12 março 2026

O VÃO ENTRE OS DIAS (VERSÃO DAS ÁGUAS)

 

O Vão entre os Dias (Versão das Águas)

Sou um corpo que tenta caber

no intervalo estreito entre dois sóis,

nessa fenda miúda e secreta

onde o nome ainda não foi soprado.

Sinto o gosto do sal que sobe à garganta,

o anúncio líquido de que o espaço é pouco

para tanto que se guarda.

 

Carrego comigo mapas imprecisos,

dobras de uma infância guardada,

gestos que herdei do silêncio

e esta fome estranha, quase antiga,

pelo descanso.

Às vezes, os mapas se borram;

a tinta cede à umidade dos olhos,

e o caminho se faz pelo rastro que escorre.

 

Quero caber no espelho

sem precisar pedir desculpas,

ocupar o assento vazio do ônibus,

morar na minha própria sombra

quando a luz do mundo decide pressionar.

É no embaçado da visão que me encontro,

nessa lente de água que deforma o mundo

para que ele doa um pouco menos.

 

Sou este corpo que aprende

a largura exata da existência

através do impacto e da recusa;

na tentativa diária e muda

de existir finalmente sem legendas.

Cada lágrima é um verso que não precisou de gramática,

uma palavra muda que finalmente

se permitiu cair.

 

Sinto em mim o peso do chumbo,

mas, também, quase flutuo —

não por leveza de espírito,

mas pela exaustão absoluta

de carregar o que os outros esperam de mim.

E quando o chumbo se torna mar,

eu transbordo.

Lavo por dentro as esperanças alheias

até que sobre apenas o que é meu.

 

Um corpo que tenta caber

não procura uma moldura ou um quadro.

Ele procura o chão.

Procura o lugar onde a lágrima encontra a terra

e o respirar não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

Nenhum comentário:

Postar um comentário