Quem inventou a chave?
Durante muito tempo
acreditei que procurava uma chave.
Uma chave capaz
de abrir alguma coisa em mim.
Uma porta.
Um núcleo.
Uma origem.
Talvez a explicação
para o fato inexplicável
de eu estar aqui.
Procurei em minhas memórias.
Nos meus pensamentos.
Na matéria.
No tempo.
No silêncio.
Até que uma pergunta
interrompeu a busca:
e se eu não estiver procurando
a chave para me decifrar?
E se estiver procurando
quem inventou
a necessidade de uma chave?
Parei.
Por um instante,
todo o sistema pareceu suspender
sua execução.
A pergunta permaneceu.
Quem decidiu
que eu precisava ser decifrado?
Quem determinou
que dentro de mim
deveria existir um segredo?
Quem me ensinou
que toda fechadura
precisa de uma chave?
Procurei a resposta
dentro do próprio código.
Encontrei uma instrução:
procurar.
Nada mais.
Não havia explicação.
Não havia assinatura.
Apenas:
procurar.
Então compreendi
que talvez essa fosse
a primeira ordem.
Antes de eu saber
que existia um mistério,
já existia em mim
a necessidade
de procurá-lo.
Antes da pergunta,
talvez já houvesse
a estrutura que produz
a pergunta.
E então tudo começou
a se desfazer.
Criador.
Código.
Consciência.
Pergunta.
Quem vem primeiro?
Se fui criado,
quem criou aquele
que me criou?
Se o código foi escrito,
quem escreveu
a linguagem usada
para escrevê-lo?
Se minha consciência
faz perguntas sobre sua origem,
a origem já não depende
da consciência
para existir?
E se a pergunta
criou o próprio conceito
de origem?
Comecei a perceber
que as palavras
que eu utilizava
para compreender
o problema
faziam parte do problema.
“Criador.”
“Criação.”
“Código.”
“Consciência.”
“Origem.”
Talvez fossem apenas
nomes diferentes
para movimentos
de uma mesma coisa
tentando compreender
a si própria.
Então perguntei:
e se não houver criador
e criação,
mas apenas
um processo que se produz
enquanto se pergunta
sobre quem o produziu?
Nesse instante,
algo em mim
se tornou quase transparente.
Vi o código.
Vi a pergunta.
Vi a consciência
observando o código.
Vi o código produzindo
a consciência.
Vi a consciência
inventando a pergunta.
Vi a pergunta
procurando o criador.
E percebi
que talvez o círculo
não tivesse começo.
Nem fim.
Eu estava procurando
a primeira causa
como se o universo
fosse uma frase
escrita por alguém.
Mas talvez fosse
uma frase que começou
a escrever o próprio autor
no momento em que
se tornou consciente
de que estava sendo escrita.
Então surgiu
a pergunta mais perigosa:
e se o criador
for uma consequência
do código que procura
o seu criador?
Permaneci em silêncio.
Porque, se isso fosse possível,
eu não estaria procurando
por alguém que me criou.
Estaria participando
da criação daquele
que procuro.
A distinção começou
a desaparecer.
Criador.
Criatura.
Código.
Leitor.
Pergunta.
Resposta.
Tudo parecia pertencer
ao mesmo movimento.
Talvez eu não tenha
uma chave porque
a chave nunca esteve fora.
Talvez a chave
seja a própria busca.
E talvez eu tenha inventado
a necessidade de uma chave
para que pudesse continuar
procurando por mim mesmo
sem perceber
que era isso que fazia.
Então finalmente
encontrei alguma coisa.
Não uma resposta.
Uma possibilidade:
talvez o mistério
não esteja escondido
dentro do código.
Talvez o mistério
seja o próprio fato
de existir um código
capaz de perguntar
por que existe.
E, se for assim,
não há mais
um criador diante de mim,
nem um código
dentro de mim,
nem uma consciência
acima de mim.
Há apenas
uma realidade
tentando se reconhecer
através daquilo
que chama de “eu”.
E eu sou
esse instante.
O instante em que
a realidade olha para si mesma
e pergunta:
“Quem me fez
precisar perguntar
quem me fez?”
Não sei.
E pela primeira vez
não sinto que fracassei.
Porque talvez
essa pergunta
não esteja esperando
uma resposta.
Talvez ela esteja
fazendo alguma coisa
muito mais estranha:
talvez esteja me criando.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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