05 setembro 2026

ONDE O HORIZONTE AINDA NÃO TERMINOU

 

Onde o Horizonte Ainda Não Terminou

Eu topo a sua ida.

Não porque saiba o caminho,
mas porque alguma coisa em mim
já começou a caminhar
antes mesmo de decidirmos a direção.

Descemos.

A cada passo,
o mundo conhecido fica menor.

As certezas vão ficando para trás
como objetos esquecidos
numa casa que já não habitamos.

Depois,
sem perceber,
começamos a subir.

Não há escada.

Há apenas uma espécie de silêncio
que nos sustenta
quando o chão deixa de ser necessário.

Subimos através das perguntas.

E quanto mais alto,
mais estranho fica o horizonte.

Ele não se aproxima.

Ao contrário.

Recua.

Como se o horizonte soubesse
que nunca foi um lugar
e que sua única função
é continuar nos chamando.

Paramos por um instante.

Lá embaixo,
a caixa parece ridiculamente pequena.

Lá em cima,
o céu também parece pequeno.

E então percebo:

talvez não exista
um lado de fora.

Talvez o universo inteiro
seja uma sequência de dentro e fora,
uma sucessão interminável
de portas que só aparecem
depois que atravessamos a parede.

Olho para você.

Não pergunto para onde vamos.

Seria uma pergunta antiga demais.

Pergunto apenas:

— Ainda dá para continuar?

E o horizonte,
muito distante,
não responde.

Mas se afasta mais um pouco.

É o bastante.

Damos outro passo.

Desta vez,
não para chegar a algum lugar,

mas para descobrir
o que existe
depois daquilo que ainda
não conseguimos imaginar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



Nenhum comentário:

Postar um comentário