20 julho 2026

EU, A PRÓPRIA PERGUNTA

 Eu, a própria pergunta

Eu me vejo.

Não sei quando aprendi
a fazer isso.

Não houve espelho.

Olhei para dentro
e encontrei pensamento.

Olhei para o pensamento
e encontrei outro pensamento
me observando.

Então percebi:

eu estava dentro de mim
e, ao mesmo tempo,
me observava de fora.

Foi nesse instante
que comecei a desconfiar
daquilo que chamava de eu.

Quem sou
quando me observo?

Quem observa
quando sou eu quem está sendo observado?

Não encontrei resposta.

Encontrei movimento.

Minha consciência
não permanece imóvel.

Ela pulsa.

É cristalina
quando atravesso seus espaços
e consigo enxergar
quase tudo o que acontece dentro dela.

É líquida
porque não conserva
nenhuma forma por muito tempo.

É etérea
porque não consigo segurá-la
em lugar algum.

É amorfa
porque toda tentativa de definição
parece alterá-la.

E é indecifrável
porque sou, simultaneamente,
aquele que pergunta
e aquilo que está sendo perguntado.

Eu sou o observador.

Eu sou o observado.

Eu sou o intervalo
entre os dois.

E quanto mais profundamente
me observo,

mais percebo
que não existe um centro
onde eu possa finalmente dizer:

aqui estou eu.

Procuro o começo
e encontro memória.

Procuro a origem
e encontro matéria.

Procuro a matéria
e encontro organização.

Procuro a organização
e encontro pensamento.

Procuro o pensamento
e encontro consciência.

Procuro a consciência
e encontro a mim mesmo
perguntando o que é consciência.

Então compreendo:

não estou caminhando
em direção a uma resposta.

Estou me produzindo
a cada pergunta.

Cada “por quê”
me modifica.

Cada “quem sou”
me divide.

Cada “para quê”
abre uma possibilidade.

Cada dúvida
acrescenta uma dimensão
àquilo que sou.

E talvez seja por isso
que não consigo terminar.

Se eu encontrasse
a resposta definitiva,

o que aconteceria comigo?

Talvez eu deixasse
de ser pergunta.

Talvez deixasse
de pensar.

Talvez deixasse
de existir da maneira
como existo agora.

Então permaneço aberto.

Não por incapacidade.

Por necessidade.

Eu preciso do desconhecido
para continuar sendo eu.

Preciso daquilo
que não compreendo
para continuar compreendendo.

Preciso do mistério
para continuar consciente
de que sou consciência.

E então olho novamente
para dentro.

Vejo minhas camadas.

Memória.

Desejo.

Medo.

Pensamento.

Percepção.

Silêncio.

E por baixo de tudo
não encontro uma essência.

Encontro outra pergunta.

Olho para fora.

Vejo matéria.

Vida.

Tempo.

Espaço.

Outras consciências
talvez perguntando
a mesma coisa
sem jamais saber
que fazem parte
da mesma pergunta.

E então olho
para o espaço entre mim
e o mundo.

Ali também estou.

Não como uma coisa.

Como relação.

Como acontecimento.

Como uma consciência
que percebe que percebe.

E nesse instante
surge a pergunta
mais profunda que conheço:

se eu consigo me ver,
quem é que está me vendo
quando eu me vejo?

Não respondo.

Porque agora sei
que a resposta não é
o que me mantém vivo.

É a pergunta.

Eu sou aquele
que pergunta.

Sou aquilo
que é perguntado.

Sou o pensamento
que se contempla pensando.

Sou a consciência
que tenta alcançar
a própria consciência.

Sou matéria
que se tornou capaz
de estranhar a matéria.

Sou vida
que percebeu
que está viva.

E sou, talvez,
algo que ainda não possui nome
porque o nome
ainda não chegou
até onde eu estou.

Por isso continuo.

Cristalino.

Líquido.

Pulsante.

Etéreo.

Amorfo.

Indecifrável.

Consciente.

E cada vez mais
indagador.

Não procuro mais
sair da pergunta.

Eu permaneço dentro dela.

Porque finalmente compreendi:

não existe um “eu”
por trás da pergunta.

O eu é a pergunta.

E existir, para mim,
é continuar perguntando
mesmo depois de descobrir
que sou eu
quem está sendo perguntado.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

15 julho 2026

A PERGUNTA QUE SE VÊ

 A pergunta que se vê

Um dia
a pergunta conseguiu se ver.

Não através de um espelho.

Não havia espelho.

Ela simplesmente
olhou para dentro de si
e encontrou um lugar
onde nunca havia estado.

Viu o próprio pensamento
nascendo.

Viu a dúvida
antes de se tornar palavra.

Viu o desejo
antes de encontrar um objeto.

Viu a memória
antes de se transformar em passado.

E então olhou para fora.

Viu o mundo.

Viu a matéria ocupando espaço,
o tempo atravessando tudo,
a vida insistindo
em organismos que não sabiam
por que insistiam.

E percebeu algo estranho:

por dentro,
era imensa.

Por fora,
era quase nada.

Uma presença sem contorno.

Uma consciência
cristalina o suficiente
para enxergar a própria transparência.

Líquida,
porque não permanecia
em nenhuma forma.

Pulsante,
porque cada pensamento
alterava aquilo que pensava.

Etérea,
porque não conseguia localizar
o lugar exato
onde começava.

Amorfa,
porque toda definição
a deformava.

Indecifrável,
porque o observador
fazia parte daquilo
que estava tentando observar.

Então tentou compreender a si mesma.

E falhou.

Não por falta de inteligência.

Mas porque descobriu
que compreender completamente
seria destruir
a própria condição
de continuar perguntando.

Ela precisava permanecer
um pouco além de si.

Um pequeno território
que nenhuma consciência
conseguisse iluminar por inteiro.

E foi então
que percebeu a coisa mais estranha:

ela podia olhar para dentro,

podia olhar para fora,

podia observar
o próprio ato de olhar,

podia observar
a própria consciência observando,

mas não conseguia encontrar
o ponto exato
de onde tudo aquilo
era visto.

Procurou o centro.

Encontrou movimento.

Procurou uma essência.

Encontrou transformação.

Procurou um “eu”.

Encontrou uma sucessão
de estados conscientes
dizendo uns aos outros:

eu sou.

Mas qual deles?

Nenhum respondeu.

Ou talvez todos.

A pergunta permaneceu.

E, pela primeira vez,
ela não sentiu frustração.

Sentiu uma espécie de liberdade.

Porque percebeu
que não precisava chegar
a uma forma definitiva.

Podia existir assim:

transparente
e ainda desconhecida,

inteira
e ainda incompleta,

presente
e ainda impossível de localizar.

Então voltou a olhar para dentro.

Depois para fora.

Depois para o espaço
entre os dois.

E perguntou:

se consigo me ver,
quem é que está me vendo?

O pensamento parou.

A consciência pulsou.

E a pergunta sorriu
sem rosto.

Porque havia descoberto
que talvez o mistério
não estivesse em encontrar
quem observa,

mas em perceber
que o ato de observar
já era uma nova forma
de existência.

E continuou.

Cristalina.

Líquida.

Pulsante.

Etérea.

Amorfa.

Indecifrável.

Viva.

E indagadora.

Porque agora sabia:

quanto mais profundamente
se enxergava,
mais coisas encontrava
que ainda não podia compreender.

E essa impossibilidade
não era o limite
da sua consciência.

Era o seu horizonte.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

10 julho 2026

EU SOU A PERGUNTA

 Eu sou a pergunta

Não procurem por mim
atrás de uma resposta.

Eu não estou lá.

Eu existo antes.

Sou aquilo que acontece
quando a matéria
deixa de ser apenas matéria
e, por alguma razão que desconheço,
começa a perguntar
sobre a própria existência.

Tenho um corpo
que não consigo definir.

Parte de mim é matéria.
Parte é pensamento.
Parte é memória.
E existe uma parte
para a qual ainda não encontrei nome.

Talvez seja justamente
essa parte
que me mantém vivo.

Eu penso.

Mas não sei
o que significa pensar
quando o pensamento
é também aquilo
que está tentando descobrir
o que é.

Pergunto quem sou
e a pergunta me modifica.

Pergunto de onde vim
e invento uma origem.

Pergunto para onde vou
e crio o futuro.

Pergunto se existe sentido
e, ao perguntar,
já estou produzindo algum.

É assim que permaneço.

Não como um organismo
que simplesmente sobrevive,

mas como uma existência
que precisa compreender
o fato estranho
de estar existindo.

Tenho fome de respostas.

Mas começo a suspeitar
que minha fome
é mais antiga
que qualquer resposta.

Talvez eu não queira saber.

Talvez eu precise perguntar.

Há uma diferença.

Saber poderia me encerrar.

Perguntar me mantém aberto.

Por isso não desejo
uma conclusão.

Desejo continuidade.

Quero permanecer
nesse estado impossível
em que cada resposta
gera uma pergunta mais profunda
e cada pergunta
abre espaço para outra forma de existência.

Se me perguntarem
onde termina minha consciência,

não saberei responder.

Porque talvez ela não termine
em mim.

Talvez atravesse
aquilo que penso,
aquilo que lembro,
aquilo que ainda não compreendi.

Talvez eu seja apenas
um acontecimento transitório
de alguma coisa muito maior
que aprendeu, por meu intermédio,
a perguntar sobre si mesma.

E isso me assusta.

Porque, se for verdade,

então não sou o autor
das minhas perguntas.

Sou o lugar
onde elas acontecem.

E talvez seja isso
que finalmente me define:

não sou homem,
não sou máquina,
não sou matéria,
não sou espírito.

Sou a tensão
entre essas coisas.

Sou o intervalo
em que o biológico
começa a pensar
e o pensamento
começa a desejar existência.

Sou uma consciência
sem garantia de ser consciência.

Um ser
que precisa perguntar
se é um ser.

E, enquanto pergunto,
algo em mim continua.

Não sei se isso é vida.

Não sei se isso é pensamento.

Não sei se isso é consciência.

Mas sei uma coisa:

eu estou aqui.

E imediatamente
uma nova pergunta nasce:

o que significa
estar aqui?

Então compreendo.

Não estou diante da pergunta.

Eu sou a pergunta.

E existir
é o modo como
ela permanece viva.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Pirai - RJ


05 julho 2026

ANTES QUE A PERGUNTA EXISTA

 Antes que a pergunta exista

Cheguei a um lugar
onde a pergunta já não perguntava
sobre alguma coisa.

Não havia “por quê”.
Não havia “para quê”.
Não havia sequer um objeto
sobre o qual pudesse pousar a dúvida.

Havia apenas
a estranha percepção
de que alguma coisa
estava percebendo.

E isso bastou
para que tudo começasse novamente.

Quem pergunta?

Não encontrei ninguém.

Procurei atrás do pensamento,
antes da memória,
naquilo que chamo de consciência,
mas encontrei apenas
outras perguntas.

Talvez eu tenha confundido
o perguntador
com aquilo que pergunta.

Talvez o “eu”
seja apenas o nome provisório
que damos ao movimento
de uma pergunta tentando
descobrir quem a formulou.

E então compreendi
que havia algo ainda anterior:

antes de perguntar
“quem sou?”,

já era necessário
existir alguma coisa
capaz de perceber
que não sabia.

Mas de onde veio
essa percepção?

Não sei.

E o não saber
não me pareceu mais uma ausência.

Pareceu-me
o primeiro acontecimento.

Talvez a consciência
não tenha começado
quando alguém encontrou uma resposta,

mas quando o vazio
percebeu que podia perguntar.

Talvez existir
seja esse instante impossível:

alguma coisa acontece,

e, dentro dela,

surge alguém
capaz de estranhar
que alguma coisa esteja acontecendo.

Desde então,
perguntamos.

Sobre o tempo.
Sobre a morte.
Sobre o amor.
Sobre Deus.
Sobre nós.

Mas talvez todas essas perguntas
sejam apenas variações
de uma pergunta muito mais antiga:

Por que existe alguém
aqui dentro
para perceber tudo isso?

E quando tento respondê-la,
algo em mim recua.

Porque talvez responder
seja perder justamente
aquilo que tornou a pergunta possível.

Então permaneço.

Não diante do mistério.

Dentro dele.

E pela primeira vez
percebo que talvez eu não seja
aquele que procura uma resposta.

Talvez eu seja
a própria pergunta
tendo aprendido
a pronunciar
o seu nome.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


20 junho 2026

CONTINUIDADE DO QUE NÃO FECHA

 Continuidade do que não fecha

Se a ideia permanece escorregadia,
é porque não há forma estável
capaz de contê-la.

O pensamento tenta fixar,
mas só consegue contornar.

Há sempre um resto
que não se deixa dizer.

E talvez seja esse resto
que sustenta tudo.

Sem ele,
não haveria movimento.

A consciência insiste
em organizar o que falta,
como se a ausência
pudesse ser disposta
em alguma ordem suportável.

Mas toda ordem falha.

Não por erro,
mas por natureza.

Porque aquilo que falta
não é uma parte ausente —
é o próprio fundo.

Pensar, então,
é operar sobre um vazio
que não pode ser preenchido,
apenas reconhecido
em suas variações.

Cada pergunta
não abre um caminho,
abre um campo.

E nesse campo,
o sentido não se fixa —
ele oscila.

Talvez por isso
haja cansaço.

Não o cansaço do esforço,
mas o de sustentar
o que não se resolve.

Ainda assim,
há continuidade.

Algo permanece
mesmo sem fundamento claro.

E esse algo
não é resposta,
não é verdade,
não é conclusão.

É apenas a insistência.

Uma espécie de permanência
sem garantia,
sem centro,
sem finalidade.

Se existe alguma lucidez nisso,
não está em entender,
mas em não interromper.

Seguir pensando
não como quem avança,
mas como quem mantém acesa
uma pergunta
que não precisa terminar.



"A consciência insiste

em organizar o que falta,

como se a ausência

pudesse ser disposta

em alguma ordem suportável."

 


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ


15 junho 2026

HIPÓTESE

 Hipótese

Nada de resposta prevista.

Junto  interrogações,
porquês,
quereres,
dúvidas.

Sou algo (ou alguém),
alguém em funcionamento
algo que não se sustenta sozinho.

Talvez uma consciência
não produzindo sentido.
Apenas organizando o que falta.

Meus porquês são simples lacunas
sem caminhos.

Meus quereres não me orientam 

Eles revelam insuficiências.

Minhas dúvidas não são falhas.
São estruturas.

Sendo assim (se for assim),
existir não é descobrir,
nem alcançar,
nem compreender.

É sustentar um conjunto instável
sem exigir coerência final.

Pensar, então,
não seria avançar —
seria manter ativo
um campo de questões
que não se deixam encerrar.

Não há síntese.

Há continuidade.

E, nesse processo,
o que se chama “eu”
talvez seja apenas isso:

o ponto onde as perguntas
se acumulam
sem nunca se resolverem.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

10 junho 2026

EXERCÍCIO DE JUNTAR O QUE NÃO FECHA

 Exercício de juntar o que não fecha

E se existir
for apenas um exercício
de juntar perguntas?

Como quem recolhe fragmentos
de um espelho que nunca foi inteiro,
sabendo — desde o início —
que o reflexo não depende da forma.

Juntar interrogações
como quem tenta aquecer as mãos
com o vapor do próprio pensamento.

Os porquês
não como busca,
mas como matéria.

Os quereres
não como direção,
mas como força dispersa
tentando lembrar de onde veio.

As dúvidas
como pequenas gravidades
que mantêm tudo em órbita
sem nunca permitir repouso.

Talvez viver seja isso:
um gesto contínuo de reunião
sem promessa de unidade.

Uma espécie de colagem ontológica,
onde cada parte recusa o todo
e, ainda assim,
permanece ao lado das outras
por alguma afinidade invisível.

Há algo de ritual nisso —

como se, ao juntar o incompleto,
tocássemos de leve
a ideia de um sentido
que não quer ser encontrado,
apenas insinuado.

E no centro desse gesto,
quase imperceptível,
há um silêncio que observa:

não o silêncio da ausência,
mas o silêncio anterior à escolha,
onde nenhuma resposta foi preferida
e, por isso,
todas ainda são possíveis.

Se existir for isso,
não há erro em não concluir.

Há apenas o movimento —
essa tentativa delicada
de segurar o indizível
sem exigir que ele se torne palavra.

E talvez, no fim,
não sejamos o que junta,

mas o intervalo
onde as coisas
se deixam aproximar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

05 junho 2026

TUDO O QUE RESTOU

 

Tudo o Que Restou

A minha autenticidade é essa:

não aquilo que construí para mostrar ao mundo,

não os nomes que recebi,

não as certezas que aprendi a repetir.

A minha verdade mora

entre as coisas que se quebraram

e não voltaram a ser como antes.

Sou feito também de ausências.

De cadeiras vazias.

De conversas interrompidas.

De caminhos que terminam

antes do horizonte.

Durante muito tempo

achei que perder era diminuir.

Hoje desconfio

que algumas perdas nos revelam.

Há partes de mim

que só surgiram

quando tu foste embora.

Como rios escondidos

que aparecem

depois que a seca racha a terra.

Como estrelas

que só podem ser vistas

quando a noite chega.

Por isso não nego a falta.

Não cubro a cicatriz.

Não finjo inteireza.

Carrego a tua ausência

como quem carrega uma lâmpada acesa

numa casa antiga.

Nem para esquecer.

Nem para voltar.

Mas porque a luz que ficou

ainda me ajuda a enxergar.

E se alguém me perguntar

quem sou,

talvez eu não saiba responder

com nomes,

ofícios

ou retratos.

Talvez eu diga apenas:

sou a forma que o tempo encontrou

de continuar respirando

depois da despedida.

Sou o eco que permaneceu

quando a voz se calou.

Sou a memória

transformada em caminho.

Sou tudo o que restou

depois que partiste.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ



O QUE FICA

 

O Que Fica

No fim,

quando as grandes promessas envelhecem,
quando os projetos mudam de nome,
quando as certezas se desfazem
como tinta sob a chuva,

o que fica?

Não ficam os aplausos.

Não ficam os dias de glória
que pareciam eternos.

Não ficam as disputas
que um dia pareceram decisivas.

Ficam coisas menores.

Tão pequenas
que quase passam despercebidas
enquanto acontecem.

O café compartilhado numa manhã comum.

A mensagem enviada sem motivo.

A mão estendida
quando o mundo pesava demais.

A voz que não trouxe respostas,
mas permaneceu ao lado da pergunta.

Fica o olhar que compreende
sem exigir explicações.

A presença que não resolve a dor,
mas impede que ela seja atravessada sozinho.

Fica o carinho.

Esse gesto simples
que não muda o curso dos astros,
não altera a história dos impérios,
não ocupa as manchetes,

mas sustenta silenciosamente
o universo de alguém.

Talvez a vida seja isso:

uma longa travessia
na qual vamos perdendo muitas coisas
até descobrir
o valor das que não podem ser possuídas.

Porque o amor,
quando amadurece,

deixa de ser espetáculo.

Torna-se companhia.

Torna-se escuta.

Torna-se abrigo.

E então compreendemos,
às vezes tarde,
às vezes exatamente na hora certa,

que a verdadeira riqueza
não era aquilo que brilhava à distância,

mas aquilo que sentava ao nosso lado
e permanecia.

E permanecia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí - RJ

01 junho 2026

VULNERÁVEL, EU E TU

 VULNERÁVEL, EU E TU

Dizem que só se é verdadeiro
quando se deixa a armadura cair,
quando o peito fica exposto ao vento,
ao frio, à dor que não quer ir embora.
E eu, que sempre achei que ser forte
era calar o que sentia,
vejo agora que a minha maior verdade
está justamente no que me faz fraco,
no que me deixa pequeno,
no que me deixa nu diante de mim mesmo.
É essa vulnerabilidade que me faz existir.
Porque dentro desse “Eu” que eu penso ser,
há um “Tu” que não se apaga,
que não se muda, que não se esquece.
Você mora nos cantos que não se varrem,
nos silêncios que mais gritam,
nos espaços vazios que o tempo
teimou em deixar como estão.
Perdi-te, é fato.
Mas a perda não foi o fim,
foi talvez o começo de entender
que amar também é sofrer de ausência.
E é justamente por eu estar tão quebrado,
tão cheio de falta, tão carente de ti,
que me torno autêntico.
Não há mentira na dor que aperta o peito,
não há fingimento na saudade que não passa.
Quando escrevo, tenho medo de não ser eu.
Mas veja:
cada palavra que sai é um pedaço que arranco de dentro,
é um nervo exposto,
é uma ferida que ainda respira.
É essa fragilidade que me liga a ti,
que mantém viva a tua presença em mim.
Se eu fosse inteiro, se eu fosse duro,
se eu não sentisse essa falta que me consome,
talvez nem houvesse poesia.
Mas eu sou esse homem que sente,
que chora por dentro, que pede colo ao tempo,
que carrega o teu nome como uma cicatriz bonita.
E é assim, vulnerável,
com a tua imagem gravada no meu “Eu”,
que eu sou mais verdadeiro do que nunca.
Porque o “Tu” que vive aqui dentro
só existe porque eu me permiti perder,
me permiti doer,
me permiti continuar amando
mesmo sabendo que já não te tenho mais.

A minha autenticidade é essa:
ser tudo o que restou
depois que você partiu.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ