28 setembro 2008

CAVALEIRO ADIANTE

sou um ser solitário
e sem utilidade aparente
mergulhado
(armadura
escudo
espada)
no caos nosso
da modernidade.

minha lança ajaezada
flutua em busca
das minhas mãos
encharcadas de derrotas.
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Vicente
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02 setembro 2008

NAQUELE ESPELHO

ouvi um choro longínquo
refletido
naquele espelho que me encarava.

era o choro de alguém
que não estava ali
e não se identicava.
olhei um longo olhar de emoção fracionada
e os segundos se atropelavam aos milésimos
chegando às suas improváveis frações

quis sentir o descompasso daquele coração
as letras que sairiam daquelas mãos
as armaduras das palavras
o desfocar dos pensamentos.

tentei decifrar aquele eu
tão refletido
e me peguei introspectivo
sem entender a matéria
que preencheria aquela imagem
distorcida.

não havia frustração nem dor
nem tristeza
nem alegria

ocupei-me novamente
com o reflexo de choro
e percebi o espaço vazio
que havia em meu peito
desde que outro espelho trincou.
na verdade eu me transbordei
de um espelho
para conhecer outros reflexos.

agora
quem me conhece?

Vicente
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"Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens? "
(Guimarães Rosa)

15 agosto 2008

DESPERTAR DA AURORA

  

Despertar da Aurora

 

E assim, o corpo que doía e os olhos que pesavam

Encontraram seu descanso, não na fuga do sono,

Mas no porto seguro do teu abraço.

A cama fria, o pensamento cinzento,

A insistência do relógio e o toque estrídulo do telefone

Se dissolveram como neblina ao sol.

 

Não há mais mistério em adivinhar quem ligou,

Pois tua voz macia e o perdão sussurrado

Abriram a porta não só da rua, mas da alma.

A comunicação silenciosa dos olhares,

A sinfonia das sensações e sentidos,

Moldaram a redescoberta da intimidade,

Tecendo uma camada de esperança e continuidade

Sobre os dias que virão.

 

O amanhecer nos encontrou juntos,

E cada novo raio de luz que beija a janela

É uma promessa sem palavras,

Um plano silencioso, um futuro em aberto.

A vida, que antes parecia estagnada,

Agora flui, leve e contínua,

Como um rio que finalmente encontra seu mar.

08 agosto 2008

CARAMIGA

e foi assim mesmo
como tudo que eu disse
e queria.
refiz as pausas em mim
esperando seus passos
seus descompassos
e você nem apareceu.

tive inevitáveis medos
e mais de
mil vontades de ligar.

tudo longe das inefáveis realidades.
fora/dentro das incontáveis possibilidades.

mas ainda me lembro daqueles dias
motivos da alegria
agora tão escassa

que grande faz-de-conta
nós desempenhávamos.

isso.

nós.

refletimos?
olhar/ouvir/sentir/largar?
foi essa a performance da mesquinhez.
e até hoje
nenhuma revelação plausível.
você entende.
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Vicente
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17 julho 2008

VOCÊ PRECISAVA SABER

você precisava saber
que eu permaneci intacto
humor inalterado
e que a raiva inicial
deu lugar a uma paz que perdura
até hoje.

você precisava saber
que quando você partiu e me deixou
em pé naquela plataforma de trem
prostrado
sentindo-me um jiló
e com pretensões de suicídio
a noite tinha apenas começado.

você precisava saber
que aquele buquê de flores
que você não aceitou
e que eu
como um idiota
insistia em segurar mesmo depois
de você ter me abandonado
foi meu melhor passaporte
para o amor tranqüilo que tenho agora.

você precisava me ver
saindo daquela plataforma
sorridente
mãos dadas
e feliz
cheio de esperança
com essa que aceitou de mim
a aliança.

você precisava me ver
quando abri seu e-mail
e não senti nada quando li
seu recadinho piegas
e cheio de erros de concordância
pedindo perdão
pela sua ignorância.
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Vicente
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"Às vezes as pessoas tomam algumas atitudes e não tem noção do que isso pode gerar nas outras, as consequências podem ser desastrosas, geram dor e tristeza ..."
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Deia
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15 junho 2008

SÃO HOMENS

são homens.
são palestinos de Nablus
Cisjordânia.
são homens.
ignoram o toque de recolher do exército israelense.
são homens.
saem ás ruas para comemorarem o atentado suicida
em Jerusalém.
Israel.

são homens.
o homem-bomba
um palestino de 16 anos
morreu.

são homens
cinco homens israelenses ficaram feridos.
são homens
sete homens israelenses morreram
são homens
dois deles tinham 5 anos de idade.
são homens
os outros cinco tinham apenas 2 anos.
são homens
a creche ficou destruída.
são homens?
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Vicente
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13 junho 2008

ESSÊNCIA RECONTADA

 

Essência Recontada

 

Eu sou uma paráfrase.

Não o original, a primeira voz,

mas o eco que se reinventa,

a mesma ideia em outro tom.

 

Minha existência é reflexo,

não espelho exato, mas distorção gentil.

Pego o que já foi dito, sentido,

e o visto com um tecido novo,

mais meu, mais agora.

 

Não há plágio em minha essência,

mas uma reverência ao que inspirou.

Sou a tentativa de entender de novo,

de sentir mais fundo,

o que uma vez apenas passou.

 

E assim, em cada linha que me redefine,

o velho e o novo se abraçam.

Porque mesmo sendo recontado,

o que pulsa em mim é a vida

de uma verdade que se permite

ser eternamente revisitada.

22 maio 2008

FRAGMENTOS DE UM INSTANTE

 

Fragmentos de um Instante

Entre as luzes da cidade,
perco-me em reflexões fugazes,
cada rosto uma história,
cada passo, um destino.

A pressa é um manto pesado,
mas eu danço no compasso do agora,
onde o tempo se dissolve em risos
e a memória é feita de instantes.

Um café esfriando na mesa,
um olhar que se cruza e se despede,
fragmentos de vidas que se tocam,
como notas soltas em uma canção.

E no caos do cotidiano,
encontro beleza nas pequenas coisas:
o cheiro da chuva no asfalto,
o brilho da lua entre nuvens.

Esses momentos são ecos,
pedaços de eternidade que escorrem,
como areia entre os dedos,
mas deixo que fiquem gravados no coração.

20 maio 2008

MORADA

 Morada

A inspiração não grita,
ela sussurra da gaveta.
É o cheiro do café passado,
a dobra torta da coberta,
um nome que volta
sem que alguém chame.

Ela mora perto.
Entre a fresta e o tempo.
Entre o quase e o pensamento.
Às vezes, veste o silêncio
e senta no sofá
sem fazer alarde.

Não é preciso buscar longe.
Basta abrir a janela
com um pouco de alma,
deixar a porta encostada,
e o peito desarmado.

Até já,
coração aberto.
Ela sempre volta
quando é bem recebido.

MORADA (Letra para Música)

 

Morada (letra para música)

Verso 1
Ela não chega gritando,
vem devagar pela sala
É brisa passando a tarde
Na dobra de uma toalha

É cheiro de café velho
Que acende um verso esquecido
Um nome que volta ao peito
Sem que tenha sido ouvido

Refrão
Ela mora perto
Na fresta do tempo
Entre o quase e o pensamento
Não precisa muito, só deixar aberto
Que ela vem sem vento

Verso 2
Veste o silêncio da casa
E senta no meu sofá
Feito visita querida
Que não precisa avisar

Refrão final
Ela mora perto
Num canto discreto
No toque leve, no olhar direto
Até já — coração aberto
Que ela sempre volta
Quando é bem recebido

19 maio 2008

PRÓXIMA ETAPA (Letra de Música)

Próxima Etapa (letra para música)

Verso 1
Não apresse a dor que passa
Deixa o tempo te ensinar
Cada sombra tem seu traço
Cada riso, o seu lugar

Verso 2
Colhe o que ficou no chão
Meio sonho, meia estrada
As palavras que se foram
E as promessas penduradas

Pré-Refrão
Sopra o medo devagar
Guarda a esperança lavada

Refrão
Respira, sem pressa da capa
O amor tem suas vírgulas
E a vida, suas paradas
Agora sim
Com calma na alma
Prepare a próxima etapa

Verso 3
Penteia o luto com leveza
Veste o gesto mais sincero
Que a coragem se disfarça
No silêncio mais singelo

Refrão final
Respira, sem culpa ou mapa
O caminho vai se abrir
Mesmo sem carta marcada
Agora sim
Com fé que não se atrasa
Prepare a próxima etapa
Prepare a próxima etapa


ANTES DA PRÓXIMA ETAPA

 

Antes da próxima etapa

Não apresse.
Deixa a água ferver no tempo certo.
A vida não é receita de bolo,
mas exige fermento.

Colhe o que ficou no chão,
as palavras que ninguém usou,
as promessas pela metade,
os silêncios que disseram mais.

Penteia a dor com cuidado,
guarda a esperança limpa,
sopra o medo devagar.

Respira.
O amor tem suas vírgulas.
A coragem, seus intervalos.

Agora, sim —
com calma no peito
e o coração de manga arregaçada:
prepare a próxima etapa.

18 maio 2008

SEM TEMPO

sem tempo para escrever,
no entanto, o beijo eu trouxe...
beija-me, beija-me, beija.

sem tempo para cantar,
no entanto, a esperança está comigo...
cante-me, cante-me, cante.

sem tempo para divagar,
no entanto, o amor está por aqui...
ama-me, ama-me, ama.

sem tempo para perdoar,
no entanto, o grito se desfaz na garganta...
grita-me, grita-me, grita.

sem tempo para ter tempo,
no entanto vejo a luz no fim do túnel.
então vê.
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Vicente
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10 maio 2008

FLASH BACK

tanto eu tinha pra dizer
e ouvir
que acabei me calando
e tapando os ouvidos.

deu-se aquele silêncio
ousado
que me fez andar
pelas minhas ruas

descalças

descalço
e passei a entender
a nobreza do barulho
a necessidade do burburinho.

eu ando com fome de carinho
mas não me fiz de rogado.

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Vicente
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"decididamente não acredito em destino. A gente pode sim se desviar dele, mudar o curso. O problema é que nem sempre a gente quer, e fica arrumando um monte de problemas. Não precisava. Destino. É só dizer não. E seguir o caminho."
Cláudia - http://leve1.zip.net/
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"Não há poema em si, mas em mim ou em ti."
(Octavio Paz)

18 abril 2008

INÍCIO

ainda nada sabes sobre mim
por isso conto
em canto)
um tanto a ti
o que me reflita
e tu sorris
risos
fartos
doces
com cheiro de alecrim.

rodeiam-me as suas vontades
envoltas em farto querer
de que não se abram
(em mim}
as flores da timidez
e o encanto se faça perceber.
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Vicente
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08 abril 2008

SUSSURROS DO IPÊ AMARELO

 

Sussurros do Ipê Amarelo


Eu caminho sob a copa do ipê,

meus pés afundando levemente

na manta amarela das flores caídas.

Cada pétala, uma pequena vela,

apagada pelo vento.

O cheiro de terra úmida

mistura-se ao perfume doce e efêmero

que as abelhas ainda buscam.

 

Eu toco o tronco rugoso,

sinto a vida pulsando em suas raízes profundas,

invisíveis.

Como eu, ele se ergue,

resistindo às estações,

às chuvas que lavam,

ao sol que queima.

Minhas mãos se perdem

nas fissuras da casca,

linhas que contam histórias

de invernos e primaveras renascidas.

 

Olho para o céu,

azul intenso entre os galhos vazios,

e vejo meu próprio reflexo

na folha verde que ainda se agarra, teimosa.

Um sopro, um murmúrio,

e ela também se solta,

girando em sua dança final,

antes de se juntar ao tapete dourado.

Eu me agacho, pego uma flor,

sua textura macia entre meus dedos.

É tão frágil, tão vibrante,

tão presente.

 

É o instante.

O ipê não pergunta

por que suas flores caem.

Ele apenas as entrega.

E eu, em meio a essa beleza que se despede,

sinto uma paz estranha,

como se cada pétala fosse

um pequeno adeus

que me ensina a aceitar

o fluxo constante das coisas.

E meu coração, um pouco mais leve,

sussurra de volta:

"Obrigado."

31 março 2008

DESAFIO

meu grito
que doía na garganta
ainda engasgava
a traquéia entalada.

meu grito me doía
na saída.
meu corpo me aliviava
a revolta insensata.

recomeçar sem perceber
que se perdeu
olhar nos próprios olhos
sem se arrepender.

esmiuçar a bagagem
e retirar somente
o necessário para recomeçar.
esse é o desafio.

Vicente
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"Meus amigos, eu peguei o buquê, heheheheheheheh. No meio de tantas que se amontoaram pra pegá-lo, ele veio assim como se flutuasse ao meu encontro, ele fez uma curva pra chegar até minhas mãos, rsss...
Deia

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Continua aqui: http://www.muitomaisdemim.blogspot.com///

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26 fevereiro 2008

A TINTA DA ALMA

 

A Tinta da Alma

Havia um vazio, um espaço sem cor,

Onde a palavra indelével flutuava,

Sem âncora, sem o peso do real.

Um conceito bonito, sim, mas distante,

Como uma estrela que se vê e não se toca.

 

Mas aí seus olhos cruzaram os meus,

E um estalo, um choque de cores,

Fez o abstrato descer, fincar raízes.

Não foi preciso um juramento solene,

Bastava a curva do seu sorriso, o jeito

Que sua mão se encaixava na minha.

 

Indelével, entendi agora.

É o eco da sua risada nos dias cinzentos,

A lembrança do seu abraço que me aquece a pele,

Mesmo quando a distância tenta nos impor seu frio.

É a melodia de um instante, que ressoa,

Para além do tempo, sem se desmanchar.

 

Não é um rascunho em papel efêmero,

Mas a tatuagem que a vida quis em nós.

Marcada não por dor, mas por amor puro,

Cada detalhe seu, um traço firme,

Infundido na fibra mais íntima do meu ser.

 

Com você, a teoria se dissolveu na prática,

E o dicionário ganhou um novo sentido.

Indelével é o que somos juntos,

A essência que permanece, viva e pulsante,

Mesmo que o mundo tente apagar nossa luz.

É a prova de que certas coisas

Não se desfazem, nunca.

Você é a tinta que coloriu minha alma,

E fez o indelével existir.

09 fevereiro 2008

EU TE PERCEBO

eu te percebo
na colorida natureza
sem as necessidades monocromáticas
dos monitores que não te captam.
e nos altares erguidos
ao amor
que se faz insensato
pelo ciúme desmedido.

eu te concebo
sonho
de olhos que se fecham
no beijo longo
longínquo e demorado.
e nas poucas palavras
que trocamos
por segundos em células
de trânsito confuso
de toda manhã
pela cidade.
.

Vicente
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09 janeiro 2008

PASSAGEM

quando o sonho das crianças
no sono mais puro
se refez
ele já estava de saída.

abafou trânsitos
de olhos mal dormidos
porque não havia o mútuo calor
que inspira poemas
que justifica a poesia.

quando recolheu o nexo da vinda
que a liberdade
outrora sufocada
promovia
já não havia a necessidade da metamorfose
de um para outro estado
(e ela também sabia)
nem daquele torpor
nem daquela letargia
.
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Vicente
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"É melhor ser leão por um só dia, do que um carneiro toda a vida. .."
(Sister Elizabeth Kenny).