O Limiar da Prata
O silêncio é uma arquitetura de madeira e sombra
onde o corpo se ancora,
mas o pensamento deságua.
As costas largas, anteparo entre o ontem e o agora,
carregam o peso de quem sabe esperar
enquanto a cidade, lá fora,
é um organismo que respira luzes elétricas.
O vidro, essa pele fria e embaçada,
separa o calor do linho amassado —
memória de um toque ou de um cansaço —
do hálito vasto da noite.
No copo, o uísque é um âmbar estático,
uma pequena fogueira líquida capturando o último átomo de ordem.
Então, a lua rompe a geometria do teto.
Não é luz, é um chamado cinzelado em prata
que atravessa a vidraça e marca o chão,
como se o universo estivesse, enfim,
apresentando suas credenciais.
O recolhimento é uma casca que começa a trincar.
A explosão não vem com estrondo,
mas com a percepção de que a moldura da janela
é pequena demais para conter o que pulsa.
Há um convite mudo na poeira iluminada:
a liberdade não é o destino,
é o exato momento em que a mão toca o trinco.
Vicente Siqueira
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