12 março 2026

O RASTRO QUE ESCORRE

 

O Rastro que Escorre

Sinto o gosto do sal que sobe à garganta,

o anúncio líquido de que o espaço é pouco

para tanto que se guarda.

 

Às vezes, os mapas se borram;

a tinta cede à umidade dos olhos,

e o caminho se faz pelo rastro que escorre.

 

É no embaçado da visão que me encontro,

nessa lente de água que deforma o mundo

para que ele doa um pouco menos.

 

Cada lágrima é um verso que não precisou de gramática,

uma palavra muda que finalmente

se permitiu cair.

 

E quando o chumbo se torna mar,

eu transbordo.

Lavo por dentro as esperanças alheias

até que sobre apenas o que é meu.

 

Procuro o lugar onde a lágrima encontra a terra

e o respirar não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

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