Ontologia do que não se resolve
Há algo em mim
que não coincide comigo.
Um núcleo sem nome,
anterior à linguagem,
onde as perguntas não são formuladas —
são.
Não surgem.
Já estavam.
Como se eu tivesse nascido
no meio de uma frase
que nunca começou.
Essas perguntas não interrogam o mundo.
Elas sustentam o mundo
na beira do abismo do sentido.
São anteriores ao “por quê”.
Habitam um antes mais antigo
que qualquer causa.
Não pedem resposta
porque não reconhecem o tempo
como linha.
Nelas, tudo acontece ao mesmo tempo:
o que fui,
o que falhei em ser,
o que talvez jamais se organize
em forma de existência.
Há momentos
em que percebo:
Não sou eu que penso perguntas —
sou pensado por elas.
Como se minha consciência
fosse apenas a superfície
onde algo mais fundo
tenta se lembrar de si.
E esse “si”
não é pessoa,
não é história,
não é sequer presença.
É um quase.
Um quase-ser
que insiste
sem nunca atravessar.
Talvez por isso
toda resposta soe inadequada:
Responder é reduzir
o infinito à gramática,
é dar contorno ao que nasceu
sem borda.
Então permaneço.
Não como quem espera,
mas como quem consente
em não concluir.
Há uma forma de lucidez
em não fechar o sentido.
Há uma espécie de verdade
em sustentar o enigma
sem violentá-lo com certezas.
E se existir, no fundo,
for apenas isso —
Ser o lugar
onde o indizível
se demora.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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