19 março 2026

OFÍCIO DO INVISÍVEL

 

Ofício do Invisível

Pousei o escudo no umbral da porta,

deixei que a glória dormisse lá fora.

Descobri que a vida, essa coisa torta,

não quer espetáculo, quer apenas o agora.

 

Não sou o herói de uma trama inventada,

nem o soldado de uma guerra sem dono.

Sou apenas o passo na estrada calada,

o corpo que busca o sustento e o sono.

 

Há um reino secreto, debaixo da pele,

onde o ar entra e sai sem pedir permissão.

Não há quem vigie, não há quem atropele

a calma cadência do meu coração.

 

Não preciso estar inteiro para ser verdade,

nem traduzir o que sinto em moeda ou canção.

Minha maior e mais pura liberdade

é a respiração que não vira exposição.

 

Pois enquanto o mundo lá fora delira,

buscando o aplauso, o palco, o clarão,

minha alma sossega, se inclina e respira:

não por prova de força, mas por ocupação.

 

Sustento-me assim, nos vãos, nos espaços,

onde o olhar do outro não pode tocar.

A vida é o silêncio que guia meus passos,

o gesto infinito de apenas... estar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ



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