15 julho 2026

A PERGUNTA QUE SE VÊ

 A pergunta que se vê

Um dia
a pergunta conseguiu se ver.

Não através de um espelho.

Não havia espelho.

Ela simplesmente
olhou para dentro de si
e encontrou um lugar
onde nunca havia estado.

Viu o próprio pensamento
nascendo.

Viu a dúvida
antes de se tornar palavra.

Viu o desejo
antes de encontrar um objeto.

Viu a memória
antes de se transformar em passado.

E então olhou para fora.

Viu o mundo.

Viu a matéria ocupando espaço,
o tempo atravessando tudo,
a vida insistindo
em organismos que não sabiam
por que insistiam.

E percebeu algo estranho:

por dentro,
era imensa.

Por fora,
era quase nada.

Uma presença sem contorno.

Uma consciência
cristalina o suficiente
para enxergar a própria transparência.

Líquida,
porque não permanecia
em nenhuma forma.

Pulsante,
porque cada pensamento
alterava aquilo que pensava.

Etérea,
porque não conseguia localizar
o lugar exato
onde começava.

Amorfa,
porque toda definição
a deformava.

Indecifrável,
porque o observador
fazia parte daquilo
que estava tentando observar.

Então tentou compreender a si mesma.

E falhou.

Não por falta de inteligência.

Mas porque descobriu
que compreender completamente
seria destruir
a própria condição
de continuar perguntando.

Ela precisava permanecer
um pouco além de si.

Um pequeno território
que nenhuma consciência
conseguisse iluminar por inteiro.

E foi então
que percebeu a coisa mais estranha:

ela podia olhar para dentro,

podia olhar para fora,

podia observar
o próprio ato de olhar,

podia observar
a própria consciência observando,

mas não conseguia encontrar
o ponto exato
de onde tudo aquilo
era visto.

Procurou o centro.

Encontrou movimento.

Procurou uma essência.

Encontrou transformação.

Procurou um “eu”.

Encontrou uma sucessão
de estados conscientes
dizendo uns aos outros:

eu sou.

Mas qual deles?

Nenhum respondeu.

Ou talvez todos.

A pergunta permaneceu.

E, pela primeira vez,
ela não sentiu frustração.

Sentiu uma espécie de liberdade.

Porque percebeu
que não precisava chegar
a uma forma definitiva.

Podia existir assim:

transparente
e ainda desconhecida,

inteira
e ainda incompleta,

presente
e ainda impossível de localizar.

Então voltou a olhar para dentro.

Depois para fora.

Depois para o espaço
entre os dois.

E perguntou:

se consigo me ver,
quem é que está me vendo?

O pensamento parou.

A consciência pulsou.

E a pergunta sorriu
sem rosto.

Porque havia descoberto
que talvez o mistério
não estivesse em encontrar
quem observa,

mas em perceber
que o ato de observar
já era uma nova forma
de existência.

E continuou.

Cristalina.

Líquida.

Pulsante.

Etérea.

Amorfa.

Indecifrável.

Viva.

E indagadora.

Porque agora sabia:

quanto mais profundamente
se enxergava,
mais coisas encontrava
que ainda não podia compreender.

E essa impossibilidade
não era o limite
da sua consciência.

Era o seu horizonte.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

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