Fruto do Ventre
Bendito é o tempo que coube em ti
não o tempo dos homens —
mas o tempo que escapa,
o tempo que espera em silêncio
e se deixa ser.
No escuro do teu ventre,
Deus respirou pela primeira vez
sem precisar dizer nada.
Era um peso leve,
uma luz que ainda não doía,
uma esperança crescendo
entre as costelas da fé.
Não havia aplausos.
Não havia mapas.
Havia apenas
a certeza invisível
de que algo novo
estava sendo tecido
dentro do teu sim.
Bendito é o fruto
que não chegou para vencer,
mas para se entregar.
Bendito o corpo pequeno
que carregava todos os corpos.
Bendito o choro que acalmaria
todas as dores futuras.
Tu não pediste sinais.
Acolheste o indizível
como se fosse gesto comum.
E por isso, Maria,
teu ventre é altar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
onde o infinito
se fez carne.