30 outubro 2026

AFETO EM ESTADO BRUTO

 Afeto em Estado Bruto

não é bonito.
não vem organizado.

é um afeto sem embalagem,
sem legenda,
sem manual.

aparece de repente
no meio do peito,
feito vontade de encostar
a testa em alguém
e ficar quieto.

não pede promessas.
pede presença.

é esse calor torto
que sobe pelo corpo
quando um nome atravessa o pensamento
sem aviso.

afeto em estado bruto
não sabe se defender.
ele chega aberto,
meio criança,
meio ferida.

não tem estratégia.
só acontece.

às vezes dói.
às vezes salva.
quase sempre desarma.

é um impulso simples:
querer cuidar,
querer ficar,
querer dividir o silêncio.

não fala bonito.
fala com o corpo.

mora nos gestos pequenos:
um copo d’água oferecido,
uma mão nas costas,
um “chegou bem?” enviado tarde da noite.

afeto bruto não promete eternidade.
ele só insiste no agora.

é vulnerável.
é desajeitado.
é verdadeiro demais pra caber em frases prontas.

e eu deixo.

deixo atravessar minhas defesas,
meus medos antigos,
meu histórico de quedas.

aceito esse amor sem acabamento,
essa vontade sem garantia,
essa coragem que não sabe o caminho
mas anda mesmo assim.

afeto em estado bruto
é isso:

um coração ainda em reforma
escolhendo sentir
apesar de tudo.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 




29 outubro 2026

CICATRIZ INVISÍVEL

 Cicatriz Invisível

ninguém vê.
mas ela responde ao clima.

mora num ponto exato do peito
onde certas lembranças
ainda fazem eco.

não sangra.
não chama atenção.
apenas existe.

é uma cicatriz sem fotografia,
dessas que só o corpo reconhece
quando um nome passa perto demais
ou um cheiro antigo atravessa o ar.

aprendi a conviver com ela
como quem aprende
a conviver com o próprio silêncio.

há dores que não pedem cura,
pedem escuta.

carrego essa marca
como quem carrega um sotaque emocional:
ela denuncia de onde venho.

às vezes aperta.
às vezes dorme.

mas me lembra
que sobrevivi
ao que quase me quebrou.

não escondo mais.
não romantizo.

deixo que ela fique
onde está.

faz parte do mapa.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



28 outubro 2026

TENTATIVA DE LEVEZA

Tentativa de Leveza

hoje tento andar
sem arrastar o passado.

abro as janelas internas.
deixo o ar circular.

a leveza não chega pronta —
ela é construída
em decisões pequenas:
beber água,
olhar o céu,
perdoar um pensamento.

aprendo a soltar os ombros.
a respirar sem culpa.
a rir baixo de mim mesmo.

não busco euforia.
busco espaço.

há uma liberdade tímida
em não carregar tudo.

coloco algumas dores no chão
e sigo com o resto.

a leveza aparece assim:
num passo menos pesado,
num suspiro mais fundo,
num coração que aceita
não controlar o dia.

não é fuga.
é escolha.

escolho não endurecer.

deixo que o corpo encontre
um ritmo mais gentil.
deixo que a alma caminhe
sem armadura.

tentativa de leveza
é isso:

continuar sensível
num mundo áspero,
continuar aberto
depois da queda,
continuar humano
mesmo cansado.

e por agora,
isso basta.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



27 outubro 2026

MANHÃ SEGUINTE

 Manhã Seguinte

a manhã chega sem anúncio,
como quem não quer atrapalhar.

a claridade ocupa devagar
os cantos do quarto.
o corpo acorda antes da coragem.

há um resto de sonho nos olhos
e um silêncio morno no peito.

levanto sem pressa.
o chão está frio.
o dia ainda não decidiu nada.

faço café como quem realiza
um pequeno rito de permanência.

o vapor sobe
levando embora
parte do peso da noite.

escuto carros passando,
um vizinho abrindo janela,
um cachorro latindo longe.

o mundo continua
independente de mim.

e isso, curiosamente, conforta.

recolho o que sobrou da madrugada,
alinho pensamentos tortos,
respiro dentro do agora.

não espero milagres.
aceito o comum.

sou feito dessa manhã imperfeita,
desse corpo que ainda boceja,
desse coração que aprende
novos jeitos de bater.

a vida recomeça
em volume baixo.

e eu acompanho.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraói - RJ


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