Afeto em Estado Bruto
não é bonito.
não vem organizado.
é um afeto sem embalagem,
sem legenda,
sem manual.
aparece de repente
no meio do peito,
feito vontade de encostar
a testa em alguém
e ficar quieto.
não pede promessas.
pede presença.
é esse calor torto
que sobe pelo corpo
quando um nome atravessa o pensamento
sem aviso.
afeto em estado bruto
não sabe se defender.
ele chega aberto,
meio criança,
meio ferida.
não tem estratégia.
só acontece.
às vezes dói.
às vezes salva.
quase sempre desarma.
é um impulso simples:
querer cuidar,
querer ficar,
querer dividir o silêncio.
não fala bonito.
fala com o corpo.
mora nos gestos pequenos:
um copo d’água oferecido,
uma mão nas costas,
um “chegou bem?” enviado tarde da noite.
afeto bruto não promete eternidade.
ele só insiste no agora.
é vulnerável.
é desajeitado.
é verdadeiro demais pra caber em frases prontas.
e eu deixo.
deixo atravessar minhas defesas,
meus medos antigos,
meu histórico de quedas.
aceito esse amor sem acabamento,
essa vontade sem garantia,
essa coragem que não sabe o caminho
mas anda mesmo assim.
afeto em estado bruto
é isso:
um coração ainda em reforma
escolhendo sentir
apesar de tudo.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ