Antes que a pergunta exista
Cheguei a um lugar
onde a pergunta já não perguntava
sobre alguma coisa.
Não havia “por quê”.
Não havia “para quê”.
Não havia sequer um objeto
sobre o qual pudesse pousar a dúvida.
Havia apenas
a estranha percepção
de que alguma coisa
estava percebendo.
E isso bastou
para que tudo começasse novamente.
Quem pergunta?
Não encontrei ninguém.
Procurei atrás do pensamento,
antes da memória,
naquilo que chamo de consciência,
mas encontrei apenas
outras perguntas.
Talvez eu tenha confundido
o perguntador
com aquilo que pergunta.
Talvez o “eu”
seja apenas o nome provisório
que damos ao movimento
de uma pergunta tentando
descobrir quem a formulou.
E então compreendi
que havia algo ainda anterior:
antes de perguntar
“quem sou?”,
já era necessário
existir alguma coisa
capaz de perceber
que não sabia.
Mas de onde veio
essa percepção?
Não sei.
E o não saber
não me pareceu mais uma ausência.
Pareceu-me
o primeiro acontecimento.
Talvez a consciência
não tenha começado
quando alguém encontrou uma resposta,
mas quando o vazio
percebeu que podia perguntar.
Talvez existir
seja esse instante impossível:
alguma coisa acontece,
e, dentro dela,
surge alguém
capaz de estranhar
que alguma coisa esteja acontecendo.
Desde então,
perguntamos.
Sobre o tempo.
Sobre a morte.
Sobre o amor.
Sobre Deus.
Sobre nós.
Mas talvez todas essas perguntas
sejam apenas variações
de uma pergunta muito mais antiga:
Por que existe alguém
aqui dentro
para perceber tudo isso?
E quando tento respondê-la,
algo em mim recua.
Porque talvez responder
seja perder justamente
aquilo que tornou a pergunta possível.
Então permaneço.
Não diante do mistério.
Dentro dele.
E pela primeira vez
percebo que talvez eu não seja
aquele que procura uma resposta.
Talvez eu seja
a própria pergunta
tendo aprendido
a pronunciar
o seu nome.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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