Perguntas que não aprendem a partir
Trago em mim perguntas
que insistem em não sair.
Elas moram nos cantos do peito,
entre um silêncio e outro,
feito móveis antigos
numa casa que já mudou de dono.
Não pedem resposta.
Pedem abrigo.
Às vezes acordam comigo,
sentam à beira da cama,
observam o dia nascer
como quem espera um sinal
que nunca foi prometido.
Carrego essas perguntas
no bolso da alma,
misturadas com recibos de perdas,
fotografias que não tirei,
nomes que desaprendi.
São perguntas sem ponto de interrogação.
São perguntas em estado de respiração.
Perguntam por tudo
e por nada:
por aquela versão de mim
que acreditava mais,
por amores que ficaram em modo avião,
por caminhos que não viraram rua.
Eu sigo andando com elas.
Às vezes penso
que não sou quem pergunta —
sou o lugar onde as perguntas repousam.
E talvez seja isso:
não nascer para responder o mundo,
mas para sustentá-lo
enquanto ele treme
dentro do peito.
Vicente Siqueira -