23 maio 2023

NOJO

 

Nojo

Eu tenho nojo da fome
que grita no estômago das crianças
e é calada
pela indiferença.

nojo da corrupção
que veste terno
e come o pão
de quem não tem nome.

tenho nojo da desumanidade
que transforma gente
em estatística,
da violência cotidiana
que vira trilha sonora
de quem já nem reage.

tenho nojo —
mas não me calo.
o nojo é o grito
antes da ação,
é o enjoo de um mundo
que precisa nascer de novo.

meu nojo
não é repulsa
à dor do outro.
é repulsa
de viver num sistema
que a produz
e a lucra.

há um tipo de nojo
que desperta:
ele queima por dentro,
até virar verbo,
até virar
luta.

22 maio 2023

FRAGMENTOS DE ESPELHO

 

Fragmentos de Espelho

Eu me olho
e não me vejo inteiro
apenas partes —
reflexos partidos
em molduras sem vidro

há um pedaço de mim
no riso que invento
outro
na dor que escondo

o espelho nunca mostra
a alma em voz alta
só fragmentos
como se a verdade
não coubesse de uma vez

sou um quebra-luz
feito de cacos que brilham
mais do que se fossem lisos

e às vezes entendo:
não preciso ser inteiro
pra ser sincero
nem simétrico
pra ser belo

sou feito de estilhaços
mas cada um deles
carrega um céu

19 maio 2023

SÓLIDA SOLIDÃO

 

SÓLIDA SOLIDÃO

meu quarto inerte me deixa só
e o frio (estúpido) se desprende da
vidraça fechada atrás das cortinas
de cetim amarelo-doentio

em meu peito meus braços me dizem
que já não suportam o vazio
que deixas quando não vejo nem toco
teus lábios

quisera poder sugá-los
por todos os ângulos
em todos os lugares:
em minha cama
no cinema
no drive-in
em qualquer parque onde brotam
as vincas
na rua
na dura realidade do dia-a-dia
até sentir que não
morrerei
na (não nessa) solidão


Revisão alternativa (mesma base, mais crua):

meu quarto é uma caixa de ausência
o frio atravessa a cortina
como se o cetim não bastasse

meus braços, cansados,
me imploram pele
em vez do eco

teus lábios:
onde ficam quando o mundo me pesa?
quisera lambê-los de volta à existência
no escuro,
no riso,
no lugar onde brotam vincas e vontades
na rua
na cama
entre a pipoca e o pânico cotidiano

só assim, talvez,
a solidão parasse
de virar rocha dentro de mim.

O VÔO II

 

O VÔO II

cheguei
sem saber se era certo
sem saber se ainda era hora

meu corpo
um corpo ausente de certezas
andava sozinho por esteiras e corredores
como se obedecesse a outra mente
(ou outro coração)

você não estava —
mas eu reconheci seu cheiro
nas árvores baixas da saída
e na moça do balcão
que me disse “bem-vindo”
com um sorriso parecido com o teu

por um instante
achei que te veria correr
com o cabelo amarrado
e uma mochila torta
dizendo “eu sabia que você vinha”

mas não veio

então esperei mais um pouco
como quem espera o amor
na segunda chamada de um vôo cancelado

e fui embora
sem mala
sem pressa
com o eco de tua voz em meu nome
Viny
só você me chama assim
e isso ainda dói.

16 maio 2023

LÍNGUAS DE PEDRA

 

Línguas de Pedra

A terra respira. Não com pulmões de carne, mas com o lento inchaço de montanhas erguidas sobre milênios.

Sua voz não é som, não é palavra gritada no vento. É o peso da rocha, a ruga no flanco da colina, o granito calado na base do tempo.

A língua da pedra. Gravada em estratos, em fósseis que foram vida, em minerais que guardam a memória de fogos primordiais.

É a textura áspera sob a mão, o frio ancestral que emana do coração da montanha. Cada fissura, cada veia quartzo, uma sílaba esquecida, um verso petrificado.

E o silêncio. Ah, o silêncio da terra! Não o vazio, mas a plenitude que não precisa de som. O vasto deserto sob o sol impiedoso. A floresta densa antes do amanhecer. As cavernas escuras e profundas.

É o silêncio que precede a tempestade, o silêncio que guarda segredos de Eras Glaciais, de mares que secaram, de seres que andaram por aqui e se tornaram pó.

A terra fala em línguas de pedra, com a solidez imemorial que desafia nossa brevidade.

Fala em silêncio, com a quietude profunda que nos convida a ouvir além do barulho.

Basta parar. Sentir o chão sob os pés. Ver a montanha ao longe. Estar no vasto. E a terra, então, começa a contar sua história antiga, em sua própria e silenciosa linguagem.

09 maio 2023

CAMPONESA

 

CAMPONESA 

entro em seu delírio
como se buscasse o significado
de seu corpo,
áspero pelas asperezas
que a terra lhe deixa
quando revolve a terra
em busca das tantas
fertilidades.

são tantos os caules
que cultiva,
são folhas,
são tubérculos
e outros frutos
que Gaia nos dá
após alimentá-los
em seus úberes.

entro em seu delírio,
e a memória me remete
aos banhos
no lago,
que nos refresca para o início
do momento que se
faz presente.

e não revelo quem é
nem o que cultiva,
para que tudo dure
até que o passado
se confunda
e se perca nas vontades
do futuro.

15 abril 2023

A FORMA DO INVISÍVEL

 

  A Forma do Invisível

Nem tudo tem contorno.
Às vezes, o poema
é só vento que pensa,
é mar sem costura.

Mas a forma chega
como quem molda o ar,
um gesto que curva
o que se quer tocar.

É o corpo do som,
a linha do espaço,
o peso da pausa
no fim de um abraço.

Criar é inventar contornos
praquilo que escapa,
dar forma ao silêncio
sem que ele se quebre.

Porque o invisível,
quando ouvido com cuidado,
tem um rosto possível.



01 abril 2023

A COR QUE SE ESCONDE

 

A Cor Que Se Esconde

A cor não grita —
ela espera, escondida
no canto do verso,
na dobra do dia.

Às vezes, vem cinza
feito céu sem resposta,
às vezes, explode
num azul que aposta.

É o vermelho
do susto ou do sangue,
o amarelo
que dança na língua,
o verde do tempo
que nunca se cansa.

Criar é manchar o vazio
com o tom que se sente,
pintar com o pulso
aquilo que mente.

Porque há cores que nascem
só quando se escreve.

31 março 2023

LUZ QUE ESCORRE

  

Luz que Escorre

A criação começa
quando a luz escorre —
não pela janela,
mas entre as ideias.

Um clarão súbito,
um raio calmo,
um brilho que invade
sem pedir palma.

É quando o olho
vê o que não há,
mas sabe que existe
no vão do olhar.

Luz que colore
o que ainda é vago,
que acende o traço
num tempo devagar.

Criar é acender
a sombra do mundo
com uma lanterna
dentro do peito.





15 março 2023

A PORTA TRANCADA POR DENTRO

 

 A Porta Trancada Por Dentro

 

E a porta trancada por dentro,

não é parede, é barreira.

Não há chave, não há fresta,

apenas a mão que a segura,

a minha própria,

que não cede, não liberta.

 

É um ato de auto-prisão,

uma escolha sem nome,

que prende o passo, cala a voz.

O lado de fora, um sussurro distante,

o que poderia ser, um sonho.

 

E o silêncio aqui dentro,

não é paz, é eco.

O eco das chances perdidas,

dos caminhos não tomados.

A porta, um espelho turvo,

refletindo a mim mesmo,

o carcereiro, o prisioneiro.

 

 


01 março 2023

PELE DE PALAVRA

  

Pele de Palavra

Escrever é tocar
com dedos invisíveis.
A palavra tem pele —
às vezes morna,
às vezes febril.

Cada verso encostado
carrega um arrepio,
um traço que desliza
como quem sente
sem ter desvio.

É o papel que arrepia,
é a tinta que pulsa,
é o gesto que molda
o que era bruma
e agora pulsa.

Criar é passar a mão
no que ainda não existe
e, com delicadeza,
sentir que resiste.



28 fevereiro 2023

A INTENSIDADE DOS SENTIMENTOS

 A Intensidade dos Sentimentos

 

E essa intensidade, um mar sem fundo,

que não afoga, mas arrasta e comprime.

Não é uma brisa, é um furacão interno,

onde as emoções não se suavizam,

apenas ganham peso, densidade.

 

A tristeza não é tristeza, é um abismo.

A incerteza não é dúvida, é um grito preso.

Cada fibra do ser vibra com a sobrecarga,

como um fio que estica até o limite,

prestes a romper, mas que não se quebra.

 

É a vida sentida em carne viva,

onde cada toque dói, cada pensamento queima.

Não há anestesia para a alma,

apenas a plenitude esmagadora

desses sentimentos que se agigantam,

preenchendo todo o espaço, sem ar para respirar.

 

 

Vida Sentida em Carne Viva

 

E a vida sentida em carne viva,

cada toque, uma pontada.

Não há escudo, não há pele grossa,

apenas a exposição crua da alma.

É como se os nervos estivessem à flor da pele,

captando cada vibração, cada sussurro do mundo.

 

O amor, quando surge, é um incêndio;

a dor, um abismo sem fim.

Não há meios-termos, não há tons pastéis,

apenas a explosão das cores mais intensas,

pintando a existência com traços fortes e violentos.

A sensação é tão real, tão presente,

que a respiração se torna um ato consciente,

uma luta para suportar o que se sente.

 

O Limite de um Fio Esticado

 

E o limite de um fio esticado,

prestes a romper, mas teimosamente intacto.

Não é fragilidade, é uma resistência exaustiva.

Cada puxão, cada tensão, aproxima do ponto final,

mas a corda ainda vibra, ainda suporta.

 

É o limite da alma,

onde a elasticidade já não existe,

e a ruptura parece a única lógica.

Mas o fio, teimoso, mantém-se,

uma metáfora da persistência imposta,

da força que se nega a ceder,

mesmo quando tudo clama por um fim.

 

 

Resistência no Limite

 

E a resistência no limite,

uma batalha silenciosa e inglória.

Não é força que impulsiona,

é a última reserva, o fôlego arranhado

que se nega a ceder, a desabar.

 

Os músculos tremem, a mente vacila,

mas algo insiste, algo persiste.

É a teimosia da sobrevivência,

a recusa em aceitar a derrota,

mesmo quando a vitória é apenas a não-queda.

 

Nesse ponto extremo, a dor se confunde com a inércia,

e o desejo de parar é tão forte quanto a ânsia de continuar.

É a dignidade do fio esticado,

que se recusa a se romper,

ainda que cada fibra clame por alívio.

 

 

Vontade de Não Continuar

 

E a vontade de não continuar,

um cansaço que transcende o corpo.

Não é preguiça, não é desistência covarde,

é a exaustão da alma, o esgotamento da fé

em cada novo passo, em cada amanhecer.

 

Os dias se arrastam, pesados,

e a perspectiva de mais um "virá"

é um fardo insuportável.

É o desejo de que o tempo pare,

que o fio se rompa de vez,

que o silêncio se instale sem eco.

 

É a promessa do vazio, que de repente

parece menos ameaçadora que a plenitude da dor.

A ânsia de sumir, de dissolver-se

em um nada que finalmente traga a paz,

o fim da luta, o descanso sem sonhos.

 

 

15 fevereiro 2023

VOZES QUE DANÇAM

 

Vozes que Dançam

A criação começa no ouvido:
um sussurro,
uma pausa,
um quase ruído.

O silêncio primeiro
é música em brasa,
antes do som nascer
na garganta da casa.

Pingos de vogais,
consoantes que escorregam,
palavras que dançam
antes mesmo que se entregam.

É preciso ouvir
com o corpo inteiro,
como quem escuta um vento
dizendo: "vem primeiro".





13 fevereiro 2023

O SILÊNCIO DO ECO

  

O Silêncio Como Eco

 

E o silêncio aqui dentro,

não é paz, é um eco.

O som das palavras não ditas,

dos "talvez" que nunca se concretizaram.

É a ressonância do arrependimento,

um sussurro constante do que poderia ter sido.

 

Cada oportunidade perdida,

um golpe que reverbera nas paredes da alma.

Não há música, não há voz,

apenas o vazio que responde a si mesmo,

um eco de "e se" que se repete infinitamente,

preenchendo o espaço onde a esperança morava.

 

  


01 fevereiro 2023

A AUTO-PRISÃO

 

A Auto-Prisão

 

E a auto-prisão, essa estranha liberdade

de me acorrentar sem grilhões visíveis.

Não há força externa, não há opressor,

apenas a mão invisível que me prende.

É um labirinto interno,

cujas paredes se erguem da minha própria dúvida.

 

Cada recusa, um tijolo;

cada medo, uma argamassa que endurece.

A saída, um ponto no horizonte

que se afasta à medida que me aproximo.

Sou o construtor da minha própria jaula,

o carcereiro que veste a pele do prisioneiro.

 

 


31 janeiro 2023

O PESO DA INCERTEZA

 

 O Peso da Incerteza

 

E a incerteza, essa névoa densa

que cega os olhos e amarra os pés.

Não é leve, não é passageira,

é um fardo invisível,

uma âncora que arrasta.

 

Pesa no ar que respiro,

cada inspiração, um esforço.

Pesa nos ombros, curvos,

como se levassem o mundo

e todas as suas perguntas sem resposta.

 

É o silêncio das possibilidades,

o sussurro do "e se",

que se torna um grito no vazio.

É o tempo que se arrasta,

uma ampulheta de areia movediça,

onde o futuro não se desenha,

apenas se dissolve.

 

 

 

 

15 janeiro 2023

O FIO TÊNUE

  

O Fio Tênue

 

E no fio tênue, a dança.

Não é leve, não é livre,

é a dança da hesitação.

Cada passo, um cálculo,

um sopro de ar, uma ameaça.

 

Respirar dói,

como se o ar fosse agulhas finas

costurando a incerteza na pele.

E o vazio, ali embaixo,

não é um convite,

é uma verdade que espera.

 

O equilíbrio é precário,

uma miragem.

E a cada balanço, a sensação

de que o fio se desfaz,

pedaço por pedaço,

dissolvendo-se no nada.

 

 

01 janeiro 2023

A DANÇA INCOMPLETA DO VERÃO

 

 

A Dança Incompleta do Verão

 

O ar se move estranho,

um hálito fresco de verão carioca,

e um trovão distante

estremece a madrugada.

 

Da porta do bar, vejo a rua.

Jovens em grupos,

vozes emaranhadas, risos brancos

de juventude e fumaça.

Os olhos brilham, famintos por algo

sem nome, mas que pulsa.

É bom não saber, a busca é o próprio caminho,

e eu, ainda corro atrás.

 

Inevitável, um rosto conhecido.

O aceno, o abraço apertado,

a pergunta que se dilui:

"Por onde andas? Me liga, me manda um sinal."

Que loucura.

Se o agora nos traz juntos,

que o momento nos preencha.

Não haverá a ligação, a mensagem,

se a presença calar a ausência –

se é que existe.

 

Um beijo breve,

um perfume familiar,

o cheiro de um tempo que foi,

e a memória, botão traidor,

manipula o que passou.

 

Olho de volta para o bar.

Meu lugar no balcão, ocupado.

O show prestes a começar,

e eu, sem meu canto,

sem o ritual da fumaça,

perdido

na pausa entre os ecos.

 


 

 

A AUSÊNCIA DA PRISÃO

 

  A Ausência e a Prisão

 

E a luz, um mero boato,

uma lenda distante.

Aqui, só a escuridão se estende,

pesada e sem promessas.

Não é sombra, é ausência,

um vazio que engole cores e esperanças.

 

E nesse escuro, a prisão.

Não há grades, não há muros visíveis,

mas as paredes apertam,

o ar rarefeito sufoca.

É uma celas invisível,

tecida de incertezas e de "nãos".

 

Cada passo é um tropeço no breu,

cada respiração, um grito abafado.

E a saída, um eco que não chega,

uma porta trancada por dentro,

sem chave, sem maçaneta,

apenas o silêncio opressor.

 

 

 

 

FINALMENTE O VAZIO

 Finalmente o Vazio

 

Enredado,

o nó emaranha o peito,

um silêncio que grita sem voz.

Não sei o que está acontecendo,

apenas sinto o chão sumir.

 

Sou um experimento, talvez.

Um fio tênue, quase invisível,

suspenso sobre o abismo,

onde o ar se torna denso

e irrespirável,

sufocante.

 

A incerteza é a única paisagem,

e a saída, um eco distante.

Não há luz no fim do túnel,

porque não há túnel,

não há espaço,

não há esperança,

apenas a densidade do escuro

que me abraça

e me consome.