30 abril 2024

ÂNSIAS







DESAFIO

Meu grito
Que doía na garganta
Ainda engasgava
A traquéia entalada.

Meu grito me doía
Na saída.
Meu corpo me aliviava
A revolta insensata.

Recomeçar sem perceber
Que se perdeu
Olhar nos próprios olhos
Sem se arrepender.

Esmiuçar a bagagem
E retirar somente
O necessário para recomeçar.
Esse é o desafio.


15 abril 2024

O VAZIO DA JANELA

  

 

 O Vazio da Janela

 

A madrugada avança,

Seis, quase sete.

Nenhum vestígio de cor.

A aurora ainda não rompe.

Imagino-me à beira da calçada fria.

Procuro-me no fumo que se esvai.

Há um peso de tempo parado sobre minha alma.

De novo sou eu a não encontrar o início.

Talvez por ser um tanto inconstante

Ou por me amar demais,

Resolvo me sentar e me contar segredos mudos.

 

Desenhando formas no chão com a ponta do pé.

Um poeta sem voz, entre o caos e o silêncio.

Eu me explico com a minha própria sombra

Por não achar uma rima que me caiba.

Mas tento me fazer presente.

Agora sou só eu em um palco escuro.

Um palco onde a verdade deve surgir.

E a plateia, no caso, sou eu.

 

Não escrevi nada porque não há mais linhas.

Me afasto da cena sem nem me entender.

Lanço a mim um olhar de aceitação,

Mas não tem jeito,

Eu sinto.

Hoje a inspiração não vai florescer.

 

 


31 março 2024

DESPEDIDA

 



DESPEDIDA

Semblante saudoso de quem dorme pela espera.
De quem espera pelo sonho
De quem sonha pela madrugada
Insone de sala e caderno
Mãos delicadas em torno da caneta
A dialogar com o papel,
Com o tempo,
Com a pouca chuva
De estrelas que azulam o céu.

Corre, célere, o pulso que pulsa
Em busca do encontrar-se,
Do enclausurar-se
Em adjetivos,
Suspiros, devaneios.

Rosadas,
As faces desfazem a impressão
De estar morta.
Por fora é vida que pulsa.
Por dentro
A tentativa de esquecer.
O quê mesmo?



01 março 2024

JARDIM SUSPENSO

 

Jardim Suspenso

 

O ar da manhã pesa,

uma névoa fria sobre o peito.

O branco da página

insiste em ser só branco.

 

As palavras, antes dança,

agora se arrastam,

pedras lisas

no leito seco de um rio.

 

A mente, um poço profundo,

silencia os ecos.

Não há pássaros cantando,

nem a brisa que embala.

 

A flor prometida

fica em botão, teimosa.

Um jardim interior

onde a luz não alcança.

 

E a voz, que busca o canto,

se recolhe em si,

conhecendo

o tempo da espera.

 


28 fevereiro 2024

ELA VOLTOU

 ELA VOLTOU


E havia o inverno em pleno abril.
Porque o frio chegava à medula
E o vento era de cortar os lábios,
Trazendo aquela chuvinha marota e fina,
Que interrompe a vontade ao penetrar
Em nossos sentidos
Até deixar úmida e tiritante a alma.

A cidade me parecia mais escura
Porque se apresentava cinza
E o cinza era da neblina
Que escondia a ponte metálica.
As pessoas não acreditavam
No absurdo frio de abril
E no céu tão baixo no meio da cidade
Que caía na tarde.
Tudo era cinza.

Foi nesse quadro da natureza
Que aconteceu o impossível.
Ela de volta
Volta com todas as implicações
Do verbo voltar.
Volta mesmo. Volta para ficar.
Volta de chegar com malas.
Volta de trazer sorrisos
E dizer que a natureza
Está chorando por nós
(e é por isso que ela voltou)

Então, milhões de vezes agradeci à natureza
Por ter chorado
A ponto de ser percebida.
Por ter chorado
Pra me fazer sorrir
Todas as vezes que abro o zap.




15 fevereiro 2024

A PARTIDA INEVITÁVEL

 

A Partida Inevitável

 

E havia a presença esquiva

que trazia

para o aqui e o instante

o denso ar

de olhares e gestos incertos.

o sussurro em meio ao silêncio

costurando/desfiando destinos.

 

eu

precisava sentir

perceber

abraçar as razões.

precisava aceitar.

sem ser sereno,

ou ser

talvez.

 

nalgum vazio da certeza

o fio se partiu

soltou

desfez.

não nos importamos em amarrar

as pontas

na despedida

porque não queríamos

refazer tudo

de novo.

 

 

15 janeiro 2024

QUERO

 



QUERO

Quero a vontade de extirpar o medo,
De gritar, se necessário,
De experimentar a vida,
De perceber que a hora urge
E que por isso é bem desejada.

Quero esquecer corações
E ânsias de vez
E acordar dos sonos infinitos
Que limitam as ações.

Quero descansar de mim
Calar-me a boca,
Que de qualquer maneira
Nunca fala, mesmo.

Quero morrer e reconstruir,
Ouvir e rebelar
Mesmo sem construir
A verdade,
A vontade.

Quero não sofrer
Até ter encontrado
A felicidade.



31 dezembro 2023

Sob camadas de pedra, areia, e tempo

 Sob camadas de pedra, areia, e tempo

Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.

Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.

O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.

E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.

Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.


19 dezembro 2023

ANTROPOLOGIA URBANA

 

ANTROPOLOGIA URBANA

ela não anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética

é pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada

quem a viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro

nuvem de perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.

03 dezembro 2023

A PORTA ENTRE OS MUNDOS

  

A Porta Entre os Mundos

Eis que estou —
à porta que respira entre o tempo e o agora,
onde os relógios se calam
e os muros falam em línguas esquecidas.

Bato.
Mas não com punhos,
com o som do trovão parado no céu,
com o vento que passa pelas frestas
carregando o nome que só tu sabes.

Se ouvires —
não será com os ouvidos da carne,
mas com a pele da alma,
com o fogo que mora atrás dos olhos.

A maçaneta arde em ouro vivo,
há estrelas girando na fechadura,
e do outro lado,
meu manto é feito de manhãs eternas
e meus pés não tocam o chão.

Abre.
E tua casa se tornará templo,
teu chão será mar de vidro,
teu teto, véu rasgado.

Entrarei como luz atravessa vidro,
sem romper, sem forçar —
mas transformando.

E cearemos.
Na mesa onde os frutos não apodrecem,
onde o cálice não esvazia,
onde tua solidão será apenas
uma lembrança que esquecerá de si.

15 novembro 2023

LIVRE PARA CRIAR

 "Livre para Criar"

É livre o gesto,
na palma da ideia —
onde a palavra espera
e o mundo inteiro cabe.

Não há cerca no sonho,
nem muro no verso
que nasce de dentro,
no tempo disperso.

Podes criar:
um céu de marfim,
um rio sem nome,
um segredo de jardim.

Aqui, o verbo é caminho,
e a escuta, alvorada.
A poesia não teme
nem mesmo o nada.

Apenas há limites
para o que fere ou destrói —
mas o que acende e abraça,
ah, isso é só teu e só dói
de tão belo.



06 novembro 2023

O RETORNO DAS PALAVRAS

 

O Retorno das Palavras

E o que eu dizia
voltava para mim.

não como resposta,
não como castigo,
mas como espelho.

cada palavra lançada
desenhava um contorno novo
em minha própria pele.

o que eu julgava,
me julgava.
o que eu amava,
me amava.
o que eu temia,
me temia.

e assim aprendi:
falar era também ouvir,
gritar era também confessar,
calar era também renunciar.

o que eu dizia
não se perdia no vento —
ele fazia caminho,
dava meia-volta,
e batia na porta do meu peito.

e eu, sem ter para onde fugir,
aprendi a dizer
com mais verdade,
com mais cuidado,
com mais alma.



15 outubro 2023

CADERNO ABERTO

 

  Caderno Aberto

Um caderno aberto
não pergunta por quê.
A folha aceita o que vier:
silêncio, rabisco,
vento de mulher.

Não exige forma,
não impõe juízo.
Aceita o risco
de um céu partido,
de um riso indeciso.

Quem escreve, voa.
E quem voa, vê
que a criação
é ponte de luz
sobre o talvez.


08 outubro 2023

HORIZONTE DE ESPERANÇA

 

Horizonte de Esperança

no fim do olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã

é linha tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser

não é fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis

o horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir

pois onde há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia

19 setembro 2023

GEOGRAFIA DO DESEJO

 

GEOGRAFIA DO DESEJO

há uma topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele

não é pressa —
é percurso.

as mãos, bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera

teu hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos

os músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo

não há nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.

os corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.

15 setembro 2023

FINALMENTE, O SILÊNCIO ABSOLUTO

 Finalmente, o Silêncio Absoluto

 

E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.

Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,

das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.

É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,

um ponto de quietude que transcende a percepção.

 

É o fim das oscilações, das dualidades,

o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,

mas a única verdade que existe.

Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,

e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,

uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.

 

 

CHEIRO DE TINTA

 

 Cheiro de Tinta

Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.

É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.

Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.

Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.