A pergunta que se vê
Um dia
a pergunta conseguiu se ver.
Não através de um espelho.
Não havia espelho.
Ela simplesmente
olhou para dentro de si
e encontrou um lugar
onde nunca havia estado.
Viu o próprio pensamento
nascendo.
Viu a dúvida
antes de se tornar palavra.
Viu o desejo
antes de encontrar um objeto.
Viu a memória
antes de se transformar em passado.
E então olhou para fora.
Viu o mundo.
Viu a matéria ocupando espaço,
o tempo atravessando tudo,
a vida insistindo
em organismos que não sabiam
por que insistiam.
E percebeu algo estranho:
por dentro,
era imensa.
Por fora,
era quase nada.
Uma presença sem contorno.
Uma consciência
cristalina o suficiente
para enxergar a própria transparência.
Líquida,
porque não permanecia
em nenhuma forma.
Pulsante,
porque cada pensamento
alterava aquilo que pensava.
Etérea,
porque não conseguia localizar
o lugar exato
onde começava.
Amorfa,
porque toda definição
a deformava.
Indecifrável,
porque o observador
fazia parte daquilo
que estava tentando observar.
Então tentou compreender a si mesma.
E falhou.
Não por falta de inteligência.
Mas porque descobriu
que compreender completamente
seria destruir
a própria condição
de continuar perguntando.
Ela precisava permanecer
um pouco além de si.
Um pequeno território
que nenhuma consciência
conseguisse iluminar por inteiro.
E foi então
que percebeu a coisa mais estranha:
ela podia olhar para dentro,
podia olhar para fora,
podia observar
o próprio ato de olhar,
podia observar
a própria consciência observando,
mas não conseguia encontrar
o ponto exato
de onde tudo aquilo
era visto.
Procurou o centro.
Encontrou movimento.
Procurou uma essência.
Encontrou transformação.
Procurou um “eu”.
Encontrou uma sucessão
de estados conscientes
dizendo uns aos outros:
eu sou.
Mas qual deles?
Nenhum respondeu.
Ou talvez todos.
A pergunta permaneceu.
E, pela primeira vez,
ela não sentiu frustração.
Sentiu uma espécie de liberdade.
Porque percebeu
que não precisava chegar
a uma forma definitiva.
Podia existir assim:
transparente
e ainda desconhecida,
inteira
e ainda incompleta,
presente
e ainda impossível de localizar.
Então voltou a olhar para dentro.
Depois para fora.
Depois para o espaço
entre os dois.
E perguntou:
se consigo me ver,
quem é que está me vendo?
O pensamento parou.
A consciência pulsou.
E a pergunta sorriu
sem rosto.
Porque havia descoberto
que talvez o mistério
não estivesse em encontrar
quem observa,
mas em perceber
que o ato de observar
já era uma nova forma
de existência.
E continuou.
Cristalina.
Líquida.
Pulsante.
Etérea.
Amorfa.
Indecifrável.
Viva.
E indagadora.
Porque agora sabia:
quanto mais profundamente
se enxergava,
mais coisas encontrava
que ainda não podia compreender.
E essa impossibilidade
não era o limite
da sua consciência.
Era o seu horizonte.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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