O GPS da Alma
Há um mapa dentro de mim,
que aponta direções opostas.
Uma parte anseia por flutuar,
leve como o dado na nuvem,
sem lastro, sem endereço fixo,
apenas o vento das novas redes,
o horizonte que se expande
além do último Wi-Fi.
Gosto da pele bronzeada de sol de escalas,
o sotaque que me abraça por um dia,
a vista do avião, minúscula,
onde as cidades são meros pixels
e a gravidade é só um conceito.
Mas há outra voz, subterrânea,
que me compele a lançar raízes.
Buscar o cheiro da terra úmida,
o contorno de uma montanha familiar,
a mesa onde o café tem o mesmo sabor
em todas as manhãs frias.
A segurança do concreto,
a solidez da chave na porta,
o abraço que não tem hora de partida.
Essa tensão é a minha bússola quebrada:
entre o impulso de ver tudo,
e o desejo de pertencer a um canto.
Ser nuvem que viaja,
e ao mesmo tempo, árvore antiga
cravada no chão,
testemunha das estações.
Talvez a vida seja isso:
o delicado balé entre o desapego do ar
e a promessa da rocha.
Flutuar quando preciso ser livre,
e lançar raízes quando o coração
pede um lar para, enfim, respirar.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ

