10 janeiro 2026

SOB A MARQUISE

Sob a Marquise



Triste espetáculo ao fechar do frio julho:
A família residente sob a marquise
de rua e calçada da velha loja de tecido.
Ali, onde o pano sobra nos rolos da vitrine,
falta o abrigo que estanca o sereno.
Pai, mãe, filha e o bebê aparentando meses.
O cotidiano trágico, dimensionado pela força do costume,
nos leva a passar impassíveis,
como se a dor alheia fosse paisagem mofada,
movidos pelo egoísmo de movimentos distantes e neutros.
O passo apressado ecoa no cimento,
evitando o encontro de dois desamparos:
o deles, de teto; o meu, de espírito.
Alguma moeda podemos atirar,
mas é apenas o desejo estéril
de nos sentir cumpridores dos nossos deveres de irmãos.
Um tilintar de metal que compra o silêncio da culpa,
principalmente quando tem plateia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias -  Barra do Piraí RJ

Nenhum comentário:

Postar um comentário