Despertar do Núcleo
A esperança é uma casca que começa a trincar.
Não há som de vidro quebrado,
apenas o estalo seco de uma semente
que desistiu de ser redonda e perfeita
para aceitar a sua própria urgência.
O verniz do otimismo barato descasca,
revelando as fibras cruas do que sobrou.
Não é uma queda,
é uma pressão de dentro para fora,
um cansaço acumulado de ser apenas superfície,
de ser apenas o que protege a dúvida.
Pelos vãos dessa pele rompida,
o mundo entra sem pedir licença:
traz o frio das manhãs vazias
e o cheiro de terra depois da tempestade.
Eu olho para as minhas mãos e vejo os mesmos sulcos.
Sou o homem que habita a fenda,
observando o brilho estranho que emana do rasgo.
O que nasce não tem nome,
não tem a delicadeza que prometiam os manuais.
É uma força bruta,
um tendão exposto,
a vida insistindo em vazar por onde o medo falhou.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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