15 janeiro 2023

O FIO TÊNUE

  

O Fio Tênue

 

E no fio tênue, a dança.

Não é leve, não é livre,

é a dança da hesitação.

Cada passo, um cálculo,

um sopro de ar, uma ameaça.

 

Respirar dói,

como se o ar fosse agulhas finas

costurando a incerteza na pele.

E o vazio, ali embaixo,

não é um convite,

é uma verdade que espera.

 

O equilíbrio é precário,

uma miragem.

E a cada balanço, a sensação

de que o fio se desfaz,

pedaço por pedaço,

dissolvendo-se no nada.

 

 

01 janeiro 2023

A DANÇA INCOMPLETA DO VERÃO

 

 

A Dança Incompleta do Verão

 

O ar se move estranho,

um hálito fresco de verão carioca,

e um trovão distante

estremece a madrugada.

 

Da porta do bar, vejo a rua.

Jovens em grupos,

vozes emaranhadas, risos brancos

de juventude e fumaça.

Os olhos brilham, famintos por algo

sem nome, mas que pulsa.

É bom não saber, a busca é o próprio caminho,

e eu, ainda corro atrás.

 

Inevitável, um rosto conhecido.

O aceno, o abraço apertado,

a pergunta que se dilui:

"Por onde andas? Me liga, me manda um sinal."

Que loucura.

Se o agora nos traz juntos,

que o momento nos preencha.

Não haverá a ligação, a mensagem,

se a presença calar a ausência –

se é que existe.

 

Um beijo breve,

um perfume familiar,

o cheiro de um tempo que foi,

e a memória, botão traidor,

manipula o que passou.

 

Olho de volta para o bar.

Meu lugar no balcão, ocupado.

O show prestes a começar,

e eu, sem meu canto,

sem o ritual da fumaça,

perdido

na pausa entre os ecos.

 


 

 

A AUSÊNCIA DA PRISÃO

 

  A Ausência e a Prisão

 

E a luz, um mero boato,

uma lenda distante.

Aqui, só a escuridão se estende,

pesada e sem promessas.

Não é sombra, é ausência,

um vazio que engole cores e esperanças.

 

E nesse escuro, a prisão.

Não há grades, não há muros visíveis,

mas as paredes apertam,

o ar rarefeito sufoca.

É uma celas invisível,

tecida de incertezas e de "nãos".

 

Cada passo é um tropeço no breu,

cada respiração, um grito abafado.

E a saída, um eco que não chega,

uma porta trancada por dentro,

sem chave, sem maçaneta,

apenas o silêncio opressor.

 

 

 

 

FINALMENTE O VAZIO

 Finalmente o Vazio

 

Enredado,

o nó emaranha o peito,

um silêncio que grita sem voz.

Não sei o que está acontecendo,

apenas sinto o chão sumir.

 

Sou um experimento, talvez.

Um fio tênue, quase invisível,

suspenso sobre o abismo,

onde o ar se torna denso

e irrespirável,

sufocante.

 

A incerteza é a única paisagem,

e a saída, um eco distante.

Não há luz no fim do túnel,

porque não há túnel,

não há espaço,

não há esperança,

apenas a densidade do escuro

que me abraça

e me consome.



06 dezembro 2022

RESISTÊNCIA NO LIMITE

  

 Resistência no Limite

 

E a resistência no limite,

uma batalha silenciosa e inglória.

Não é força que impulsiona,

é a última reserva, o fôlego arranhado

que se nega a ceder, a desabar.

 

Os músculos tremem, a mente vacila,

mas algo insiste, algo persiste.

É a teimosia da sobrevivência,

a recusa em aceitar a derrota,

mesmo quando a vitória é apenas a não-queda.

 

Nesse ponto extremo, a dor se confunde com a inércia,

e o desejo de parar é tão forte quanto a ânsia de continuar.

É a dignidade do fio esticado,

que se recusa a se romper,

ainda que cada fibra clame por alívio.

 

 

 


30 novembro 2022

A PROMESSA DO VAZIO

  

A Promessa do Vazio

 

E a promessa do vazio, uma melodia suave

que sussurra alívio onde antes só havia caos.

Não é uma ameaça, mas um convite,

a certeza de que, ao fim, tudo se dissolve,

e a pressão cessa, e o ruído se cala.

 

É o vislumbre de um descanso absoluto,

onde as perguntas se apagam sem respostas,

e os problemas se desfazem em nada.

O vazio, então, não é mais um abismo a ser temido,

mas um horizonte sereno,

onde a paz finalmente se instala,

uma calmaria sem fim para a alma exausta.

 

 

 

01 novembro 2022

A ÂNSIA DO VAZIO

 

 A Ânsia do Vazio

 

E a ânsia do vazio, uma sede estranha

por aquilo que não tem forma, não tem som.

Não é medo do nada, é o acolhimento que se busca,

a promessa de um espaço onde a dor não ecoa,

onde a intensidade se dilui em silêncio puro.

 

É o chamado da ausência,

um convite para desaparecer,

para que o fio se desfaça de vez,

e a pressão ceda, e o peso se esvai.

O vazio, então, não é mais ameaça,

mas um refúgio, um ponto de fuga,

onde a existência se apaga

e finalmente se encontra a paz que a vida nega.

 


19 outubro 2022

TRANSBORDO

 

TRANSBORDO

escorri um pouco de mim
na curva do teu colo
não como quem entrega
mas como quem escapa

eram só gotas —
mas continham mapas antigos
de quando meu nome
ainda era sede

nos tocamos
como se o tempo tivesse
ficado preso na garganta

e quando pensei ter ido embora
vi que parte de mim
ficara ali
pulsando em ti

feito nascente esquecida
no meio da tua enchente.

TRANSBORDO

 

TRANSBORDO

escorri um pouco de mim
na curva do teu colo
não como quem entrega
mas como quem escapa

eram só gotas —
mas continham mapas antigos
de quando meu nome
ainda era sede

nos tocamos
como se o tempo tivesse
ficado preso na garganta

e quando pensei ter ido embora
vi que parte de mim
ficara ali
pulsando em ti

feito nascente esquecida
no meio da tua enchente.



15 setembro 2022

ENCONTRO SEM CONTRATO

 Encontro Sem Contrato

 

Não te pedi nada,

Nem tampouco prometi

o que não sabia

e nem sei.

Minha presença foi sempre

um rio

que corria livre ao teu lado,

sem margens definidas pelo desejo.

 

Havia em cada riso,

um eco de nós.

Em cada silêncio,

uma paz

de ser quem se é,

(sem edições).

Houve roteiro para as horas?

Nãããoo!

Apenas o fluir de duas almas

que se encontraram e se reconheceram.

 

Dar-me a ti foi o único retorno a mim,

à alegria simples de compartilhar:

o ar, a vista, o pensamento incerto.

Esse é o dom

que se renova a cada instante,

feito de transparência

e leveza.

 

Somos o que resta

quando

as expectativas se dissolvem,

quando

a verdade faz parte,

é companhia e companheira,

é a única moeda que vale.

 

E nessa doação pura,

encontro o meu mais vasto mar.

18 julho 2022

MELODIA INACABADA EM MIM

 

Melodia Inacabada em Mim

 

Em meu canto, tecia palavras,

fios soltos de um destino que sonhava.

Cada verso, um espelho partido,

refletindo a ausência da tua forma

que em mim não encontrava eco.

 

Cantei silêncios,

e de cada nota vazia

fui esculpindo o que resta:

o contorno de um eu

moldado pela falta do teu ritmo.

 

Busquei a rima,

não nas sílabas que se abraçam,

mas na batida do teu coração

que eu queria sincronizar ao meu.

Em vão.

 

Assim me fiz,

enquanto a poesia me inventava

e ao mesmo tempo

me desnudava

da ilusão de um dueto.

Sou agora a canção sem compasso,

mas inteira na sua própria dissonância.

02 julho 2022

A PAZ ALÉM DO DESCANSO

 

 A Paz Além do Descanso

 

E a paz além do descanso, um estado que transcende

o simples alívio de um peso que se vai.

Não é a quietude que sucede a tempestade,

mas uma ausência de necessidade,

onde o anseio e a busca se dissolvem.

 

É a serenidade que não depende de sono,

nem de pausas, nem do fim de uma jornada.

É o ponto onde a consciência se aquieta,

livre dos ecos do passado, das promessas do futuro.

Uma leveza indescritível,

que não é a ausência de peso, mas a ausência de esforço.

 

Nesse lugar, a existência apenas é,

sem a urgência do tempo, sem a pressão do desejo.

É a dissolução da própria busca,

a descoberta de que a paz não é um destino,

mas o próprio vazio preenchido de si mesmo.

 

 

O Vazio Que Se Auto-Preenche

 

E o vazio que se auto-preenche, um paradoxo

que desfaz a lógica do que é ausência.

Não é um nada que espera ser completo,

mas uma plenitude que surge de si,

uma existência que se basta sem ter.

 

É como a vastidão do céu noturno,

que parece vazio, mas é infinito em estrelas invisíveis,

uma profundidade que se revela em sua própria essência.

Não há necessidade de adição, de preenchimento externo,

pois a essência já está ali, em cada não-coisa.

 

Nesse espaço, a paz é a própria matéria,

o silêncio, a voz mais alta que se pode ouvir.

É a libertação do conceito de falta,

a descoberta de que o vazio não é carência,

mas a forma mais pura de ser, a totalidade em sua vastidão.

 

Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ

 

 

27 junho 2022

O SENTIDO DESCONHECIDO

 O Sentido Desconhecido

 

Dentro de mim, no profundo do "eu",

um sentido me habita e eu não o conheço.

É como uma melodia sem nome,

um tom que ressoa, mas não se revela.

Eu, o homem que busca,

sinto a presença,

a pulsação de algo maior,

mas a chave para decifrar

ainda me escapa.

 

É um eco de verdades antigas,

uma intuição que guia

sem mostrar o mapa.

Há uma sabedoria silenciosa,

plantada em algum jardim secreto

da minha alma,

que floresce sem que eu veja

suas cores ou sinta seu perfume.

 

Tento alcançá-lo,

com as mãos da mente,

com os olhos da alma,

mas ele se esconde

na fresta entre o consciente e o sonho.

É a bússola que aponta para o invisível,

o farol que ilumina o que não se compreende.

 

E nessa dança entre o que sou

e o que ainda não sei,

persistência é a única resposta.

Porque mesmo desconhecido,

esse sentido me habita,

e em sua presença misteriosa,

encontro a promessa

de uma descoberta que ainda virá.

 

 

25 junho 2022

SEM PAR

 SEM PAR

 

agora é em casa

no chão

no quarto

com ana carolina

com chico buarque.

irritado sem razão

consciente

das possibilidades

repleto

das vontades.

sinto-me gente

como sempre

como pele a saber onde me dói.

são olhos pesados

passando páginas de álbuns

amarelecidos.

aqueles que deixei guardados

crescendo a amizade e o carinho

por trazer as suas fotos (dela)

enquanto aumento o som

e ensaio

solitário

alguns passos de

uma dança

que atormenta a lembrança.

21 junho 2022

SEMENTE AFOGADA

 Semente Afogada

 

Há um eco no peito,

um grito sem garganta,

abafado antes do som,

engolido pela própria sede.

 

Ele se enrosca nas costelas,

pesa na respiração,

um lamento mudo

por tudo o que queria ser voz.

 

E ao lado, no mesmo solo árido,

jazem as sementes:

desejos sem sol, sem orvalho,

que jamais encontram a luz.

 

Permanecem submersos,

promessas de flor que não vingam,

destinados ao esquecimento

na escuridão de um "se fosse".

 

 

 

17 junho 2022

CORRENDO EM CÍRCULOS

 Correndo em Círculos

 

O caminho se repete,

o mesmo passo, a mesma pedra,

embora o cenário mude

no labirinto da cabeça.

 

As ideias voltam,

ecos de ecos,

perguntas antigas

sempre à tona,

uma fita rebobinando

o que nunca teve fim.

 

É o tic-tac da dúvida

que não se cala,

o compasso do ser

preso em sua própria jaula

de vidro transparente,

onde a saída é sempre a entrada.

 

Canso de girar em torno do mesmo,

de buscar o nó

que desata a alma,

mas encontro apenas o começo

de um novo e idêntico amanhecer.

 

E neste eterno retorno,

a única certeza

é o movimento circular,

a infinita dança

que me leva de volta

ao ponto exato

onde nunca estive.

 

 

01 junho 2022

CADERNO DA MISERICÓRDIA II

 




Caderno da Misericórdia II

Epígrafe
"Senhor, tende piedade, e fazei brilhar a vossa luz em nossas sombras."

Sumário

Parte I — Kyrie Eleison
Parte II — Christe
Parte III — Nocturnus
Parte IV — Glória do Perdão
Parte V — Lumina
Parte VI — Misericórdia
Parte VII — Cântico dos Perdoados
Parte VIII — O Refúgio
Parte IX — Horizonte de Esperança
Parte X — Chama Viva
Parte XI — Abraço de Fogo
Parte XII — Confiança Renovada
Parte XIII — Presença Divina
Parte XIV — Rio de Misericórdia
Parte XV — Esperança Viva
Parte XVI — Chama de Fé
Parte XVII — Caminho da Paz
Parte XVIII — Abraço Consolador
Parte XIX — Refúgio da Alma
Parte XX — Reino da Misericórdia
Parte XXI — Cântico da Esperança


Parte I — Kyrie Eleison

Senhor, tende piedade,
Mesmo quando o coração falha,
Tua misericórdia é abrigo,
Sopro que acalma a alma cansada.


Parte II — Christe

Ó Cristo, luz em meio à dor,
Confiança que nunca esmorece,
Mesmo nas noites mais escuras,
Tua graça renova e aquece.


Parte III — Nocturnus

Nas sombras, teu rosto busco,
Silêncio que sussurra esperança,
Mesmo em pranto e solidão,
Teu amor é presença constante.


Parte IV — Glória do Perdão

Na entrega, encontro alívio,
No perdão, renasce a vida,
Tua glória, Deus misericordioso,
Transcende toda a ferida.


Parte V — Lumina

Luz que rompe a escuridão,
Clareia o caminho sofrido,
Em cada passo, tua mão,
Guia o espírito rendido.


Parte VI — Misericórdia

Fonte viva que não seca,
Rio que lava o pecado,
Teu amor, eterna promessa,
Abraça o ser fragilizado.


Parte VII — Cântico dos Perdoados

Cantam os corações libertos,
Em notas de pura gratidão,
Pois quem é tocado por tua paz,
Floresce em plena renovação.


Parte VIII — O Refúgio

Abrigo seguro na tormenta,
Fortaleza onde posso descansar,
Em ti, encontro calmaria,
Paz que ninguém pode tirar.


Parte IX — Horizonte de Esperança

Além da dor, há um amanhecer,
Cores que pintam a promessa,
Tua misericórdia me sustenta,
Firmando minha leveza.


Parte X — Chama Viva

Fogo que arde sem consumir,
Luz que aquece o coração,
Em teu abraço, chama viva,
Renovo e redenção.


Parte XI — Abraço de Fogo

Teu amor que incendeia a alma,
Purifica o que há de velho,
No abraço que tudo transforma,
Descanso e zelo.


Parte XII — Confiança Renovada

Mesmo quando o céu desaba,
Firmo os pés na tua palavra,
Confiança que se renova,
No abraço que nunca se acaba.


Parte XIII — Presença Divina

Tua luz brilha no silêncio,
Companhia que não se ausenta,
No íntimo do meu ser,
Tua paz é a maior semente.


Parte XIV — Rio de Misericórdia

Águas puras que descem suaves,
Lavando as marcas da dor,
Neste rio encontro vida,
Fonte eterna de amor.


Parte XV — Esperança Viva

No horizonte que desponta,
Surgem cores de novo dia,
Tua promessa me sustenta,
Vive em mim a alegria.


Parte XVI — Chama de Fé

Fogo que aquece e ilumina,
Sem jamais se apagar,
A fé que em meu peito habita,
Me ensina a caminhar.


Parte XVII — Caminho da Paz

Passo a passo, em tua luz,
Vou trilhando sem temer,
No caminho que conduz,
O descanso a florescer.


Parte XVIII — Abraço Consolador

Quando o pranto quer vencer,
Teu abraço me envolve, enfim,
Sopro suave que me traz,
Calma, vida e jardim.


Parte XIX — Refúgio da Alma

Em ti encontro morada,
Lugar seguro e sagrado,
És porto e calmaria,
Meu descanso abençoado.


Parte XX — Reino da Misericórdia

Em teu reino sem fim,
Reina amor e compaixão,
Sou filho e herdeiro,
Da eterna redenção.


Parte XXI — Cântico da Esperança

Canto que não se cala,
Mesmo na dor e na prova,
Esperança que avança,
Na alma que se renova.





 



23 maio 2022

ENTRE SILÊNCIO E VERBO

 

Entre Silêncio e Verbo

Quase desconfortável
eu preciso escolher
entre silêncio e verbo.

o silêncio —
esse véu pesado
que me protege e me prende,
me deixa inteiro
e invisível.

o verbo —
esse risco.
ao ser dito,
não volta.
ao ser gritado,
marca.
ao ser sussurrado,
se arrisca a ser mal interpretado.

há dias em que sou o silêncio,
por medo.
outros, o verbo,
por urgência.

mas sempre
há esse instante entre os dois,
um limiar
onde sou só
pele e escolha.

e ali,
quase desconfortável,
respiro fundo
e salto:

palavra.

ECOS DO PASSADO

 

Ecos do Passado

ouvem-se passos distantes
no corredor do tempo
vozes que ainda sussurram
entre paredes esquecidas

o passado é um eco
que nunca se cala
uma sombra que dança
nas luzes do presente

às vezes dói ouvir
às vezes acalma
mas sempre lembra
quem somos e de onde viemos

carrego esses ecos
como um livro aberto
onde cada página
fala de luta e de amor

e mesmo que o tempo
tente apagar a voz,
o passado ressoa
na alma que escuta

ECOS DO PASSADO

 

Ecos do Passado

ouvem-se passos distantes
no corredor do tempo
vozes que ainda sussurram
entre paredes esquecidas

o passado é um eco
que nunca se cala
uma sombra que dança
nas luzes do presente

às vezes dói ouvir
às vezes acalma
mas sempre lembra
quem somos e de onde viemos

carrego esses ecos
como um livro aberto
onde cada página
fala de luta e de amor

e mesmo que o tempo
tente apagar a voz,
o passado ressoa
na alma que escuta