11 março 2026

O FILTRO DA MANSIDÃO

 

O Filtro da Mansidão

Aprendi a olhar o mundo

através de uma cortina de chuva,

não para esconder o horizonte,

mas para que ele doa um pouco menos.

 

Há uma violência na luz plena,

uma crueldade no que é nítido demais.

Prefiro o contorno impreciso,

o detalhe que se perde na sombra,

o verbo que não se diz por inteiro.

 

Uso o silêncio como um anteparo,

uma pele entre a minha carne

e o ruído das trombetas em brasa.

Ajusto o foco da alma

para encontrar a beleza no rastro,

naquilo que já está de partida.

 

Não é fuga, nem cegueira.

É a sabedoria de quem sabe

que a verdade, sem filtro, queima.

E eu só procuro a temperatura exata

onde o peito possa se abrir

sem precisar virar cicatriz.

 

Para que o dia seja passível,

para que o chão seja casa,

e para que o mundo, enfim,

doa um pouco menos.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

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