O Volume
Final
Por tanto
tempo fui apenas um verbete,
uma palavra
contida em sua própria margem,
com a
definição seca, direta,
sem espaço
para a cor da paisagem.
Uma linha
tênue entre parênteses,
dizendo o
que sou, sem dizer o que sinto,
um breve
registro de quem existia,
mas que no
silêncio se mantinha labirinto.
Mas agora,
ao folhear-me no escuro,
entre as
camadas que sob a pele cultivei,
não encontro
mais a fronteira do resumo,
nas linhas
densas que finalmente encontrei.
Não sou mais
o nome que se explica rápido;
sou a
história complexa, o tempo acumulado,
a
enciclopédia inteira que me representa,
onde cada
fracasso e cada acerto foi registrado.
Sou o texto
completo, a nota de rodapé,
o contexto
que justifica o meu próprio nome.
Tenho os
verbetes que fui, mas tenho também
o mapa de
como cada um deles me consome.
Sou geologia
de afetos, arqueologia de falhas,
com verbetes
sobre o silêncio, a dor e a doçura.
Tudo junto,
encadernado por inteiro,
nesta obra
que hoje, finalmente, se segura.
Pois ser um
verbete é limitar a existência
ao que o
outro consegue, com pressa, ler.
Mas ser
enciclopédia é aceitar a densidade
de tudo o
que fomos para chegar a ser.
Essas
camadas me representam por inteiro,
cada uma
delas, de fato, sou eu mesmo.
E no volume
final, onde a vida transborda,
não há mais
dúvida: eu me encontrei a esmo.
Vicente
Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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