O Vão entre os Dias (Versão das Águas)
Sou um corpo que tenta
caber
no intervalo estreito
entre dois sóis,
nessa fenda miúda e
secreta
onde o nome ainda não foi
soprado.
Sinto o gosto do sal que
sobe à garganta,
o anúncio líquido de que
o espaço é pouco
para tanto que se guarda.
Carrego comigo mapas
imprecisos,
dobras de uma infância
guardada,
gestos que herdei do
silêncio
e esta fome estranha,
quase antiga,
pelo descanso.
Às vezes, os mapas se
borram;
a tinta cede à umidade
dos olhos,
e o caminho se faz pelo
rastro que escorre.
Quero caber no espelho
sem precisar pedir
desculpas,
ocupar o assento vazio do
ônibus,
morar na minha própria
sombra
quando a luz do mundo
decide pressionar.
É no embaçado da visão
que me encontro,
nessa lente de água que
deforma o mundo
para que ele doa um pouco
menos.
Sou este corpo que
aprende
a largura exata da
existência
através do impacto e da
recusa;
na tentativa diária e
muda
de existir finalmente sem
legendas.
Cada lágrima é um verso
que não precisou de gramática,
uma palavra muda que
finalmente
se permitiu cair.
Sinto em mim o peso do
chumbo,
mas, também, quase flutuo
—
não por leveza de
espírito,
mas pela exaustão
absoluta
de carregar o que os
outros esperam de mim.
E quando o chumbo se
torna mar,
eu transbordo.
Lavo por dentro as
esperanças alheias
até que sobre apenas o
que é meu.
Um corpo que tenta caber
não procura uma moldura
ou um quadro.
Ele procura o chão.
Procura o lugar onde a
lágrima encontra a terra
e o respirar não seja um
ato de coragem,
mas apenas
continuidade.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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