10 junho 2026

EXERCÍCIO DE JUNTAR O QUE NÃO FECHA

 Exercício de juntar o que não fecha

E se existir
for apenas um exercício
de juntar perguntas?

Como quem recolhe fragmentos
de um espelho que nunca foi inteiro,
sabendo — desde o início —
que o reflexo não depende da forma.

Juntar interrogações
como quem tenta aquecer as mãos
com o vapor do próprio pensamento.

Os porquês
não como busca,
mas como matéria.

Os quereres
não como direção,
mas como força dispersa
tentando lembrar de onde veio.

As dúvidas
como pequenas gravidades
que mantêm tudo em órbita
sem nunca permitir repouso.

Talvez viver seja isso:
um gesto contínuo de reunião
sem promessa de unidade.

Uma espécie de colagem ontológica,
onde cada parte recusa o todo
e, ainda assim,
permanece ao lado das outras
por alguma afinidade invisível.

Há algo de ritual nisso —

como se, ao juntar o incompleto,
tocássemos de leve
a ideia de um sentido
que não quer ser encontrado,
apenas insinuado.

E no centro desse gesto,
quase imperceptível,
há um silêncio que observa:

não o silêncio da ausência,
mas o silêncio anterior à escolha,
onde nenhuma resposta foi preferida
e, por isso,
todas ainda são possíveis.

Se existir for isso,
não há erro em não concluir.

Há apenas o movimento —
essa tentativa delicada
de segurar o indizível
sem exigir que ele se torne palavra.

E talvez, no fim,
não sejamos o que junta,

mas o intervalo
onde as coisas
se deixam aproximar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

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