05 junho 2026

O QUE FICA

 

O Que Fica

No fim,

quando as grandes promessas envelhecem,
quando os projetos mudam de nome,
quando as certezas se desfazem
como tinta sob a chuva,

o que fica?

Não ficam os aplausos.

Não ficam os dias de glória
que pareciam eternos.

Não ficam as disputas
que um dia pareceram decisivas.

Ficam coisas menores.

Tão pequenas
que quase passam despercebidas
enquanto acontecem.

O café compartilhado numa manhã comum.

A mensagem enviada sem motivo.

A mão estendida
quando o mundo pesava demais.

A voz que não trouxe respostas,
mas permaneceu ao lado da pergunta.

Fica o olhar que compreende
sem exigir explicações.

A presença que não resolve a dor,
mas impede que ela seja atravessada sozinho.

Fica o carinho.

Esse gesto simples
que não muda o curso dos astros,
não altera a história dos impérios,
não ocupa as manchetes,

mas sustenta silenciosamente
o universo de alguém.

Talvez a vida seja isso:

uma longa travessia
na qual vamos perdendo muitas coisas
até descobrir
o valor das que não podem ser possuídas.

Porque o amor,
quando amadurece,

deixa de ser espetáculo.

Torna-se companhia.

Torna-se escuta.

Torna-se abrigo.

E então compreendemos,
às vezes tarde,
às vezes exatamente na hora certa,

que a verdadeira riqueza
não era aquilo que brilhava à distância,

mas aquilo que sentava ao nosso lado
e permanecia.

E permanecia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

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