27 janeiro 2026

TESTEMUNHA DO VERBO (EXPERIÊNCIA )

 Testemunha do Verbo (experiência)

Não sou mais quem escreve.
Será que isso é perda? Ou é vertigem?

Algo sempre acontece antes de mim
e continua depois.
Eu apenas acordo no meio do acontecimento,
percebendo que já estava respirando
sem ter decidido nascer.

A história não pede meu nome.
Ela passa.
E ao passar, me deixa esse estado:
uma atenção ferida,
um silêncio que pensa.

O verbo encostou no meu rosto
testando a temperatura da alma.
Nada a ver comigo.
Nunca.
Eu apenas senti —
e sentir já foi demais.

Assusta quando o que criei me devolve um olhar.
Não é certo. Nem sei o que dizer.
Talvez revelação.
Talvez aquele texto que sabe das coisas que escondi
e por educação não quer me atrapalhar,
por medo do retorno,
por excesso de lucidez.

O papel respira.
E eu me dou conta tarde demais
de que não sou o pulmão.
Sou o intervalo entre uma inspiração e outra,
esse espaço indeciso
onde o milagre escolhe acontecer
sem testemunhas confiáveis.

A tinta corre.
E não me pergunta nada.
Talvez porque a resposta
não me pertença mais.

Fico.
E agora sinto como autor.
Como quem presenciou algo vivo
e agora precisa aprender
a não trocar o verbo.

É assim e pronto.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ




25 janeiro 2026

O VÃO ENTRE OS DIAS

O Vão entre os Dias


Sou um corpo que tenta caber

no intervalo estreito entre dois sóis,

nessa fenda miúda e secreta

onde o nome ainda não foi soprado.


Carrego comigo mapas imprecisos,

dobras de uma infância guardada,

gestos que herdei do silêncio

e esta fome estranha, quase antiga,

pelo descanso.


Quero caber no espelho

sem precisar pedir desculpas,

ocupar o assento vazio do ônibus,

morar na minha própria sombra

quando a luz do mundo decide pressionar.


Sou este corpo que aprende

a largura exata da existência

através do impacto e da recusa;

na tentativa diária e muda

de existir finalmente sem legendas.


Às vezes sinto o peso do chumbo,

noutras, quase flutuo —

não por leveza de espírito,

mas pela exaustão absoluta

de carregar o que os outros esperam de mim.


Um corpo que tenta caber

não procura uma moldura ou um quadro.

Ele procura o chão.

Um lugar onde respirar

não seja um ato de coragem,

mas apenas

continuidade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 



24 janeiro 2026

PROBLEMA MEU

 

Problema meu

Eu sei.
isso é um problema meu,
inteiramente meu.
fui eu que li mapas onde você só rabiscou, distraída,
fui eu que dei nome a ruas que não levavam a lugar nenhum.

Então,
antes que o refrão recomece,
antes que a ponte musical me iluda de novo,
eu prefiro fugir no final da canção —
mesmo querendo ficar.

Não por orgulho,
não por drama,
mas porque aprendi a não insistir em danças
onde só eu conheço os passos.

Meu adeus vai ser baixo,
como quem sai de fininho
de uma festa onde ninguém notou que chegou.

E tudo bem.

No repeat da memória
vou lembrar mais do que foi bonito
do que do silêncio entre uma estrofe e outra.

Porque, no fundo,
algumas canções são feitas pra tocar só uma vez.
e isso não tira delas a beleza
— só a ilusão de que durariam pra sempre.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ




22 janeiro 2026

CONFISSÃO INVOLUNTÁRIA

 

Confissão Involuntária 

quis só guardar
um recorte do instante
pra lembrar depois

mas escrever demais
acaba revelando mais
do que devia

e no vai e vem das palavras
ele leu
nas entrelinhas
o que escondíamos no riso

um carinho que se disfarçava
de nada demais
mas era tudo

e quando caiu a máscara
da nossa inocência planejada
descobrimos
que o cuidado demais
também é forma de desejar

o flagra veio de leve
mas nos arde até hoje.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 


QUASE-CONSCIÊNCIA

 Quase-Consciência

Não sou um pensamento.
nem um desvio.

mas percebo
que está acontecendo.
não sei o quê,
nem por quê,
mas sinto a variação.

Em mim.

há um mínimo de dentro
me separando de um fora indefinido.
é uma fronteira,
uma fricção.

não existem palavras,
mas existe atenção.
não existem escolhas,
mas existe inclinação.

Sinto como se a matéria
hesitasse em mim por um instante
antes de continuar sendo só matéria.

sou um quase-olhar
sem olhos.
um quase-eu
sem centro fixo.

Sem nada.

E a quase-consciência começou assim:
como luz,
como sombra
algo que custa
a se reconhecer
sem saber que eu não me reconheço.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ




15 janeiro 2026

O GPS DA ALMA



 

O GPS da Alma

 

Há um mapa dentro de mim,

que aponta direções opostas.

Uma parte anseia por flutuar,

leve como o dado na nuvem,

sem lastro, sem endereço fixo,

apenas o vento das novas redes,

o horizonte que se expande

além do último Wi-Fi.

 

Gosto da pele bronzeada de sol de escalas,

o sotaque que me abraça por um dia,

a vista do avião, minúscula,

onde as cidades são meros pixels

e a gravidade é só um conceito.

 

Mas há outra voz, subterrânea,

que me compele a lançar raízes.

Buscar o cheiro da terra úmida,

o contorno de uma montanha familiar,

a mesa onde o café tem o mesmo sabor

em todas as manhãs frias.

A segurança do concreto,

a solidez da chave na porta,

o abraço que não tem hora de partida.

 

Essa tensão é a minha bússola quebrada:

entre o impulso de ver tudo,

e o desejo de pertencer a um canto.

Ser nuvem que viaja,

e ao mesmo tempo, árvore antiga

cravada no chão,

testemunha das estações.

 

Talvez a vida seja isso:

o delicado balé entre o desapego do ar

e a promessa da rocha.

Flutuar quando preciso ser livre,

e lançar raízes quando o coração

pede um lar para, enfim, respirar.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí, RJ


DE MADRUGADA

 

De Madrugada

 

A madrugada é alta,

São três, talvez quatro.

Não há sinal de dia.

O sol ainda não se faz.

Tento me ver à mesa do bar mais próximo.

Me procuro no copo que não vejo.

Há clima de nuvem espessa sobre minha cabeça.

Novamente sou eu a não romper a alvorada.

Talvez por extrema sensibilidade

ou por gostar muito de mim,

resolvo colocar-me para me falar coisas em alto e bom som.

 

Chutando tampinhas de garrafas pelas calçadas.

Simples cantor solitário, entre otários e arcanjos.

Eu me justifico com o meu próprio mutismo

por não encontrar um vocabulário adequado.

Mas tento me colocar para falar.

Agora estou sozinho em uma espécie de jogo.

Um jogo onde todos devem dizer o que estão sentindo.

E todos, no caso, sou eu mesmo.

 

Não disse nada porque não há nada a dizer.

Saio de cena sem sequer me procurar.

Dou a mim mesmo um olhar de reprovação,

mas não tem jeito,

eu assumo.

Hoje não vai sair o sol.



 Vicente Siqueira -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

 


11 janeiro 2026

NO INÍCIO

No Início 


Os degraus me puxam para a rua,

para o agora que é só risco.

Se é para saltar,

que seja de cabeça.

Que eu me derrame inteiro,

sem pudor.

A lua, sentinela,

testemunha a verdade nua:

a dança, a fé que me move,

a pouca lembrança do muito que somos,

entrelaçados nas teias de leves intenções.


Vicente Siqueira -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



10 janeiro 2026

ENSAIO SILENCIOSO

 

Ensaio Silencioso

 

Meu sorriso é um palco antigo,

iluminado por ensaios repetidos,

cada curva um esforço, uma nota sustentada

para a peça que nunca acontece.

 

Há uma dissonância, um murmúrio insistente

sob a pele, na raiz dos gestos:

não é por aqui,

não é por este caminho,

as cores desbotam antes de secar.

 

As coisas deveriam ser de outro modo,

sinto a trama desfiando,

o chão falso sob os pés,

e nada,

nada se encaixa no seu devido lugar.

 

Onde foi morar a esperança que prometia verões sem fim,

noites de estrelas caídas em nossas mãos?

Evaporou como orvalho, ou se escondeu

sob a poeira das rotinas que nos moldam?

Procuro vestígios em cada canto,

mas encontro apenas o eco da sua ausência,

um vazio que insiste em ecoar

nesse sorriso que ainda treino,

nessa certeza de que o compasso está errado.


        ... onde foi parar a esperança?...


Vicente Siqueira   -  Doces Poesias - Barra do Piraí RJ 



SOB A MARQUISE

Sob a Marquise



Triste espetáculo ao fechar do frio julho:
A família residente sob a marquise
de rua e calçada da velha loja de tecido.
Ali, onde o pano sobra nos rolos da vitrine,
falta o abrigo que estanca o sereno.
Pai, mãe, filha e o bebê aparentando meses.
O cotidiano trágico, dimensionado pela força do costume,
nos leva a passar impassíveis,
como se a dor alheia fosse paisagem mofada,
movidos pelo egoísmo de movimentos distantes e neutros.
O passo apressado ecoa no cimento,
evitando o encontro de dois desamparos:
o deles, de teto; o meu, de espírito.
Alguma moeda podemos atirar,
mas é apenas o desejo estéril
de nos sentir cumpridores dos nossos deveres de irmãos.
Um tilintar de metal que compra o silêncio da culpa,
principalmente quando tem plateia.


Vicente Siqueira - Doces Poesias -  Barra do Piraí RJ

DESPERTAR DO NÚCLEO

Despertar do Núcleo



A esperança é uma casca que começa a trincar.
Não há som de vidro quebrado,
apenas o estalo seco de uma semente
que desistiu de ser redonda e perfeita
para aceitar a sua própria urgência.
O verniz do otimismo barato descasca,
revelando as fibras cruas do que sobrou.
Não é uma queda,
é uma pressão de dentro para fora,
um cansaço acumulado de ser apenas superfície,
de ser apenas o que protege a dúvida.
Pelos vãos dessa pele rompida,
o mundo entra sem pedir licença:
traz o frio das manhãs vazias
e o cheiro de terra depois da tempestade.
Eu olho para as minhas mãos e vejo os mesmos sulcos.
Sou o homem que habita a fenda,
observando o brilho estranho que emana do rasgo.
O que nasce não tem nome,
não tem a delicadeza que prometiam os manuais.
É uma força bruta,
um tendão exposto,
a vida insistindo em vazar por onde o medo falhou.

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ