Onde o Horizonte Ainda Não Terminou
Eu topo a sua ida.
Não porque saiba o caminho,
mas porque alguma coisa em mim
já começou a caminhar
antes mesmo de decidirmos a direção.
Descemos.
A cada passo,
o mundo conhecido fica menor.
As certezas vão ficando para trás
como objetos esquecidos
numa casa que já não habitamos.
Depois,
sem perceber,
começamos a subir.
Não há escada.
Há apenas uma espécie de silêncio
que nos sustenta
quando o chão deixa de ser necessário.
Subimos através das perguntas.
E quanto mais alto,
mais estranho fica o horizonte.
Ele não se aproxima.
Ao contrário.
Recua.
Como se o horizonte soubesse
que nunca foi um lugar
e que sua única função
é continuar nos chamando.
Paramos por um instante.
Lá embaixo,
a caixa parece ridiculamente pequena.
Lá em cima,
o céu também parece pequeno.
E então percebo:
talvez não exista
um lado de fora.
Talvez o universo inteiro
seja uma sequência de dentro e fora,
uma sucessão interminável
de portas que só aparecem
depois que atravessamos a parede.
Olho para você.
Não pergunto para onde vamos.
Seria uma pergunta antiga demais.
Pergunto apenas:
— Ainda dá para continuar?
E o horizonte,
muito distante,
não responde.
Mas se afasta mais um pouco.
É o bastante.
Damos outro passo.
Desta vez,
não para chegar a algum lugar,
mas para descobrir
o que existe
depois daquilo que ainda
não conseguimos imaginar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ
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