08 março 2025

LABIRINTO

 


LABIRINTO

labirinto

 

sinto passagens em mim

que saem em mim

que entram em mim

sempre no mesmo eu

na mesmice tão esmigalhada

por todas essas pressas

de muros

de sebes

de alamedas

sensação estranha

labiríntica.

 

caminho por essa sensação

como se fosse estrada.

 

caminhar

com verbo no horizonte

mais-que-perfeito

procurando o imperfeito

daqueles dias cinzentos.

 

tenho tantos temas

tinha tantos

tantos temores

no amanhã

e no ontem

quando nem existiam palavras

que adivinhassem você.

 

no hoje

porém

palavras

sugerindo outros

temas

transes

sua existência

tão ali.

tão aqui.

 

palavras  (lhe) refletem

:

amor

namoro

namorados

:

tantos

cantos

cantados.

 

encantos

momentos

ainda

(linda)

sonhando

acordado

namorados

namorando

namorada.

 

palavras

essas mesmas que explodem

denunciando tudo o que já foi escrito

dito

sugerido

amigos

amantes

ciúmes

em amargo de chocolate

de  estreitamento

de zap

de morenez.

de loucuras morenas

de frestas de portas de quartos.

 

e cheiros

e arrepios

e sabores

e medos.

em línguas sôfregas

que se espreitam

e se buscam

em sonhos

de pernas

que se descruzam

e se mostram

e se misturam

e se confundem.

 

até

se sentirem saciadas.

 

em outros temas

e datas

e manhãs tão variadas

e noites tão esperadas.

 

até

nem perceber.

 

confusões

de mentes

de pensamentos

de vontades

de despedidas

(que não se concretizam)
:

tão amiúde

tão inteiramente ignoradas.

 

até

saber que se descansa.

 

pro outro

(dia)

nascer feliz

de novo

e de novo

e de dizer que

agora

você está aqui.

 

daquele jeito

que eu sempre

quis.

 

 

.

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SEXTO SENTIDO

 



SEXTO SENTIDO

 

SEXTO SENTIDO

Existe um sexto sentido que precisa ser vivido
dito
sem palavras
sem trapaças
sem textos
sem pretextos.

então:

que esse sentido exploda
e atinja o óbvio do alvo
e se afaste das camuflagens
e perceba as descobertas
e se sinta inquieto
e se encarregue do transformar.

que seja doce ainda que efêmero
e se confunda
com o coito das noites
penetrando as madrugadas
parindo dias
ressuscitando cores
ressurgindo em raios
de todas as luzes.

que todas as palavras
explodam
ressoem
maquiem as notícias
e se lancem
em busca do inédito
e deem crédito
a esse sexto sentido
que se chama
amor.
.
.
Vicente
.

.

Vicente junho 29, 2018Nenhum comentário:   

26 junho 2018

UM PINGO É UMA GOTA?

 



UM PINGO É UMA GOTA?



gostoso sair na chuva

 

gosto de sair na chuva

de encontrar pingos

amigos

cinemas

depois eu volto de táxi.

 

quero me contar

sem me conter

nas emoções

sentir o ar na vidraça

o vidro suado do vapor

a janela aberta

o frio penetrando.

 

ao longe o latido

sons que me chegam

sem compromisso de ficar.

 

juntos assistimos cores

variadas flores

sentimos

dores

as particulares e as outras.

 

mas nem todas.

 

qual o filme?

falava de destinos

corações

apaixonados

havia esperanças

suspiros

alguns apertos

momentos desconexos.

 

tudo na pressa

mas eu gosto.

 

gostava.

.
.
.

Vicente

Vicente junho 29, 2018  

07 março 2025

CAIXA MÁGICA



CAIXA MÁGICA

 

a vontade é louca

várias pequenas e

poucas grandes vontades

correr descalço

pular amarelinha

subir na goiabeira

que agora não tem goiabas

o pneu ainda está pendurado

balanço perfeito.

 

no álbum impera o sépia.

alguns descascados

até mancha que parece de vinho

a caixa ainda está amarrada

com a fita carmesim.

 

quem deu o presente?

quem deu o futuro?

quem destruiu o passado?

 

vontades de voltar.

posso?

.

.

.


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TAMBÉM VOU SER POETA

 


TAMBÉM VOU SER POETA

também queria viajar
ir e ficar
em pasárgada (sei lá)
e pelo estatuto do poeta
tenho direito a pagar meia passagem
e o pagamento será feito em gramas de sonho.

rompendo as ânsias e lá chegando
tenho direito ainda
a fixar residência
onde bem me aprouver
desde que haja cachoeiras por perto
e libélulas gritem cantos
como cotovias
e sabiás saibam seus ninhos nas palmeiras
e que explodam girassóis
desde o mais tenro início de inverno
que não poderá ser
nem muito frio
nem muito distante.

não quero que haja reis
e sim princesas
e rainhas brotem aos cachos
como pingo-de-ouro
e se deixem ser amadas
por seus cavaleiros errantes
assim como eu.

e quando eu voltar às realidades daqui
quero ser reconhecido
pela minha eloquência embandeirada
e pela alcunha de
“poeta, o audaz”.
.
.
.
Vicente
.
.

 

05 março 2025

FEITO MARÉ (Letra para Música)

 

 Feito Maré

(letra para música)

(Intro instrumental leve)

Verso 1
Diz que vai, mas deixa rastro
No silêncio dos vitrais
Feito brisa em tom de passo
Vai embora e volta mais

Verso 2
Sopra leve pela fresta
Senta à beira do quintal
Nem pergunta, nem protesta
Só me invade, natural

Refrão
E eu, que fecho os olhos cedo
Me descubro no teu cais
Toda ausência tem um cheiro
De quem volta e quer demais

Verso 3
Traz o sal da tua ausência
E um perdão sem avisar
Feito mar sem paciência
Vem bater no mesmo lugar

Refrão final
E eu, que já sabia o enredo
Finjo crer que é nunca mais
Mas meu peito vira enredo
De quem volta e quer demais



04 março 2025

O GRITO SEM ROSTO

  

O Grito Sem Rosto

No centro do silêncio havia um som —
mas ninguém o ouvia.
Era um grito que não buscava ouvidos,
mas espelhos.
E nem mesmo o vazio o devolveu.

Era meu.
Era teu.
Era o grito que nunca encontrou o seu próprio eco.

Solto em um mundo de superfícies surdas,
ele vagou como névoa em pedra,
como sombra num campo sem luz.

Chamava por si mesmo —
e nem assim se reconhecia.

Esse grito sabia demais:
sabia que há dores que nascem mudas,
e palavras que, ao serem ditas,
se perdem para sempre.

Ele esperava uma caverna viva,
uma alma côncava o bastante
para lhe dar forma de volta.

Mas encontrou apenas horizontes fechados,
portas que sorriam… e não se abriam.

Ainda assim, ele persiste,
como vento que se finge esquecimento.
E às vezes, no meio da noite,
tu o sentes atrás da tua pele —
sem som,
sem nome,
sem lugar para morrer.



03 março 2025

HORIZONTES FECHADOS

  

Horizontes Fechados

Bateu em todas as portas
com mãos feitas de esperança antiga.
Chamou pelos nomes esquecidos,
sussurrou promessas que ninguém lembrava.

A estrada era longa,
mas seus pés já sabiam do peso da espera.
Levava consigo mapas desenhados com lágrimas,
e a memória de um sol que nunca nasceu.

Em cada encruzilhada,
erguia os olhos como quem pergunta ao céu.
Mas o céu…
ficava mudo.

E então,
quando o último caminho parecia cintilar,
quando a alma se curvou no gesto final,
encontrou apenas horizontes fechados.

Não grades.
Não muros.
Mas um mundo que se negava a abrir os braços.

Ainda assim, permaneceu.
Não por teimosia,
mas porque às vezes,
a própria espera é uma forma de fé.

E no silêncio do que não se alcança,
há quem descubra
que certos portais não se abrem —
eles se tornam.

 

Horizontes Fechados — Parte II
O Espelho Velado

Havia vento,
mas ele não levava.
Havia luz,
mas ela não aquecia.
E no chão, nenhum rastro além do seu.

Sentou-se diante do horizonte fechado,
como quem escuta uma porta por dentro.
Não pediu mais.
Não gritou.

Fez do próprio corpo um abrigo,
e da ausência, um idioma novo.

Ali, entre não-passos e não-respostas,
algo cedeu —
não fora, mas dentro.

Como se o que buscava não estivesse à frente,
mas atrás do olhar.
Como se o horizonte,
tão fechado,
fosse apenas o reflexo do que ainda temia abrir.

E então, pela primeira vez,
não quis ir.
Quis permanecer.
Quis ver se a chave não era ele mesmo.



 Horizontes Fechados — Parte III

A Chave que Respira

Quis ver se a chave não era ele mesmo.
E ali, onde todos os caminhos negavam passagem,
voltou-se para dentro
com olhos que ainda não sabia usar.

Despiu-se dos nomes,
das vontades herdadas,
das perguntas vestidas de certezas.

Ficou nu diante do mistério.
Não para vencê-lo,
mas para deixar que o mistério o visse —
sem defesas,
sem disfarces.

E então percebeu:
os horizontes não estavam trancados.
Estavam espelhados.

Fechavam-se, sim —
mas apenas para quem batia com força,
para quem pedia uma estrada que não era sua.

Quando enfim se calou,
quando a busca cedeu lugar à escuta,
uma fresta respirou no horizonte.
Não um portal.
Não um milagre.
Mas uma brisa.

E foi o bastante.

Pois quem se torna chave
não precisa mais de portas.
Atravessa com o gesto,
com o silêncio,
com o simples estar.



 

Horizontes Fechados — Parte IV
Olhos Não Sabidos

Começou a ver
com os olhos que não sabia usar.
Não os da carne —
mas os que nascem
quando tudo o que é visível
falha.

Olhos feitos de escuta,
de entrega,
de não querer entender.

Com eles, o mundo não era mais forma,
mas sopro.
Não era caminho,
mas presença.

E as coisas que antes pareciam inertes —
pedras, sombras, silêncios —
revelaram-se cheias de intenção contida.
Como se tudo estivesse esperando
que ele visse diferente,
e não mais… como antes.

Percebeu que o horizonte nunca fechara.
Ele apenas esperava o olhar certo,
o que não força,
o que não exige,
o que apenas… reconhece.

E com esses olhos,
viu que havia portas por toda parte.
Algumas feitas de vento.
Outras, de memória.
E uma — a mais sutil —
feita do próprio tempo em que ficou.




Horizontes Fechados — Parte V
Portas Invisíveis

Atravessou.
Mas não como se atravessa um limiar —
não houve passo,
não houve som.

Foi um deslizamento sutil,
como o pensamento que se reconhece verdade,
ou o instante em que o medo se cala.

Era uma porta sem bordas,
sem madeira,
sem tranca.
Feita do exato momento em que deixou de buscar.

Do outro lado,
não havia paisagem nova.
Era o mesmo mundo —
mas inteiro.

As folhas tremiam diferente.
O céu respirava mais perto.
Até as pedras pareciam ter algo a dizer.

E o mais estranho:
ninguém notou que ele havia cruzado.
Pois quem vê com olhos não sabidos
torna-se invisível aos que só enxergam com pressa.

Lá,
na quietude do que se abriu sem esforço,
descobriu que atravessar
nunca foi sair —
foi permitir que o dentro
encontrasse o fora.

E onde antes havia um horizonte fechado,
agora havia espaço.
Um espaço tão simples
que só podia ser infinito.


 

Horizontes Fechados — Parte VI
O Espaço Que Ouve

No espaço que não dizia nada,
ele sentiu-se ouvido pela primeira vez.
Não julgado,
não moldado —
apenas escutado em silêncio absoluto.

Era como se o mundo,
agora permeável,
o deixasse existir sem medida.
Sem moldura,
sem fim.

E quanto mais não fazia,
mais o espaço respondia.

A própria quietude do lugar
era uma linguagem que o tocava por dentro,
desfazendo ruídos antigos,
reabrindo passagens que o medo calou.

Ali, percebeu:
não era ele quem caminhava.
Era o espaço que se abria sob seus passos.
Cada gesto pequeno —
um portal.
Cada pausa —
um retorno ao que sempre esteve.

Começou a andar
como quem não carrega o corpo.
Como se fosse feito da própria escuta,
como se o ar já soubesse seu nome antes dele pronunciar.

E enfim compreendeu:
o caminho não levava a um lugar.
O caminho era um estado.
Era ser.




Horizontes Fechados — Parte VII
O Retorno Invisível

Voltou.

Não por saudade,
mas porque entendeu
que o que aprende a ver
precisa, um dia, também ensinar a enxergar.

As mesmas ruas,
os mesmos rostos,
as mesmas ausências que antes gritavam —
agora silenciavam de outro modo.

Ele andava entre os outros
como sombra que carrega luz.
Falava pouco,
mas sua presença contava histórias
que ninguém sabia ter ouvido.

Tentou abrir, com gestos,
as portas que ainda viam trancas.
Tentou mostrar, com o silêncio,
que alguns muros só existem
para que aprendamos a atravessá-los por dentro.

Mas percebeu que há olhos que ainda dormem.
E que não se deve forçar o despertar.

Então, tornou-se brisa.
Tornou-se pausa entre palavras.
Tornou-se aquilo que, ao passar,
não deixa marca — mas deixa espaço.

E assim vive,
sem sair nem chegar,
dentro do mundo que o rejeitou,
mas que agora carrega dentro de si.

Pois quem atravessou o invisível
sabe:
nada mais é fechado,
nem mesmo o que parece ser.




 Horizontes Fechados — Epílogo

Aquele que se tornou passagem

Ninguém viu quando ele partiu.
Ninguém notou quando voltou.

Mas algo, em cada coisa,
tornou-se mais leve.

A chuva hesitou ao tocar o chão.
As palavras buscaram menos pressa.
Até o tempo, esse velho carrasco,
parecia pisar com mais cuidado.

Pois havia no ar um vestígio:
não de presença,
mas de caminho aberto onde antes era pedra.

Alguns dizem que ele virou vento.
Outros, que ainda caminha —
em silêncio,
entre perguntas que ninguém ousa fazer.

Mas quem já sentiu,
mesmo por um segundo,
aquele espaço sem paredes,
aquele olhar que vê sem querer,
sabe:

ele não era alguém.
Era uma abertura.

Um rasgo manso
no tecido do impossível.

E quem o encontra,
não o encontra.
Apenas se lembra
de que também é chave.
De que também é porta.
De que também, um dia,
poderá ver com os olhos
que ainda não sabe usar.





02 março 2025

PELE EM ARREPIOS

 


Pele em Arrepios

 

Porque a minha pele, aos arrepios,

insistia em diluir a solidão que agora era realidade.

Não era o frio que me envolvia,

mas o gume afiado do vazio,

o contorno gelado de um espaço ausente.

Eu, o homem, sentia cada pelo se eriçar,

como antenas buscando um sinal,

um toque, uma presença.

 

Era a carne que reagia,

na sua sabedoria antiga,

à vastidão do que me cercava.

Cada célula gritava por calor,

por um abraço que não vinha,

por um braço que não se estendia.

A solidão, antes um sussurro,

agora era um grito rouco,

e a pele, em sua sensibilidade,

tornava-se o campo de batalha.

 

Nesses calafrios sem causa aparente,

nesse tremor que vinha de dentro,

eu via a luta do corpo por conexão.

Era a tentativa desesperada

de um eu fragmentado,

de um sentido ainda sem nome,

de encontrar no próprio tato

a ponte para outro.

E, em cada arrepio,

uma verdade: a solidão

é pesada demais

para a pele suportar sozinha.

FLAGRADOS NO TEMPO

 FLAGRADOS NO TEMPO

não era mais ontem
mas também não era já,
era aquele meio instante
que se esconde nas frestas
onde o tempo esquece de contar.

nossos olhos, clandestinos,
gravaram na memória
o que o corpo não pôde guardar —
um toque,
um nome não dito,
um quase que ficou inteiro.

as horas correram ao contrário,
os ponteiros, cúmplices,
hesitaram um segundo a mais
só pra nos permitir
a eternidade breve
de um gesto.

depois, tudo voltou:
as vozes, os passos,
a pressa dos outros.
mas nós —
nós fomos flagrados no tempo,
na dobra do relógio,
onde o desejo é fósforo aceso
que ainda brilha
mesmo depois de apagado.

01 março 2025

MULTIDÃO INTERNA

 Multidão Interna

Falei alto nas redes,
nos corredores, nos elevadores.
Meu nome ecoava entre notificações,
mas por dentro — era sussurro.

Porque quem grita com todos
é também quem escuta a si mesmo com medo.
No ruído dos aplausos,
escondi perguntas que não tinham palco.

Sorri para fotos que não me incluíam,
respondi com emojis o que o peito não sabia dizer.
E o mundo me abraçou em pixels,
mas faltava pele,
faltava pausa.

Aprendi a falar bonito,
mas tropecei no silêncio.
Porque há frases que não servem
quando a dor não tem legenda.

Fiquei cercado de vozes,
mas a minha — rouca e tímida —
pedia abrigo, não audiência.

Então um dia parei de gritar.
E no susto do silêncio,
descobri que o eco é sincero
quando não há ninguém para aplaudir.

LABIRINTO DE ECOS

  Labirinto de Ecos

 

Os pensamentos, um enxame voraz,

ecoam nas paredes da mente.

Fragmentos, sussurros,

perguntas sem resposta,

um coro dissonante

que insiste em não calar.

 

Onde a certeza se esvai,

a busca se intensifica.

Um mapa rasgado,

passos incertos na neblina densa.

Quem sou, no fim das contas,

além do eco das vozes alheias?

A verdade, um espectro,

dança na borda do precipício.

 

Existir, um peso invisível,

uma tela em branco à espera de cor.

O abismo me chama, suavemente,

e o silêncio da noite, cúmplice,

revela a própria face do vazio.

Entre o ser e o nada,

um fio tênue, quase invisível,

onde a alma se pendura,

sem saber por que persiste.

 

 

 

 

O FUTURO SEPULTADO

 O Futuro Sepultado

 

Em mim, o passado guarda um futuro,

um mapa de estradas que não pisei.

Juventude ancestral, sonho puro,

hoje apenas pó, que não alcancei.

 

Aquele "eu" que fui, lá se encerra,

com as promessas que o tempo roubou.

E a cada eco, a alma se desterra,

na dor do que jamais se concretizou.