29 dezembro 2025

O LIMIAR DA PRATA

 

O Limiar da Prata

O silêncio é uma arquitetura de madeira e sombra onde o corpo se ancora, mas o pensamento deságua. As costas largas, anteparo entre o ontem e o agora, carregam o peso de quem sabe esperar enquanto a cidade, lá fora, é um organismo que respira luzes elétricas.
O vidro, essa pele fria e embaçada, separa o calor do linho amassado — memória de um toque ou de um cansaço — do hálito vasto da noite. No copo, o uísque é um âmbar estático, uma pequena fogueira líquida capturando o último átomo de ordem.
Então, a lua rompe a geometria do teto. Não é luz, é um chamado cinzelado em prata que atravessa a vidraça e marca o chão, como se o universo estivesse, enfim, apresentando suas credenciais.
O recolhimento é uma casca que começa a trincar. A explosão não vem com estrondo, mas com a percepção de que a moldura da janela é pequena demais para conter o que pulsa. Há um convite mudo na poeira iluminada: a liberdade não é o destino, é o exato momento em que a mão toca o trinco.


Vicente Siqueira

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