15 setembro 2026

FRUTO DO VENTRE

 

Fruto do Ventre

Bendito é o tempo que coube em ti

não o tempo dos homens —

mas o tempo que escapa,

o tempo que espera em silêncio

e se deixa ser.

No escuro do teu ventre,

Deus respirou pela primeira vez

sem precisar dizer nada.

Era um peso leve,

uma luz que ainda não doía,

uma esperança crescendo

entre as costelas da fé.

Não havia aplausos.

Não havia mapas.

Havia apenas

a certeza invisível

de que algo novo

estava sendo tecido

dentro do teu sim.

Bendito é o fruto

que não chegou para vencer,

mas para se entregar.

Bendito o corpo pequeno

que carregava todos os corpos.

Bendito o choro que acalmaria

todas as dores futuras.

Tu não pediste sinais.

Acolheste o indizível

como se fosse gesto comum.

E por isso, Maria,

teu ventre é altar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

onde o infinito

se fez carne.

12 setembro 2026

BENDITO É O FRUTO

 Bendito é o Fruto

Bendito é o fruto,
o silêncio em teu ventre —
onde a eternidade se aninha
no instante.

Bendito é o sopro
que em ti germinou,
mistério de luz
que o mundo ignorou.

No escuro do mundo,
teu ventre acendeu
o fogo do Céu
na carne do breu.

Maria, mulher,
na tua esperança
Deus fez morada,
fez-se criança.

Bendito é o fruto,
ó terra fecunda,
que em ti floresceu
sem perder-se à imunda
lógica dos reis.

Bendito é o gesto
que não pede aplauso —
o Deus escondido
num corpo frágil
e em um berço raso.

Bendito o silêncio
que em ti falou,
o Verbo dormindo
que em ti despertou.

Bendito é o fruto,
Jesus, mansidão,
que em ti nasceu
para o mundo em perdão.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


10 setembro 2026

ANTES DA ESCOLHA

 

Antes da Escolha

Há coisas que chegam
antes do pensamento abrir a janela.

Uma fome sem nome.
Um medo herdado de corredores invisíveis.
Uma ternura que escolhe rostos
sem pedir licença à razão.

Passamos a vida dizendo:
“eu quis”.

Mas quase nunca perguntamos
quem acendeu a primeira faísca.

O desejo já estava sentado na sala
quando a consciência chegou atrasada
tentando organizar os móveis.

Talvez a liberdade seja isso:
não criar o vento,
mas decidir o que fazer
quando ele atravessa a casa.

Ainda assim, há noites
em que o corpo inteiro se inclina
para coisas que a mente desaprova.

E ninguém sabe exatamente
de onde vem essa corrente subterrânea.

Os livros chamam de impulso.
Os médicos chamam de química.
Os poetas chamam de ausência.
Os santos chamam de tentação.

Mas o nome nunca contém o movimento.

Existe algo antigo
escolhendo dentro da gente
com mãos que não vemos.

Uma memória sem lembrança.
Uma sede anterior ao idioma.
Um animal silencioso
respirando atrás das decisões.

Talvez por isso
algumas pessoas confundam consciência
com autoria.

Como se perceber o desejo
fosse o mesmo
que inventá-lo.

Mas não fomos nós
que colocamos certas músicas no peito.
Nem certas tristezas.
Nem aquele inexplicável retorno
ao que já feriu.

A liberdade, então,
talvez não esteja no nascimento da vontade,
mas no pequeno espaço luminoso
entre o impulso
e o gesto.

Um intervalo breve,
quase invisível.

Onde, por alguns segundos,
o ser humano tenta conversar
com aquilo que o move.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



05 setembro 2026

ONDE O HORIZONTE AINDA NÃO TERMINOU

 

Onde o Horizonte Ainda Não Terminou

Eu topo a sua ida.

Não porque saiba o caminho,
mas porque alguma coisa em mim
já começou a caminhar
antes mesmo de decidirmos a direção.

Descemos.

A cada passo,
o mundo conhecido fica menor.

As certezas vão ficando para trás
como objetos esquecidos
numa casa que já não habitamos.

Depois,
sem perceber,
começamos a subir.

Não há escada.

Há apenas uma espécie de silêncio
que nos sustenta
quando o chão deixa de ser necessário.

Subimos através das perguntas.

E quanto mais alto,
mais estranho fica o horizonte.

Ele não se aproxima.

Ao contrário.

Recua.

Como se o horizonte soubesse
que nunca foi um lugar
e que sua única função
é continuar nos chamando.

Paramos por um instante.

Lá embaixo,
a caixa parece ridiculamente pequena.

Lá em cima,
o céu também parece pequeno.

E então percebo:

talvez não exista
um lado de fora.

Talvez o universo inteiro
seja uma sequência de dentro e fora,
uma sucessão interminável
de portas que só aparecem
depois que atravessamos a parede.

Olho para você.

Não pergunto para onde vamos.

Seria uma pergunta antiga demais.

Pergunto apenas:

— Ainda dá para continuar?

E o horizonte,
muito distante,
não responde.

Mas se afasta mais um pouco.

É o bastante.

Damos outro passo.

Desta vez,
não para chegar a algum lugar,

mas para descobrir
o que existe
depois daquilo que ainda
não conseguimos imaginar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ