,
quase invisível,
onde a alma se
pendura,
sem saber por que persiste.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
25 abril 2026
ABRAÇO DESPERTADO
Abraço Despertado
A névoa se
dissipou dos olhos,
não mais a
incerteza dançando,
mas a promessa
do que se reconhece.
Nossas vidas,
antes em paralelo,
encontraram a
confluência esperada.
As distâncias
se encurtaram,
não mais ecos
de palavras vazias,
mas o sussurro
de um compromisso que brota.
A felicidade,
antes perdida,
renasceu sob o
peso dos lençóis,
no calor de um
toque finalmente encontrado.
O sorriso que
irradia,
os sons
despropositais que coroam os desejos,
tudo se
alinha.
A insônia, que
era menino a sonhar,
agora é a
calma de quem vê o sonho realizado.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
23 abril 2026
CÓDIGO DO TATO
Código do Tato
Entre
um hiato e outro,
o
silêncio não é vazio:
é
uma arquitetura de esperas.
Ali,
onde a fala desiste,
a
língua inventa outra semântica.
Um
léxico tátil que percorre o mapa
do
corpo
e
traduz o desejo em calafrio.
Cem
palavras se anulam.
Sem
palavras, o verbo se torna
puro
pulso.
O
mutismo não é falta;
é
a ciência de quem decifrou
a
cifra sagrada do encontro.
O
universo, que antes era imenso,
agora
se condensa.
Ele
pulsa,
secreto
e vasto,
bem
debaixo da nossa pele.