25 janeiro 2026

O VÃO ENTRE OS DIAS

O Vão entre os Dias


Sou um corpo que tenta caber

no intervalo estreito entre dois sóis,

nessa fenda miúda e secreta

onde o nome ainda não foi soprado.


Carrego comigo mapas imprecisos,

dobras de uma infância guardada,

gestos que herdei do silêncio

e esta fome estranha, quase antiga,

pelo descanso.


Quero caber no espelho

sem precisar pedir desculpas,

ocupar o assento vazio do ônibus,

morar na minha própria sombra

quando a luz do mundo decide pressionar.


Sou este corpo que aprende

a largura exata da existência

através do impacto e da recusa;

na tentativa diária e muda

de existir finalmente sem legendas.


Às vezes sinto o peso do chumbo,

noutras, quase flutuo —

não por leveza de espírito,

mas pela exaustão absoluta

de carregar o que os outros esperam de mim.


Um corpo que tenta caber

não procura uma moldura ou um quadro.

Ele procura o chão.

Um lugar onde respirar

não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 



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