30 dezembro 2025

JÁ VI ESSE FILME

Já Vi Esse Filme



Ele se impacientara com o toque do telefone, pois não julgara que fosse tão tarde. O vibra-call do celular, logo acompanhado por aquela luz amarelada indicando chamada, insistia em trazê-lo para a realidade do aqui e do agora. Uma realidade de reações descabidas e emoções póstumas.
Não fosse tão tarde e ele até a chamaria para fazer-lhe companhia. Talvez não. Talvez mudasse de imediato os planos, como já fizera tantas vezes.
O cinema não estava lotado e isso mostrava o quanto o filme não era bom. Era até meio sonolento. Nada de “E o Vento Levou”, mas, também, nada tinha de “O Senhor dos Anéis”. Tratava-se de um desses filminhos feitos às pressas e sem maiores intenções, mas ainda assim ele queria assisti-lo até o final.
De dentro da sua solidão ele espiava seu passado remoto, e se perguntou: até onde houve uso de mão e contra-mão?
Encarava de frente também o seu passado mais recente. Pediu desculpas pela tanta falta de notícias, por ele ter reclamado ao telefone. Seus monstros interiores, adornados de pedrarias de mau gosto e lágrimas, sorriram às pressas para ele com aquele sorriso ácido e decrépito.
Não havia sedução na chamada. Nem na reclamação. A negativa também não escondia outras intenções. Tratava-se apenas de um diálogo. Diálogo pobre de palavras, de efeitos, de resultados.
Algum choro preso, algumas palavras que não podem ser e não foram ditas, e em seguida o silêncio avassalador de linhas interrompidas (não por ter caído, mas por ter sido desligado o aparelho).
Vontades das delicadezas que se encerram como um filme qualquer (afinal, até os bons filmes terminam)

Vicente....
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"Alegria compartilhada é dupla alegria, dor compartilhada é meia dor.
(Tiedge)
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