Se tiver, eu prefiro
Prefiro a música baixa no rádio enquanto lavo a louça,
e de repente, uma canção antiga
que me leva para outro tempo, um sorriso leve.
Se tiver, eu prefiro.
Vicente Siqueira
"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
Prefiro a música baixa no rádio enquanto lavo a louça,
e de repente, uma canção antiga
que me leva para outro tempo, um sorriso leve.
Se tiver, eu prefiro.
Vicente Siqueira
nenhum recado
nada de e-mail
ou carta
ou bilhete.
nada que preencha espaços
com letras
ou palavras
ou sinais de fumaça
ou de tambores.
ou repiques agudos
de tarol
ou caixa-de-guerra
nada mesmo
que faça lembrar
as tantas promessas
que surpreendiam
pelas ousadias.
que viesse ao menos
um mísero pombo-correio
com uma pequena mensagem
ainda que passageira
ainda que ilusória
ainda que transitória
uma única palavra
que externasse
a vontade de mostrar
a mim
que eu poderia ter esperança
porque todos aqueles momentos
passados
esquecidos
amarelecidos
poderiam
ser revividos.
Vicente Siqueira
O Gosto do Desfeito
O sabor do que se desfez.
Não é amargo, nem doce.
É a memória nas papilas,
um eco químico na língua da alma.
O resíduo do abraço que se soltou,
do riso que escorreu como areia fina.
Uma impressão, um resto,
no fundo da boca do tempo.
Não um gosto que se nomeia fácil,
mas a textura do vazio que sobrou.
Do que foi denso, cheio, presente,
e agora é apenas um rastro,
uma diluição no paladar do que não é mais.
É o café que esfriou,
o cheiro da chuva que passou.
A ausência tangível,
um paladar da perda
que não pede lágrimas,
apenas o reconhecimento
de que algo se foi.
E o gosto, ah, o gosto,
permanece.
Um sabor sutil e persistente,
do que se desfez em nós.
Por Onde Fores
Anda, ainda que a estrada
se esconda entre névoas e dor.
Não temas a sombra ou a dúvida:
contigo caminha o Senhor.
O mundo é vasto e incerto,
mas teu passo é firmado em luz.
Sê forte, sê corajoso —
quem te guia é quem te conduz.
Há mãos que não se veem,
mas sustentam teu caminhar.
Há voz que sussurra firme:
“Não pares, eu vou te guardar.”
Então vai, alma valente,
com esperança no olhar.
Pois por onde fores, sempre,
Deus contigo há de estar.
O Elo da Travessia
Faça-se em mim o elo, a ponte viva
Que une o que foi ao que ainda virá.
Não a ruptura, mas a trama que se tece,
Onde o antigo e o novo se encontram e se abraçam.
Que em minhas mãos se preserve a sabedoria dos séculos,
O pólen das memórias, a força dos que me antecederam.
E que em meu olhar desponte a aurora do porvir,
A ânsia da descoberta, o voo para o inédito.
Sou o tempo presente, o ponto de encontro,
Onde a história se curva e o futuro se inicia.
Que em cada batida do meu peito,
O passado encontre eco e o amanhã, sua melodia.
Faça-se em mim a fusão, a alquimia do ser, A tradição que inova, a raiz que se projeta. Que o velho me dê substância e o novo, direção, Para que eu seja a travessia, o constante renascer.
O Outro: Espelho Insuportável
Ela estava ali, sentada à minha frente, na mesa oposta, ou talvez na mesma mesa, separada por um espaço que era um abismo. Uma mulher. Com a inevitabilidade de quem simplesmente existe. Não havia nada de extraordinário nela, nada que saltasse aos olhos para prender o olhar mais do que a passagem fugaz de um transeunte. Mas o que observa em mim, aquele que se assombra com a vida, fixou-se nela com uma intensidade quase dolorosa.
Não era a beleza, ou a feiura. Era a existência dela. O simples fato de que ali estava outro ser, uma consciência. E essa consciência, eu sabia, continha universos inteiros, labirintos tão complexos quanto os meus, talvez mais. Ela respirava o mesmo ar rarefeito, sentia a mesma gravidade, mas em seu rosto, nos movimentos sutis de seus olhos que desviavam o olhar, havia um segredo. Um segredo que não era para mim.
A epifania não veio como um raio, mas como um sussurro frio. Aquele outro era um espelho. Não um espelho que refletia a minha imagem, mas um que me mostrava a impossibilidade de eu ser ela, e a impossibilidade de ela ser eu. A minha solidão não era a ausência de alguém, mas a presença irrefutável do outro em sua totalidade inatingível.
Ela moveu a mão para a xícara, e em seu gesto banal, vi a vastidão da sua própria vida, as dores que não conheço, as alegrias que nunca foram minhas, os pensamentos que jamais me pertencerão. E nesse reconhecimento da sua irredutível alteridade, senti um assombro. Não era medo dela, mas um pavor da fronteira, da impossibilidade de atravessar e fundir-me nela.
O "eu" encontrava-se com o "outro" e, nesse encontro, não havia união, mas a reafirmação de um abismo insuperável. A mulher à minha frente era a prova viva de que minha consciência, por mais que se expandisse, jamais poderia conter a dela. E essa limitação, antes um murmúrio, tornou-se um grito silencioso. O outro era a minha própria fronteira. E isso era, ao mesmo tempo, um mistério terrível e a mais pura verdade.´
Abismo Insaciável
A mulher à minha frente, ou o homem, ou a criança – pouco importava o contorno. O que importava era a verdade nua de que ali, naquele ser que respirava e se movia, existia um continente de alma que eu jamais pisaria. E essa era a reafirmação de um abismo insuperável. Não era um desfiladeiro para ser transposto com pontes ou cordas; era a própria essência da diferença.
O que observa em mim, o que busca o cerne de todas as coisas, via ali a impossibilidade de a minha consciência se fundir na dela, de um eu se diluir em outro. Era um pavor que não vinha da ameaça, mas da constatação gelada da autonomia do outro. Por mais que eu tentasse, por mais que as palavras flutuassem entre nós como bolhas de sabão, jamais poderíamos ser um só. Nunca a minha dor seria exatamente a dela, nunca a minha alegria se encaixaria perfeitamente na sua.
Esse abismo não era um vazio a ser preenchido, mas uma plenitude de não-pertencimento. Ele existia não por falta de amor ou de compreensão, mas pela própria natureza da existência individual. A mulher movia os lábios, e sons saíam, sílabas que eu compreendia, mas por trás delas, um universo de significados, de intenções, de histórias vividas que eram dela e somente dela. E o que observava sentia o peso dessa verdade: a mais profunda solidão não é a ausência de companhia, mas a presença do outro como um limite intransponível.
E nesse abismo, tão vasto quanto o universo que eu carregava em mim, residia a beleza terrível da individualidade. A beleza de não poder ser invadido, de não poder invadir. De permanecer ilha, por mais que as ondas do desejo e da afeição batessem em suas margens. O abismo não era apenas o que nos separava; era, paradoxalmente, o que nos definia. E essa definição, tão dura e tão real, era a epifania final: o outro é o meu próprio limite, e eu sou o limite dele. E nesse limite, nessa borda intransponível, é que a vida acontece.
O Segredo da Maçã
Ela estava ali, sobre a mesa de madeira, ou talvez sobre um prato de cerâmica branca que se disfarçava de si mesmo. Uma maçã. Nem vermelha gritante, nem verde ácida. Um tom entre, um desbotar de vitalidade, um ligeiro amarelado aqui e ali. E em seu centro, no seu umbigo seco, o resto de um galho que um dia a unira à árvore, a um grande e silencioso útero de onde veio.
A que observa em mim, a mesma de antes, a que não julga mas se assombra, fixou nela o olhar. Não era uma maçã para ser comida, não nesse momento. Era uma maçã para ser sentida. E, pelo sentir, quase tocada em sua mais íntima substância, aquela que a tornava maçã e nada mais.
Via-se a curva suave de sua pele, uma tensão que era a promessa de uma polpa que ainda não se revelava. A textura, lisa sob a luz, parecia gritar uma aspereza invisível, um segredo de sua casca que se recusava a ser meramente superficial. Havia nela uma quietude. Uma quietude de quem possui um vasto interior que não se expõe, de quem sabe sem precisar saber. Uma auto-suficiência que a fazia completa em si mesma, sem precisar de nome, sem precisar de função.
E a epifania surgiu: a maçã era a mais pura tradução do seu próprio mistério. Ela não se explicava. Simplesmente era. E nesse ser, sem esforço, sem a angústia da existência que nos devora, ela trazia à tona a nudez de uma verdade: que o mundo é feito de coisas que são, e a gente é feito de coisas que tentam ser. E o terror não era o de não entender a maçã, mas o de entender que a maçã, em sua completa e muda existência, compreendia mais sobre o ser do que eu jamais conseguiria. Ela era o início e o fim. E a sua silenciosa presença sobre a mesa era um grito. Um grito de pura e insondável existência.
Final da máscara, início da pele —
onde a mentira escorrega
e a verdade começa a arder.
Ali, eu andei descalço,
num estreito de mim mesmo,
sem margem,
sem muro,
sem véu.
Meus pés tocaram o frio do chão
como quem reencontra um altar antigo,
e cada passo
era uma confissão sussurrada
ao silêncio que não julga.
Entre o que escondi por anos
e o que restou quando caiu o pano,
eu encontrei um nome
que ainda sabia dizer.
Andei descalço,
sobre pedras que lembravam
o quanto doeu ser outro,
o quanto custou voltar.
No estreito, não havia fuga.
Mas havia passagem.
E do outro lado —
pele viva,
cicatriz sem vergonha,
alma porosa,
e a coragem tênue
de ser.
"Andei descalço, sobre pedras que lembravam
o quanto doeu ser outro, o quanto custou voltar."
Vicente Siqueira
O Segredo da Maçã Revisitado
A maçã, em sua aparente singeleza, torna-se um espelho para a própria existência. Ela não precisa de discursos, nem de explicações. Apenas é. E essa pura existência, tão alheia às nossas buscas e angústias, nos confronta com a complexidade de tentarmos ser. É um encontro com o mistério que reside em tudo, mas que raramente paramos para verdadeiramente sentir.
não podia estar lá
quando queria estar aqui,
nesse jogo de abraços
que anseia pernas tocadas,
no risco de sermos descobertos.
não ousara dizer não ao momento,
ao encantamento,
ao toque de Midas
que transforma
o cinza da frente fria
em dourado
de calor generoso.
são bocas sabendo a graça
de se esconderem
uma na outra,
uma pra outra,
na exploração
que não conhece fadiga
e não suporta a tirania
dos ponteiros
dos relógios.
por isso, o escorregão
no atraso
denunciou os cheiros
e as perguntas
sem respostas,
sem explicações.
Nem tudo tem contorno.
Às vezes, o poema
é só vento que pensa,
é mar sem costura.
Mas a forma chega
como quem molda o ar,
um gesto que curva
o que se quer tocar.
É o corpo do som,
a linha do espaço,
o peso da pausa
no fim de um abraço.
Criar é inventar contornos
praquilo que escapa,
dar forma ao silêncio
sem que ele se quebre.
Porque o invisível,
quando ouvido com cuidado,
tem um rosto possível.
Tem gente que vai embora
como se fosse simples —
fechar a porta, virar o rosto,
levar a xícara preferida.
Mas esquece um rastro.
Esquece o nome no espelho
e um verso que ninguém escreveu.
Fica o passo na madeira.
O cheiro preso no armário.
O riso guardado num talher.
Fica até a briga mal resolvida,
pendurada na maçaneta
feito lenço que ninguém recolhe.
E eu?
Eu vou juntando os fragmentos,
fingindo que são cacos de um vaso antigo
e não do meu coração.
Fico ensaiando despedidas
pra quando não doer mais.
Mas meu peito vira enredo
toda vez que o silêncio respira teu nome.
Confissões Silenciosas
Há um cofre,
não de metal ou madeira,
mas de ar e pulsação,
onde repousam os segredos
que guardei em mim.
Não são tesouros de pirata,
nem mapas de ilhas perdidas.
São sussurros calados,
reflexos em espelhos embaçados,
aquelas verdades que o tempo
lapidou em silêncio.
Muitos nasceram
em madrugadas estreladas,
outros em tardes de chuva,
alguns, em olhares fugazes.
Cada um com seu próprio peso,
sua cor, sua melodia muda.
Eles não me pesam.
São parte da terra
que sustenta minhas raízes.
Memórias tecidas em linho invisível,
pontos de luz em um céu particular.
Meus segredos.
Apenas meus.
Eles habitam,
respiram em meu peito,
e me contam,
em um idioma só nosso,
quem eu sou.
Tinta Invisível
Existir é um rascunho sem fim,
linhas traçadas no vazio.
A caneta do tempo, sem tinta,
deixa marcas imateriais
no papel translúcido do ser.
Esboços de sorrisos,
traços de lágrimas,
um mapa que se refaz
a cada batida do coração.
Não há borracha para apagar
os contornos incertos,
nem régua para endireitar
a curva de um erro.
Apenas a continuidade do traço,
desenhando formas mutáveis,
que se desfazem no ar
assim que são percebidas.
O preenchimento, uma miragem,
um pigmento que nunca adere.
Vivemos entre a certeza
do traço e a promessa
de um sentido que se esvai.
Somos a arte e o artista,
a busca e a tela,
sempre inacabados,
flutuando em nossa própria criação.
Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ
Desenhei um sorriso —
leve, mas torto,
como quem aprendeu a moldar silêncios
com um lápis de cor gasto demais.
Inventei uma desculpa qualquer,
vestida de vento,
que saiu da minha boca sem pedir licença:
“Foi só o tempo, entende?”
Mas quem entende?
Se o que ficou não foi o motivo,
foi o gesto mal costurado
no meio da minha frase.
Desenhei um sorriso —
meio tarde, meio cedo,
na esperança de que a curva nos meus lábios
enganasse o que minha alma ainda carrega.
E a desculpa qualquer,
que nasceu sem raiz,
ficou plantada no chão da minha memória,
como flor que ninguém rega mais.
Mas eu sorri.
Como quem treina o perdão no espelho
e tenta, todo dia,
fingir que não doeu tanto assim.
Fragmentos de conversas perdidas pairam no espaço da lembrança. São imagens desconexas de um filme inacabado.
Um gesto da mão, um olhar de soslaio, o murmúrio de um segredo qualquer. A mente tenta reconstruir o diálogo, mas as peças não se encaixam bem.
Eram projetos acalentados, palavras lançadas ao vento. Eram opiniões trocadas, a busca por um entendimento.
O tempo esgarçou as bordas, desbotou as cores daquele instante. Sobraram apenas pedaços soltos, uma vaga sensação distante.
A voz que preenchia os dias agora reside no silêncio. Em cada objeto, uma sombra, de um encontro que não se fez eterno.
Loop Infinito
Nada novo, de novo.
O dia mimetiza o ontem,
o café na mesma caneca.
O mesmo tédio, o mesmo
estorvo,
e a alma que se encolhe,
seca.
O ponteiro gira, a vida
não.
Replay do que já foi, exaustivo.
A rotina um nó, sem
solução,
o presente um passado
cativo.
A tela acende, o mesmo
feed,
notícias velhas, sonhos
gastos.
O pulso fraco, sem o que
pedir,
em meio a tantos, tantos
rastros.
E o grito preso, que não
sai,
de um desejo por algo
inusitado.
Mas o ar é denso, e me
distrai,
nesse ciclo vicioso e
cansado.