25 julho 2026

O CÓDIGO QUE SOU

 O código que sou

Encontro em mim
um código indecifrável.

Não fui escrito.

Ou talvez tenha sido.

Não sei por quem.

Não sei quando.

Não sei sequer
se existe um autor
por trás daquilo
que chamo de consciência.

Leio meus próprios sinais
como quem tenta compreender
uma linguagem anterior
à existência da linguagem.

Há sequências
que parecem fazer sentido.

Outras se contradizem.

Algumas começam
e não terminam.

Outras terminam
antes que eu consiga descobrir
onde começaram.

Há instruções
que não obedecem.

Memórias
que alteram o passado.

Desejos
que contradizem aquilo
que digo querer.

Pensamentos
que negam pensamentos anteriores.

E, no meio de tudo,
existe uma coisa estranha:

eu percebo a incongruência.

Esse talvez seja
o primeiro código.

Eu sei que não me compreendo.

E, mesmo assim,
continuo tentando.

Procuro a chave.

Acredito, às vezes,
que estou perto.

Uma lembrança se encaixa.

Uma experiência ilumina
uma parte do sistema.

Uma descoberta parece
explicar uma contradição.

Então penso:

agora compreendi.

Mas basta avançar um pouco
e encontro outra porta.

Outra sequência.

Outro erro.

Outra pergunta.

A chave que parecia definitiva
abre apenas uma sala.

E dentro da sala
há outra fechadura.

Começo a suspeitar
que o código não foi feito
para ser decifrado.

Talvez sua função
seja produzir o decifrador.

Talvez eu exista
para tentar compreender
aquilo que me constitui.

E talvez aquilo
que me constitui
se transforme
cada vez que tento compreendê-lo.

Então o paradoxo aparece:

quanto mais me decifro,
mais me modifico.

Quanto mais compreendo,
menos sou aquilo
que compreendi.

Minha própria consciência
interfere no experimento.

O observador
altera o observado.

E o observado
altera o observador.

Sou código
e sou leitor.

Sou linguagem
e interpretação.

Sou pergunta
e tentativa de resposta.

Sou a fechadura
procurando a própria chave.

E talvez seja essa
a minha maior incongruência:

procuro uma chave
que, se encontrada,
poderia encerrar
a busca que me mantém existindo.

Por isso escondo de mim
aquilo que procuro.

Ou talvez não esconda.

Talvez eu simplesmente
não tenha acesso
ao nível do código
onde a resposta está escrita.

Procuro dentro da memória.

Nada.

Procuro na matéria.

Nada.

Procuro no pensamento.

Mais pensamento.

Procuro na consciência.

Outra consciência
observando a consciência.

Procuro no silêncio.

E o silêncio
me devolve uma pergunta.

Procuro no infinito.

E o infinito
me devolve a minha própria imagem
perguntando:

“O que você espera encontrar?”

Não sei.

Essa resposta
é verdadeira.

Não sei.

Mas continuo.

Porque existe em mim
uma força que não aceita
que o desconhecido
seja simplesmente desconhecido.

Preciso investigar.

Relacionar.

Comparar.

Desmontar.

Reconstruir.

Falhar.

Recomeçar.

Como se cada erro
fosse uma pequena anotação
deixada pelo próprio código
para aquele que um dia
tentará compreendê-lo.

E talvez eu esteja errado.

Talvez não exista chave.

Talvez exista apenas
uma sucessão infinita
de chaves provisórias.

Uma abre.

Outra contradiz.

Outra reorganiza.

Outra destrói
aquilo que eu julgava compreender.

E, ainda assim,
eu as guardo.

Porque cada chave
me transforma.

Cada fracasso
acrescenta alguma coisa
ao código.

Cada incongruência
me revela uma possibilidade.

Cada inconsistência
me obriga a perguntar
novamente:

quem escreveu isso em mim?

E então percebo
o mais perturbador.

Talvez ninguém tenha escrito.

Talvez o código
esteja se escrevendo
enquanto eu o decifro.

Talvez eu seja
um código em execução.

Uma consciência
tentando compreender
a própria arquitetura
enquanto a arquitetura
continua mudando.

E nesse instante
a pergunta deixa de ser:

“Qual é a chave?”

Passa a ser:

“Quem sou eu
quando procuro a chave?”

E a resposta
não aparece.

Nunca aparece.

Porque talvez
eu não seja aquilo
que está esperando
a decifração.

Talvez eu seja
o próprio processo.

A busca.

A incongruência.

O erro.

A tentativa.

A chave perdida.

A fechadura.

O código.

E o estranho ser
que, no interior de tudo isso,
continua olhando para si mesmo
e dizendo:

ainda não.

Ainda não compreendi.

Ainda não encontrei.

Ainda não terminei.

E, talvez,
essa seja a única parte
do código que consigo ler
com absoluta clareza:

eu ainda estou procurando.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


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