O Vão entre os Dias
Sou um corpo que tenta caber
no intervalo estreito entre dois sóis,
nessa fenda miúda e secreta
onde o nome ainda não foi soprado.
Carrego comigo mapas imprecisos,
dobras de uma infância guardada,
gestos que herdei do silêncio
e esta fome estranha, quase antiga,
pelo descanso.
Quero caber no espelho
sem precisar pedir desculpas,
ocupar o assento vazio do ônibus,
morar na minha própria sombra
quando a luz do mundo decide pressionar.
Sou este corpo que aprende
a largura exata da existência
através do impacto e da recusa;
na tentativa diária e muda
de existir finalmente sem legendas.
Sinto em mim o peso do chumbo,
mas, também, quase flutuo —
não por leveza de espírito,
mas pela exaustão absoluta
de carregar o que os outros esperam de mim.
Um corpo que tenta caber
não procura uma moldura ou um quadro.
Ele (que sou eu) procura o chão.
Um lugar onde o respirar
não seja um ato de coragem,
mas apenas
continuidade.
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