O Espelho Retrovisor do Verbo
Mergulho a caneta no escuro
não para descrever o que vejo,
mas para descobrir o que sinto.
Palavras se organizam na página.
São ossos lançados ao chão
por um xamã,
desenhando geografias
que meus pés
ainda não percorreram
conscientemente.
Sou estrangeiro na minha própria frase.
Mão avançando,
febril,
sob um comando
que não nasce no córtex,
nem na lógica, e sim num estrondo mudo
que vibra no peito.
A razão senta-se na última fila do teatro,
e observa,
atônita,
o espetáculo
das verdades
que eu não sabia que
possuía.
Então quando o ponto final repousa,
pesado como uma âncora no papel,
é que me volto para a leitura.
E ali,
no rastro da tinta ainda fresca,
reconheço a tempestade que me atravessa.
O poema não é o relato do que passou;
é o mapa do agora,
revelado ao mestre
pelo próprio servo que,
enfim,
despertou.
Vicente Siqueira
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