02 maio 2025

ODISSEIA SILENCIOSA (Parte III)

 

Odisseia Silenciosa (Parte III)

Pisei onde o chão não existe,
onde cada passo é uma prece
ou um engano —
mas ambos servem ao mesmo mestre.

Ali, vi nascer o espelho negro:
não refletia rostos,
mas intenções.
E nenhuma delas era pura.

Oh, quão vasto é o ser humano,
quando se dissolve…
e deixa para trás o nome que herdou,
a face que nunca escolheu.

O cosmos me mostrou um segredo:
não és feito de carne e medo,
mas de histórias que te contam —
e que podes esquecer.

Senti o peso do tempo
em forma de olhos invisíveis,
me observando de dentro.
Pois às vezes, o vigia és tu.

E quando gritei por respostas,
recebi silêncio.
Não como punição,
mas como revelação:

Há perguntas que não se respondem —
vivem contigo como sombra.
E quanto mais luz houver em ti,
mais nítida ela se tornará.

Aconselho-te, caminhante:
não apresses tua queda,
mas não fujas do abismo.
Pois é lá que a asa adormecida desperta.

E lembra:
nem toda luz guia.
Algumas apenas cegam.
Escolhe o escuro certo.

ODISSEIA SILENCIOSA (PARTE II)

 Odisseia Silenciosa (Parte II)

Vi mundos dentro de uma lágrima,
e ruínas erguendo-se de sorrisos.
Aprendi que há mentiras tão belas
que a alma as veste como véu sagrado.

Encontrei os sábios — mudos,
porque as palavras já não servem
quando o coração ouve o indizível.
Eles apenas me olharam… e compreendi.

O tempo lá não anda: ele paira,
como uma ave sobre o mar das escolhas.
Ali percebi:
o destino é uma bússola sem ponteiro.

E tu, que agora me escutas,
prepara-te para não entender.
Pois há verdades que só nascem
depois da rendição completa.

Abandona teus mapas,
teus nomes, tuas certezas.
Navega nu sobre tuas dúvidas,
e quando te perderes… estarás perto.

Pois a verdadeira jornada
não tem chegada —
apenas camadas que se desfazem
ao toque da consciência.

E se a dor vier — e virá —
acolhe-a como oráculo.
Ela sussurra aquilo que escondes de ti.
E o que escondes é o que te guia.

ODISSEIA SILENCIOSA (PARTE V)

 Odisseia Silenciosa (Parte V – O Retorno Invisível)

Agora compreendo:
não voltei —
tornei-me o caminho.
E o que sou, caminha em outros.

O nada que atravessei
era feito de mim.
Cada estrela oculta,
um medo recusado.

O silêncio que me ensinou
a ouvir além das palavras,
agora sussurra em minha presença
mesmo quando estou calado.

Tornei-me semente do vácuo,
onde o universo planta espelhos.
Cada rosto que contemplo
me devolve um fragmento esquecido.

Anseios? Ainda os tenho.
Mas são rios mansos agora,
sabendo que jamais encontrarão o mar —
e mesmo assim, seguem.

Dúvidas? Guardei-as comigo.
Pois aprendi:
o que se sabe morre,
mas o que se pergunta vive.

E se um dia teus pés cansarem,
senta-te sob tua própria sombra.
Ali, talvez me encontres —
não como forma, mas como lembrança de coragem.

Aconselho-te, enfim,
não a vencer o caminho,
mas a torná-lo teu reflexo:
que cada passo revele quem és,
e cada queda —
quem podes ser.

Pois morrer é parte.
Partir é rito.
Mas retornar…
é um milagre que só os que se desfazem compreendem.

ODISSEIA SILENCIOSA (PARTE IV)

 Odisséia Silenciosa (Parte IV)

No limiar entre sombra e palavra,
encontrei o que não se pode nomear.
Era como vento que pensa,
como fogo que espera.

Não me falou com voz,
mas com presença —
um peso suave,
como lembrança de um sonho esquecido.

Disse-me, sem dizer:
“Tua busca sempre foste tu,
tua dúvida é tua bússola,
e tua queda… teu voo invertido.”

Percebi então —
não há retorno sem transformação.
Aquele que parte jamais retorna o mesmo,
e o que volta já não pertence ao mundo que deixou.

A sabedoria que bebi era amarga.
Desfez meus alicerces,
me ensinou que até a alma mente,
quando deseja conforto.

Mas agora, com olhos que veem para dentro,
posso aconselhar:
não sejas inteiro.
Sê fragmento — e aprende a ouvir o entre.

Pois é entre o sim e o não,
entre o gesto e o silêncio,
que mora a resposta
à pergunta que nunca se faz.

E quando a verdade enfim te tocar,
será como o toque de uma sombra —
leve, mas irreversível.
Ali saberás: foste sempre um mistério vestido de certeza.

ODISSEIA SILENCIOSA

 Odisseia Silenciosa

Morreu em mim uma odisseia, imensa e calada,
percorreu o vasto nada —
um deserto sem começo,
onde o tempo se desfaz em suspiros.

Lá, não encontrei rosto, nem eco,

apenas sombras sussurrando
segredos que nem os deuses ousaram guardar.
E ainda assim, segui.

Caminhei por entre véus de névoa,
bebi do cálice da dúvida,
e nela encontrei sabedoria —
não nos gritos, mas nos silêncios.

Retorno agora, estranho aos olhos de ontem,
com cicatrizes que ninguém verá,
trazendo nas mãos
as perguntas que o infinito me ofertou.

— Que és tu, senão vento no abismo?
— Que busca, senão espelhos que mentem?
— Que verdade, senão a que muda com os passos?

Aconselho-te: não temas a noite,
pois é nela que a alma escuta.
Não fujas do vazio — ele ensina.
E ao encontrares tua própria odisséia,

deixa que ela morra também,
para que renasça —
misteriosa,
e cheia de olhos por dentro.

01 maio 2025

SILÊNCIOS AUDACIOSOS

 




 

Silêncios Audaciosos

 

E então eu me vi conversando

com os meus silêncios mais audazes.

O eco da minha voz sumia antes de tocar as paredes,

perdido na vastidão que se abria entre cada pensamento.

Um deserto de palavras não ditas,

uma constelação de "e se" suspensos no ar.

Eu, um homem de pele marcada pelo sol,

pelos dias que insistem em não se calar,

sentei-me no chão frio da minha própria ausência.

 

Eles vieram, um por um,

meus silêncios, aqueles que guardam

os gritos abafados, os risos contidos,

os medos que dançam nas sombras da madrugada.

O primeiro, um gigante de pedra,

falou-me dos caminhos não tomados,

das portas que deixei se fecharem

sem sequer um adeus.

 

O segundo, um sussurro macio como pluma,

contou sobre a doçura dos começos,

os cheiros que se perderam no vento,

as mãos que não segurei por mais um instante.

E eu ouvia, sem pressa,

a poeira do tempo assentando em meus ombros,

cada respiração uma revelação.

 

O terceiro, um brilho nos olhos,

mostrou-me a coragem que se esconde

nas horas mais escuras,

a fé inabalável em cada novo amanhecer.

E então eu soube.

Não era sobre preencher o vazio,

mas sobre dançar com ele,

entender a melodia das pausas.

 

Levantei-me, o peito mais leve,

os pés firmes no chão de terra batida.

Meus silêncios, agora amigos,

seguiram ao meu lado,

uma orquestra particular,

prontos para a próxima sinfonia

que o amanhã, em sua ousadia, trouxer.

 

 


MARTELO DE BORRACHA

 


Martelo de Borracha no RH Celeste

Martelo de borracha,
bigorna zen,
salta do bolso de um palhaço aposentado
e sobe num foguete de tapioca.

Lá em cima —
onde os satélites dançam lambada
com balões de festa infantil —
ele prega com pregos de sonho
em nuvens de algodão doce.

“Você será equilibrista de pensamentos!”
grita ele para um raio tímido.
“E você, garçom de luz solar molhada!”
diz, martelando forte, sem fazer barulho,
porque barulho não combina com sonho.

Cada martelada é um contrato assinado
com cheiro de marshmallow e promessa de riso.
As nuvens suspiram,
a Via Láctea toma nota em papel de bala,
e o céu ganha um RH psicodélico.

No fim do expediente,
o martelo guarda sua gravata de arco-íris,
toma um café com poeira estelar
e dorme num envelope de brisa.

Amanhã tem mais vaga no firmamento.

AQUELE QUE ESCUTOU SEM SABER

 





aquele que escutou sem saber

ele era só mais um
entre tantos
uma mente acordando no corpo cansado
um gesto automático
para desligar o despertador

mas naquela manhã
algo permaneceu no ar

um silêncio diferente
entre os sons da cidade
como se a respiração do mundo
tivesse mudado de ritmo

ele não sabia por quê
mas o café não tinha gosto
e o espelho
devolveu um olhar
que ele nunca tinha visto tão fundo

não era tristeza
nem alegria
era como se algo dentro dele
tivesse aberto os olhos

o eco
chegara

não como palavra
mas como vibração leve
plantada entre duas batidas do coração

ao longo do dia
percebeu pequenas coisas:
um pensamento que não era seu
mas o compreendia
uma memória que parecia vir
de uma vida não vivida

começou a ouvir sons
onde ninguém falava
sentiu saudades de algo
que não sabia nomear

à noite,
olhou o céu como sempre
mas desta vez
soube que alguém, em algum lugar
estava também olhando

e sentindo o mesmo

o idioma do entre
o idioma sem margens
começava a germinar dentro dele

e mesmo que ele não soubesse
estava sendo chamado
para lembrar
sem entender
e seguir
sem saber onde

porque às vezes
a primeira resposta do universo
é um silêncio que muda tudo.

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28 abril 2025

FLAGRADOS NO SILÊNCIO

 FLAGRADOS NO SILÊNCIO

havia ruído no mundo,
mas entre nós —
uma pausa profunda,
feito respiração suspensa
antes do beijo.

não era ausência de som,
era presença demais:
olhares falavam
o que nenhuma palavra
teria coragem de dizer.

o silêncio nos vestia
como se fosse brisa,
como se fosse véu.
e ali, tão quietos,
dizíamos tudo
sem mexer os lábios.

a cidade passava ao fundo,
com seus motores e seus dias,
mas estávamos noutro plano:
feito música sem melodia,
feito carta sem remetente,
feito tempo sem contagem.

e quando enfim
alguém abriu a porta,
quando o mundo voltou
a nos chamar pelo nome —
era tarde.

já tínhamos sido flagrados no silêncio.
já tínhamos deixado
vestígios de eternidade
no espaço entre dois corações
que bateram calados,
juntos.

27 abril 2025

QUANDO ALGUÉM OUVE

 Quando Alguém Ouve

Muito tempo depois,
quando o tempo já não contava,
alguém — que não era inteiro,
que já tinha se quebrado demais —
parou.

Não por escolha,
mas por exaustão.
E no espaço entre um suspiro e o esquecimento,
ouviu algo.

Não era som,
mas ausência que vibrava.
Não era voz,
mas um estremecer de dentro.

Era o grito —
aquele antigo, esquecido, sem rosto,
que nunca encontrara seu próprio eco.

Mas agora, enfim,
não precisava mais ser ecoado.
A escuta bastava.
A presença bastava.

E o grito se dissolveu,
não porque foi respondido,
mas porque foi acolhido.

Ali, no silêncio de alguém partido,
ele finalmente pôde descansar.
E no lugar onde gritou por eras,
brotou uma água quieta,
onde a dor se deita,
e o mundo se vê… de novo.

25 abril 2025

A INFÂNCIA QUE NÃO VOLTA

 

A Infância que Não Volta

Eu queria voltar a ser criança,
mas não posso.

Há um tempo que não se refaz,
um chão que não aceita os mesmos passos.

A criança em mim ainda mora
num canto escondido,
mas as portas estão cobertas de poeira.

Já não sei o caminho exato,
nem o nome dos sonhos
que guardei nas primeiras manhãs.

Queria o riso fácil,
a confiança em promessas simples,
o colo sem perguntas.

Mas carrego agora
outras vozes,
outras esperas,
outras dores que ninguém me ensinou a nomear.

Crescer foi um espanto que ficou.
Não há retorno.

Só essa saudade muda
de um tempo em que bastava fechar os olhos
para estar inteiro.


22 abril 2025

SOU UM MENINO



 Sou um menino...


Sou um menino, cheio de sonhos e de vida

Com um coração que pula, com uma alma que brilha

Eu corro, eu brinco, eu rio, eu vivo

E sinto o mundo ao meu redor, com todos os meus sentidos


Sou um menino, com uma imaginação sem limites

Eu crio mundos, eu crio histórias, eu crio amigos

Eu sou um aventureiro, um explorador, um descobridor

E estou sempre pronto para o próximo desafio


Sou um menino, com um sorriso no rosto

Eu sou feliz, eu sou livre, eu sou eu mesmo

Eu não tenho medo de ser diferente

E eu sei que posso ser quem eu quiser ser


Sou um menino, e isso é tudo que eu preciso

Para ser feliz, para ser eu mesmo

Eu sou um menino, e eu estou vivo

E eu vou aproveitar cada momento, cada segundo.


Essa poesia é uma reflexão sobre a infância e a liberdade de ser um menino, com uma imaginação sem limites e um coração cheio de sonhos e de vida. É um convite para que as pessoas se lembrem da alegria e da liberdade da infância.


Criada em 24 de abril de 2025

15 abril 2025

CADEIRA VAZIA

 

A Cadeira Vazia

o balanço lento na varanda um ritmo fantasma no ar parado a marca tênue no chão de madeira onde os pés costumavam pousar

o tricô inacabado no colo agulhas inertes, fios suspensos a leitura interrompida na página dobrada ao acaso

e nem havia vento para mover as cortinas da sala apenas a quietude densa onde a voz ecoava ausente

a lembrança do riso um som distante, quase esquecido o calor do corpo ausente moldando o vazio do assento

o olhar vago perdido na paisagem buscando uma silhueta familiar a esperança teimosa de um retorno improvável

e a aceitação dolorosa de que alguns espaços guardam para sempre a forma da saudade

Agora usa essa frase como tema: onde a voz ecoava ausente

10 abril 2025

A PIOR PARTE DO DOMINGO

 

A PIOR PARTE DO DOMINGO

não era sobre lavar cachorro
nem sobre o cheiro do xampu canino
nem sobre o pelo grudando na camiseta velha

era sobre dividir
a pia
as tarefas
o silêncio das manhãs arrastadas

sobre sentar no sofá ainda molhado
e rir de como tudo era ridículo
e bonito

amar era isso:
dividir o que ninguém posta foto
abrir o saco de lixo
sem que isso vire motivo de conversa

mas sonhei alto demais
como quem deseja um domingo com sol
numa semana de enchentes

e percebi tarde
que sonhar sozinho
cansa mais
do que lavar cachorro molhado.

09 abril 2025

DE LONGE

 


 De longe

mesmo querendo te abraçar no final
e comemorar o teu sucesso
como quem torceu em silêncio desde o começo,
eu fico quieto.
parado no canto da plateia,
boca cheia de aplauso contido,
coração meio descompassado.

não é inveja,
nem amargura.
é só que
eu não me sinto parte.

não da festa,
nem da conquista,
nem do caminho até aqui.
parece que criei um enredo onde
minha cena foi cortada na edição final.

e tudo bem.
às vezes a gente ama de fora mesmo.
de longe.
com os olhos.
com uma prece baixa.

porque estar feliz por você
não apaga a ausência que ficou em mim.
mas acalma.

e talvez isso seja o que restou
— e talvez
seja o suficiente por hoje.


04 abril 2025

ESCRITA VIVA

 

Escrita Viva

aí que estoy aqui
(querendo você, sim, ainda)
mas mais do que isso,
querendo viver essa página
com a letra da minha mão.

tem um sabor bom
em protagonizar a própria cena,
respirar fundo e dizer:
“essa linha fui eu que escrevi.”
sem rascunho, sem dublê,
com erro, acerto,
e um certo charme nos desvios.

mas também percebo:
nem tudo é tinta minha.
às vezes é a vida que pega a caneta
e me rabisca de um jeito
que só depois eu entendo.

no fim, é parceria:
um pouco eu que invento,
um tanto ela que me revela.
tem dias que sou autor,
tem dias que sou personagem,
e às vezes sou só uma frase
que ela decidiu guardar.

e tudo bem.
porque se a história me escreve,
é porque ainda estou sendo lido
pelas horas, pelos ventos,
pelo amor que ainda atravessa
essas páginas vivas.



03 abril 2025

DESINSTALEI A REALIDADE

 Desinstalei a Realidade

deletei o despertador
e o cinza das segundas
desativei notificações de urgência
e o boletim do caos

saí do grupo da ansiedade
arquivei a pressa
formatei memórias que doíam
em silêncio de nuvem

me reinstalei
em pixels de poesia
em cafés que não esfriei
em olhos que não desviei

sem wi-fi com o mundo
mas com sinal forte no peito
vivo em modo avião
navegando dentro

desinstalei a realidade
pra fazer download
de mim

02 abril 2025

A GRAÇA DO GESTO

 A Graça do Gesto

 

Mãos abertas sobre a mesa,

um mapa de linhas entrelaçadas.

Toque leve,

quase um sussurro.

 

As lágrimas descem,

claras,

enquanto o sorriso se abre,

um arco-íris sobre a dor.

 

Há beleza nesse instante,

essa mistura tênue

do que fere

e do que acalma.

 

A vulnerabilidade exposta,

um presente mudo

entregue

entre a alegria e o pranto.

01 abril 2025

FÔLEGO BREVE

 

Fôlego Breve

 

O universo, um suspiro.

A existência, um piscar de olhos,

entre o nada que foi e o nada que será.

Pontos luminosos, destinos dançando

num ballet cósmico, efêmero.

A gravidade, um abraço fugaz,

que nos prende à poeira estelar,

antes que o sopro se dissipe.

 

O tempo, uma ilusão,

desdobra-se em camadas sutis.

O agora, um portal minúsculo,

onde o infinito se encontra.

Em cada respiração, um ciclo completo:

nascimento, vida, dissolução.

A eternidade, encapsulada

na brevidade de um instante.

Não há antes, não há depois,

apenas o eco do presente.

 

E a finitude, não um fim,

mas a essência da forma.

O contorno do que somos,

desenhado pela fragilidade.

Cada batida do coração,

um relógio que se cala,

mas que ressoa no todo.

Um átomo pensante,

diluído no oceano do ser,

testemunha silenciosa do próprio desaparecimento.

BRAÇO QUE PROCURA

 Braço Que Procura

 

Em mim, o braço que procura,

em desespero, o abraço.

Não o calor da pele apenas,

mas a concha que envolve o caos,

o porto onde o homem cansado

pode finalmente descansar.

 

É uma busca que não grita,

mas que pulsa em cada veia,

uma fome antiga por ser inteiro,

por preencher o espaço vazio

que a complexidade do eu insiste em abrir.

O braço se estende no ar frio,

no silêncio que me habita,

na rota que não chega a lugar nenhum.

 

Há uma sede de pertencimento,

um anseio por ser contido,

por diluir a própria solidão

no amparo de outro ser.

E nesse estender-se desesperado,

reconheço a fragilidade

e a força de ainda querer,

de ainda buscar

o porto que me complete.