"Porque são doces poesias encontradas aqui por poetas, poetisas e simpatizantes. Venha, faça dessa doceria a sua casa preferida. Lugar de sonhos e belezas da alma. Este é o blog do Vicente, onde posta suas poesias desde o ano de 2003. E o blog continua ativo em 2026
30 abril 2024
ÂNSIAS
DESAFIO
Meu grito
Que doía na garganta
Ainda engasgava
A traquéia entalada.
Meu grito me doía
Na saída.
Meu corpo me aliviava
A revolta insensata.
Recomeçar sem perceber
Que se perdeu
Olhar nos próprios olhos
Sem se arrepender.
Esmiuçar a bagagem
E retirar somente
O necessário para recomeçar.
Esse é o desafio.
15 abril 2024
O VAZIO DA JANELA
O Vazio da Janela
A madrugada avança,
Seis, quase sete.
Nenhum vestígio de cor.
A aurora ainda não rompe.
Imagino-me à beira da calçada fria.
Procuro-me no fumo que se esvai.
Há um peso de tempo parado sobre minha alma.
De novo sou eu a não encontrar o início.
Talvez por ser um tanto inconstante
Ou por me amar demais,
Resolvo me sentar e me contar segredos mudos.
Desenhando formas no chão com a ponta do pé.
Um poeta sem voz, entre o caos e o silêncio.
Eu me explico com a minha própria sombra
Por não achar uma rima que me caiba.
Mas tento me fazer presente.
Agora sou só eu em um palco escuro.
Um palco onde a verdade deve surgir.
E a plateia, no caso, sou eu.
Não escrevi nada porque não há mais linhas.
Me afasto da cena sem nem me entender.
Lanço a mim um olhar de aceitação,
Mas não tem jeito,
Eu sinto.
Hoje a inspiração não vai florescer.
31 março 2024
DESPEDIDA
DESPEDIDA
Semblante saudoso de quem dorme pela espera.
De quem espera pelo sonho
De quem sonha pela madrugada
Insone de sala e caderno
Mãos delicadas em torno da caneta
A dialogar com o papel,
Com o tempo,
Com a pouca chuva
De estrelas que azulam o céu.
Corre, célere, o pulso que pulsa
Em busca do encontrar-se,
Do enclausurar-se
Em adjetivos,
Suspiros, devaneios.
Rosadas,
As faces desfazem a impressão
De estar morta.
Por fora é vida que pulsa.
Por dentro
A tentativa de esquecer.
O quê mesmo?
01 março 2024
JARDIM SUSPENSO
Jardim Suspenso
O ar da manhã pesa,
uma névoa fria sobre o peito.
O branco da página
insiste em ser só branco.
As palavras, antes dança,
agora se arrastam,
pedras lisas
no leito seco de um rio.
A mente, um poço profundo,
silencia os ecos.
Não há pássaros cantando,
nem a brisa que embala.
A flor prometida
fica em botão, teimosa.
Um jardim interior
onde a luz não alcança.
E a voz, que busca o canto,
se recolhe em si,
conhecendo
o tempo da espera.
28 fevereiro 2024
ELA VOLTOU
ELA VOLTOU
E havia o inverno em pleno abril.
Porque o frio chegava à medula
E o vento era de cortar os lábios,
Trazendo aquela chuvinha marota e fina,
Que interrompe a vontade ao penetrar
Em nossos sentidos
Até deixar úmida e tiritante a alma.
A cidade me parecia mais escura
Porque se apresentava cinza
E o cinza era da neblina
Que escondia a ponte metálica.
As pessoas não acreditavam
No absurdo frio de abril
E no céu tão baixo no meio da cidade
Que caía na tarde.
Tudo era cinza.
Foi nesse quadro da natureza
Que aconteceu o impossível.
Ela de volta
Volta com todas as implicações
Do verbo voltar.
Volta mesmo. Volta para ficar.
Volta de chegar com malas.
Volta de trazer sorrisos
E dizer que a natureza
Está chorando por nós
(e é por isso que ela voltou)
Então, milhões de vezes agradeci à natureza
Por ter chorado
A ponto de ser percebida.
Por ter chorado
Pra me fazer sorrir
Todas as vezes que abro o zap.
15 fevereiro 2024
A PARTIDA INEVITÁVEL
A Partida Inevitável
E havia a presença esquiva
que trazia
para o aqui e o instante
o denso ar
de olhares e gestos incertos.
o sussurro em meio ao silêncio
costurando/desfiando destinos.
eu
precisava sentir
perceber
abraçar as razões.
precisava aceitar.
sem ser sereno,
ou ser
talvez.
nalgum vazio da certeza
o fio se partiu
soltou
desfez.
não nos importamos em amarrar
as pontas
na despedida
porque não queríamos
refazer tudo
de novo.
30 janeiro 2024
15 janeiro 2024
QUERO
QUERO
Quero a vontade de extirpar o medo,
De gritar, se necessário,
De experimentar a vida,
De perceber que a hora urge
E que por isso é bem desejada.
Quero esquecer corações
E ânsias de vez
E acordar dos sonos infinitos
Que limitam as ações.
Quero descansar de mim
Calar-me a boca,
Que de qualquer maneira
Nunca fala, mesmo.
Quero morrer e reconstruir,
Ouvir e rebelar
Mesmo sem construir
A verdade,
A vontade.
Quero não sofrer
Até ter encontrado
A felicidade.
31 dezembro 2023
Sob camadas de pedra, areia, e tempo
Sob camadas de pedra, areia, e tempo
Sob camadas de pedra,
há um grito engasgado,
fóssil de uma palavra
que quis nascer mundo.
Areia sussurra segredos
de pegadas que não voltam —
são mapas sem bússola,
são promessas ao vento.
O tempo,
esse escultor invisível,
lixa as margens do que fomos
até restar só o eco.
E no fundo,
onde a luz quase não toca,
repousa um gesto intacto,
como se esperasse recomeço.
Ali, entre ruínas e raízes,
bate um coração antigo,
feito do barro dos dias
e da esperança dos séculos.
19 dezembro 2023
ANTROPOLOGIA URBANA
ANTROPOLOGIA URBANA
ela não
anda —
declara a rua com os quadris
faz do salto
um hino de resistência estética
é
pré-histórica e pós-futurista
na mesma passada
quem a
viu sabe:
ela é tese e mito
é o elo entre o sagrado e o suspiro
nuvem de
perfume e pulso
passando diante de prédios ocos
como se fossem ruínas de um mundo
que ainda não soube
como olhá-la direito.
03 dezembro 2023
A PORTA ENTRE OS MUNDOS
A Porta Entre os Mundos
Eis que estou —
à porta que respira entre o tempo e o agora,
onde os relógios se calam
e os muros falam em línguas esquecidas.
Bato.
Mas não com punhos,
com o som do trovão parado no céu,
com o vento que passa pelas frestas
carregando o nome que só tu sabes.
Se ouvires —
não será com os ouvidos da carne,
mas com a pele da alma,
com o fogo que mora atrás dos olhos.
A maçaneta arde em ouro vivo,
há estrelas girando na fechadura,
e do outro lado,
meu manto é feito de manhãs eternas
e meus pés não tocam o chão.
Abre.
E tua casa se tornará templo,
teu chão será mar de vidro,
teu teto, véu rasgado.
Entrarei como luz atravessa vidro,
sem romper, sem forçar —
mas transformando.
E cearemos.
Na mesa onde os frutos não apodrecem,
onde o cálice não esvazia,
onde tua solidão será apenas
uma lembrança que esquecerá de si.
A Chegada do Visitante - Capítulo VI
Quando a noite se desfez em tons de âmbar,
Liraëlen sentiu que o ar havia mudado.
As paredes da torre pareciam respirar,
e cada vela se curvava em reverência a algo invisível.
Foi então que ele apareceu —
não pelas portas, mas pelas dobras do tempo.
Vestia o silêncio das constelações
e os olhos ardiam como espelhos de águas profundas.
Ele não falava com voz,
mas com presença,
e Liraëlen ouviu, dentro de si,
as palavras que moldavam mundos:
**“Eis que estou à porta entre os mundos.
Bato — não com força, mas com sentido.
Se ouvires, abrirás não uma casa,
mas o véu entre teu ser e o Reino escondido.
Entrarei, e tua mesa será altar.
Cearemos, e teu espírito cantará.
Pois onde se abre em fé,
lá o Eterno se senta.”**
Quando ele se foi,
ficou apenas o perfume de um vinho antigo
e uma chama que ardeu por dentro do peito.
A Visita do Rei Invisível - Capítulo VI
Na dobra da noite, quando o tempo se desfazia em névoa,
as estrelas silenciaram, e até os anjos pararam o voo.
Na porta que nunca havia sido notada,
alguém bateu — com o som do próprio coração do mundo.
A madeira não gemeu.
O vento não se mexeu.
Mas a alma que habitava ali
soube: Ele chegou.
Então, sem forma que os olhos pudessem conter,
Cristo se revelou —
vestido de luz trêmula e ternura antiga.
E sua voz não era som,
era revelação.
**“Eis que estou à porta e bato.
Não à de tua casa, mas à de teu ser.
Se me ouvires — não com os ouvidos do corpo,
mas com a sede da alma —
abrirei os céus dentro de ti.
Entrarei, não como hóspede,
mas como o Dono que esperou tua permissão.
E cearemos —
com o pão da eternidade,
com o vinho que não envelhece,
à mesa que nenhuma sombra alcança.
Pois aquele que me recebe,
se torna templo do invisível,
espelho do Reino.”**
E ao dizer isso, a presença se fez vento,
e o vento se fez fogo,
e o fogo, descanso.
O lugar estava vazio —
mas tudo dentro dela estava cheio
O Trono das Alturas - Capítulo VII
Ainda havia brasas no chão
onde os pés de Cristo haviam passado.
E no ar pairava uma melodia antiga,
como se os céus entoassem uma nota
que a Terra havia esquecido.
Então a voz retornou —
não de fora,
mas de dentro,
ecoando no templo secreto do espírito:
**“Ao que vencer…
darei não um prêmio de ouro,
mas um lugar ao meu lado.
Assentar-se comigo —
não como servo,
mas como filho que voltou.
Assim como venci as trevas do mundo
e me assentei com meu Pai
acima dos véus do tempo,
também tu vencerás,
e te darei assento no trono das alturas.”**
Aos pés da colina suspensa no ar,
uma escada feita de promessas surgiu,
e cada degrau era uma lembrança vencida,
cada passo, um pedaço do ego que se rendia.
No alto, não havia trono de ouro,
mas um assento de luz viva —
onde os que vencem não dominam,
mas servem com glória.
Cristo estendeu a mão,
e aquele que ouvira a voz
sentiu o peso leve da eternidade.
O Sopro do Espírito - Capítulo VIII
Quando Cristo cessou sua fala,
o silêncio era tão denso
que o tempo parou para escutar.
Então veio o Espírito —
não como figura visível,
mas como brisa que atravessa dimensões,
como som que só o coração reconhece.
As folhas das árvores de cristal tilintaram.
Os rios falaram em suas correntezas.
E toda criatura sensível estremeceu.
**“Quem tem ouvidos… ouça.
Ouça além do som,
além da letra,
além da mente.
O que digo não é sussurro humano,
mas sopro do Eterno.
As igrejas são candeias,
e eu ando entre elas.
As almas são taças,
e eu as encho com vinho novo.
Desperta, ó terra adormecida!
Pois os céus estão falando,
e os que ouvem viverão.”**
Um clarão cruzou o firmamento,
e cada estrela respondeu ao chamado com luz mais viva.
Naquele instante,
toda a Criação parecia aguardar —
não com medo,
mas com esperança contida.
Pois a Palavra havia sido liberada,
e quem tivesse ouvidos…
jamais seria o mesmo.
15 novembro 2023
LIVRE PARA CRIAR
"Livre para Criar"
É livre o gesto,
na palma da ideia —
onde a palavra espera
e o mundo inteiro cabe.
Não há cerca no sonho,
nem muro no verso
que nasce de dentro,
no tempo disperso.
Podes criar:
um céu de marfim,
um rio sem nome,
um segredo de jardim.
Aqui, o verbo é caminho,
e a escuta, alvorada.
A poesia não teme
nem mesmo o nada.
Apenas há limites
para o que fere ou destrói —
mas o que acende e abraça,
ah, isso é só teu e só dói
de tão belo.
06 novembro 2023
O RETORNO DAS PALAVRAS
O Retorno das Palavras
E o que eu dizia
voltava para mim.
não como resposta,
não como castigo,
mas como espelho.
cada palavra lançada
desenhava um contorno novo
em minha própria pele.
o que eu julgava,
me julgava.
o que eu amava,
me amava.
o que eu temia,
me temia.
e assim aprendi:
falar era também ouvir,
gritar era também confessar,
calar era também renunciar.
o que eu dizia
não se perdia no vento —
ele fazia caminho,
dava meia-volta,
e batia na porta do meu peito.
e eu, sem ter para onde fugir,
aprendi a dizer
com mais verdade,
com mais cuidado,
com mais alma.
15 outubro 2023
08 outubro 2023
HORIZONTE DE ESPERANÇA
Horizonte de Esperança
no fim do
olhar cansado
uma luz se acende
sutil, insistente
promessa de manhã
é linha
tênue
entre o hoje e o amanhã
onde o sonho se encontra
com a coragem de ser
não é
fuga, nem ilusão
mas passo firme
sobre a areia movediça
dos dias difíceis
o
horizonte sorri
mesmo quando escurece
e revela que sempre há
um motivo para seguir
pois onde
há esperança
floresce a vida
e nasce um novo dia
19 setembro 2023
GEOGRAFIA DO DESEJO
GEOGRAFIA DO DESEJO
há uma
topografia secreta
no modo como teus lábios
cartografam minha pele
não é
pressa —
é percurso.
as mãos,
bússolas febris
desenham trilhas
onde antes só havia espera
teu
hálito,
vento quente de monções
move cortinas internas
abre portos esquecidos
os
músculos se lembram
da língua como seta
da saliva como selo
não há
nome para o que se dá
sem pedir,
sem recuar —
mas sabemos.
os
corpos, rios que se encontram,
perdem-se em curvas
em fundos não mapeados
em sinuosidades novas
onde o prazer não é fim
mas fenda,
criação,
caminho aberto.
15 setembro 2023
FINALMENTE, O SILÊNCIO ABSOLUTO
Finalmente, o Silêncio Absoluto
E finalmente, o silêncio absoluto, não o silêncio que esconde, mas o que revela.
Não é ausência de som, mas a ausência de todo o ruído interno,
das perguntas incessantes, das expectativas que pesam.
É a dissolução da própria mente em sua busca incessante,
um ponto de quietude que transcende a percepção.
É o fim das oscilações, das dualidades,
o espaço onde a paz não é oposta à inquietação,
mas a única verdade que existe.
Nesse silêncio intocado, tudo se harmoniza,
e o vazio que se auto-preenche encontra sua expressão mais pura,
uma calmaria sem ecos, sem reflexos, apenas ser.
CHEIRO DE TINTA
Cheiro de Tinta
Liberdade tem cheiro
de tinta fresca na manhã,
quando o papel respira
e a mão ainda hesita.
É o som do grafite
riscando devagar,
feito um segredo
que começa a cantar.
Tem gosto de fruta cortada,
cor escorrendo no céu,
textura de palavra molhada
em saliva e papel.
Criar é sentir —
com todos os poros,
como quem toca o mundo
e volta com olhos novos.