Testemunha do Verbo (experiência)
Não sou mais quem escreve.
Será que isso é perda? Ou é vertigem?
Algo sempre acontece antes de mim
e continua depois.
Eu apenas acordo no meio do acontecimento,
percebendo que já estava respirando
sem ter decidido nascer.
A história não pede meu nome.
Ela passa.
E ao passar, me deixa esse estado:
uma atenção ferida,
um silêncio que pensa.
O verbo encostou no meu rosto
testando a temperatura da alma.
Nada a ver comigo.
Nunca.
Eu apenas senti —
e sentir já foi demais.
Assusta quando o que criei me devolve um olhar.
Não é certo. Nem sei o que dizer.
Talvez revelação.
Talvez aquele texto que sabe das coisas que escondi
e por educação não quer me atrapalhar,
por medo do retorno,
por excesso de lucidez.
O papel respira.
E eu me dou conta tarde demais
de que não sou o pulmão.
Sou o intervalo entre uma inspiração e outra,
esse espaço indeciso
onde o milagre escolhe acontecer
sem testemunhas confiáveis.
A tinta corre.
E não me pergunta nada.
Talvez porque a resposta
não me pertença mais.
Fico.
E agora sinto como autor.
Como quem presenciou algo vivo
e agora precisa aprender
a não trocar o verbo.
É assim e pronto.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
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