Continuidade do que não fecha
Se a ideia permanece escorregadia,
é porque não há forma estável
capaz de contê-la.
O pensamento tenta fixar,
mas só consegue contornar.
Há sempre um resto
que não se deixa dizer.
E talvez seja esse resto
que sustenta tudo.
Sem ele,
não haveria movimento.
A consciência insiste
em organizar o que falta,
como se a ausência
pudesse ser disposta
em alguma ordem suportável.
Mas toda ordem falha.
Não por erro,
mas por natureza.
Porque aquilo que falta
não é uma parte ausente —
é o próprio fundo.
Pensar, então,
é operar sobre um vazio
que não pode ser preenchido,
apenas reconhecido
em suas variações.
Cada pergunta
não abre um caminho,
abre um campo.
E nesse campo,
o sentido não se fixa —
ele oscila.
Talvez por isso
haja cansaço.
Não o cansaço do esforço,
mas o de sustentar
o que não se resolve.
Ainda assim,
há continuidade.
Algo permanece
mesmo sem fundamento claro.
E esse algo
não é resposta,
não é verdade,
não é conclusão.
É apenas a insistência.
Uma espécie de permanência
sem garantia,
sem centro,
sem finalidade.
Se existe alguma lucidez nisso,
não está em entender,
mas em não interromper.
Seguir pensando
não como quem avança,
mas como quem mantém acesa
uma pergunta
que não precisa terminar.
"A consciência insiste
em organizar o que falta,
como se a ausência
pudesse ser disposta
em alguma ordem suportável."
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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