O Filtro da
Mansidão
Aprendi a
olhar o mundo
através de
uma cortina de chuva,
não para
esconder o horizonte,
mas para que
ele doa um pouco menos.
Há uma
violência na luz plena,
uma
crueldade no que é nítido demais.
Prefiro o
contorno impreciso,
o detalhe que
se perde na sombra,
o verbo que
não se diz por inteiro.
Uso o
silêncio como um anteparo,
uma pele
entre a minha carne
e o ruído
das trombetas em brasa.
Ajusto o
foco da alma
para
encontrar a beleza no rastro,
naquilo que
já está de partida.
Não é fuga,
nem cegueira.
É a
sabedoria de quem sabe
que a
verdade, sem filtro, queima.
E eu só
procuro a temperatura exata
onde o peito
possa se abrir
sem precisar
virar cicatriz.
Para que o
dia seja passível,
para que o
chão seja casa,
e para que o
mundo, enfim,
doa um pouco
menos.
Vicente
Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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