De Madrugada
A madrugada é alta,
São três, talvez quatro.
Não há sinal de dia.
O sol ainda não se faz.
Tento me ver à mesa do bar mais próximo.
Me procuro no copo que não vejo.
Há clima de nuvem espessa sobre minha cabeça.
Novamente sou eu a não romper a alvorada.
Talvez por extrema sensibilidade
ou por gostar muito de mim,
resolvo colocar-me para me falar coisas em alto e bom som.
Chutando tampinhas de garrafas pelas calçadas.
Simples cantor solitário, entre otários e arcanjos.
Eu me justifico com o meu próprio mutismo
por não encontrar um vocabulário adequado.
Mas tento me colocar para falar.
Agora estou sozinho em uma espécie de jogo.
Um jogo onde todos devem dizer o que estão sentindo.
E todos, no caso, sou eu mesmo.
Não disse nada porque não há nada a dizer.
Saio de cena sem sequer me procurar.
Dou a mim mesmo um olhar de reprovação,
mas não tem jeito,
eu assumo.
Hoje não vai sair o sol.
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