15 janeiro 2026

O GPS DA ALMA



 

O GPS da Alma

 

Há um mapa dentro de mim,

que aponta direções opostas.

Uma parte anseia por flutuar,

leve como o dado na nuvem,

sem lastro, sem endereço fixo,

apenas o vento das novas redes,

o horizonte que se expande

além do último Wi-Fi.

 

Gosto da pele bronzeada de sol de escalas,

o sotaque que me abraça por um dia,

a vista do avião, minúscula,

onde as cidades são meros pixels

e a gravidade é só um conceito.

 

Mas há outra voz, subterrânea,

que me compele a lançar raízes.

Buscar o cheiro da terra úmida,

o contorno de uma montanha familiar,

a mesa onde o café tem o mesmo sabor

em todas as manhãs frias.

A segurança do concreto,

a solidez da chave na porta,

o abraço que não tem hora de partida.

 

Essa tensão é a minha bússola quebrada:

entre o impulso de ver tudo,

e o desejo de pertencer a um canto.

Ser nuvem que viaja,

e ao mesmo tempo, árvore antiga

cravada no chão,

testemunha das estações.

 

Talvez a vida seja isso:

o delicado balé entre o desapego do ar

e a promessa da rocha.

Flutuar quando preciso ser livre,

e lançar raízes quando o coração

pede um lar para, enfim, respirar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


DE MADRUGADA

 

De Madrugada

 

A madrugada é alta,

São três, talvez quatro.

Não há sinal de dia.

O sol ainda não se faz.

Tento me ver à mesa do bar mais próximo.

Me procuro no copo que não vejo.

Há clima de nuvem espessa sobre minha cabeça.

Novamente sou eu a não romper a alvorada.

Talvez por extrema sensibilidade

ou por gostar muito de mim,

resolvo colocar-me para me falar coisas em alto e bom som.

 

Chutando tampinhas de garrafas pelas calçadas.

Simples cantor solitário, entre otários e arcanjos.

Eu me justifico com o meu próprio mutismo

por não encontrar um vocabulário adequado.

Mas tento me colocar para falar.

Agora estou sozinho em uma espécie de jogo.

Um jogo onde todos devem dizer o que estão sentindo.

E todos, no caso, sou eu mesmo.

 

Não disse nada porque não há nada a dizer.

Saio de cena sem sequer me procurar.

Dou a mim mesmo um olhar de reprovação,

mas não tem jeito,

eu assumo.

Hoje não vai sair o sol.



 Vicente Siqueira -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

 


11 janeiro 2026

NO INÍCIO

No Início 


Os degraus me puxam para a rua,

para o agora que é só risco.

Se é para saltar,

que seja de cabeça.

Que eu me derrame inteiro,

sem pudor.

A lua, sentinela,

testemunha a verdade nua:

a dança, a fé que me move,

a pouca lembrança do muito que somos,

entrelaçados nas teias de leves intenções.


Vicente Siqueira -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



10 janeiro 2026

ENSAIO SILENCIOSO

 

Ensaio Silencioso

 

Meu sorriso é um palco antigo,

iluminado por ensaios repetidos,

cada curva um esforço, uma nota sustentada

para a peça que nunca acontece.

 

Há uma dissonância, um murmúrio insistente

sob a pele, na raiz dos gestos:

não é por aqui,

não é por este caminho,

as cores desbotam antes de secar.

 

As coisas deveriam ser de outro modo,

sinto a trama desfiando,

o chão falso sob os pés,

e nada,

nada se encaixa no seu devido lugar.

 

Onde foi morar a esperança que prometia verões sem fim,

noites de estrelas caídas em nossas mãos?

Evaporou como orvalho, ou se escondeu

sob a poeira das rotinas que nos moldam?

Procuro vestígios em cada canto,

mas encontro apenas o eco da sua ausência,

um vazio que insiste em ecoar

nesse sorriso que ainda treino,

nessa certeza de que o compasso está errado.


        ... onde foi parar a esperança?...


Vicente Siqueira   -  Doces Poesias

SOB A MARQUISE

Sob a Marquise



Triste espetáculo ao fechar do frio julho:
A família residente sob a marquise
de rua e calçada da velha loja de tecido.
Ali, onde o pano sobra nos rolos da vitrine,
falta o abrigo que estanca o sereno.
Pai, mãe, filha e o bebê aparentando meses.
O cotidiano trágico, dimensionado pela força do costume,
nos leva a passar impassíveis,
como se a dor alheia fosse paisagem mofada,
movidos pelo egoísmo de movimentos distantes e neutros.
O passo apressado ecoa no cimento,
evitando o encontro de dois desamparos:
o deles, de teto; o meu, de espírito.
Alguma moeda podemos atirar,
mas é apenas o desejo estéril
de nos sentir cumpridores dos nossos deveres de irmãos.
Um tilintar de metal que compra o silêncio da culpa,
principalmente quando tem plateia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias -  Barra do Piraí RJ

DESPERTAR DO NÚCLEO

Despertar do Núcleo



A esperança é uma casca que começa a trincar.
Não há som de vidro quebrado,
apenas o estalo seco de uma semente
que desistiu de ser redonda e perfeita
para aceitar a sua própria urgência.
O verniz do otimismo barato descasca,
revelando as fibras cruas do que sobrou.
Não é uma queda,
é uma pressão de dentro para fora,
um cansaço acumulado de ser apenas superfície,
de ser apenas o que protege a dúvida.
Pelos vãos dessa pele rompida,
o mundo entra sem pedir licença:
traz o frio das manhãs vazias
e o cheiro de terra depois da tempestade.
Eu olho para as minhas mãos e vejo os mesmos sulcos.
Sou o homem que habita a fenda,
observando o brilho estranho que emana do rasgo.
O que nasce não tem nome,
não tem a delicadeza que prometiam os manuais.
É uma força bruta,
um tendão exposto,
a vida insistindo em vazar por onde o medo falhou.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

DELICADEZA DO TOQUE

Delicadeza do Toque



Desvendei o segredo das mãos
ao observar o que o céu deposita, em silêncio,
sobre a pele de seda das pétalas.
Não é posse, nem peso.
É a arquitetura de uma gota
que se apoia no mundo sem exigir espaço,
um abraço líquido que hidrata a sede
sem jamais amassar a cor.
Aprendi a te zelar assim:
sendo o orvalho que repousa,
transparente e leve,
sobre a tua existência.
Um carinho que não aperta,
um cuidado que não sufoca,
apenas brilha sob a luz da manhã
e mantém o frescor do que é vivo,
deixando que sejas flor,
enquanto eu sou o que te banha.  

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

ECO DO PLENO

 Eco do Pleno



Não busco o estrondo das festas vãs,
nem o artifício das palavras amontoadas
que tentam, sem sucesso,
estancar a hemorragia do tédio.
Aprendi que o vácuo é quem mais grita;
necessita de ruído, de pressa, de caos,
para não ter que ouvir o próprio nada.
Eu, pelo contrário,
prefiro o peso sagrado da quietude.
Mergulho no mudo como quem volta para casa,
descobrindo que, no centro do meu silêncio,
não falta conteúdo.
Lá, as águas são límpidas
e a paz não precisa de legenda.
Sou um homem que habita a própria pausa
e nela encontro
tudo o que o barulho tenta esconder.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

ECO DA RAIZ

 Eco da Raiz



Sou o único habitante de uma consciência primal,
um território de rocha viva e instinto cru
onde as palavras do mundo não conseguem fincar raízes.
Moro no centro de um silêncio antigo,
anterior ao alfabeto, anterior ao julgamento.
Não busco abrigo em abraços que não conhecem meu solo.
Há um isolamento sagrado em ser quem se é,
sem os adornos que a civilização tenta me impor.
Caminho por trilhas que eu mesmo invento,
guiado pelo sangue que pulsa no ritmo da terra.
Nesta solidão de pedra e vento,
não há espaço para o eco de outras vontades.
Sei que, quando o sol se apagar para mim,
levarei comigo o segredo desta morada interna
que nenhum outro olhar foi capaz de mapear.
Sou o princípio e o fim de minha própria linhagem.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ


O VÉRTICE DA MONTANHA

O Vértice da Montanha



Olho para o horizonte e não vejo rastros,
apenas a poeira que meus próprios pés levantaram.
Dizem-me para onde caminhar, como se o mapa deles
servisse para o relevo acidentado do meu peito.
Eles oferecem bússolas gastas e conselhos medidos,
mas nenhum deles sente o frio que me corta a pele
ou o silêncio que ensurdece quando a noite cai.
A multidão é um ruído distante, uma ilusão de companhia.
No fim, o fôlego é um ato isolado.
Nascemos em um grito solo e partiremos no vácuo de uma ausência
que pertence apenas ao nosso nome.
Ninguém ocupará o espaço do meu corpo quando a terra o reclamar.
Sou o único habitante desta consciência,
o único responsável pela liberdade de errar o caminho.
A solidão não é um castigo,
é o preço de ser o único dono da própria história.

Vicente Siqueira - Barra do Piraí RJ


O ARQUITETO DO ABISMO

O Arquiteto do Abismo



O mundo é um ruído constante,
uma feira de máscaras e espelhos,
onde todos buscam um reflexo que os aceite.
Mas dentro de ti, onde o barulho não chega,
existe um jardim que ninguém mais pisa.
Tu és o arquiteto desse abismo fértil.
Não temas o vazio que encontras ao fechar os olhos;
ali, o que parece ausência é, na verdade, espaço:
o lugar onde a tua voz não precisa de eco
para saber que é real.
Não te dês por inteiro às vitrines da pressa.
Guarda o que tens de mais raro, o que é sem nome,
pois o que se traduz demais, acaba por se perder.
Sejas como a raiz, que nutre a árvore em segredo,
sustentando a copa sem nunca precisar do sol.
Molda o teu silêncio como quem talha um diamante.
Que ele seja a tua armadura e o teu repouso.
Pois, se fores fiel à tua própria distância,
serás, enfim, o dono da tua própria luz.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

O ECO NA PRÓPRIA CONCHA

O Eco na Própria Concha


Nascemos um átomo singular,
flutuando desde o primeiro instante,
isolados na vastidão do ser.
Há um universo que só você habita,
um silêncio que só seus ouvidos escutam.
Mãos se entrelaçam, vozes se misturam,
mas a essência permanece intacta,
um núcleo irredutível de solidão sagrada.
É nessa câmara silenciosa
que reside a sua verdade, o seu eu,
a frágil e potente chama da sua alma.
Não permita que as correntes do mundo,
os desejos alheios, os moldes prontos,
invadam esse santuário privado.
A identidade não é uma capa a vestir,
mas o osso que sustenta o corpo,
a melodia única que você é.
Proteja essa solidão, essa força.
Pois no fim das contas,
você é o único guardião do seu próprio templo.
A jornada é sua, o destino é seu,
e a integridade do seu espírito,
o seu único e verdadeiro lar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ


09 janeiro 2026

DO OUTRO LADO

 

 Do Outro Lado

Já estou do outro lado.
Não percebi a travessia.
Foi um cansaço doce,
um respirar mais longo,
e o chão se desfez em céu.

Aqui, tudo tem nome novo.
As árvores não se chamam mais “árvores”,
mas “lembranças em flor”.
Os rios sussurram nossos sonhos esquecidos
em línguas que ainda não aprendemos
mas já entendemos de algum modo.

Do outro lado,
não há fim nas manhãs.
O tempo não corre —
ele dança,
e somos levados com ele
sem pressa de chegar.

Cada ser brilha por si,
como quem sabe que ser estrela
não é estar no alto,
mas acender-se por dentro.

Nos reconhecemos pelos brilhos.
Não há rostos,
mas presenças.
Não há muros,
mas caminhos entrelaçados
por afinidade de luz.

E quando alguém pergunta — se ainda pergunta —
“o que é a vida?”
a resposta não vem com palavras,
mas com uma música que nasce dos passos,
com um abraço que atravessa os corpos
como vento atravessa a chama
sem apagar.

Do outro lado,
não somos mais buscadores.
Somos achados.
Somos começo onde antes era ponto.
Somos estrelas umas nas outras,
refletindo o eterno
em pequenas centelhas
de agora.

 Vicente Siqueira  - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

08 janeiro 2026

ECO PONDERAL

 Eco Ponderal

 

Em mim,

sempre existiu um eco pesado.

Não a ressonância de um grito,

mas o peso mudo do que permanece.

 

Uma camada sobre o ar que respiro,

um véu translúcido de memória.

Não é tristeza, nem a sombra da perda,

mas a densidade de um tempo sem nome.

 

Como pedras silenciosas na correnteza,

acumulam-se sentimentos sem pouso.

O eco não se propaga, ele se assenta.

Em cada fibra, a gravidade do que foi,

do que talvez nunca tenha sido,

mas que carrega o peso de ser.

 

É o ruído interior do que não se desfaz,

a persistência do inominável.

Um eco pesado, sim,

mas que me habita

e me tece.


               ...em mim sempre existiu um eco pesado...



                   Barra do Piraí, RJ - RioParaíba do Sul



Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

 

 

 

07 janeiro 2026

O QUE É A VIDA (VISTA DO OUTRO LADO)

 

O Que É a Vida (Vista do Outro Lado)

Do outro lado,
a pergunta “o que é a vida?”
não é um enigma —
é uma memória.

Vida é o instante antes do riso,
o toque que não chegou a acontecer
mas ficou no ar como promessa.

É o cheiro do café numa manhã comum
que, sem aviso, virou eternidade.
É a lágrima que ninguém viu
mas lavou o caminho por dentro.

A vida, agora eu vejo,
nunca foi a linha reta.
Era o desvio,
o tropeço,
o olhar de lado.

Era aquele momento
em que você quase disse a verdade,
mas calou —
e, mesmo assim, algo mudou.

Do outro lado,
vida é poema mal terminado,
onde o sentido
não está no fim
mas no ritmo de quem leu em voz baixa.

Vida é o intervalo entre dois abraços,
o silêncio que guarda o nome amado,
o susto de se reconhecer em outro ser.

Ela nunca foi só biologia.
Era arte,
era semente,
era sopro vestido de carne.

E, agora que vejo daqui,
entendo:
a vida não precisa ser entendida.
Só lembrada
como quem ouve uma canção
que já conhecia
antes mesmo de nascer.






Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ



                          ... a vida não precisa ser entendida...


Vicente Siqueira  -  Doces Poesias

06 janeiro 2026

ENGANANDO A ALMA

 Enganando a alma

Enganando a alma
que ainda carrega
o mesmo choro,
a mesma mágoa —
feito cicatriz escondida
debaixo do perfume.

Os dias passam,
e eu passo junto,
com um riso treinado
e um silêncio nos bolsos
que pesa mais do que a fala.

Disfarço o eco antigo
com novos sons,
novos nomes,
mas o coração,
esse tolo que nunca mente,
ainda repete o mesmo soluço
quando tudo cala.

Enganando a alma,
como se ela não soubesse
que o tempo não cura —
ele só ensina
a doer de forma mais discreta.



...o tempo não cura —
ele só ensina
a doer de forma mais discreta.


Vicente Siqueira   - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



                                                                   

05 janeiro 2026

CIDADE ADORMECIDA

 Cidade Adormecida

 

A cidade dorme lá fora, um manto escuro

sobre prédios e avenidas silenciosas.

Mas não eu.

Aqui dentro,

onde a esperança também tira um cochilo,

no lado esquerdo do peito,

ecoam suas palavras

ditas em um sussurro quase inaudível:

"A vida é muito curta."

 

E elas ainda me estremecem,

um arrepio frio

em madrugadas que se estendem demais,

lembrando-me do tempo que corre,

invisível, implacável.

Como um vento que passa

e leva consigo

o que não foi vivido,

o que não foi dito,

o que não foi amado.

 

E por que não foi vivido?

A pergunta paira

no ar pesado da madrugada,

como a poeira que se acumula

em sonhos guardados.

Medo, talvez.

Ou a distração das horas,

a rotina que cega.

O que nos prende

ao chão,

enquanto o céu espera

sempre aberto.


Vicente Siqueira   -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ


04 janeiro 2026

O RITUAL SILENCIOSO

 O Ritual Silencioso

 

Aqui está ela, na palma da mão,

esta que agora me serve, fiel.

Seu corpo de plástico, talvez azul,

ou verde-água, um espectro discreto

no emaranhado do dia que pulsa lá fora.

 

As cerdas, um exército denso e macio,

prontas para a dança diária.

Sabem a trilha de cada dente,

o caminho do frescor que se anuncia,

um sussurro de hortelã na boca da manhã.

 

Ela não grita, não exige holofotes.

É a ferramenta humilde,

que em cada curva, em cada fricção suave,

limpa não só o resíduo,

mas a letargia do sono,

ou a despedida do último gole antes da noite.

 

Testemunha silenciosa, companheira breve,

do hálito que se renova,

da promessa de um sorriso que se alinha.

Esta escova, agora em uso,

é um pequeno portal para o início,

ou para o fim tranquilo,

guardando o segredo da higiene,

e o simples rito de ser.



Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



ÁGUA NO ROSTO

 Água no Rosto

 

A água fria que escorre,

um leve choque, um portal

para o agora.

 

As mãos desenham círculos,

um mapeamento breve

do próprio rosto.

Os olhos se fecham,

e o mundo, por um instante,

é só o som da torneira,

o espalhar leve da espuma

que some e leva.

 

A pele acorda, desperta.

Leva o sono que gruda nas pálpebras,

a poeira invisível de ontem,

a melancolia da noite

que ainda insistia em habitar.

 

É um rito de passagem, mínimo.

Um renascimento em segundos,

o reflexo limpo no espelho,

pronto para outra luz,

outra verdade,

a próxima respiração do dia.



      Vicente Siqueira - Doces Poesias


03 janeiro 2026

BOM DIA, FELIZ E ABENÇOADO SÁBADO

 Bom Dia, Feliz e Abençoado Sábado

o sábado amanhece mais lento,
como se o tempo também tirasse folga.
o céu parece sorrir sem pressa,
e o coração respira mais fundo.

há bênção no café quente,
na ausência de pressa,
no silêncio que não pesa,
mas acaricia.

feliz é o dia em que ser basta,
em que não há metas além de existir com leveza.

abençoado é o descanso,
a conversa mansa,
o abrir das janelas —
por dentro e por fora.

bom dia,
que seja simples.
feliz sábado,
que seja inteiro.


Vicente Siqueira - Doces Poesias


 

01 janeiro 2026

TENHO ME ENCONTRADO SORRINDO

 Tenho me encontrado sorrindo

Sem plateia.
Sem motivo grande.
Às vezes no meio de nada,
ou de tudo.

Tenho me encontrado sorrindo
como quem reencontra um velho amigo
no espelho.

Não é euforia —
é ternura.
Como se algo em mim dissesse:
“vê? você tá indo bem,
mesmo sem saber pra onde.”

Sorrio enquanto escovo os dentes,
enquanto espero a água ferver,
enquanto o mundo passa rápido
e eu aprendo a passar mais devagar.

É um sorriso que nasce no silêncio,
nas pequenas vitórias invisíveis,
na paz de não precisar ser mais
do que sou agora.

Tenho me encontrado sorrindo —
e esse verbo,
encontrar-se,
nunca me pareceu tão bonito.

Porque no fundo,
é isso que eu andava procurando:
um lugar dentro de mim
que não me cobrasse nada,
só me recebesse.

Com riso leve.
E sem pressa.



Vicente Siqueira - Doces Poesias