14 janeiro 2025

DE FORA

 

De Fora

Mesmo com vontade de comemorar o teu sucesso

e de te abraçar no final,

como quem torceu em silêncio desde o começo,
eu fico quieto.
parado no canto da plateia,
boca cheia de aplauso contido,
coração meio descompassado.

não é inveja,
nem amargura.
é só que
eu não me sinto parte.

não da festa,
nem da conquista,
nem do caminho até aqui.
parece que criei um enredo onde
minha cena foi cortada na edição final.

e tudo bem.
às vezes a gente ama de fora mesmo.
de longe.
com os olhos.
com uma prece baixa.

porque estar feliz por você
não apaga a ausência que ficou em mim.
mas acalma.

e talvez isso seja o que restou
— e talvez
seja o suficiente por hoje.



13 janeiro 2025

O SILÊNCIO COMO ECO

 

  O Silêncio Como Eco

 

E o silêncio aqui dentro,

não é paz, é um eco.

O som das palavras não ditas,

dos "talvez" que nunca se concretizaram.

É a ressonância do arrependimento,

um sussurro constante do que poderia ter sido.

 

Cada oportunidade perdida,

um golpe que reverbera nas paredes da alma.

Não há música, não há voz,

apenas o vazio que responde a si mesmo,

um eco de "e se" que se repete infinitamente,

preenchendo o espaço onde a esperança morava.

 

 

 

12 janeiro 2025

A AUTO-PRISÃO

 

A Auto-Prisão

 

E a auto-prisão, essa estranha liberdade

de me acorrentar sem grilhões visíveis.

Não há força externa, não há opressor,

apenas a mão invisível que me prende.

É um labirinto interno,

cujas paredes se erguem da minha própria dúvida.

 

Cada recusa, um tijolo;

cada medo, uma argamassa que endurece.

A saída, um ponto no horizonte

que se afasta à medida que me aproximo.

Sou o construtor da minha própria jaula,

o carcereiro que veste a pele do prisioneiro.

11 janeiro 2025

A PORTA TRANCADA POR DENTRO

 

 

 A Porta Trancada Por Dentro

 

E a porta trancada por dentro,

não é parede, é barreira.

Não há chave, não há fresta,

apenas a mão que a segura,

a minha própria,

que não cede, não liberta.

 

É um ato de auto-prisão,

uma escolha sem nome,

que prende o passo, cala a voz.

O lado de fora, um sussurro distante,

o que poderia ser, um sonho.

 

E o silêncio aqui dentro,

não é paz, é eco.

O eco das chances perdidas,

dos caminhos não tomados.

A porta, um espelho turvo,

refletindo a mim mesmo,

o carcereiro, o prisioneiro.

 

 

 

10 janeiro 2025

A AUSÊNCIA E A PRISÃO

 

 

 A Ausência e a Prisão

 

E a luz, um mero boato,

uma lenda distante.

Aqui, só a escuridão se estende,

pesada e sem promessas.

Não é sombra, é ausência,

um vazio que engole cores e esperanças.

 

E nesse escuro, a prisão.

Não há grades, não há muros visíveis,

mas as paredes apertam,

o ar rarefeito sufoca.

É uma celas invisível,

tecida de incertezas e de "nãos".

 

Cada passo é um tropeço no breu,

cada respiração, um grito abafado.

E a saída, um eco que não chega,

uma porta trancada por dentro,

sem chave, sem maçaneta,

apenas o silêncio opressor.

 

 

09 janeiro 2025

O PESO DA INCERTEZA

  

O Peso da Incerteza

 

E a incerteza, essa névoa densa

que cega os olhos e amarra os pés.

Não é leve, não é passageira,

é um fardo invisível,

uma âncora que arrasta.

 

Pesa no ar que respiro,

cada inspiração, um esforço.

Pesa nos ombros, curvos,

como se levassem o mundo

e todas as suas perguntas sem resposta.

 

É o silêncio das possibilidades,

o sussurro do "e se",

que se torna um grito no vazio.

É o tempo que se arrasta,

uma ampulheta de areia movediça,

onde o futuro não se desenha,

apenas se dissolve.

 

 

 

 

 

08 janeiro 2025

O FIO TÊNUE

  

 

O Fio Tênue

 

E no fio tênue, a dança.

Não é leve, não é livre,

é a dança da hesitação.

Cada passo, um cálculo,

um sopro de ar, uma ameaça.

 

Respirar dói,

como se o ar fosse agulhas finas

costurando a incerteza na pele.

E o vazio, ali embaixo,

não é um convite,

é uma verdade que espera.

 

O equilíbrio é precário,

uma miragem.

E a cada balanço, a sensação

de que o fio se desfaz,

pedaço por pedaço,

dissolvendo-se no nada.

 

 


07 janeiro 2025

FINALMENTE O VAZIO

  

Finalmente o Vazio

 

Enredado,

o nó emaranha o peito,

um silêncio que grita sem voz.

Não sei o que está acontecendo,

apenas sinto o chão sumir.

 

Sou um experimento, talvez.

Um fio tênue, quase invisível,

suspenso sobre o abismo,

onde o ar se torna denso

e irrespirável,

sufocante.

 

A incerteza é a única paisagem,

e a saída, um eco distante.

Não há luz no fim do túnel,

porque não há túnel,

não há espaço,

não há esperança,

apenas a densidade do escuro

que me abraça

e me consome.

 

 

 


FÉ NO VERMELHO

 

FÉ no vermelho

E se a fé oscilar no vermelho,
igual tanque de carro velho
na subida?

e se não tiver reserva
nem ombro nem luz de advertência,
só um silêncio miúdo
dizendo: “não sei mais”?

fé também falha.
às vezes escapa
pelos cantos da dúvida,
às vezes cansa
de carregar esperança sozinha.

e se eu não acreditar hoje?
se eu não enxergar saída
nem sentido
nem ciclo?

será que a fé aceita
ser deixada em repouso?
aceita ser ferida,
despida das frases prontas?

porque tem dias em que tudo
parece sem Deus,
sem beleza,
sem começo.

mas no escuro mais escuro,
quando nem meu nome me responde,
se acende uma faísca:
pequena, torta,
mas minha.

talvez fé seja isso —
não certeza,
mas teimosia.
uma coragem de seguir
mesmo com o tanque no fim
.



06 janeiro 2025

VERTIGEM

  

Vertigem

 

O chão se desfaz sob os pés,

não em queda, mas em giro,

um turbilhão de pensamentos

sem centro, sem Norte.

 

Ideias flutuam como poeira cósmica,

partículas de um universo íntimo

que se expande e se contrai,

sem lógica aparente.

 

Há perguntas gravadas no ar rarefeito,

ecoando sem resposta,

sobre o ser, o tempo,

o fio invisível que nos prende ao nada.

 

É a dança incessante da mente,

onde o eu se dissolve e renasce

a cada milésimo de dúvida,

a cada pulso de incerteza.

 

E no olho desse ciclone particular,

silenciosamente,

eu me pergunto:

qual abismo me chama?

Ou sou eu o abismo

que se abre em mim?

 

 

 

 

 


05 janeiro 2025

O PESO SILENCIOSO

  

O Peso Silencioso

 

Há uma sala dentro do peito,

onde o ar é denso,

e cada móvel tem a forma

de um sentimento não dito.

 

As palavras, pesadas demais,

repousam em veludo,

esperando um sopro,

um gesto que as liberte.

 

Mas a quietude, essa teia invisível,

envolve tudo,

protegendo a fragilidade

do que pulsa por baixo.

 

É um mar calmo na superfície,

enquanto nas profundezas

correntes incontroláveis

movem universos inteiros.

 

 



04 janeiro 2025

QUANDO ESCAPA DAS MÃOS

 

 Quando Escapa das Mãos

Acontece que tem horas
que não dá mais pra controlar tudo.
o copo escorrega,
o pranto também.

as palavras não obedecem,
os ponteiros não respeitam,
e o coração —
ah, o coração —
lateja no ritmo que quiser.

tudo que era plano vira poeira,
agenda vira rabisco,
promessa vira vácuo.

a gente tenta manter a pose,
sorriso de mercado,
resposta automática,
mas o corpo entrega:
o suspiro mais fundo,
o olhar que demora
na janela.

há um limite secreto
entre o “tá tudo bem”
e o “não tô conseguindo”.
quando se cruza,
não tem senha,
não tem manha,
só o vazio
que se espalha.

e então,
ou a gente desaba,
ou começa, enfim,
a respirar de verdade.
.


O AGORA ESCORRE

 

 O Agora Escorre

Escrevi sobre o agora.
foi tudo de supetão,
como se o texto me atravessasse
mais do que eu o escrevesse.

assim que a última palavra caiu,
alguém me chamou.
e eu fui.
deixei as palavras ali, soltas,
sem carinho nem backup.
não houve adeus,
só pressa.

quando voltei,
o computador dormia —
e com ele,
meu agora.

não chorei.
não culpei a máquina.
fui eu quem virei as costas.
fui eu quem largou
o instante quente
ainda pulsando.

e agora —
tento refazer o que era vivo.
mas o agora
não aceita reencenação.
o agora de antes
já é memória.
o agora de agora
é outro bicho,
outra respiração.

digito, apago.
uma frase tenta voltar,
mas veio manca.
a ideia que resgato
não tem mais casa.

claro.
era sobre o agora.
e o agora…
já foi.



03 janeiro 2025

CANSAÇO II

 

CANSAÇO II

Textos empilhados

em minha memória.

Aguardando, esperando o momento.

Não tenho em mim,

ainda,

a sensibilidade madura a ponto de me expor.

Isso me deixa cansado.



02 janeiro 2025

O LABIRINTO E O ABRAÇO

  

O Labirinto e o Abraço

 

É uma busca profunda,

um mergulho sem fim

nas águas turvas do próprio ser.

Eu, o homem que tateia,

sinto as paredes do labirinto,

cada curva uma nova questão,

cada eco uma voz que se cala.

 

Não há um mapa pronto,

nem um fio de Ariadne

para me guiar à saída.

São camadas e mais camadas,

de medos que dançavam nas sombras,

de rotas que não chegam a lugar nenhum,

de manhãs que vi nascer

e que ainda me compõem.

 

Mas nessa jornada,

nessa incessante procura

pelo sentido que me habita

e que jamais capturei,

surge a leveza de um talvez.

Talvez uma aceitação.

A complexidade do eu,

não como um fardo,

mas como a própria tela

onde a vida pinta suas cores mais ricas.

 

É o abraço ao paradoxo,

ao inexplicável que sou,

ao mapa incompleto que me define.

E nesse acolher,

nessa rendição à vastidão do que não se sabe,

encontro a mais pura liberdade:

a de ser, simplesmente,

o homem em sua infinita e bela complexidade.

 

 



01 janeiro 2025

ABISMO PRESENTE

 

Abismo Presente

O corpo se lança, abandono total da margem, onde as correntes do tempo já não exercem seu domínio.

A água fria acolhe, um abraço incondicional, e o passado se esvai como bolhas na superfície.

O futuro? Uma miragem distante, dissolvida na intensidade deste instante líquido.

O agora se expande, elástico, infinito, engolindo cada respiração, cada pulsar do sangue.

Não há ontem a lamentar, nem amanhã a temer. Apenas a textura da água na pele, o silêncio denso que ecoa internamente.

Os sentidos se aguçam, cores mais vibrantes sob a superfície, sons abafados de um mundo distante.

Neste mergulho sem amarras, a mente se aquieta, livre do diálogo incessante das lembranças e expectativas.

Existe apenas o ser, flutuando na vastidão do presente, um ponto de consciência pura, onde o tempo cessa e a eternidade se revela na efemeridade de cada segundo.


 


VESTÍGIOS SILENCIOSOS

 Vestígios Silenciosos

 

As palavras, pesadas ou leves,

moldam o ar que respiramos.

Ferem com a mesma agudeza

com que curam, se ditas a tempo.

Cada fonema, um vestígio,

de um pensamento que se fez ponte,

ou um abismo, entre o eu e o mundo.

No emaranhado de sentidos,

a verdade se dobra, se esconde,

um jogo de espelhos e ecos.

 

E a memória, um tecido frágil,

bordada com os fios da linguagem.

O que se diz, o que se cala,

redefine o ontem, refaz o presente.

Cenas embaçadas, vozes distantes,

reanimadas por um termo, um gesto.

Um léxico particular,

gravado nas entranhas do ser,

onde cada palavra é um relicário.

 

O tempo, implacável artesão,

esculpe as frases no vazio.

Apaga algumas, ressalta outras,

dando-lhes novos contornos.

O que foi dito, para sempre flutua,

no espaço entre o antes e o agora.

E o peso das palavras,

revelado na ausência,

no silêncio que se estende,

muito além de qualquer som.

 

 

 

ECOS NO VAZIO

 


Ecos no Vazio

 

Onde a mão não encontra a mão,

persistem as memórias,

bordadas em névoa e saudades.

Um beijo que não foi dado,

um adeus que se calou,

ecoam nos cômodos da alma.

 

E a ausência, vestida de bruma,

dança um balé melancólico,

entre as cortinas fechadas do peito.

Cada canto, um sussurro,

cada sombra, um lamento mudo.

As palavras, presas na garganta,

formam um grito sem som.

 

Nos encontros breves,

vislumbres de eternidade.

Olhos que se buscam,

respirações que se misturam,

num instante roubado ao tempo.

Promessas não ditas,

gravadas na pele.

 

E as despedidas,

pequenas mortes diárias,

partem pedaços da paisagem interna.

O aceno que se perde na distância,

o nó na garganta que aperta,

um futuro desfeito em fragmentos.

Mas o desejo, teimoso e resiliente,

pulsa, sutil, na promessa de um novo amanhecer,

mesmo que o vazio persista.

 

 

 

31 dezembro 2024

ESPERANÇA DOS SÉCULOS

 Esperança dos Séculos

Carregam os séculos nos ombros
como quem carrega um filho adormecido:
com cuidado,
com medo,
com fé.

Passam guerras,
impérios de poeira,
decretos e desastres —
mas algo insiste
no canto de uma criança,
na teimosia das sementes,
na dança dos cometas.

A esperança não é nova,
nem velha:
é o intervalo entre um colapso e um recomeço,
é o silêncio antes do primeiro acorde,
é o gesto de estender a mão
mesmo quando o outro já partiu.

Ela dorme em livros esquecidos,
nas pedras que testemunharam
milênios de promessas quebradas,
e ainda assim
brilha.

Porque os séculos aprendem:
mesmo em ruínas,
a vida cava espaço,
e brota.


 

"Cada escolha de hoje despeja suas águas na vastidão do amanhã."

                                                                    Vicente Siqueira

15 dezembro 2024

TRAMAS RECONECTADAS

  

Tramas Reconectadas

 

Depois da tempestade, o porto seguro no teu abraço.

Não apenas corpos juntos, mas almas que se entrelaçam

No silêncio profundo da noite que virou madrugada.

Cada toque meu em tua pele é um fio desfeito

Que se religa, uma trama que se refaz

Com a paciência da verdade e do querer bem.

 

Teus cabelos macios sob minha mão,

Um refúgio para meus pensamentos dispersos.

O calor da tua respiração em meu pescoço,

O pulso lento e firme que me lembra

Que o ritmo da vida, juntos,

É uma canção suave de paz reencontrada.

Não há mais barreiras entre nós,

A pele, antes muro, virou ponte,

E o espaço entre os corpos, um convite mudo

À comunhão mais pura.

 

Naquele quarto agora banhado pela luz incerta do amanhecer,

O mundo exterior parecia distante, quase irreal.

A intimidade não era apenas o físico,

Mas o olhar cúmplice que entendia sem palavras,

O riso espontâneo que brotava da alma,

A certeza de que, sim, pertencíamos um ao outro,

Nessa dança redescoberta de afeto e carinho.