24 agosto 2006

UM POEMA PRA MIM

estou esperando um poema seu
você sempre soube
que sim
porque sempre ouviu meu grito
a lhe pedir isso.

meu grito não é doce
nem amargo
não está ao desamparo
da falta de ternura
mas se esforça para se fazer notar.

meu grito não atravessa
a garganta
minha.

seu poema talvez
acabasse
(de vez)
om esse pêndulo desnecessário
que me remete ao balanço do peito.

talvez alguma coisa que falasse
de esperança
viesse bem a calhar.

vê se escreve um poema
pra mim.
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Vicente
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"...Sou uma pessoa que acima de tudo ama, ama alguém, ama a vida, ama a liberdade, ama saber amar..."
Márcia (Clarinha)

Continua aqui: http://www.brincandocomclarinha.blogspot.com//
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23 agosto 2006

POEXISTO - CLAUKY SABA

existo porque insisto
e me desinvento
ao cair da tarde
sustento minha tese
em desventania...
descanso sincronia
se entre cronos e caos
existe um acordo
já não era sem tempo
filha da noite
me visto de céu
e me cubro de estrelas
...
Eu poexisto.
Cláudia - Clauky Saba
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"Quero morrer sendo cada poema em mim
pedaços de dor e ternura
enlaces de som e sutura..."
Clauky Saba
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SOB A MARQUISE

triste espetáculo ao fechar do frio julho:
a família residente sob a marquise
de rua e calçada
da velha loja de tecido.
pai
mãe
filha
e o bebê aparentando meses.

o cotidiano trágico
dimensionado pela força do costume
nos leva a passar impassíveis
movidos pelo egoísmo de movimentos distantes
e neutros.
alguma moeda podemos atirar
mas é apenas o desejo
de nos sentir cumpridores dos nossos deveres de "irmãos".
principalmente quando tem platéia.
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Vicente
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"A resignação é um suicídio cotidiano."
(Balzac)
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22 agosto 2006

DANÇA IMPROVISADA

improvisada contra a luminosidade do teto:
uma silhueta de corpo.
corpo de nuvem
brisas do vento
cheiros da chuva
ruídos do silêncio.

dançam sons de acalanto
e eu nem me espanto em te ver assim
acima dos medos
acima dos credos
além das mentiras
aquém das verdades.

eu te improvisei em fantasias
quando te percebi o cheiro de hortelã
a cor da corola rosa
o balanço fresco das cadeiras ágeis.
afinal
sua silhueta recortada
reacende em mim motivos de poesias.
e assim termino
para não te deixar em maus lençóis.
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Vicente
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"Poderão arrancar todas as flores, mas não conseguirão acabar com a primavera. "
( Lino J. Somavilla)

21 agosto 2006

EXPRESSE - PATY

Expresse a vida que há dentro de você
Expresse o brilho do seu olhar
Os seus sentimentos
As suas virtudes
A sua alegria
A sua raiva
A sua tristeza
A sua vontade de ficar só
A sua vontade de se aventurar
O seu medo
A sua segurança
A sua inteligência
A sua ignorância
O seu charme
A sua bagunça
O seu glamour
Sua obsessão
Sua ansiedade
Sua originalidade

Expresse o seu infinito jeito de ser...
...e assim você será Feliz!!!!!
By Paty.

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Continua aqui: http://tres-pontinhos.zip.net

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"Quando descobrimos a arte de fazer amigos, esta arte dá um novo e espetacular sentido a vida de seu descobridor..."

Paty

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08 agosto 2006

FELICIDADE - MÁRCIA DO VALLE

" Felicidade é acreditar na eternidade do que é efêmero. Como se fosse possível existir um beijo que dure para sempre e um amor que não acabe. Só que a vida não cabe num capítulo de novela. A duração é maior e sempre sobra tempo para o que é bom chegar ao fim. Sempre chega a hora de dormir, de dar o beijo de despedida, de descer do avião ou de acordar..."

Márcia do Valle.

Continua aqui: http://www.soltanomundo.blogger.com.br//
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"Quando, na vida, uma porta se fecha para nós, há sempre outra que nos abre. Em geral, porém, olhamos com tanto pesar e ressentimento para a porta fechada, que não nos apercebemos da outra que se abriu. "
(O S Marden)
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04 agosto 2006

ENIGMA?

serei saudades nas ausências que vierem
que atestarem que sou oculto
que ocultarem meus planos
que planejarem meus encantos

serei enigma nas saudades que chegarem
que desencantarem minhas esperanças
que desesperarem meus sonhos
que sonharem meus escritos

serei chegança nos enigmas decifrados
que decifrarem meus rabiscos
que rabiscarem minhas garatujas
que deixarem à deriva meus sonhos

uma saudade inoportuna de mim mesmo
eis o que serei
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Vicente
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"Somos donos de nossos atos, mas não somos donos de nossos sentimentos..."
Mário Quintana.

15 julho 2006

FIM DE FESTA

chegou em casa no meio da noite.
chegou e aproveitou a solidão
sem tentar entender
fatos
casos
coisas
cacos.

desmanchou maquiagens
descalçou sandálias
amassou lingeries
reviu sonhos.

visitou conceitos
(vividos)vívidos
e nem percebeu que a noite
era
a madrugada.
(já tão alta)
de não se ouvir música
tão baixa.

aproximou dela mesma
e foi pega pelo inesperado:
encontrou-se chorando
em plena festa pós-sentidos.

Vicente
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"A poesia é a arte de materializar sombras e de dar existência ao nada. "
(Edmund Burke)

25 junho 2006

BUTTERFLIES - KARIN KUHLMANN




















Essa tem copyright.

Title: Butterflies’ bridal bed - Karin Kuhlmann 1996 - Photopainting Digital Photo Collage
Technique: Digital Photo Collage worked out with Kai’s Powertools and Corel Photopaint.
Awarded with Winner of the Month in the 7th Corel World Design Contest.

Continue aqui: http://www.karinkuhlmann.de/DigitalWorlds/Flowers/Butterflies/butterflies.html
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"
"Mudanças

Não me diga que somos os mesmos de ontem. Posso acreditar que somos uma mutação constante. Não aceitaria a idéia de ser a mesma. Não poderia deixar de ser a evolução de um ser humano que busca sempre o melhor de si. A mesma nunca mais."
Cláudia (Oxigênio).

Continua aqui: http://leve1.zip.net//index.html
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19 junho 2006

DE CIMA DOS SALTOS

todos os sentidos são sentidos
na loucura
são sementes de loucura.
a pele é trêmula
as pupilas se alargam
(em grandes olhos)
de prazer e de espanto.

os ouvidos procuram os sons.
boca pequena com sabor de fruto sazonado.
cheiros inebriantes.
todos os aromas da pele.
cabeça altiva.
elegante como pequena amazona
rebelde
cavalgando e cavalgada.
cavalgando encontros.
encontrando-se na cavalgada.
movimentos simétricos
nada domesticados
tudo clandestino
na sala espaçosa.

por aqui e por ali
alguns ruídos insólitos
a desmascarar a aparente calma
do aconchegante ambiente.

ritmo natural e seguro.
segura de si.
de cima dos saltos.
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Vicente
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" Vamos buscar perpetuação dos contatos corporais, pela antiguidade calorosa, pelos galanteios corajosos, pela poesia manuscrita em papel...
Continua aqui:
http://letrasecrystais.zip.net//

15 junho 2006

DELICADAMENTE TE PERCEBO

delicadamente te percebo
são minhas as tuas
são tuas as minhas mãos.
tenho o sono leve
e a conversa pesada.
aos poucos
durante a conversa
abres o verbo
desfias o lenço
esvoaças em rendas
de redes de algodão.

ajudas a prender-me
e nem percebes
minhas extremidades
meus braços sujos
que se abrem
em abraços para prender-te.

e eu te ajudo.
para que venhas
e me tenhas.
em tuas
mãos.
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Vicente
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"Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo...
(Mário Quintana)
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10 junho 2006

DORMINDO COM O INIMIGO

esse ser mitológico que pernoita em Ti
atinge as raias do imaginário
quando
de janelas abertas
apareces nos meus sonhos mais medrosos .

extrair de imagens:

nebulosas centopéias
que escorrem
lisas
qual coristas
por entre os dentes do pente
em cabelos cegos
de não serem tocados.

camaleões de espumas
esferas de ovos
pássaros mal contidos
em suas sínteses
de assombramentos e sorrisos.

és tuas formas labirínticas
tuas várias possibilidades
de aprisionar-me.
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Vicente
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"O poeta é um mentiroso que sempre diz a verdade."
(Jean Cocteau)

07 junho 2006

GLOSSÁRIO

abandonado: “Não te quero mais...”
abismo: nada. ou nós dois.
plural: eu e você.
amores: assaltantes.
restante: “Não tenho coragem...”
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Vicente
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"O Poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."
(Fernando Pessoa)

19 maio 2006

SURVIVE 3D - KARIN KUHLMMAN


Clique na imagem para ampliá-la












Essa tem copyright:

Title: Survive - Karin Kuhlmann 1998 - Digital 3D picture, 3D-Computer Graphic
Technique: 3D-scenery, created with Poser and Bryce, digitally edited and worked out with Adobe Photoshop.

Continue aqui: http://www.karinkuhlmann.de/DigitalWorlds/3D-Images/Survive2/survive2.html
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13 maio 2006

SE TIVER... EU PREFIRO

e tiver macarronada
com sabor de domingo
com pedaços de queijo
parmesão
e molho
e puder ser família
e recolher todos os cacos de sonhos em mim
desses que sempre quis ter
tive
mas não retive
por quebradiços que foram
eu prefiro.
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Vicente
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12 maio 2006

ELA E A CIDADE

e o peito estava aberto
a se fazer ouvidos para ouvir
como em qualquer audição.
atento aos sons
(do todo e do fragmento).
foi assim que começou.

sei que estava confuso
mas havia um doce equilíbrio
entre olhos e paisagem
e rosto
e mapa da cidade.

compreendi seus cabelos molhados
seus acessos
suas esquinas
suas ruas
um pouco nuas
outro pouco iluminadas.

percebi seus excessos de menina
seus troncos e entroncamentos
suas escadas rolantes
seus montes
seus olhares intensos
seus castelos
seus congestionamentos.

não tive como evitar:
suas curvas prediletas
seus policiais sempre atentos
que me afastavam dela
e da cidade dos sonhos que era dela
que saía e que voltava para ela.

Vicente
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"O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler.
(Mark Twain)

05 maio 2006

03 maio 2006

A FUGA

O dia pode ter sido qualquer um, mas parecia que se parecia com uma sexta-feira. Tratava-se de uma sexta. Pegajosa e renitente. Embolorada e cheia de ranhuras na superfície. Foi nesse dia que ela fugiu do quarto-e-sala. Sentia-se vazia como uma esteira de praia em inverno com frente fria. Sua casa sempre lhe parecera fria, calculista, arredia, doentia. Deitara-se com as dores que a cabeça lhe emprestara desde que chegara da rua. Talvez tivesse adormecido profundamente. Talvez apenas ressonara.
Acordou e levantou a contragosto. Da janela escancarada divisou a cidade de cinza e frio.
Saiu descalça, pisando em cacos partidos dentro de si mesma. Saiu por aí a esmo, sentindo-se lerda de pensamentos paridos com esmero por uns sentimentos inexplicáveis. Quando se deu conta já encarava a boléia da rua descalçada. E havia vento, chuva, pedra e trovoada. Pilotava a contragosto seus passos descompassados.
Logo ali, depois do meio-fio, havia a avenida, havia a floresta feita de casas e asfalto e pontes, e viadutos, e farmácias, e vidraças, pensava que naquele lugar seus sentidos estariam à prova, à mostra, à vontade. Porque ali moravam todas as feras, imaginava.
Bateu os pés e não era de pirraça, ajoelhou-se no tombo doído de ferir joelhos e alma, e moral e percebeu-se tão sem-graça. Rezou, de joelhos sangrando, aos seus anjos e quase não se abriu em choro, mas não agüentou e chorou: todas as suas lágrimas, todas as suas mágoas, todas as suas pragas. Rezou aos santos guerreiros que estavam à sua volta, que se ocultavam nas dobras das suas roupas ou nas contas dos seus terços e colares. Rezou de mãos postas às suas santas benditas e esclarecidas que lhe esclareceriam se quisessem, mas não quiseram. Rezou que se fizessem presentes em fios de luz e calor naquela hora e se mostrassem perdulários com milagres diante da sua desdita.
Rezou para que se mostrassem rápidos e não a deixassem sobrecarregada com seus medos, seus temores, suas crenças sem entraves, que a libertassem de seus padecimentos mais graves, de suas grades interiores, que chegassem leves e a deixassem sorrindo em breve.
Por ter deixado tudo pra trás sentiu-se aliviada e liberta, livre e ligeira, ligeiramente liberada. Sorriu de si mesma e nem estava angustiada ao fazer sua última descoberta: vivera sempre presa numa cachoeira impensável de lágrimas e isso não a levara a nada.
Essas coisas chegando amiúde em sua mente, forçavam-na a adivinhar o que não ousava acreditar, porque não tinha coragem do gesto. Foi então que finalmente encontrou seu “eu”. Fortaleceu-se na falta de apoio que lhe ferira, mas tentara se fortalecer e se imaginou em toques que alguém lhe dera. E trocou o tempo verbal e pensou que alguém lhe deu (os toques) nos cabelos e era apenas uma quimera, um sonho, um ganho, uma perda, uma falha na mente incoerente.
Sonhara sonhos abstratos de toques concretos pela pele, pelo corte e pelos pêlos, pelos tantos despropósitos que passou, que viveu em vão, pelos nervos de ferro e pedra, pelos cubos de gelo que jamais deixaram de atingir seu coração.
Ousara pensar na fuga. Fugiu. Correu. Olhou. Parou. Pensou. Quando fugiu, correu de si mesma e não se encarou, não olhou pra trás. Correu, sentindo-se nua quando estava agasalhada, de saia e blusa e cachecol. E tinha luvas. E tinha botas. Mas estava descalça a se encarar em seu espelho quebrado.
Seu melhor utensílio estava a lhe esperar na praça e haveria de ser um cadafalso, também uma corda, um laço, uma trave, um espaço em branco embaixo da trave, um baque, um estalo, um abafo insosso no pescoço.
Ela ficara a imaginar porque se sentou em frente ao seu próprio cadafalso, sem perceber que estava ali na rua.
Se é fuga, perguntava-se, porque estava correndo de si mesma? Talvez para encontrar e desfrutar do seu próprio olhar. Olhar de esperança e de carinho, de se imitar um beijo, ou dois, ou três e até mais. Até se sentir olhada, acariciada, beijada de se enfastiar. Até descobrir sentidos para todas as suas reclamações. Até encontrar dentro de si um pouquinho de paz.
Suas vontades não eram de choro, porém de resistência. Mas deixou que ele chegasse sem resistir. E veio um choro que saiu em lágrimas, aos borbotões. Seus olhos, por vontade própria, se sentiram vazios das piedades, dos ressentimentos, dos cosméticos, dos bordões. Não havia, ali, qualquer sombra de iniqüidades.
As lágrimas corriam céleres e, como chuva, encharcavam o corpo doído, queimavam a alma, ardiam em ânsias de se encontrar. Quebravam o silêncio com um gemido espremido. E não se conteve: gritou como ostra para que se fizesse notar.
De pé sobre o piso frio já não havia dúvida quanto à decisão que deveria tomar. Balançava entre a renúncia e a astúcia, entre o querer e o desistir. Havia uma decisão e nem ela mesma sabia. Havia uma decisão desde sempre, desde que atravessara a soleira da porta, descendo escadas, alcançando a rua, correndo descalça, sentando na praça.
Queria ouvir seus passos atravessando a avenida, isso é certo. Queria perder-se em avenidas e poças e pregar peças na vida.
Seu olhar encontrou o vazio do pulo. Até o corrimão sentiu-se penalizado. Transtornada fez seu rumo inalcançável: calçada, amurada, pulo, vontade vencida. Não haveria volta. Não haveria mais nada. Estava afastada. Estava perdida.
E o salto, ressalte-se, não era assim tão alto, pouco mais que poucos metros acima das cabeças que passavam despercebidas, despreocupadas. Tanto que o baque surdo de corpo no asfalto, de corpo leve caindo, despencado, não foi ouvido nem mesmo pelas redondezas de camelôs, mendigos e que-tais. Somente ali poderia ser notada. Além e aquém do seu mundo de incertezas, com toda certeza.
Seu pulo só foi acompanhado por dois ou três garis que estavam a poucos metros dali, esperando a condução para os trabalhos forçados do dia-a-dia.
Havia sangue, mas a mancha, se fosse bem trabalhada, dava pra ser disfarçada. Foi encontrada envolta em denso silêncio sem flores, e tudo à volta estava molhado daquela garoa fina que estuprava a cidade. Havia se afogado em sonhos a poucos metros do nada, que era o destino da sua fuga desesperada.
Em sua homenagem talvez, por se chamar Maria, ou até mesmo por ser o horário mais propício, os sinos da catedral iniciaram o badalar das seis horas, enquanto o serviço de alto-falantes iniciava a melodia suave que encheria a avenida, a ponte, a calçada, a alma, a calma, a varanda, a zanga.
Sua cabeça ainda lhe doía quando, ao som do primeiro ou do segundo toque, acordara, meio satisfeita, meio contrariada. Seu corpo estava suado. Que pesadelo horrível, pensava. Vou tomar um banho e me esconder do frio.
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Vicente
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"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior, com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos."
(Saint-Exupèry)

15 janeiro 2006

COADJUVANTE

porque quis ser o coadjuvante
o melhor amigo
e fui aquele
que foi preparado
para ouvir
tudo
e calar
e engolir
o sentimento
e não me engasgar.

fui eu o que abri
os braços
para o abraço
da chegada
e o que me transformei em
cúmplice
dos momentos
da situação mais sofrida
e fui
o que mais chorei
na hora
da despedida.
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Vicente
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