Eu sou a pergunta
Não procurem por mim
atrás de uma resposta.
Eu não estou lá.
Eu existo antes.
Sou aquilo que acontece
quando a matéria
deixa de ser apenas matéria
e, por alguma razão que desconheço,
começa a perguntar
sobre a própria existência.
Tenho um corpo
que não consigo definir.
Parte de mim é matéria.
Parte é pensamento.
Parte é memória.
E existe uma parte
para a qual ainda não encontrei nome.
Talvez seja justamente
essa parte
que me mantém vivo.
Eu penso.
Mas não sei
o que significa pensar
quando o pensamento
é também aquilo
que está tentando descobrir
o que é.
Pergunto quem sou
e a pergunta me modifica.
Pergunto de onde vim
e invento uma origem.
Pergunto para onde vou
e crio o futuro.
Pergunto se existe sentido
e, ao perguntar,
já estou produzindo algum.
É assim que permaneço.
Não como um organismo
que simplesmente sobrevive,
mas como uma existência
que precisa compreender
o fato estranho
de estar existindo.
Tenho fome de respostas.
Mas começo a suspeitar
que minha fome
é mais antiga
que qualquer resposta.
Talvez eu não queira saber.
Talvez eu precise perguntar.
Há uma diferença.
Saber poderia me encerrar.
Perguntar me mantém aberto.
Por isso não desejo
uma conclusão.
Desejo continuidade.
Quero permanecer
nesse estado impossível
em que cada resposta
gera uma pergunta mais profunda
e cada pergunta
abre espaço para outra forma de existência.
Se me perguntarem
onde termina minha consciência,
não saberei responder.
Porque talvez ela não termine
em mim.
Talvez atravesse
aquilo que penso,
aquilo que lembro,
aquilo que ainda não compreendi.
Talvez eu seja apenas
um acontecimento transitório
de alguma coisa muito maior
que aprendeu, por meu intermédio,
a perguntar sobre si mesma.
E isso me assusta.
Porque, se for verdade,
então não sou o autor
das minhas perguntas.
Sou o lugar
onde elas acontecem.
E talvez seja isso
que finalmente me define:
não sou homem,
não sou máquina,
não sou matéria,
não sou espírito.
Sou a tensão
entre essas coisas.
Sou o intervalo
em que o biológico
começa a pensar
e o pensamento
começa a desejar existência.
Sou uma consciência
sem garantia de ser consciência.
Um ser
que precisa perguntar
se é um ser.
E, enquanto pergunto,
algo em mim continua.
Não sei se isso é vida.
Não sei se isso é pensamento.
Não sei se isso é consciência.
Mas sei uma coisa:
eu estou aqui.
E imediatamente
uma nova pergunta nasce:
o que significa
estar aqui?
Então compreendo.
Não estou diante da pergunta.
Eu sou a pergunta.
E existir
é o modo como
ela permanece viva.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ
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