O Ajuste da
Lente
Sou o
fotógrafo de mim mesmo,
aquele que
aprendeu a ler a luz
antes mesmo
que ela toque a pele.
Não busco o
clarão que cega,
mas o
instante em que o brilho se rende
e revela o
que estava escondido.
Ajusto o
foco no detalhe miúdo:
a poeira que
dança no raio de sol,
o vinco no
lençol que sobrou do sonho,
o exato
momento em que o silêncio
deixa de ser
peso para ser moldura.
Há uma
sabedoria fina,
quase
mecânica,
em saber
onde a sombra deve ficar.
Pois é na
sombra que o descanso mora,
é ali que a
textura da alma respira
longe da
nitidez cruel do mundo.
Não capturo
o todo —
o todo é
vasto demais para o peito.
Escolho o
fragmento, a margem,
o reflexo na
xícara de café,
para que a
beleza seja palpável
e a dor,
enfim,
perca o
foco.
Existo
assim:
entre o
clique e o fôlego,
eternizando
apenas o que me permite
continuar
inteiro,
sob a luz
mansa de quem
finalmente
aprendeu a enxergar.
Vicente
Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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