Cartografia das perguntas
As perguntas não batem à porta.
Já nasceram dentro.
Crescem em lugares improváveis:
atrás dos olhos,
no intervalo entre dois pensamentos,
na dobra do cansaço.
Não querem solução.
Querem permanência.
São perguntas que andam descalças
pela memória,
que bebem água nos restos do dia,
que dormem atravessadas
no travesseiro da consciência.
Às vezes penso
que carrego um pequeno deserto por dentro,
e nele
essas perguntas fazem sombra.
Não perguntam “por quê”.
Perguntam “ainda”.
Ainda dói?
Ainda lembra?
Ainda acredita em algum tipo de manhã?
Eu respondo vivendo.
Cada gesto é uma tentativa.
Cada silêncio, um parágrafo.
Talvez maturidade seja isso:
aprender a caminhar
com perguntas no colo
como quem carrega uma criança cansada
sem exigir que ela explique o choro.
Sou feito desse resto:
do que não entendi,
do que não voltou,
do que ficou aberto.
E sigo —
não como quem procura respostas,
mas como quem aprendeu
a ser morada.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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