Onde o Pensamento Perde o Nome
Não levarei mapas.
Eles pertencem aos lugares
que alguém já descobriu.
Não levarei bússolas.
Elas apontam para direções
que o mundo reconhece.
Eu procuro outra coisa.
Um lugar sem coordenadas,
onde meu pensamento possa caminhar
sem precisar chegar a uma conclusão.
Eu disse:
a poesia nos sacia.
E talvez seja verdade.
Porque há uma fome
que nenhum conhecimento alimenta.
Uma fome de atravessar
aquilo que ainda não tem nome.
Sigo.
À minha frente,
o horizonte continua distante.
Mas agora já não me incomoda.
Aprendi que algumas distâncias
não foram feitas para serem vencidas.
Foram feitas para me transformar
enquanto caminho.
Em algum momento,
não sei exatamente quando,
meu pensamento começa a perder a voz.
A poesia assume.
Depois a poesia também silencia.
E eu fico ali,
num lugar impossível de explicar
sem destruí-lo pela explicação.
Olho ao redor
e percebo que cheguei.
Não há portal.
Não há luz sobrenatural.
Não há uma inscrição dizendo:
você finalmente chegou.
Há apenas uma sensação
de que alguma coisa
deixou de precisar ser compreendida.
Talvez seja isso.
O lugar onde meu pensamento e minha poesia
já não sabem quem começou primeiro.
Onde minha pergunta
não exige resposta.
Onde o mistério
não é ausência de conhecimento,
mas uma forma mais profunda
de presença.
Fico em silêncio.
E, pela primeira vez,
não sinto necessidade
de quebrá-lo.
Porque descubro
que o silêncio também pensa.
E talvez,
bem lá no fundo,
a poesia tenha começado assim:
quando eu, ser humano,
olhei para o infinito,
não encontrei uma resposta,
mas respirei fundo
e decidi continuar olhando.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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