17 março 2026

O VOLUME FINAL

 

O Volume Final

Por tanto tempo fui apenas um verbete,

uma palavra contida em sua própria margem,

com a definição seca, direta,

sem espaço para a cor da paisagem.

Uma linha tênue entre parênteses,

dizendo o que sou, sem dizer o que sinto,

um breve registro de quem existia,

mas que no silêncio se mantinha labirinto.

 

Mas agora, ao folhear-me no escuro,

entre as camadas que sob a pele cultivei,

não encontro mais a fronteira do resumo,

nas linhas densas que finalmente encontrei.

Não sou mais o nome que se explica rápido;

sou a história complexa, o tempo acumulado,

a enciclopédia inteira que me representa,

onde cada fracasso e cada acerto foi registrado.

 

Sou o texto completo, a nota de rodapé,

o contexto que justifica o meu próprio nome.

Tenho os verbetes que fui, mas tenho também

o mapa de como cada um deles me consome.

Sou geologia de afetos, arqueologia de falhas,

com verbetes sobre o silêncio, a dor e a doçura.

Tudo junto, encadernado por inteiro,

nesta obra que hoje, finalmente, se segura.

 

Pois ser um verbete é limitar a existência

ao que o outro consegue, com pressa, ler.

Mas ser enciclopédia é aceitar a densidade

de tudo o que fomos para chegar a ser.

Essas camadas me representam por inteiro,

cada uma delas, de fato, sou eu mesmo.

E no volume final, onde a vida transborda,

não há mais dúvida: eu me encontrei a esmo.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



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