01 agosto 2026

POR QUE EXISTE ALGUMA COISA EM VEZ DE NADA?

 Por que existe alguma coisa em vez de nada?

Antes da primeira pergunta,
não havia pergunta.

Antes do primeiro pensamento,
não havia pensamento.

Antes de mim,
não havia “eu”.

Mas havia alguma coisa?

Ou nem isso?

Porque se havia,
então o nada já havia falhado.

E se não havia,

de onde veio
a possibilidade
de haver?

Fico diante dessa pergunta
como quem chega
à margem de tudo
e percebe que não existe
outro lado visível.

Por que existe alguma coisa
em vez de nada?

Não pergunto
por que existe o universo.

Isso ainda seria pequeno.

Não pergunto
por que existe a vida.

Isso ainda pressuporia
que alguma coisa já existia.

Pergunto antes.

Antes da matéria.

Antes do tempo.

Antes do espaço.

Antes da consciência.

Antes mesmo
da possibilidade de dizer
“antes”.

Por que alguma coisa
rompeu o silêncio absoluto
que nem sequer poderia
ser chamado de silêncio?

Quem decidiu
que deveria haver?

Quem desejou?

Quem permitiu?

Quem simplesmente fez existir
sem que houvesse
um lugar anterior
onde fazer?

E então percebo
que minha pergunta
já contém um absurdo.

Porque perguntar “por quê”
pressupõe uma causa.

Mas quem causaria
a primeira causa?

E se houver uma causa anterior,
quem causou essa?

E se houver uma causa
que não foi causada,

por que ela existe?

E se a resposta for Deus,

quem pergunta
por que Deus existe?

E se Deus não precisar existir
por alguma causa,

por que o próprio universo
não poderia ser assim?

E se nem Deus
nem universo
forem a resposta,

o que resta?

Nada?

Mas o nada não explica.

O nada não cria.

O nada não decide.

O nada sequer é alguma coisa
capaz de possuir uma propriedade.

Então talvez
o verdadeiro escândalo
não seja existir alguma coisa.

Talvez o verdadeiro escândalo
seja a possibilidade
de ter existido nada.

E permaneço aqui,

feito de matéria
que não sabe
por que se tornou matéria,

feito de vida
que não sabe
por que continua,

feito de consciência
que não sabe
por que consegue perguntar.

Olho para minhas mãos.

Elas existem.

Olho para o mundo.

Ele existe.

Olho para o céu.

Ele existe.

Olho para dentro de mim.

Existe pensamento.

E tudo isso
me parece menos compreensível
do que o próprio nada.

Porque o nada seria simples.

Nada.

Nenhuma matéria.

Nenhum tempo.

Nenhuma pergunta.

Nenhum Deus.

Nenhum eu.

Nenhum nós.

Nenhuma possibilidade.

Mas alguma coisa existe.

E, pior:

alguma coisa sabe que existe.

E, pior ainda:

essa alguma coisa
quer saber por quê.

Talvez seja esse
o acontecimento mais estranho
de todos.

O universo não apenas existe.

Em algum ponto dele,
uma pequena região de matéria
começou a perguntar
por que o universo existe.

E essa pergunta
sou eu.

Então talvez
eu seja o universo
olhando para sua própria existência.

Talvez minha consciência
seja uma dobra
na matéria.

Talvez seja uma propriedade
ainda desconhecida.

Talvez seja algo
que ultrapasse a matéria.

Talvez seja um presente.

Talvez seja uma consequência.

Talvez seja Deus
experimentando uma pergunta
através de mim.

Não sei.

E nenhuma dessas possibilidades
consegue fechar a porta.

Todas deixam
uma fresta aberta.

Talvez seja por isso
que a Filosofia continua.

Porque há perguntas
que não querem respostas.

Querem espaço.

Querem permanecer abertas
o suficiente
para que o pensamento
não morra.

E esta pergunta
parece não ter fundo.

Quanto mais desço,

mais ela desce comigo.

Pergunto:

por que existe alguma coisa?

E ela responde:

porque existe.

Então pergunto:

mas por quê?

E o silêncio:

porque existe.

E pergunto novamente:

mas por que existe
o próprio existir?

Nenhuma resposta.

Apenas presença.

Alguma coisa.

Aqui.

Agora.

E isso é tão absurdo
que chega a parecer sagrado.

Talvez Deus seja isso
que permanece
quando todas as explicações
já foram consumidas.

Talvez Deus seja a resposta.

Talvez seja a pergunta.

Talvez seja aquilo
que existe antes
de ambas.

Ou talvez eu esteja apenas
tentando dar um nome
à vertigem.

Não sei.

Mas existe algo
que não consigo negar:

há alguma coisa.

E eu estou dentro dela.

E essa alguma coisa
está, de algum modo,
também dentro de mim.

E eu consigo perguntar.

Talvez seja esse
o nosso primeiro milagre.

Não saber.

E ainda assim
perguntar.

Porque talvez
a consciência tenha começado
não quando encontramos
uma resposta,

mas quando alguma coisa
dentro da existência
teve coragem de olhar
para o abismo absoluto
e perguntar:

“Por quê?”

E o abismo,

em vez de desaparecer,

permaneceu.

E nós também.

Aqui.

Pensando.

Existindo.

Perguntando.

Diante do maior
e mais antigo
dos mistérios:

por que existe alguma coisa
em vez de nada?


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

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