Ofício do Invisível
Pousei o
escudo no umbral da porta,
deixei que a
glória dormisse lá fora.
Descobri que
a vida, essa coisa torta,
não quer
espetáculo, quer apenas o agora.
Não sou o
herói de uma trama inventada,
nem o
soldado de uma guerra sem dono.
Sou apenas o
passo na estrada calada,
o corpo que
busca o sustento e o sono.
Há um reino
secreto, debaixo da pele,
onde o ar
entra e sai sem pedir permissão.
Não há quem
vigie, não há quem atropele
a calma
cadência do meu coração.
Não preciso
estar inteiro para ser verdade,
nem traduzir
o que sinto em moeda ou canção.
Minha maior
e mais pura liberdade
é a
respiração que não vira exposição.
Pois
enquanto o mundo lá fora delira,
buscando o
aplauso, o palco, o clarão,
minha alma
sossega, se inclina e respira:
não por
prova de força, mas por ocupação.
Sustento-me
assim, nos vãos, nos espaços,
onde o olhar
do outro não pode tocar.
A vida é o
silêncio que guia meus passos,
o gesto
infinito de apenas... estar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ
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