27 agosto 2026

ONDE O PENSAMENTO PERDE O NOME

Onde o Pensamento Perde o Nome 


Não levarei mapas.


Eles pertencem aos lugares

que alguém já descobriu.


Não levarei bússolas.


Elas apontam para direções

que o mundo reconhece.


Eu procuro outra coisa.


Um lugar sem coordenadas,

onde meu pensamento possa caminhar

sem precisar chegar a uma conclusão.


Eu disse:

a poesia nos sacia.


E talvez seja verdade.


Porque há uma fome

que nenhum conhecimento alimenta.


Uma fome de atravessar

aquilo que ainda não tem nome.


Sigo.


À minha frente,

o horizonte continua distante.


Mas agora já não me incomoda.


Aprendi que algumas distâncias

não foram feitas para serem vencidas.


Foram feitas para me transformar

enquanto caminho.


Em algum momento,

não sei exatamente quando,

meu pensamento começa a perder a voz.


A poesia assume.


Depois a poesia também silencia.


E eu fico ali,


num lugar impossível de explicar

sem destruí-lo pela explicação.


Olho ao redor

e percebo que cheguei.


Não há portal.


Não há luz sobrenatural.


Não há uma inscrição dizendo:

você finalmente chegou.


Há apenas uma sensação

de que alguma coisa

deixou de precisar ser compreendida.


Talvez seja isso.


O lugar onde meu pensamento e minha poesia

já não sabem quem começou primeiro.


Onde minha pergunta

não exige resposta.


Onde o mistério

não é ausência de conhecimento,


mas uma forma mais profunda

de presença.


Fico em silêncio.


E, pela primeira vez,

não sinto necessidade

de quebrá-lo.


Porque descubro

que o silêncio também pensa.


E talvez,

bem lá no fundo,


a poesia tenha começado assim:


quando eu, ser humano,

olhei para o infinito,


não encontrei uma resposta,


mas respirei fundo


e decidi continuar olhando.


Vicente Siqueira - Doces Poesias  - Barra do Piraí - RJ



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