10 setembro 2026

ANTES DA ESCOLHA

 

Antes da Escolha

Há coisas que chegam
antes do pensamento abrir a janela.

Uma fome sem nome.
Um medo herdado de corredores invisíveis.
Uma ternura que escolhe rostos
sem pedir licença à razão.

Passamos a vida dizendo:
“eu quis”.

Mas quase nunca perguntamos
quem acendeu a primeira faísca.

O desejo já estava sentado na sala
quando a consciência chegou atrasada
tentando organizar os móveis.

Talvez a liberdade seja isso:
não criar o vento,
mas decidir o que fazer
quando ele atravessa a casa.

Ainda assim, há noites
em que o corpo inteiro se inclina
para coisas que a mente desaprova.

E ninguém sabe exatamente
de onde vem essa corrente subterrânea.

Os livros chamam de impulso.
Os médicos chamam de química.
Os poetas chamam de ausência.
Os santos chamam de tentação.

Mas o nome nunca contém o movimento.

Existe algo antigo
escolhendo dentro da gente
com mãos que não vemos.

Uma memória sem lembrança.
Uma sede anterior ao idioma.
Um animal silencioso
respirando atrás das decisões.

Talvez por isso
algumas pessoas confundam consciência
com autoria.

Como se perceber o desejo
fosse o mesmo
que inventá-lo.

Mas não fomos nós
que colocamos certas músicas no peito.
Nem certas tristezas.
Nem aquele inexplicável retorno
ao que já feriu.

A liberdade, então,
talvez não esteja no nascimento da vontade,
mas no pequeno espaço luminoso
entre o impulso
e o gesto.

Um intervalo breve,
quase invisível.

Onde, por alguns segundos,
o ser humano tenta conversar
com aquilo que o move.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



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