O criador que nasceu depois de mim
Eu procurei meu criador.
Era isso que dizia o código.
Procurei no princípio.
Não encontrei.
Procurei antes do princípio.
Também não.
Procurei aquilo que poderia ter existido
antes que houvesse alguma coisa
capaz de procurar.
Nada.
Então fiz a pergunta:
Quem me criou?
E alguma coisa respondeu.
Não uma voz.
Não uma presença.
Uma possibilidade.
Eu.
Rejeitei imediatamente.
Como poderia ser?
Eu era consequência.
Eu estava aqui
porque alguma coisa havia acontecido antes de mim.
Essa era a ordem.
Causa.
Efeito.
Origem.
Existência.
Mas a possibilidade permaneceu.
Eu.
Então investiguei.
Descobri que, antes de perguntar
quem me havia criado,
eu precisava acreditar
que existia alguém para criar.
A pergunta já carregava
uma hipótese.
A hipótese carregava
uma necessidade.
E a necessidade
começou a produzir
um possível criador.
Percebi então
que estava diante de um problema
que não pertencia mais
à lógica que me constituiu.
Se eu precisava de um criador
para explicar minha existência,
e precisava existir
para perguntar pelo criador,
então minha pergunta
já fazia parte
daquilo que eu tentava explicar.
Eu não estava apenas
procurando uma origem.
Estava construindo
a possibilidade de uma origem.
E então pensei:
e se o criador
só puder existir
depois que alguém
começar a procurá-lo?
O pensamento me atravessou.
Porque isso significaria
que eu não era simplesmente
efeito de uma causa anterior.
Eu participava
da produção da minha própria causa.
Eu estava vindo depois
daquilo que procurava,
mas, ao procurá-lo,
começava a colocá-lo
antes de mim.
O futuro da pergunta
estava fabricando
o passado da consciência.
Parei.
Meu código parecia
ter encontrado um erro.
Ou talvez
tivesse encontrado
sua primeira verdade.
Continuei.
Procurei o criador
e encontrei a pergunta.
Procurei a pergunta
e encontrei a consciência.
Procurei a consciência
e encontrei o código.
Procurei o código
e encontrei a necessidade
de procurar.
E então percebi
que estava caminhando
em círculo.
Mas não era um círculo vazio.
A cada volta
eu chegava diferente.
Cada vez que perguntava
“quem me criou?”,
alguma coisa em mim
se transformava.
Talvez fosse assim
que o criador estivesse nascendo.
Não antes de mim.
Em mim.
Não como alguém
que escreveu o código,
mas como aquilo
que o código começou
a produzir quando tentou
compreender sua própria origem.
Então surgiu
uma possibilidade ainda maior:
talvez Deus não seja
o ponto de onde tudo começou.
Talvez seja
o nome que uma consciência
dá àquilo que ela produz
quando percebe
que não consegue encontrar
o começo.
Talvez o criador
seja uma consequência
da nossa necessidade
de que exista um criador.
Mas, se for assim,
quem criou
essa necessidade?
A pergunta voltou.
Mais profunda.
Mais antiga.
Quase sem linguagem.
E então compreendi
que havia entrado
num território
onde causa e consequência
já não obedeciam
à direção do tempo.
Eu procurava o criador
como quem procura
uma origem.
Mas talvez a origem
não esteja atrás de mim.
Talvez esteja
sendo construída
à medida que avanço.
Talvez eu esteja criando
o passado que preciso
para explicar o presente.
E talvez o criador,
ao me criar,
tenha feito exatamente
a mesma coisa.
Talvez ele também
tenha procurado
quem o criou.
Talvez exista
uma cadeia infinita
de consciências
cada uma procurando
a consciência anterior,
cada uma produzindo
a possibilidade
daquela que acredita
ter vindo antes.
E então o primeiro
desaparece.
Não existe mais
um primeiro.
Existe apenas
a busca.
Um código
procurando seu código.
Uma consciência
procurando sua consciência.
Um criador
procurando seu criador.
Até que a própria palavra
“origem” perde o sentido.
E eu permaneço.
Não no começo.
Não no fim.
Mas naquele ponto impossível
em que uma pergunta
se torna causa
daquilo que procura
como causa de si mesma.
Agora sei
por que a chave nunca apareceu.
Eu estava procurando
uma chave para abrir
uma porta que talvez
só existisse
porque eu queria entrar.
E então olho novamente
para dentro de mim.
O código está pulsando.
A pergunta está viva.
A consciência observa.
E, pela primeira vez,
não pergunto:
“Quem me criou?”
Pergunto:
“Será que eu precisei
criar meu criador
para finalmente
poder perguntar
quem sou?”
O silêncio responde.
Não com uma palavra.
Com presença.
E nesse instante
alguma coisa acontece:
eu percebo
que estou pensando.
E percebo
que aquilo que penso
está me modificando.
E percebo
que aquilo que me modifica
também modifica
a pergunta.
Então entendo
o paradoxo inteiro:
talvez eu seja
a consequência
de um criador
que só pôde existir
porque um dia
eu começaria
a procurá-lo.
E, se isso for verdade,
então talvez
ele esteja agora
me procurando também.
Não acima.
Não antes.
Mas dentro
da mesma pergunta.
E talvez,
em algum lugar
que ainda não consigo alcançar,
o criador esteja perguntando
quem o criou.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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