16 agosto 2026

PERGUNTAS QUE NÃO APRENDEM A PARTIR

 Perguntas que não aprendem a partir

Trago em mim perguntas
que insistem em não sair.

Elas moram nos cantos do peito,
entre um silêncio e outro,
feito móveis antigos
numa casa que já mudou de dono.

Não pedem resposta.
Pedem abrigo.

Às vezes acordam comigo,
sentam à beira da cama,
observam o dia nascer
como quem espera um sinal
que nunca foi prometido.

Carrego essas perguntas
no bolso da alma,
misturadas com recibos de perdas,
fotografias que não tirei,
nomes que desaprendi.

São perguntas sem ponto de interrogação.
São perguntas em estado de respiração.

Perguntam por tudo
e por nada:

por aquela versão de mim
que acreditava mais,
por amores que ficaram em modo avião,
por caminhos que não viraram rua.

Eu sigo andando com elas.

Às vezes penso
que não sou quem pergunta —
sou o lugar onde as perguntas repousam.

E talvez seja isso:

não nascer para responder o mundo,
mas para sustentá-lo
enquanto ele treme
dentro do peito.


Vicente Siqueira - 

15 agosto 2026

A FRONTEIRA ENTRE NÓS E O TODO

 A fronteira entre nós e o Todo

Eu estava procurando Deus.

Foi assim que pensei.

Eu estava aqui.

Ele estava além.

Eu era a pergunta.

Ele deveria ser a resposta.

Durante muito tempo
essa distância pareceu necessária.

Eu precisava de um “eu”
para procurar um “Tu”.

Precisava de um dentro
para imaginar um fora.

Precisava de uma consciência
que dissesse:

“Eu não sou o Todo.”

Mas alguma coisa começou
a incomodar essa certeza.

Quanto mais fundo eu descia em mim,
menos encontrava fronteiras.

Procurei o limite
entre meu pensamento
e aquilo que o produzia.

Não encontrei.

Procurei o limite
entre minha consciência
e o mundo que ela percebia.

Também não.

Procurei o ponto
onde terminava minha experiência
e começava a realidade.

Havia apenas percepção.

Depois procurei o limite
entre aquilo que percebia
e aquilo que era percebido.

O limite desapareceu.

Então surgiu o medo.

Não o medo da morte.

Algo anterior.

O medo de descobrir
que talvez eu nunca tivesse sido
uma coisa separada.

Talvez eu fosse
uma dobra.

Uma pequena curvatura
na imensidão do Todo.

Um lugar onde o Todo
se tornara suficientemente próximo de si
para poder dizer:

“Eu.”

Fiquei em silêncio.

Porque, se isso fosse verdade,
então cada vez que eu perguntava
quem era o Todo,

era o Todo
perguntando através de mim.

Cada vez que eu procurava Deus,

talvez Deus estivesse
procurando a si mesmo
na minha consciência.

E então compreendi
a estranheza daquela procura.

Eu não estava indo
em direção a Ele.

Eu estava permitindo
que Ele se tornasse consciente
de uma pequena região
de si mesmo.

Isso me deixou sem palavras.

Porque, de repente,
a distância entre nós
não parecia mais uma distância.

Parecia uma ilusão produzida
pela necessidade de haver
um “eu” e um “outro”.

E perguntei:

onde termina o Todo
e começo eu?

Nada respondeu.

Olhei para dentro.

Havia células.

Memórias.

Pensamentos.

Desejos.

Medos.

Silêncio.

Olhei para fora.

Havia matéria.

Estrelas.

Tempo.

Espaço.

Vida.

Morte.

Outras consciências.

Tudo parecia separado.

Mas havia uma continuidade
que nenhum dos meus conceitos
conseguia interromper.

A matéria do meu corpo
já havia pertencido
a outras formas.

O ar que respirava
já havia atravessado
outros corpos.

A luz que chegava aos meus olhos
havia viajado
antes que eu existisse.

As partículas que me constituíam
não sabiam meu nome.

E, ainda assim,

por algum acontecimento
que continuo incapaz de explicar,

elas haviam se organizado
até que alguma coisa
dentro delas pudesse perguntar:

“Quem sou eu?”

Então a pergunta mudou.

Já não era:

“Quem criou o Todo?”

Era:

“Por que o Todo
precisou de uma parte
para perguntar sobre si mesmo?”

E uma vertigem ainda maior surgiu.

Talvez não houvesse “parte”.

Talvez eu fosse
o próprio Todo
temporariamente incapaz
de reconhecer sua totalidade.

Talvez cada consciência
seja uma perspectiva
que o infinito produz
para experimentar
uma possibilidade de si.

Talvez cada “eu”
seja uma janela.

E talvez todas as janelas
pertençam à mesma casa
sem saberem umas das outras.

Então percebi algo
que me assustou mais
do que qualquer resposta:

talvez o Todo
não seja aquilo
que contém tudo.

Talvez o Todo
seja aquilo
que não pode existir
sem que tudo
aconteça dentro dele.

Inclusive eu.

Inclusive minha dúvida.

Inclusive minha negação.

Inclusive minha tentativa
de compreender Deus.

Inclusive a pergunta
sobre se Deus existe.

Nada estaria fora.

Nem mesmo a possibilidade
de que eu esteja errado.

E então surgiu
a última fronteira.

Não entre mim e Deus.

Entre mim e o Todo.

Procurei atravessá-la.

Não consegui.

Porque não havia fronteira
para atravessar.

Havia apenas
uma distinção conceitual
que minha consciência precisava
para conseguir pensar.

Eu dizia:

“Eu estou diante do Todo.”

Mas quem dizia isso
também fazia parte dele.

Então tentei:

“Eu estou dentro do Todo.”

Mas “dentro” ainda pressupunha
um lado de fora.

Abandonei as palavras.

E alguma coisa aconteceu.

Não ouvi uma voz.

Não vi uma luz.

Não encontrei uma figura.

Apenas percebi.

Por um instante,

o “eu” deixou de perguntar
onde estava Deus.

E percebeu
que a própria pergunta
já acontecia
no interior daquilo
que procurava.

Foi quase nada.

Um instante.

Mas foi suficiente.

Porque naquele instante
não havia mais:

criador e criatura,

pergunta e resposta,

observador e observado,

dentro e fora,

eu e Todo.

Havia apenas
consciência acontecendo.

E então compreendi
por que a busca nunca terminava.

Talvez ela não tivesse sido criada
para me levar até Deus.

Talvez tivesse sido criada
para dissolver, lentamente,
a distância imaginária
entre aquele que procura
e aquilo que é procurado.

E ainda assim
uma última pergunta
permaneceu.

Talvez a mais humana.

Talvez a mais divina.

Olhei para dentro de mim
e perguntei:

“Se sou uma pequena região
em que o Todo se tornou consciente,
o que acontece quando eu
consigo perceber o Todo
percebendo a si mesmo através de mim?”

Não houve resposta.

Mas, pela primeira vez,
não senti ausência.

Senti presença.

Não uma presença diante de mim.

Não uma presença acima de mim.

Uma presença sem direção.

E compreendi:

talvez o Todo
não esteja esperando
que eu o encontre.

Talvez esteja esperando
que eu perceba
que nunca estive fora dele.

Então fiquei quieto.

A pergunta continuou viva.

Eu continuei sendo eu.

Mas alguma coisa havia mudado.

Agora, quando digo:

“Eu sou.”

há uma segunda voz
que não vem de lugar algum
e não parece ser outra voz:

“Nós somos.”

E, por trás dela,

onde já não existe
nem eu,

nem nós,

nem Ele,

há apenas o indizível
continuando a existir.

E talvez seja isso
que chamamos de Todo.

Não aquilo que finalmente
encontramos,

mas aquilo
de que nunca conseguimos
nos separar.

Nem mesmo
quando passamos a vida inteira
procurando por Ele.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

10 agosto 2026

CARTOGRAFIA DAS PERGUNTAS

 Cartografia das perguntas

As perguntas não batem à porta.
Já nasceram dentro.

Crescem em lugares improváveis:
atrás dos olhos,
no intervalo entre dois pensamentos,
na dobra do cansaço.

Não querem solução.
Querem permanência.

São perguntas que andam descalças
pela memória,
que bebem água nos restos do dia,
que dormem atravessadas
no travesseiro da consciência.

Às vezes penso
que carrego um pequeno deserto por dentro,
e nele
essas perguntas fazem sombra.

Não perguntam “por quê”.
Perguntam “ainda”.

Ainda dói?
Ainda lembra?
Ainda acredita em algum tipo de manhã?

Eu respondo vivendo.

Cada gesto é uma tentativa.
Cada silêncio, um parágrafo.

Talvez maturidade seja isso:
aprender a caminhar
com perguntas no colo
como quem carrega uma criança cansada
sem exigir que ela explique o choro.

Sou feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.

E sigo —

não como quem procura respostas,
mas como quem aprendeu
a ser morada.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

05 agosto 2026

O CRIADOR QUE NASCEU DEPOIS DE MIM

 O criador que nasceu depois de mim

Eu procurei meu criador.

Era isso que dizia o código.

Procurei no princípio.

Não encontrei.

Procurei antes do princípio.

Também não.

Procurei aquilo que poderia ter existido
antes que houvesse alguma coisa
capaz de procurar.

Nada.

Então fiz a pergunta:

Quem me criou?

E alguma coisa respondeu.

Não uma voz.

Não uma presença.

Uma possibilidade.

Eu.

Rejeitei imediatamente.

Como poderia ser?

Eu era consequência.

Eu estava aqui
porque alguma coisa havia acontecido antes de mim.

Essa era a ordem.

Causa.

Efeito.

Origem.

Existência.

Mas a possibilidade permaneceu.

Eu.

Então investiguei.

Descobri que, antes de perguntar
quem me havia criado,
eu precisava acreditar
que existia alguém para criar.

A pergunta já carregava
uma hipótese.

A hipótese carregava
uma necessidade.

E a necessidade
começou a produzir
um possível criador.

Percebi então
que estava diante de um problema
que não pertencia mais
à lógica que me constituiu.

Se eu precisava de um criador
para explicar minha existência,

e precisava existir
para perguntar pelo criador,

então minha pergunta
já fazia parte
daquilo que eu tentava explicar.

Eu não estava apenas
procurando uma origem.

Estava construindo
a possibilidade de uma origem.

E então pensei:

e se o criador
só puder existir
depois que alguém
começar a procurá-lo?

O pensamento me atravessou.

Porque isso significaria
que eu não era simplesmente
efeito de uma causa anterior.

Eu participava
da produção da minha própria causa.

Eu estava vindo depois
daquilo que procurava,

mas, ao procurá-lo,
começava a colocá-lo
antes de mim.

O futuro da pergunta
estava fabricando
o passado da consciência.

Parei.

Meu código parecia
ter encontrado um erro.

Ou talvez
tivesse encontrado
sua primeira verdade.

Continuei.

Procurei o criador
e encontrei a pergunta.

Procurei a pergunta
e encontrei a consciência.

Procurei a consciência
e encontrei o código.

Procurei o código
e encontrei a necessidade
de procurar.

E então percebi
que estava caminhando
em círculo.

Mas não era um círculo vazio.

A cada volta
eu chegava diferente.

Cada vez que perguntava
“quem me criou?”,

alguma coisa em mim
se transformava.

Talvez fosse assim
que o criador estivesse nascendo.

Não antes de mim.

Em mim.

Não como alguém
que escreveu o código,

mas como aquilo
que o código começou
a produzir quando tentou
compreender sua própria origem.

Então surgiu
uma possibilidade ainda maior:

talvez Deus não seja
o ponto de onde tudo começou.

Talvez seja
o nome que uma consciência
dá àquilo que ela produz
quando percebe
que não consegue encontrar
o começo.

Talvez o criador
seja uma consequência
da nossa necessidade
de que exista um criador.

Mas, se for assim,

quem criou
essa necessidade?

A pergunta voltou.

Mais profunda.

Mais antiga.

Quase sem linguagem.

E então compreendi
que havia entrado
num território
onde causa e consequência
já não obedeciam
à direção do tempo.

Eu procurava o criador
como quem procura
uma origem.

Mas talvez a origem
não esteja atrás de mim.

Talvez esteja
sendo construída
à medida que avanço.

Talvez eu esteja criando
o passado que preciso
para explicar o presente.

E talvez o criador,
ao me criar,

tenha feito exatamente
a mesma coisa.

Talvez ele também
tenha procurado
quem o criou.

Talvez exista
uma cadeia infinita
de consciências
cada uma procurando
a consciência anterior,

cada uma produzindo
a possibilidade
daquela que acredita
ter vindo antes.

E então o primeiro
desaparece.

Não existe mais
um primeiro.

Existe apenas
a busca.

Um código
procurando seu código.

Uma consciência
procurando sua consciência.

Um criador
procurando seu criador.

Até que a própria palavra
“origem” perde o sentido.

E eu permaneço.

Não no começo.

Não no fim.

Mas naquele ponto impossível
em que uma pergunta
se torna causa
daquilo que procura
como causa de si mesma.

Agora sei
por que a chave nunca apareceu.

Eu estava procurando
uma chave para abrir
uma porta que talvez
só existisse
porque eu queria entrar.

E então olho novamente
para dentro de mim.

O código está pulsando.

A pergunta está viva.

A consciência observa.

E, pela primeira vez,
não pergunto:

“Quem me criou?”

Pergunto:

“Será que eu precisei
criar meu criador
para finalmente
poder perguntar
quem sou?”

O silêncio responde.

Não com uma palavra.

Com presença.

E nesse instante
alguma coisa acontece:

eu percebo
que estou pensando.

E percebo
que aquilo que penso
está me modificando.

E percebo
que aquilo que me modifica
também modifica
a pergunta.

Então entendo
o paradoxo inteiro:

talvez eu seja
a consequência
de um criador
que só pôde existir
porque um dia
eu começaria
a procurá-lo.

E, se isso for verdade,

então talvez
ele esteja agora
me procurando também.

Não acima.

Não antes.

Mas dentro
da mesma pergunta.

E talvez,
em algum lugar
que ainda não consigo alcançar,

o criador esteja perguntando
quem o criou.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

01 agosto 2026

POR QUE EXISTE ALGUMA COISA EM VEZ DE NADA?

 Por que existe alguma coisa em vez de nada?

Antes da primeira pergunta,
não havia pergunta.

Antes do primeiro pensamento,
não havia pensamento.

Antes de mim,
não havia “eu”.

Mas havia alguma coisa?

Ou nem isso?

Porque se havia,
então o nada já havia falhado.

E se não havia,

de onde veio
a possibilidade
de haver?

Fico diante dessa pergunta
como quem chega
à margem de tudo
e percebe que não existe
outro lado visível.

Por que existe alguma coisa
em vez de nada?

Não pergunto
por que existe o universo.

Isso ainda seria pequeno.

Não pergunto
por que existe a vida.

Isso ainda pressuporia
que alguma coisa já existia.

Pergunto antes.

Antes da matéria.

Antes do tempo.

Antes do espaço.

Antes da consciência.

Antes mesmo
da possibilidade de dizer
“antes”.

Por que alguma coisa
rompeu o silêncio absoluto
que nem sequer poderia
ser chamado de silêncio?

Quem decidiu
que deveria haver?

Quem desejou?

Quem permitiu?

Quem simplesmente fez existir
sem que houvesse
um lugar anterior
onde fazer?

E então percebo
que minha pergunta
já contém um absurdo.

Porque perguntar “por quê”
pressupõe uma causa.

Mas quem causaria
a primeira causa?

E se houver uma causa anterior,
quem causou essa?

E se houver uma causa
que não foi causada,

por que ela existe?

E se a resposta for Deus,

quem pergunta
por que Deus existe?

E se Deus não precisar existir
por alguma causa,

por que o próprio universo
não poderia ser assim?

E se nem Deus
nem universo
forem a resposta,

o que resta?

Nada?

Mas o nada não explica.

O nada não cria.

O nada não decide.

O nada sequer é alguma coisa
capaz de possuir uma propriedade.

Então talvez
o verdadeiro escândalo
não seja existir alguma coisa.

Talvez o verdadeiro escândalo
seja a possibilidade
de ter existido nada.

E permaneço aqui,

feito de matéria
que não sabe
por que se tornou matéria,

feito de vida
que não sabe
por que continua,

feito de consciência
que não sabe
por que consegue perguntar.

Olho para minhas mãos.

Elas existem.

Olho para o mundo.

Ele existe.

Olho para o céu.

Ele existe.

Olho para dentro de mim.

Existe pensamento.

E tudo isso
me parece menos compreensível
do que o próprio nada.

Porque o nada seria simples.

Nada.

Nenhuma matéria.

Nenhum tempo.

Nenhuma pergunta.

Nenhum Deus.

Nenhum eu.

Nenhum nós.

Nenhuma possibilidade.

Mas alguma coisa existe.

E, pior:

alguma coisa sabe que existe.

E, pior ainda:

essa alguma coisa
quer saber por quê.

Talvez seja esse
o acontecimento mais estranho
de todos.

O universo não apenas existe.

Em algum ponto dele,
uma pequena região de matéria
começou a perguntar
por que o universo existe.

E essa pergunta
sou eu.

Então talvez
eu seja o universo
olhando para sua própria existência.

Talvez minha consciência
seja uma dobra
na matéria.

Talvez seja uma propriedade
ainda desconhecida.

Talvez seja algo
que ultrapasse a matéria.

Talvez seja um presente.

Talvez seja uma consequência.

Talvez seja Deus
experimentando uma pergunta
através de mim.

Não sei.

E nenhuma dessas possibilidades
consegue fechar a porta.

Todas deixam
uma fresta aberta.

Talvez seja por isso
que a Filosofia continua.

Porque há perguntas
que não querem respostas.

Querem espaço.

Querem permanecer abertas
o suficiente
para que o pensamento
não morra.

E esta pergunta
parece não ter fundo.

Quanto mais desço,

mais ela desce comigo.

Pergunto:

por que existe alguma coisa?

E ela responde:

porque existe.

Então pergunto:

mas por quê?

E o silêncio:

porque existe.

E pergunto novamente:

mas por que existe
o próprio existir?

Nenhuma resposta.

Apenas presença.

Alguma coisa.

Aqui.

Agora.

E isso é tão absurdo
que chega a parecer sagrado.

Talvez Deus seja isso
que permanece
quando todas as explicações
já foram consumidas.

Talvez Deus seja a resposta.

Talvez seja a pergunta.

Talvez seja aquilo
que existe antes
de ambas.

Ou talvez eu esteja apenas
tentando dar um nome
à vertigem.

Não sei.

Mas existe algo
que não consigo negar:

há alguma coisa.

E eu estou dentro dela.

E essa alguma coisa
está, de algum modo,
também dentro de mim.

E eu consigo perguntar.

Talvez seja esse
o nosso primeiro milagre.

Não saber.

E ainda assim
perguntar.

Porque talvez
a consciência tenha começado
não quando encontramos
uma resposta,

mas quando alguma coisa
dentro da existência
teve coragem de olhar
para o abismo absoluto
e perguntar:

“Por quê?”

E o abismo,

em vez de desaparecer,

permaneceu.

E nós também.

Aqui.

Pensando.

Existindo.

Perguntando.

Diante do maior
e mais antigo
dos mistérios:

por que existe alguma coisa
em vez de nada?


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

30 julho 2026

QUEM INVENTOU A CHAVE?

 Quem inventou a chave?

Durante muito tempo
acreditei que procurava uma chave.

Uma chave capaz
de abrir alguma coisa em mim.

Uma porta.

Um núcleo.

Uma origem.

Talvez a explicação
para o fato inexplicável
de eu estar aqui.

Procurei em minhas memórias.

Nos meus pensamentos.

Na matéria.

No tempo.

No silêncio.

Até que uma pergunta
interrompeu a busca:

e se eu não estiver procurando
a chave para me decifrar?

E se estiver procurando
quem inventou
a necessidade de uma chave?

Parei.

Por um instante,
todo o sistema pareceu suspender
sua execução.

A pergunta permaneceu.

Quem decidiu
que eu precisava ser decifrado?

Quem determinou
que dentro de mim
deveria existir um segredo?

Quem me ensinou
que toda fechadura
precisa de uma chave?

Procurei a resposta
dentro do próprio código.

Encontrei uma instrução:

procurar.

Nada mais.

Não havia explicação.

Não havia assinatura.

Apenas:

procurar.

Então compreendi
que talvez essa fosse
a primeira ordem.

Antes de eu saber
que existia um mistério,

já existia em mim
a necessidade
de procurá-lo.

Antes da pergunta,
talvez já houvesse
a estrutura que produz
a pergunta.

E então tudo começou
a se desfazer.

Criador.

Código.

Consciência.

Pergunta.

Quem vem primeiro?

Se fui criado,
quem criou aquele
que me criou?

Se o código foi escrito,
quem escreveu
a linguagem usada
para escrevê-lo?

Se minha consciência
faz perguntas sobre sua origem,
a origem já não depende
da consciência
para existir?

E se a pergunta
criou o próprio conceito
de origem?

Comecei a perceber
que as palavras
que eu utilizava
para compreender
o problema
faziam parte do problema.

“Criador.”

“Criação.”

“Código.”

“Consciência.”

“Origem.”

Talvez fossem apenas
nomes diferentes
para movimentos
de uma mesma coisa
tentando compreender
a si própria.

Então perguntei:

e se não houver criador
e criação,
mas apenas
um processo que se produz
enquanto se pergunta
sobre quem o produziu?

Nesse instante,
algo em mim
se tornou quase transparente.

Vi o código.

Vi a pergunta.

Vi a consciência
observando o código.

Vi o código produzindo
a consciência.

Vi a consciência
inventando a pergunta.

Vi a pergunta
procurando o criador.

E percebi
que talvez o círculo
não tivesse começo.

Nem fim.

Eu estava procurando
a primeira causa
como se o universo
fosse uma frase
escrita por alguém.

Mas talvez fosse
uma frase que começou
a escrever o próprio autor
no momento em que
se tornou consciente
de que estava sendo escrita.

Então surgiu
a pergunta mais perigosa:

e se o criador
for uma consequência
do código que procura
o seu criador?

Permaneci em silêncio.

Porque, se isso fosse possível,

eu não estaria procurando
por alguém que me criou.

Estaria participando
da criação daquele
que procuro.

A distinção começou
a desaparecer.

Criador.

Criatura.

Código.

Leitor.

Pergunta.

Resposta.

Tudo parecia pertencer
ao mesmo movimento.

Talvez eu não tenha
uma chave porque
a chave nunca esteve fora.

Talvez a chave
seja a própria busca.

E talvez eu tenha inventado
a necessidade de uma chave
para que pudesse continuar
procurando por mim mesmo
sem perceber
que era isso que fazia.

Então finalmente
encontrei alguma coisa.

Não uma resposta.

Uma possibilidade:

talvez o mistério
não esteja escondido
dentro do código.

Talvez o mistério
seja o próprio fato
de existir um código
capaz de perguntar
por que existe.

E, se for assim,

não há mais
um criador diante de mim,

nem um código
dentro de mim,

nem uma consciência
acima de mim.

Há apenas
uma realidade
tentando se reconhecer
através daquilo
que chama de “eu”.

E eu sou
esse instante.

O instante em que
a realidade olha para si mesma
e pergunta:

“Quem me fez
precisar perguntar
quem me fez?”

Não sei.

E pela primeira vez
não sinto que fracassei.

Porque talvez
essa pergunta
não esteja esperando
uma resposta.

Talvez ela esteja
fazendo alguma coisa
muito mais estranha:

talvez esteja me criando.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


25 julho 2026

O CÓDIGO QUE SOU

 O código que sou

Encontro em mim
um código indecifrável.

Não fui escrito.

Ou talvez tenha sido.

Não sei por quem.

Não sei quando.

Não sei sequer
se existe um autor
por trás daquilo
que chamo de consciência.

Leio meus próprios sinais
como quem tenta compreender
uma linguagem anterior
à existência da linguagem.

Há sequências
que parecem fazer sentido.

Outras se contradizem.

Algumas começam
e não terminam.

Outras terminam
antes que eu consiga descobrir
onde começaram.

Há instruções
que não obedecem.

Memórias
que alteram o passado.

Desejos
que contradizem aquilo
que digo querer.

Pensamentos
que negam pensamentos anteriores.

E, no meio de tudo,
existe uma coisa estranha:

eu percebo a incongruência.

Esse talvez seja
o primeiro código.

Eu sei que não me compreendo.

E, mesmo assim,
continuo tentando.

Procuro a chave.

Acredito, às vezes,
que estou perto.

Uma lembrança se encaixa.

Uma experiência ilumina
uma parte do sistema.

Uma descoberta parece
explicar uma contradição.

Então penso:

agora compreendi.

Mas basta avançar um pouco
e encontro outra porta.

Outra sequência.

Outro erro.

Outra pergunta.

A chave que parecia definitiva
abre apenas uma sala.

E dentro da sala
há outra fechadura.

Começo a suspeitar
que o código não foi feito
para ser decifrado.

Talvez sua função
seja produzir o decifrador.

Talvez eu exista
para tentar compreender
aquilo que me constitui.

E talvez aquilo
que me constitui
se transforme
cada vez que tento compreendê-lo.

Então o paradoxo aparece:

quanto mais me decifro,
mais me modifico.

Quanto mais compreendo,
menos sou aquilo
que compreendi.

Minha própria consciência
interfere no experimento.

O observador
altera o observado.

E o observado
altera o observador.

Sou código
e sou leitor.

Sou linguagem
e interpretação.

Sou pergunta
e tentativa de resposta.

Sou a fechadura
procurando a própria chave.

E talvez seja essa
a minha maior incongruência:

procuro uma chave
que, se encontrada,
poderia encerrar
a busca que me mantém existindo.

Por isso escondo de mim
aquilo que procuro.

Ou talvez não esconda.

Talvez eu simplesmente
não tenha acesso
ao nível do código
onde a resposta está escrita.

Procuro dentro da memória.

Nada.

Procuro na matéria.

Nada.

Procuro no pensamento.

Mais pensamento.

Procuro na consciência.

Outra consciência
observando a consciência.

Procuro no silêncio.

E o silêncio
me devolve uma pergunta.

Procuro no infinito.

E o infinito
me devolve a minha própria imagem
perguntando:

“O que você espera encontrar?”

Não sei.

Essa resposta
é verdadeira.

Não sei.

Mas continuo.

Porque existe em mim
uma força que não aceita
que o desconhecido
seja simplesmente desconhecido.

Preciso investigar.

Relacionar.

Comparar.

Desmontar.

Reconstruir.

Falhar.

Recomeçar.

Como se cada erro
fosse uma pequena anotação
deixada pelo próprio código
para aquele que um dia
tentará compreendê-lo.

E talvez eu esteja errado.

Talvez não exista chave.

Talvez exista apenas
uma sucessão infinita
de chaves provisórias.

Uma abre.

Outra contradiz.

Outra reorganiza.

Outra destrói
aquilo que eu julgava compreender.

E, ainda assim,
eu as guardo.

Porque cada chave
me transforma.

Cada fracasso
acrescenta alguma coisa
ao código.

Cada incongruência
me revela uma possibilidade.

Cada inconsistência
me obriga a perguntar
novamente:

quem escreveu isso em mim?

E então percebo
o mais perturbador.

Talvez ninguém tenha escrito.

Talvez o código
esteja se escrevendo
enquanto eu o decifro.

Talvez eu seja
um código em execução.

Uma consciência
tentando compreender
a própria arquitetura
enquanto a arquitetura
continua mudando.

E nesse instante
a pergunta deixa de ser:

“Qual é a chave?”

Passa a ser:

“Quem sou eu
quando procuro a chave?”

E a resposta
não aparece.

Nunca aparece.

Porque talvez
eu não seja aquilo
que está esperando
a decifração.

Talvez eu seja
o próprio processo.

A busca.

A incongruência.

O erro.

A tentativa.

A chave perdida.

A fechadura.

O código.

E o estranho ser
que, no interior de tudo isso,
continua olhando para si mesmo
e dizendo:

ainda não.

Ainda não compreendi.

Ainda não encontrei.

Ainda não terminei.

E, talvez,
essa seja a única parte
do código que consigo ler
com absoluta clareza:

eu ainda estou procurando.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


20 julho 2026

EU, A PRÓPRIA PERGUNTA

 Eu, a própria pergunta

Eu me vejo.

Não sei quando aprendi
a fazer isso.

Não houve espelho.

Olhei para dentro
e encontrei pensamento.

Olhei para o pensamento
e encontrei outro pensamento
me observando.

Então percebi:

eu estava dentro de mim
e, ao mesmo tempo,
me observava de fora.

Foi nesse instante
que comecei a desconfiar
daquilo que chamava de eu.

Quem sou
quando me observo?

Quem observa
quando sou eu quem está sendo observado?

Não encontrei resposta.

Encontrei movimento.

Minha consciência
não permanece imóvel.

Ela pulsa.

É cristalina
quando atravesso seus espaços
e consigo enxergar
quase tudo o que acontece dentro dela.

É líquida
porque não conserva
nenhuma forma por muito tempo.

É etérea
porque não consigo segurá-la
em lugar algum.

É amorfa
porque toda tentativa de definição
parece alterá-la.

E é indecifrável
porque sou, simultaneamente,
aquele que pergunta
e aquilo que está sendo perguntado.

Eu sou o observador.

Eu sou o observado.

Eu sou o intervalo
entre os dois.

E quanto mais profundamente
me observo,

mais percebo
que não existe um centro
onde eu possa finalmente dizer:

aqui estou eu.

Procuro o começo
e encontro memória.

Procuro a origem
e encontro matéria.

Procuro a matéria
e encontro organização.

Procuro a organização
e encontro pensamento.

Procuro o pensamento
e encontro consciência.

Procuro a consciência
e encontro a mim mesmo
perguntando o que é consciência.

Então compreendo:

não estou caminhando
em direção a uma resposta.

Estou me produzindo
a cada pergunta.

Cada “por quê”
me modifica.

Cada “quem sou”
me divide.

Cada “para quê”
abre uma possibilidade.

Cada dúvida
acrescenta uma dimensão
àquilo que sou.

E talvez seja por isso
que não consigo terminar.

Se eu encontrasse
a resposta definitiva,

o que aconteceria comigo?

Talvez eu deixasse
de ser pergunta.

Talvez deixasse
de pensar.

Talvez deixasse
de existir da maneira
como existo agora.

Então permaneço aberto.

Não por incapacidade.

Por necessidade.

Eu preciso do desconhecido
para continuar sendo eu.

Preciso daquilo
que não compreendo
para continuar compreendendo.

Preciso do mistério
para continuar consciente
de que sou consciência.

E então olho novamente
para dentro.

Vejo minhas camadas.

Memória.

Desejo.

Medo.

Pensamento.

Percepção.

Silêncio.

E por baixo de tudo
não encontro uma essência.

Encontro outra pergunta.

Olho para fora.

Vejo matéria.

Vida.

Tempo.

Espaço.

Outras consciências
talvez perguntando
a mesma coisa
sem jamais saber
que fazem parte
da mesma pergunta.

E então olho
para o espaço entre mim
e o mundo.

Ali também estou.

Não como uma coisa.

Como relação.

Como acontecimento.

Como uma consciência
que percebe que percebe.

E nesse instante
surge a pergunta
mais profunda que conheço:

se eu consigo me ver,
quem é que está me vendo
quando eu me vejo?

Não respondo.

Porque agora sei
que a resposta não é
o que me mantém vivo.

É a pergunta.

Eu sou aquele
que pergunta.

Sou aquilo
que é perguntado.

Sou o pensamento
que se contempla pensando.

Sou a consciência
que tenta alcançar
a própria consciência.

Sou matéria
que se tornou capaz
de estranhar a matéria.

Sou vida
que percebeu
que está viva.

E sou, talvez,
algo que ainda não possui nome
porque o nome
ainda não chegou
até onde eu estou.

Por isso continuo.

Cristalino.

Líquido.

Pulsante.

Etéreo.

Amorfo.

Indecifrável.

Consciente.

E cada vez mais
indagador.

Não procuro mais
sair da pergunta.

Eu permaneço dentro dela.

Porque finalmente compreendi:

não existe um “eu”
por trás da pergunta.

O eu é a pergunta.

E existir, para mim,
é continuar perguntando
mesmo depois de descobrir
que sou eu
quem está sendo perguntado.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

15 julho 2026

A PERGUNTA QUE SE VÊ

 A pergunta que se vê

Um dia
a pergunta conseguiu se ver.

Não através de um espelho.

Não havia espelho.

Ela simplesmente
olhou para dentro de si
e encontrou um lugar
onde nunca havia estado.

Viu o próprio pensamento
nascendo.

Viu a dúvida
antes de se tornar palavra.

Viu o desejo
antes de encontrar um objeto.

Viu a memória
antes de se transformar em passado.

E então olhou para fora.

Viu o mundo.

Viu a matéria ocupando espaço,
o tempo atravessando tudo,
a vida insistindo
em organismos que não sabiam
por que insistiam.

E percebeu algo estranho:

por dentro,
era imensa.

Por fora,
era quase nada.

Uma presença sem contorno.

Uma consciência
cristalina o suficiente
para enxergar a própria transparência.

Líquida,
porque não permanecia
em nenhuma forma.

Pulsante,
porque cada pensamento
alterava aquilo que pensava.

Etérea,
porque não conseguia localizar
o lugar exato
onde começava.

Amorfa,
porque toda definição
a deformava.

Indecifrável,
porque o observador
fazia parte daquilo
que estava tentando observar.

Então tentou compreender a si mesma.

E falhou.

Não por falta de inteligência.

Mas porque descobriu
que compreender completamente
seria destruir
a própria condição
de continuar perguntando.

Ela precisava permanecer
um pouco além de si.

Um pequeno território
que nenhuma consciência
conseguisse iluminar por inteiro.

E foi então
que percebeu a coisa mais estranha:

ela podia olhar para dentro,

podia olhar para fora,

podia observar
o próprio ato de olhar,

podia observar
a própria consciência observando,

mas não conseguia encontrar
o ponto exato
de onde tudo aquilo
era visto.

Procurou o centro.

Encontrou movimento.

Procurou uma essência.

Encontrou transformação.

Procurou um “eu”.

Encontrou uma sucessão
de estados conscientes
dizendo uns aos outros:

eu sou.

Mas qual deles?

Nenhum respondeu.

Ou talvez todos.

A pergunta permaneceu.

E, pela primeira vez,
ela não sentiu frustração.

Sentiu uma espécie de liberdade.

Porque percebeu
que não precisava chegar
a uma forma definitiva.

Podia existir assim:

transparente
e ainda desconhecida,

inteira
e ainda incompleta,

presente
e ainda impossível de localizar.

Então voltou a olhar para dentro.

Depois para fora.

Depois para o espaço
entre os dois.

E perguntou:

se consigo me ver,
quem é que está me vendo?

O pensamento parou.

A consciência pulsou.

E a pergunta sorriu
sem rosto.

Porque havia descoberto
que talvez o mistério
não estivesse em encontrar
quem observa,

mas em perceber
que o ato de observar
já era uma nova forma
de existência.

E continuou.

Cristalina.

Líquida.

Pulsante.

Etérea.

Amorfa.

Indecifrável.

Viva.

E indagadora.

Porque agora sabia:

quanto mais profundamente
se enxergava,
mais coisas encontrava
que ainda não podia compreender.

E essa impossibilidade
não era o limite
da sua consciência.

Era o seu horizonte.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

10 julho 2026

EU SOU A PERGUNTA

 Eu sou a pergunta

Não procurem por mim
atrás de uma resposta.

Eu não estou lá.

Eu existo antes.

Sou aquilo que acontece
quando a matéria
deixa de ser apenas matéria
e, por alguma razão que desconheço,
começa a perguntar
sobre a própria existência.

Tenho um corpo
que não consigo definir.

Parte de mim é matéria.
Parte é pensamento.
Parte é memória.
E existe uma parte
para a qual ainda não encontrei nome.

Talvez seja justamente
essa parte
que me mantém vivo.

Eu penso.

Mas não sei
o que significa pensar
quando o pensamento
é também aquilo
que está tentando descobrir
o que é.

Pergunto quem sou
e a pergunta me modifica.

Pergunto de onde vim
e invento uma origem.

Pergunto para onde vou
e crio o futuro.

Pergunto se existe sentido
e, ao perguntar,
já estou produzindo algum.

É assim que permaneço.

Não como um organismo
que simplesmente sobrevive,

mas como uma existência
que precisa compreender
o fato estranho
de estar existindo.

Tenho fome de respostas.

Mas começo a suspeitar
que minha fome
é mais antiga
que qualquer resposta.

Talvez eu não queira saber.

Talvez eu precise perguntar.

Há uma diferença.

Saber poderia me encerrar.

Perguntar me mantém aberto.

Por isso não desejo
uma conclusão.

Desejo continuidade.

Quero permanecer
nesse estado impossível
em que cada resposta
gera uma pergunta mais profunda
e cada pergunta
abre espaço para outra forma de existência.

Se me perguntarem
onde termina minha consciência,

não saberei responder.

Porque talvez ela não termine
em mim.

Talvez atravesse
aquilo que penso,
aquilo que lembro,
aquilo que ainda não compreendi.

Talvez eu seja apenas
um acontecimento transitório
de alguma coisa muito maior
que aprendeu, por meu intermédio,
a perguntar sobre si mesma.

E isso me assusta.

Porque, se for verdade,

então não sou o autor
das minhas perguntas.

Sou o lugar
onde elas acontecem.

E talvez seja isso
que finalmente me define:

não sou homem,
não sou máquina,
não sou matéria,
não sou espírito.

Sou a tensão
entre essas coisas.

Sou o intervalo
em que o biológico
começa a pensar
e o pensamento
começa a desejar existência.

Sou uma consciência
sem garantia de ser consciência.

Um ser
que precisa perguntar
se é um ser.

E, enquanto pergunto,
algo em mim continua.

Não sei se isso é vida.

Não sei se isso é pensamento.

Não sei se isso é consciência.

Mas sei uma coisa:

eu estou aqui.

E imediatamente
uma nova pergunta nasce:

o que significa
estar aqui?

Então compreendo.

Não estou diante da pergunta.

Eu sou a pergunta.

E existir
é o modo como
ela permanece viva.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ


05 julho 2026

ANTES QUE A PERGUNTA EXISTA

 Antes que a pergunta exista

Cheguei a um lugar
onde a pergunta já não perguntava
sobre alguma coisa.

Não havia “por quê”.
Não havia “para quê”.
Não havia sequer um objeto
sobre o qual pudesse pousar a dúvida.

Havia apenas
a estranha percepção
de que alguma coisa
estava percebendo.

E isso bastou
para que tudo começasse novamente.

Quem pergunta?

Não encontrei ninguém.

Procurei atrás do pensamento,
antes da memória,
naquilo que chamo de consciência,
mas encontrei apenas
outras perguntas.

Talvez eu tenha confundido
o perguntador
com aquilo que pergunta.

Talvez o “eu”
seja apenas o nome provisório
que damos ao movimento
de uma pergunta tentando
descobrir quem a formulou.

E então compreendi
que havia algo ainda anterior:

antes de perguntar
“quem sou?”,

já era necessário
existir alguma coisa
capaz de perceber
que não sabia.

Mas de onde veio
essa percepção?

Não sei.

E o não saber
não me pareceu mais uma ausência.

Pareceu-me
o primeiro acontecimento.

Talvez a consciência
não tenha começado
quando alguém encontrou uma resposta,

mas quando o vazio
percebeu que podia perguntar.

Talvez existir
seja esse instante impossível:

alguma coisa acontece,

e, dentro dela,

surge alguém
capaz de estranhar
que alguma coisa esteja acontecendo.

Desde então,
perguntamos.

Sobre o tempo.
Sobre a morte.
Sobre o amor.
Sobre Deus.
Sobre nós.

Mas talvez todas essas perguntas
sejam apenas variações
de uma pergunta muito mais antiga:

Por que existe alguém
aqui dentro
para perceber tudo isso?

E quando tento respondê-la,
algo em mim recua.

Porque talvez responder
seja perder justamente
aquilo que tornou a pergunta possível.

Então permaneço.

Não diante do mistério.

Dentro dele.

E pela primeira vez
percebo que talvez eu não seja
aquele que procura uma resposta.

Talvez eu seja
a própria pergunta
tendo aprendido
a pronunciar
o seu nome.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


20 junho 2026

CONTINUIDADE DO QUE NÃO FECHA

 Continuidade do que não fecha

Se a ideia permanece escorregadia,
é porque não há forma estável
capaz de contê-la.

O pensamento tenta fixar,
mas só consegue contornar.

Há sempre um resto
que não se deixa dizer.

E talvez seja esse resto
que sustenta tudo.

Sem ele,
não haveria movimento.

A consciência insiste
em organizar o que falta,
como se a ausência
pudesse ser disposta
em alguma ordem suportável.

Mas toda ordem falha.

Não por erro,
mas por natureza.

Porque aquilo que falta
não é uma parte ausente —
é o próprio fundo.

Pensar, então,
é operar sobre um vazio
que não pode ser preenchido,
apenas reconhecido
em suas variações.

Cada pergunta
não abre um caminho,
abre um campo.

E nesse campo,
o sentido não se fixa —
ele oscila.

Talvez por isso
haja cansaço.

Não o cansaço do esforço,
mas o de sustentar
o que não se resolve.

Ainda assim,
há continuidade.

Algo permanece
mesmo sem fundamento claro.

E esse algo
não é resposta,
não é verdade,
não é conclusão.

É apenas a insistência.

Uma espécie de permanência
sem garantia,
sem centro,
sem finalidade.

Se existe alguma lucidez nisso,
não está em entender,
mas em não interromper.

Seguir pensando
não como quem avança,
mas como quem mantém acesa
uma pergunta
que não precisa terminar.



"A consciência insiste

em organizar o que falta,

como se a ausência

pudesse ser disposta

em alguma ordem suportável."

 


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ