15 abril 2026

CEIA DO VERBO

 

Ceia do Verbo

Tenho urgência de fomes.

Hoje, dispenso as metáforas suaves;

invoco bocas, o gume das unhas,

o impacto branco dos dentes

sobre a urgência da vida.

 

Haverá tempo para as asas.

Haverá tempo para o voo e para o azul.

Mas agora, o sagrado é tátil.

 

Decifra-me o espírito,

mas não poupes a carcaça.

Devora o que é denso e humano em mim.

 

Nesta comunhão profana,

as palavras se tornam sangue.

O poema não habita mais a página:

ele ocupa o meu peito, as minhas vísceras.

 

Não busques o autor.

Hoje, o poema é o sopro

e eu sou a carne

onde ele se faz verdade.


Vicente Siqueira - Doces Poesias - Barra do Piraí RJ



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