15 janeiro 2026

DE MADRUGADA

 

De Madrugada

 

A madrugada é alta,

São três, talvez quatro.

Não há sinal de dia.

O sol ainda não se faz.

Tento me ver à mesa do bar mais próximo.

Me procuro no copo que não vejo.

Há clima de nuvem espessa sobre minha cabeça.

Novamente sou eu a não romper a alvorada.

Talvez por extrema sensibilidade

ou por gostar muito de mim,

resolvo colocar-me para me falar coisas em alto e bom som.

 

Chutando tampinhas de garrafas pelas calçadas.

Simples cantor solitário, entre otários e arcanjos.

Eu me justifico com o meu próprio mutismo

por não encontrar um vocabulário adequado.

Mas tento me colocar para falar.

Agora estou sozinho em uma espécie de jogo.

Um jogo onde todos devem dizer o que estão sentindo.

E todos, no caso, sou eu mesmo.

 

Não disse nada porque não há nada a dizer.

Saio de cena sem sequer me procurar.

Dou a mim mesmo um olhar de reprovação,

mas não tem jeito,

eu assumo.

Hoje não vai sair o sol.



 Vicente Siqueira -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

 


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