24 dezembro 2025

O ESPELHO RETROVISOR DO VERBO

O Espelho Retrovisor do Verbo


Mergulhei a caneta (ou seria o lápis?) no escuro,
no papel, na penumbra do que não via, nem vejo, 
para descobrir o que sinto. 
E as palavras se organizavam na página. 
Eram ossos lançados ao chão 
por uma espécie de xamã, 
desenhando geografias 
que meus pés ainda teimavam em não percorrerem 
conscientemente. 


Sou estrangeiro na minha própria frase. 

Todas as mãos avançando, 
febris, 
num comando quase ideológico, 
não nascido na lógica, 
E o estrondo mudo vibrou no peito. 
A razão, até então, sentada na última fila do teatro, 
observava, atônita 
e escondida, 
o espetáculo das verdades 
que eu não sabia que
possuía. 


Quanto ao ponto final: repousa, 
pesado como uma âncora no papel, 
então me volto para a leitura. 

E ali, 
no rastro da tinta ainda fresca, 
reconheci a tempestade que me atravessava. 

O poema não era e não é o relato do que passou; 
é o mapa do agora, 
revelado ao mestre pelo próprio servo que, 
enfim, 
despertou. 


Vicente Siqueira

Nenhum comentário:

Postar um comentário